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sábado, 1 de maio de 2010

OLHOS D'ÁGUA



Luiz Martins da Silva


Estes teus olhos profundos

(Mais parecem espelhos d’água)

Convidam-me por ir ao fundo

De nuvens no céu espalhadas.



Ah! Estes teus olhos-enigma

(De lhes não ter exatidão)

Seriam um mistério, abertos:

Labirinto, mapa, cifra de coração.



Ora, se deles me afasto,

Num fôlego de calma vaga,

Ergue-se de pronto algum frêmito

Como se em ânsias de naufrágio.



Barquinho, nau de insensato,

(Por onde teus olhos naveguem)

Lá estarei eu de marujo,

No mastro, bandeira pirata.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

BRASÍLIA





"Das janelas do meu quarto olho pra Brasília
Os faróis do carro brilham bem pra lá da Torre
Lógica da Arquitetura
Lógica do mundo..."

Osvaldo Montenegro

CHICO XAVIER- O FILME

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sal




A Saudade é um barco que vai e

vém

Um novelo infindo de amor e

dor.

A Saudade inunda rios , esvazia

mares

Água doce e sal.

A Saudade é um porto de chegadas e partidas.

L.A (sopro ao ouvido)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O TEMPO...

 

Óleo sobre tela- Camões na prisão de Goa, Maureaux

 

LUIS DE CAMÕES


O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;


O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.


O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.


Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A CAMINHO DE AQUARIUS


LUIZ MARTINS DA SILVA


I

Se dominava uma dúzia de línguas,

Por que não haveria de decifrar

A misteriosa mensagem de Roseta?

Depois de dois anos, finalmente,

Champollion encontra a chave

Para ler 3 mil e 500 anos de escrita.

II

O que chamam de restos mortais

Está na Abadia de Westminster.

Seu coração está em algum lugar

Entre o Zambeze e as nascentes do Nilo,

Ou seja, nas montanhas da Lua.

“Doctor Livingstone, I Presume”.


III

Quando ele próprio já não acreditava

Haver ainda cidades perdidas,

Eis que, à procura da lendária Vilcabamba,

Encontra a fortaleza sagrada de Machu Picchu:

“Would anyone believe what I have found?”

Escreveria Hiram Bingham em seu diário.


IV



Poucos iniciados têm acesso

Ao que na procura chamou de Cidade Z.

Aonde se chega por uma das sete embocaduras,

A que está na Serra do Roncador.

Há quem ateste que Fawcett está muito bem

Para os seus 143 anos.


V

“Entre os paralelos 15º e 20º ...

Partindo de um ponto onde se forma o lago...”

"Deste Planalto Central, desta solidão...”

“Lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã..”.

“Com fé inquebrantável e confiança sem limites".


quarta-feira, 24 de março de 2010

DEIXAR VIR A MIM




Aos que incessantemente procuram, aos aflitos e desafortunados, um aviso: A Esperança é uma borboleta colorida e rodopia entre os muros.


Apenas ouvia-se o barulho forte e ritmado das patas dos cavalos atravessando o rio. O som abafado como tambor erguia-se em compasso sonoro e repetitivo. O ruído abria círculos de ondas que cresciam indefinidamente. Os cavaleiros traziam nas mãos lanças com pontas de metal, outras esculpidas em madeira. O que podia ser visto era a passagem ligeira das patas, dos dorsos, das crinas... apenas o movimento horizontal sobre a água… Deixavam o cheiro da pressa flutuando no ar. Formavam-se bolhas endurecidas que caiam rapidamente no chão. A cor turva da água tremulou ainda por alguns minutos quando o último animal passou. A areia do fundo do rio repetia o subir e descer e o movimento ganhou forma a nossa frente: os homens buscavam. Uns tinham feridas imensas à mostra. Cortes nas costas, furos de balas no peito. Alguns tinham marcas de cordas no pescoço e havia os que incessantemente buscavam o ar, como se lhes tapassem nariz e boca. Todos sem exceção queriam o encontro. Eram as vítimas em busca de seus algozes. A rigidez dos lábios e a petrificação dos olhos não nos deixavam dúvidas.
Perfilaram-se após o cessar da corrida lado a lado e viam, lá embaixo, as árvores. Depois das árvores havia canteiro de cores; muitas cores. Estávamos atrás deles e víamos o brilho das flores sob a luz do sol. Do lado de cá os guerreiros no momento prévio da batalha. Do lado de lá apenas o desconhecido. Temíamos o encontro. Buscamos mentalmente a benevolência do perdão. Enlaçamos todas as pontas e desejamos que a rede do infinito amor do Cristo chegasse até eles. Nossa força era demasiadamente limitada, éramos apenas portageiros de uma fé em transformação.
A respiração do guerreiro freava em ritmo ofegante e quando o último movimento serenou, ele apenas observou. Nada mais havia depois das cores, apenas o balanço de varais ao vento. O primeiro da fila olhou para o companheiro ao lado. Bateu por duas vezes a ponta da lança afiada no chão. O companheiro repetiu o gesto. O chão sobre nossos pés estremeceu com a batida coletiva. O primeiro homem desceu do cavalo e caminhou em direção às árvores. Os outros seguiram entre os canteiros de flores. O que ia à frente levantou a ponta do lençol sobre o varal. A partir dali a tarde findava-se numa claridade dourada e esta luminosidade dançava entre as árvores como uma melodia. O homem teve muita dificuldade em manter os olhos abertos. No começo não via nem ouvia nada, apenas recebia a luz. As cores emergiam das asas das borboletas e da água clarinha que se espalhava no rio. Agora o homem ouvia o rio. Era uma canção mansa, desconhecida. Lavou as mãos e deixou sob a água a arma de metal. O reflexo da água alargava e tremulava a lança. O guerreiro desceu novamente as mãos em concha e bebeu a água. Lavava calmamente as feridas na água fresca que misturava-se à poeira e ao barro da estrada. À medida que lavava o corpo o sangramento estancava. As feridas tornavam-se pontos pequenos e quase imperceptíveis. Do outro lado do rio, havia o burburinho indecifrável de vozes. O que abrira o caminho entre os lençóis prosseguiu em direção ao ruído, olhavam sem entender. Ali estava o que buscavam. Os que foram encontrados traziam um sinal individual que ligava cada um a algum deles. Apesar da aparência podiam ser reconhecidos. O homem que ia à frente, já sem marcas de sangue e sem sede estendeu a mão em direção a quem sempre buscara. Encontrou uma mãozinha pequena e roliça de criança. Entre as árvores e a vegetação rasteira estavam eles: centenas de meninos e meninas. Deviam ter pouco mais de dois anos. Cachos de cabelos e rostos redondos olhavam. O pequeno à frente do homem apontou-lhe o dedo, depois o recolheu subitamente em direção à boca. O guerreiro o tomou no colo. Os outros caminhavam entre o exército de soldados desarmados. Ouvia-se um burburinho de risos e prece. Lá do outro lado do rio a luminosidade brincava com as borboletas e com as nuvens do céu.
L.A

sábado, 20 de março de 2010

BEIJOS DO MAR




Poema de TERESA FERRER PASSOS

Imagem- Octávio Campos


Na serra, as ondas do mar escrevem beijos no ar...
Vejo além um favo, escondido num trilho
onde se faz amor nos dias com sol.
Um silêncio azul cresce até ás nuvens breves.
A esvoaçar, há pássaros brancos em Alportel.
Vejo-os de asas tangenciais.
São novelos de amor em construção.
Dois sobreiros envelhecidos sobem, a custo,
até ao céu e beijam-se ufanos, na Cortelha…

Ofereceste-me, hoje, um poema escrito no absoluto da tinta
e ainda esta serra com perfumes a alecrim amarelo.
A viagem, curta, é, talvez, igual a uma folha de azinheira
com estrelas de chuva pequenina.
Tudo tão perto, à beira do caminho, quase ao pé de nós…

Como eu gostava de te oferecer a chuva ou o vento,
qualquer coisa intensa, assim. Ou ainda mais forte:
um barco verde carregado de possível!

No Barranco Velho, dois pássaros brancos passam sobre nós.
Olho-os. Deles escapa-se uma onda.
Ah, é uma onda solta do mar...
Uma onda perdida na serra, nas asas daquele voar...
A custo, consigo agarrá-la.
Vem carregada de beijos soltos…
Seguro-os, a quase todos, bem dentro da minha mão.
E na tua face deixo-os escorregar,
como se fossem para juntar aos meus,
aqueles que hoje, porque estou com gripe,
não te posso dar.

S. Brás de Aportel, 19 de fevereiro de 2010.

quinta-feira, 11 de março de 2010

RECADO - ANA PELUSO



Querido Leitor,

Desfolhando 42 jornadas culturais, a Diversos Afins celebra a sua mais nova Leva. Entre as expressões de agora, estão:
- signos do corpo na exposição fotográfica de Ricardo Miyajima
- o lirismo poético de Rosane Carneiro, Ligia Dabul, Paula Raposo, Abílio Pacheco, Alexandre Bonafim, Alam Arezi e Edson Pielechovski
- uma entrevista com o cantor e compositor Celso Fonseca
- dedos de prosa em Rodrigo Melo, Samantha Abreu e Larissa Mendes
- um convite à leitura de Georges Perec na crônica de W. J. Solha

Estes e outros afins em:

http://diversos-afins.blogspot.com
Saudações culturais,

Fabrício Brandão & Leila Andrade - LEVEIROS

sábado, 6 de março de 2010

UNS


Ricardo Reis (*)

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
o dia, porque és ele.

(*) Heterônimo de Fernando Pessoa.

Nota: Fotografia- Imaginário Poético
Colaboração enviada por Osmar Oliveira Aguiar.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

MOTIVO


Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
-não sei , não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
-mais nada.
Cecília Benevides de Carvallho Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1901. Iniciou na literatura através da "corrente espiritualista" , sob a influência dos poetas neo-simbolista. Embora tenha se distanciados desses , nunca perdeu a linha intimista numa atmosfera de sonho e fantasia. Cecília manifesta sempre sua preocupação com a transitoriedade das coisas e das pessoas. O tempo é seu principal personagem. A linguagem de Cecília é formada por símbolos e imagens sugestivas e sensoriais.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

ENCONTRO DAS ÁGUAS





... a paixão veio assim
Afluente sem fim
Rio que não deságua

Aprendi com a dor
Nada mais é o amor
Que o Encontro das Águas

Esse amor
hoje vai pra nunca mais voltar
como faz o velho pescador
Quando sabe que é a vez do mar

...
JORGE VERCILO

domingo, 7 de fevereiro de 2010

CLARA CLARICE


Foi quando percebeu que só tinha nas mãos cacos, que eram tão pequenos que não podia emendá-los. Foi quando percebeu que a luz que abre os dias é a pura claridade dos dias e o que mata sede é água. Foi como acordar lúcido e sujo numa calçada. Diante de uma saída tão estreita, acabou concordando que a realidade tinha sua fatia sem matéria. Ela não: tinha um rosto, cabelos, fome e sede. Fome e sede... O pior era que o tempo passava.
Resolveu não mais sair de casa e a viver num estado de desistência. Na calma de nada entender trancava gavetas, portas e janelas. O que não convivia bem consigo, era não se achar de confiança e quase sempre não caber em si. Sua felicidade consistia em ter um sentimento secreto de inexatidão. O dia que tudo lhe parecesse matemático, teria a impressão cômoda dos dias. Constatou então, que colocavam um fim fora de lugar. Na verdade amava ter sido dois. Julgou que se fosse a outra parte seria mais fácil; contudo sabia que não sendo o lado feminino da história, jamais alcançaria esse estado de inquietação, de querer saber o que um homem sente. Eram territórios sem fronteiras.
Estava de través, como se qualquer outra posição a desequilibrasse. Sabia que não poderia permanecer por muito tempo assim, esse estado de alvoroço anestesiava e tirava-lhe o sono. Passou a viver num estado de Desistência. Da desistência chega-se à loucura. A loucura é uma canção sem voz.
Por muito tempo, sua única ligação com o mundo era o rapaz da mercearia que às Quintas-feiras trazia as verduras.
-Dona Clara! Gritava do portão.
Também aconteceu: "O tempo pôs-se a correr, a correr, a correr, e o mato cresceu ao redor, ao redor..."
Ela era por liberalidade sua própria feiticeira.
Aí, vem o dia que a maior das artes humanas vence: A Sobrevivência - estado latente de defesa. Até ali, não ter certezas era o fruto que carregava em silêncio. Com habilidade mestre , colocou-o sobre a mesa e o partiu, como se procurasse a menor das células. Embuída que estava do mesmo sentimento que Deus teve no dia que resolveu fazer o mundo, abriu as janelas da sala.
A umidade da casa atravessou a varanda.
L.A

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Canção aos olhos e ouvidos de Sônia Schmorantz




BRINCAR DE RIMAR

Sônia Schmorantz



Eu quero qualquer coisa mágica,
qualquer coisa azul,
qualquer forma de ser feliz.
Não quero acordar cedo,
quero prolongar o sonho
mesmo
que a história seja trágica.
Não quero sonhos falsos,
Não quero destino já traçado,
Não quero uma vida básica.
Não quero restos ou pedaços
Não quero olhar o relógio,
Não quero um tempo sádico.
Quero valer um mar azul
uma estrela na varinha de condão
um poema de efeito mágico,
que seja fácil, que seja simples,
nem litúrgico, nem letárgico,
mas que fale ao coração…




NOTÍVAGA

Sônia Schmorantz


Sou notívaga, perambulo nas madrugadas

como as corujas, empertigadas, em cima dos muros.

Ouço os sons da madrugada, os que estão fora e
os que tenho dentro de mim.

Silêncios quebrados por sons de pássaros noturnos,
pessoas que passam, chave na fechadura, criança que chora.

cortam a madrugada o choro dos amores mal resolvidos,
Os sonhos ainda não vividos, o som de risos perdidos na memória.

A madrugada está cheia de sons, música transcendental, natural
que não precisa de cordas ou teclas, vem no assobio do vento
ou nos acordes dos pingos de chuva na velha calha.

Não sei que hora o relógio marca, sei que estou acordada,
que o poema não deixa de ser uma oração silenciosa,
será que Deus ouve melhor nessa hora?

Resta depois esta vontade de chorar diante da beleza,
Resta esta súbita saudade de tudo e de nada,
até que os sons se esmaeçam enternecidos no sono
que finalmente chega…

Nota : Textos e fotos do Blog visual e poético de Sônia Schmorantz
Vale muito conhecer: ILHA DA MAGIA

domingo, 31 de janeiro de 2010

em M ovi men¬t o



DOMiNGOS sÃO rios de risos em sonhos
curvos, zonsos, fundos.


São cataVentos coloridos
vagos, inúteis, sURDOS.

dOMINgOS cheiram a maçã e missa
vagas lembranças de dias sem sol.

à TARDE, apontam o trilho ligeiro dos dias
Zunem versos roucos no ouvido

Abrem os riscos contínuos na estrada
distorcem o contorno das folha nas árvores.

SAL_ tam os muros secretos dos dias
Dos dias que chegam depois de amanhã.

Sunday, sundAY , CAdê você?

L.A