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sexta-feira, 24 de julho de 2009

ÂNSIAS E CIOS


LUIZ MARTINS DA SILVA


I

Na poeira de junho,

Drámatico Recado

Escrito a dedo:

“Lave-me!”

II

Ao fim de julho,

Frias madrugadas,

Varrendo calçadas

Enxurradas de folhas.

III

Final de agosto,

Cerrado em brasa.

A névoa seca

Embroma o lago.


IV

Setembro encerra

Engorda de nuvens.

Recomeçam as vendas

De guarda-chuvas.

V

Outubro ensaia,

Goteira abaixo,

Futuro oceano

Do meu riacho.


VI

Novembro confunde

(Caprichos do tempo)

Garoas de açúcar

Com tardes douradas.

VII

Dezembro ostenta

A neve importada.

As vitrinas refletem

As pistas molhadas.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

ABISMO

Ana Carolina e Jorge Vercilo

Bem daqui onde estou já não dá pra voltar
Nas alturas do amor onde você chegar
Lá eu vou
E o que mais a fazera não ser me entregar
a não ser não temer
O abismo em seu olhar
Ou é mar?
O seu olhar...
Não há precipícios na vertigem do amor
Só descobre isso quem se jogou
Não sou eu que me faço voar, o amor é que me voa
E atravessa o vazio entre nós pra te dar a mão
Não sou eu que me faço voar o alto é que me voa
Meu amor é um passo de fé no abismo em seu olhar Ah,
No seu olhar,
Me vejo andar o ar
Lá no abismo lindo no seu olhar.

IN FINDO


O carro parou em frente a casa e deixou sobre a calçada o pequeno aquário. O menino abriu a porta e caminhou para calçada. Segurou entre as mãos o vidro redondo: o peixinho ia e vinha sem pressa. O menino encostou o rosto na água e o peixe viu um par de bochechas grandes e dois olhos cor de mar procurando-o. O peixe sentiu encanto e medo . A cor que ele via morava em algum lugar , mas de onde conhecia a cor? O menino segurava com as duas mãos o aquário e caminhava a passos pequenos para a entrada da casa. Sentou-se nos degraus da entrada e continuou olhando o peixe que deslizava a calda amarela nas paredes de vidro. O peixinho encostou-se a parede e viu o oceano ao seu redor. As ondas corriam lentamente em volta dele e sentiu o cheiro e o gosto salgado da água . Os barcos ao longe tinham parte da vela dobrada e o sol estendia-se sobre os barcos e escorria pelo céu iluminando o dia. O menino olhou o reflexo nos pequeninos olhos do peixe e viu um campo verde e calmo. O vento tombava o capim e o sopro era como canto , de uma felicidade audível apenas para ele . Agora eles corriam e riam. Eram amigos novamente frente a frente. O menino prendia a respiração com medo de assustar o peixe que apenas via o imenso oceano dos olhos do menino. Por breve instantes ou talvez para sempre estavam diante um do outro. Deus pintava a tarde de uma cor desconhecida, enfeitava o vento com uma sinfonia perfeita e dava sabor e tato as cores das flores. Deus misturava o que era mensurável e fluídico.
L.A

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Chuva de pérolas


Observa o que a chuva deixou sobre o telhado da tua casa.
O que saltitou entre a porta e se espalhou sobre os degraus e o jardim.
Recolha as pérolas espalhadas.
Há pérolas grandes, pequenas. Guarde algumas com cuidado.
A Pérola da Abundância distribua nos lares humildes
A Pérola da Paciência conserve-a bem junto ao peito.
A Pérola da Alegria junte todas e as espalhe entre moços e velhos
A Pérola da Humildade faça dela um farol diário.
A Pérola da Esperança distribua entre os que choram e nada esperam.
As pérolas menores, de maior brilho, chamam-se todas Amor, pequeninas por fora mas capazes de grandes milagres. Elas possuem o dom da multiplicação, presenteie – as e elas magicamente retornarão a ti.
A Pérola do Agradecimento, ensine a construí-la, ela é fruto da Bondade.
A Pérola do Bom Pensamento te trará muito trabalho e muitas alegrias.

( Sopro ao ouvido)
L.A

quarta-feira, 15 de julho de 2009

DICAS PARA SER UM ADULTO REALIZADO


Augusto Cury

Explore o desconhecido. Liberte-se do cárcere da insegurança e saia da zona de conforto dos seus diplomas, status e sucessos antigos. Penetre nos labirintos da vida. Traga soluções para os problemas e previna erros no trabalho. Tenha novas atitudes para encantar os filhos, a namorada, o cônjuge , os colegas.
Se quiser ter sucesso emocional, profissional e social, você precisa ser um empreendedor. Como empreendedor, você errará diversas vezes, mas esse é o preço da conquista. Nãohá vitórias sem derrotas e nem pódio sem labuta.
* * * * * *
Inteligência espiritual é ter consciência de que a vida é uma grande pergunta em busca de uma grande resposta. È procurar o sentido da vida, mesmo sendo um ateu. É procurar por Deus, independente de uma religião, mesmo sentindo-se confuso no novelo da existência. É agradecer a Deus pelo dia, pela noite, pelo sol, por sermos um ser único no universo.
É procurar as respostas que a ciência nunca nos deu. É ter esperança na desolação, amparo na tribulação, coragem nas dificuldades. É ser um poeta da vida. Você é um poeta?
* * * * * *
Faça coisas que você normalmente não faz. Cumprimente as pessoas simples, como o porteiro do prédio. Surpreenda seus amigos com atos inusitados. Ande por ares nunca antes respirados. Passe um fim de semana em lugares novos.
Dê flores em datas inesperadas às pessoas que você ama. Faça ligações para elas no meio da tarde e pergunde como você poderia torná-las mais felizes. Fazer coisas fora da agenda é libertar a criança feliz que há dentro de você. Os que não vivem essa lei dançam a valsa da vida com as duas pernas engessadas...
Dez leis para ser Feliz- Editora Sextante

terça-feira, 7 de julho de 2009

CEIDE

“A casa, onde vivo, rodeiam-na pinhais gementes, que sob qualquer lufada desferem suas harpas. Este incessante soído é a linguagem da noite que me fala: parece-me que é voz de além-mundo, um como burburinho que referve longe às portas da eternidade. Se eu não amasse de preferência o sossego do túmulo, amaria o rumor destas árvores.

Camilo C. Branco - Amor de Salvação

quarta-feira, 1 de julho de 2009

ALMA PERDIDA


Florbela Espanca

Toda esta noite o rouxinol chorou
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!


Tu és, talvez, um sonho que passou
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
De alguém que quis amar e nunca amou!


Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!


Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

AOS MEUS AMIGOS




Poema de Jorge Vicente - Sintra , PT

disseram-me que, de manhã,
se ouve o Tejo todo,
e que as pessoas transportam em

si aquela imensidade vasta,

como quem é feito de História

e não sabe porquê

disseram-me que o tempo não

volta ao lugar onde nasceu, e

que os amigos que se perdem são

como o areal à volta da minha casa:

os retalhos, as migalhas, a presença

sempre ausente das águas em

combustão

e a sensação de que sempre foi assim,

com aquelas mesmas pessoas,

com aqueles mesmos rostos

por dentro da História

e com o Tejo debaixo dos braços.

Do livro - Ascensão do Fogo
Créditos de imagem- Alastair Magnaldo

terça-feira, 9 de junho de 2009

ÀS TONTAS

LUÍZ MARTINS



Tanta coisa vã no mundo,

Tanto mundo nas escuras.

Tanta coisa vai ao fundo,

Tanta alma na rasura.



De tonto viver às tantas,

Tento-me esguio no feito,

De tão gordas são as contas,

Lívida, a vida no seu jeito.



Livrara-me de tanta carga,

No encargo do todo dia,

Mal o azinhavre se larga,

No de escrever algaravia.


Só a tonteira é o incômodo,

Viver bêbedo sem bebida,

Paixão, fermento sem bafo,

Trôpego, mas cheio de vida.


( créditos de imagem - http://www.coluna-da-sal.com/nop/principal.htm )

segunda-feira, 8 de junho de 2009

NASCER DE NOVO


Diz o Evangelho de João que é necessário nascer de novo.
É a transmutação da água na evolução interior de cada um.
Em todos nós existe uma centelha divina, somos carne e divindade.
No exercício diário da reforma íntima faz-se necessário que a centelha do Cristo em nós, saia dos textos lidos e esteja presente em nossa rotina.
No trato com os familiares, no trânsito, no ambiente de trabalho, no Bom-Dia ao vizinho. Nenhuma razão maior de estarmos todos juntos no mesmo planeta há, se não for para aprendermos a amar o nosso semelhante.
O Amor incondicional que nos falou Jesus é o exercício diário de ser Cristão.
Se estamos juntos neste orbe terrestre é porque ainda estamos no mesmo nível evolutivo ou seríamos Arcanjos e povoaríamos as estrelas.
A cada um é dado a grande tarefa do aprendizado.
Todos os dias nos dá o Criador mais vinte e quatro horas de crédito para recomeçarmos.
É necessário o balanço antes do sono dos atos do dia: se ofendemos, se criticamos, se não fomos soldados da solidariedade.
Que estes dias nos sejam de reflexão e crescimento.
Que possamos renascer todos os dias.
L.A

domingo, 7 de junho de 2009

PONTE SOBRE ALMODOVAR- CONTO

                                          Às vezes, vejo as fotografias impressas na parede da sala, foto em preto e branco, sem foco, feito neblina de inverno

Apertou com força o botão do elevador.  Quinto andar? Optou mais que depressa pela escada. Quinze minutos apenas a separavam do retorno ao carro. Localizar o CD, baixar Download, um chuveiro rápido, pegar as anotações, desligar o computador. Chegou ofegante ao último degrau. Passos rápidos à porta, rodou a maçaneta e esticou os dedos ao interruptor. Não fez-se luz. No centro da Rosa dos Ventos, em ásana sobre a montanha , equilibrava-se em uma das pernas a ave Arqueopterix . As asas estendidas ensaiavam lentamente o movimento. Do bico escorria um líquido escuro e os olhos cor de guaraná tentavam trazê-la ao imã da partida. A mulher fechou vagarosamente a porta atrás de si. O coração reiniciou o cansaço da subida. Olhou as vidraças abertas, as folhas como casca de árvores espalhando-se pela casa.
Sob a asa esquerda estava o menino. Cabelos cacheados quase ruivos, o sono dos justos. Sob a outra asa, outros dois brincavam no ninho de penas coloridas. Sobre o dorso dinossáurico uma mulher costurava. Imersa na tarefa, nada via. Tentou buscar os olhos da mulher num contato quase telepático. Um simples olhar poderia salvá-los. Por breve instante a mulher deitou ao lado a costura e levantou do colo o livro. Absorveu-se mais ainda no texto e não olhou ao redor.
A ave sustentava o olhar enigmático. Limpou o bico no chão da sala duas vezes. Retomou a altivez da partida. Pensou em gritar à mulher que agora lia :

_ Você, por favor, pegue os meninos e desça!
A mulher sorriu calmamente:
_ O vento? Não se preocupe, é pouco.
Deu alguns passos até as portas de vidro que conduziam à varanda, na tentativa de fechá-las.
A imensa ave lançou o grasno rouco na direção do teto e balançou, agora com força, as asas. Curvou o corpo para esquerda e arremessou-se em direção à tarde que sangrava luz. O barulho dos vidros estilhaçando-se no chão da sala estremeceu-lhe os tímpanos. A mulher sobre o dorso do animal, dobrou a página do livro.
Sobre a rosa dos ventos apenas o vermelho óxido das folhas e vidros como diamantes finos. Da parede nasciam lentamente as vibrações da música. As notas ásperas, o avesso da harmonia.
Iniciou-se A Grande Fuga - Ludwig Van Beethoven.
L.A

domingo, 31 de maio de 2009

OPUS 69 nº2



Frederic Chopin um homem além da música. Um pintor, um poeta, um espaço entre as teclas do piano. Frederic fala-nos com suavidade como a brisa que balança a cortina da janela aberta à imensa claridade, ao vento. Por certo que as folhas receberão seu rítimo, e com elas dançarão a valsa da hipsnose que liberta. Sua melancolia se aliará às cores das flores e frutos. Poesia, sonoridade e cor. As notas transbordam a taça de vidro sobre o velho piano e ilumina-se a sala. As cores transbordam a janela de vidro e iluminam a sala. A poesia atravessa os dedos sobre as teclas , salta a escada iluminando a sala.
Os homens e seus chapéus chegam à porta. As damas portam lenços entre os dedos e suaves flores no cabelo. As rendas varrem o tapete da grande sala. A mulher atravessa e sorri. Para ele o salão está vazio, não vê o homem ao lado da mulher, apenas o olhar em voluntário abismo. A mulher é presa à rede lançada ao mar. Nâo percebe a teia a sua volta, nem que o cardume assume nova direção. A mulher ouve a música e procura. Já não ouve apenas a música, entre os acordes está o apito inaudível. Só os cães farejam sons em noites silenciosas. Homens e seus sapatos escuros povoam o chão da grande sala.
Sente o perfume das hortências ao vento.

L.A



quinta-feira, 28 de maio de 2009


É o sonho que nos faz ver jardins em pacotes de sementes.
L.A

Mário Quintana



Só um lembrete do Quintana...


"A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.


Quando se vê, já são seis horas!


Quando se vê, já é sexta-feira...


Quando se vê, já terminou o ano...


Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.


Quando se vê, já se passaram 50 anos!


Agora é tarde demais para ser reprovado.


Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.


Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.


Desta forma, eu digo:


Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo,


a única falta que terá será desse tempo que infelizmente não voltará mais. '

Gentilmente enviado por Keila Abreu

quarta-feira, 27 de maio de 2009

RAMIFICAÇÕES



Luiz Martins da Silva

Para Sandra Fayad

Creio seguir mutações
De inspirações vegetais.
São alquimias transgênicas
De gerações digitais.


Pois estou ramificando
Brotos, cachos, flores, galhos;
E até humores fluindo
Das raízes até o orvalho.


Pois nem sei ainda a forma,
Se rasteira ou copadora.
Também não é certa a a idéia
De espinho a causar dores.


Mas tento entender a origem,
Tamanha a metamorfose,
De humanizar-me em ramagens
Que me pulsam em novos gozos


E para viver nesse mundo,
De pássaros por testemunha,
Desdobro em ramos meus dedos;
Enrolo em gavinhas as unhas


Já ensaio as conivências,
(Segredos da Terra e do Céu)
Detalhes da nova imanência
Que aprende das abelhas o mel.


Mas porém se me antevejo
Com semblante de outro reino
,Saibam: o coração é o mesmo,
O sangue é que virou seiva.

Imagem, Óleo sobre tela- Josephine Wall