dire

dire

quarta-feira, 8 de abril de 2009

SINAIS DE OUTONO



Foto: George Grie

"...Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país"
Chico Buarque


Algumas noites me dão rostos e histórias
Como rios inundam casas e memórias
Como vozes me seguem sem dizer.
Mudos e invisíveis como o vento
Velozes , improváveis como o tempo.
As histórias são palavras inaudíveis
Nelas há lágrimas e cartas nas gavetas
Há canções com perfumes de jasmins.
Se acercam da cama e me velam
Pacientes observam o meu sono
Interferem nas imagens que vislumbro
Pedem vida nas histórias que me contam.
Entre as folhas amareladas do que sonho
Apontam o dedo para o fim que escreverei.

L.A

LILÁS SOBRE AZUL- conto




- Ó Poseidon, grande deus do mar! Dê um sinal de sua proteção. Faça surgir das águas um Touro branco e eu o oferecerei em sacrifício!

Eis então que avançou calmamente das espumas brancas o animal.
A mulher caminha alguns passos e entra no espaço que lhe parece uma sala. O teto é irregular e escuro e vai caindo em curva até encontrar o chão. Ouve barulho de água. Conta oito homens em semicírculo à sua espera. Um deles aproxima - se . Um prato lhe é estendido, ela afasta-o com decisão:
- Por favor, responda-nos - Como você pretende atravessar o mar?
- A nado,diz a mulher.
- São milhares de milhas até a costa.
- Eu não possuo barco e também não vejo o mar.
- Está à esquerda depois das pedras, na linha dos ombros.
Sob a penumbra da sala, a mulher faz meio giro e vê o muro de pedras. Ouve longe o vai e vem das ondas.
Todos maravilharam-se do poder de Minos diante de Poseidon e curvaram-se ao novo rei da ilha de Creta. Minos olhou aquele animal tão bonito e não cumpriu sua promessa.Procurou em seu rebanho um touro qualquer e o ofereceu ao deus das águas salgadas.
Um dos homens aponta à mulher no canto da sala o par de asas encostado à parede:
- As penas foram recolhidas do oceano.È um presente.
No fundo do mar, Poseidon enfureceu-se com a traição de Minos e usando seus poderes mágicos fez sua mulher alguns meses depois dá a luz a um ser com corpo de criança e cabeça de touro. O bebê refugou o seio materno. A horrível criatura alimentava-se de carne humana. No fundo do berço, ainda em sono, descansava o Minotauro.
A mulher veste as asas ajustando-as ao corpo.
Cada um alimenta a alma com sua própria essência, diz o homem que estendera o prato. O mesmo prato lhe é novamente apresentado. Com as mãos recebe o alimento. O gosto de cinza molhada lhe inunda a boca.
- Pode ter o gosto de sua fruta preferida. Coma devagar e procure o sabor.
A mulher sente aos poucos gosto de damasco. Os olhos lagrimejam. Inspira fundo. Apóia o prato sobre a mesa. Abaixa-se e lava as mãos. O piso da sala é pedra sob água em movimento.

Minos chamou Dèdalos, o inventor. Sob suas ordens Dédalo e seu filho Ìcaro construiram a morada para o Minotauro. A prisão fora feita de corredorores sinuosos . Os desvios enganavam a razão, não havia como sair do labirinto . No centro, o único prisioneiro em sina de cego procurando em vão a luz do sol. Só os arquitetos da prisão conheciam o segredo. Minos, temendo que eles o revelassem, mandou trancá-los no Labirinto. Sabendo que os conhecedores do segredo chegariam à saída pelo mar, mandou vigiar o litoral dia e noite.
A mulher espera o sinal de partida. Recebe a primeira instrução :
- Nem tanto ao mar e nem tanto ao sol.
Dédalos não desesperou -se. Usando toda a imaginação que lhe deu o criador mandou Ìcaro trazer todas as penas de pássaro que achasse. Construiu assim dois pares de asas. Colando -as com cera disse ao filho:
- Com nossas asas, atravessaremos o mar e encontraremos refúgio em alguma parte. Mas é preciso cuidado, por isso iremos pelo meio dos ares, nem rente à água, nem junto ao sol.
Ìcaro prometeu atender os conselhos do pai, e seguiu-o. Primeiro em vôo desajeitado depois com mais confiança.
A mulher atravessa a sala e posiciona -se sobre rocha firme. Sente o vento cruzar a ponta do nariz e espera o momento. Cruzará o oceano em vôo solitário. Não sabe quando encontrará terra firme e que paisagem a espera.

O céu é vasto, silencioso, calmo e profundamente azul. O gosto de damasco sobre a língua lhe serena a alma. Observa o imenso vazio entre o mar e a pedra sob os pés, e ouve a ordem às suas costas:
- VAI !
Ìcaro embriagou-se no prazer do vôo e lançou-se às alturas. Subiu mais e mais e aproximou-se do sol. As penas aos poucos soltaram -se e a queda tornou-se pedra arremessada na escuridão do Oceano.
A mulher abre os braços ao vento. Os lábios tremem, os olhos fixam um ponto à frente. Os cabelos abrem sua horizontalidade à brisa. O céu recebe o corpo e o protege.
Novo par de asas está encostado à parede. Os homens chegam à saída da gruta. O ponto dissolve-se aos poucos como fumaça no azul do céu. A água doce corre entre as pedras e mistura-se ao mar.

L.A ( mulher sobre a pedra- image by Steven Kenny)

domingo, 29 de março de 2009

A LIÇÃO SEM MESTRE


Texto de Luiz Martins

Os versos coloridos passam,
Nuvens, capuchos, vaporosos,
Cortinas de vento sobre a grama
E outonais contornos no papel.

Sóbrias ou borrosas
As sentenças insistem
Em registrar no branco
Uma vida em melodramas.

No jarro,
há dias,
um crisântemo guarda
Ainda o verde carinho.

Na cadeira, um paletó descansa.
Enquanto um gato carimba o caminho
Com dígitos de veludo,
Para depois juntar-se ao dono mudo,
Um quase invisível pierrô.

Sozinho, perscrutando o deserto,
(Através da vidraça tudo é perto)
Também lá dentro o tempo murcha,
Enquanto um inocente sobrevive
De tanto tentar apreender.

quinta-feira, 26 de março de 2009




Fotografia - Arnaldo Carvalho


Há muitos países dentro do meu país.

sábado, 21 de março de 2009

KRISHINAMURTI




"A Realidade não tem continuidade. Ela existe momento
por momento; é atemporal , imensurável. "

do livro - Reflexões sobre a vida de J. Krishinamurti

quarta-feira, 18 de março de 2009

TIMIDEZ



CECÍLIA MEIRELES

Basta-me um pequeno gesto
feito de longe e de leve
para que venhas comigo e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares e une as terras distantes...-
palavras que não direi.
Para que tu me adivinhes
entre os ventos taciturnos
apago meus pensamentos
ponho vestidos noturnos
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo
até não se sabe quando...
- e um dia me acabarei

domingo, 15 de março de 2009

EM FREIO



E eu vos direi, no entanto
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto"
Ora direis, ouvir estrelas - Olavo Bilac



Há um trem desgovernado que, em uma das estações do ano, acelera em declive. O maquinista em hipnose voluntária esqueceu-se que é o maquinista e as três da tarde observa inebriado as estrelas. Os que estão lá fora gritam-lhe o desatino. Ele em doce insanidade caminha pelos vagões vazios e, sob teto de vidro, respira o ar noturno. A locomotiva acelera em cada curva. Clark Kent agora abre a camisa , sobe ao telhado e dança. A brisa toca-lhe os ombros e derruba o quepe. Então o maquinista dança com a noite sobre teto de vidro. É menino em desavisada valentia.
Os que estão na estação observam impacientes e decidem: há que se parar o trem. Os futuros passageiros preparam-se, juntam pedras e as acumulam sobre os trilhos. Há um aviso em vermelho no canto da bilheteria. A mulher que vende doces ao lado da bilheteria aponta o aviso .
“ Protejam as crianças”.
O trem avança e apita, ainda há pedras sobre os trilhos. A locomotiva sai da curva em rápida tangente. Os passageiros olham o céu, olham-se muitas vezes e gesticulam. Uns jogam pedras, outros benzem-se. O homem sobre o teto ainda canta.
L.A

terça-feira, 10 de março de 2009

FLORBELA




Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!
Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!
Os dias são Outono: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...
Invoco o vosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...

Fumo- Florbela Espanca

domingo, 8 de março de 2009

A IMENSIDÃO DOS SENTIDOS



"O universo é a projeção da Mente Divina, e nós como criação, vivemos interdependentes no Idealismo Superior. Somente quando tomamos consciência da necessidade de fazer uma perfeita conexão com nossa profundidade sagrada é que passamos a ter uma ampla visão de unidade com a vida Cósmica. È preciso ancorarmos nossos alicerces na base divina que há em todos nós." - A Imensidão dos Sentidos - Francisco do Espírito Santo Neto, pelo espírito de Hammed - Editora Boa Nova

Astrologia, quiromancia, baralho egípcio, os pêndulos de cristais, os livros milenares do conhecimento e tantos outros caminhos se estendem dando aos quatros marcos cardeais múltiplos infinitos. Buscamos a felicidade em diversas trilhas . Toda procura é valida se respeitada a individualidade cósmica que somos e a do sujeito que está ali no banco da frente. A felicidade que buscamos é um copo de água refrescante, tem existência limitada. A irmã sede é criança inquieta , e novamente nos puxará pela roupa. Imagine , como fazia Exupery, um deserto abrindo-se e poços de água escondidos em diversos pontos. Somos todos viajantes sem mapa ou bússola a procura de um poço de água fresca. Sob céu noturno as estrelas conduziram os primeiros aventureiros do planeta em busca de terras distantes. Como decifraram, sem prévio conhecimento, a rota dos desertos e dos mares? Na verdade aquele primeiro viajante que olhou o céu tentando decifrar os pontos luminosos , num exercício de observação, desatou as amarras dos sentidos.Toda resposta as nossas indagações são possíveis de serem achadas. É um vasto caminho de observação interior. Às vezes, é preciso embaralhar os sentidos. Ver é muito mais que captar imagens na retina. É possível ver pela tela mental em sala escura, é possível ouvir do mesmo modo. A boca, o olho , a pele, a língua e o ouvido são antes de tudo parte do corpo fluídico que possuímos. È possível estendê-los como uma linha elástica e usá-los para o autoconhecimento. Ver pelo que ouvimos, soltar as palavras pelos olhos, captar sabor e cheiro pelo tato. Todos, sem exceção chegaremos à plena consciência da multiplicidades das existências. O aprendizado do amor ao próximo é ponte que encurta caminho. Antes de tudo para a maioria das pessoas com as quais cruzamos na rua, incluindo nós mesmos, o maior de todos os desafios é aprender a aceitar os que estão ao nosso redor. O Rabi da Galiléia só veio ao mundo para nos ensinar esse amor que nos parece um exagero : O Amor Incondicional. Milhares e milhares de por do sol ainda viveremos até atingir o aprendizado que precisamos e subir um pequeno degrau. Ninguém fica parado no meio da viagem. A quantidade de chegadas e partidas é mérito que nasce de nossas escolhas.

L.A
Cada pessoa possui um filtro que capta o mundo e reaje aos estímulos de uma maneira peculiar. Esse filtro mental é a fonte de nossos talentos - Site: Anjos de Prata.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

ROCKABILLY





Rockabilly é um dos inúmeros subgêneros do rock and roll. Tornou-se conhecido durante os anos 50, devido a artistas norte americanos. Durante aquela década, o gênero foi impulsionado por batidas atrativas, guitarras e contrabaixos acústicos que eram tocados usando a técnica slap-back (batendo nas cordas, ao invés de puxá-las individualmente).
Embora o rockabilly seja considerado como tendo surgido no início dos anos 50, quando BILL HALEY começou a misturar jump blues com electric country, pode-se dizer que surgiu pelo desenvolvimento da música country dos anos 40 - com artistas como: Tennessee Ernie Ford (Smokey Mountain Boogie), Hank Williams (Rootie Tootie), e Merle Travis (Sixteen Tons).
Nos anos 80 Stray Cats reacenderam um breve interesse no rockabilly.

( fonte: Wikipédia )

sábado, 10 de janeiro de 2009

P!Ru&T@$





Uma pirueta!

Duas piruetas!
Bravo! Bravo!

Super piruetas!Ultra piruetas!
Bravo! Bravo!

Salta sobre a arquibancada
E tomba de nariz

Que a moçada Vai pedir bis

Quatro cambalhotas!Cinco cambalhotas!

Bravo! Bravo!

Nove cambalhotas!Vinte cambalhotas!

Bravo! Bravo!
Rompe a lona,Beija as nuvens,

Tomba de nariz
Que a moçada vai pedir
BIS!


CHICO BUARQUE

domingo, 28 de dezembro de 2008

POEMA DOS ÚLTIMOS DIAS

"Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d’oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?..." _ ( Florbela Espanca, Vozes do Mar)


Em toda praia há cardumes
Não é possível ver os peixes entre corais iluminados
Só o cheiro acre dos restos na areia.
Em todo poeta há um verso inacabado
Destes que habitam o pensamento
Moram atravessados entre os dentes .
Temo pelos meninos que chegam ao mundo
Sem pipa, passaraio e bola de gude.
Temo pelos dias que chegarão em caixas
Fechados, sem códigos ou chaves.
Sonhei com um dia claro
Um jardim pontilhado de colunas
Água e flores entre elas .
Meus três filhos cantavam no meio das águas
Seus rostos brancos como cera
Seguravam entre as mãos a lucidez perdida.
Vim ao mundo para atravessá-los
Sem bote nem salva-vidas
Só os quatro e o arrastar das águas.
O barulho das ondas mescla-se com o vento e canta fino como um lamento .
São as vozes dos anjos , dos meninos e dos peixes
Puxo-lhes os pés gelados, seguro-os pelos braços.
Há luz na praia, uma fogueira acesa .
Em toda areia florescem cardumes de rosas
Corais de magnólias e perfumes de jasmins.
Há versos e flores entre cabelos
Canções de infância e dias azuis
amarelos, verdes, brancos, infinitamente brancos.

Luísa Ataíde

sábado, 27 de dezembro de 2008

PASSATEMPO




Teoria de passatempo,
Para quando passa o ano,
É buscar no isolamento
Passar a limpo uma agenda.

Aponto os amigos velhos
Que se foram do calendário?
Escrevo velhos amigos
Que fogem do abecedário?

Uns, de volta à de solteiro;
Outros, de novo casados.
Uns, não mudam de endereço;
Outros, conforme o salário.

Tens minha agenda lugar,
Para um tipo de inquilino,
Presente quando é calor,
Mas no frio dobra esquina?

Pessoas há de passagem,
Cartão de visita dobrado,
Mas são sorrisos de ontem,
Amanhã, noutra paisagem.

Fiéis amigos de uma vida,
Numa agenda de papel,
São letras de eterna escrita
Sagrada num livro do Céu.
LUIZ MARTINS

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

PLENA MULHER


Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um só mel derrotados...
.
PLABO NERUDA

sábado, 6 de dezembro de 2008

DE NOVO , O NATAL

Galeries Lafayette- Paris
    "Se queremos um mundo de paz e de justiça temos que pôr decididamente a inteligência a serviço do amor." (Antoine de Saint-Exupéry)
Para uns o Natal tem gosto de infância
Papel colorido embrulha sorrisos.
Para as mães é família
Barulho de gente, risadas borbulham em volta da mesa.
Para outros é sopro por entre os cabelos
Que leva os cachos dourados dos anjos
Prá dentro das almas de todos os homens.
A legião de sofridos, agora meninos
Espalham-se nas nuvens
Balançam felizes os sinos da igreja
Arrastam-se nos vidros dos arranha-céus.
As mães, da cozinha, se assustam e gritam:
− Devolvam os meninos, porque é Natal!
Natalino, o Espírito, é pura bondade
Retira das almas dos homens os cachos dourados
Espalha em guirlandas* nas portas das casas.
Os meninos embrulham presentes em papéis coloridos
Abrem as portas para todos os outros entrarem.
As mãos misturam-se em volta da mesa
Agradecem, afagam, de novo é Natal.
L.A
Dez//2008