terça-feira, 24 de abril de 2012
MARCHA
Cecília Meireles
Quando penso no teu rosto
Fecho os olhos de saudade;
Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos tristes,
Por sonhos claros que invento
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.
terça-feira, 17 de abril de 2012
CRÔNICA DA CIDADE 16/04/2012
CEMITÉRIO DE ESTRELAS
Certa noite, Maria Luisa Ataíde teve um sonho com o escritor português Camilo Castelo Branco, autor de Amor de perdição, Amor de salvação e tantos outros clássicos. Carioca, mas de família maranhense, desde a adolescência, ela devorou romances com a devoção dos leitores tão apaixonados que se tornam escritores. A partir sonho com Camilo, começou a fazer uma varredura nos sebos à procura de livros do escriba, um dos grandes mestres da língua. Mergulhou no universo romântico, conturbado, dramático, passional, perpassado pela perdição e pela salvação. Sem que se desse conta, acabou constituindo uma coleção camiliana de exemplares raros e raríssimos. Havia um livro, Herança de lágrimas, de autoria de Ana Plácido, esposa de Camilo, publicado no século 19, tão raro que nem a Biblioteca Nacional de Portugal tinha mais em seu acervo.
Ao saber, Luisa entrou em contato e se dispôs a doar a preciosidade para que ficasse guardada com todo o desvelo merecido. Havia um empecilho: eles não dispunham de recursos para financiar a viagem até Portugal. Mas essa história que começou com um lance de literatura fantástica ou bíblica reservava outras peripécias surpreendentes. Luisa mora em Brasília desde 1975 e trabalha no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. O TJDFT promove, anualmente, um concurso literário para os seus funcionários e ela resolveu se inscrever nas três categorias: poesia, conto e crônica.
Ela varou madrugadas, escrevendo e reescrevendo, incessantemente, um conto sobre a vida de Camilo, intitulado Cemitério de estrelas. A narrativa evoca a estrutura dos textos do argentino Jorge Luís Borjes, pois o ensaio se mistura à ficção. Evoca o dia de junho de 1890, em que Camilo Castelo Branco, nascido em 1825, autor de mais de 200 livros, resolve dar um ponto final em sua vida, ao passar por uma grave crise existencial em razão da descoberta de que estava irremediavelmente cego. O texto começa em um tom bastante realista e documental, mas logo envereda por uma dimensão fantástica, pois a narrativa é conduzida pelo ponto de vista de uma legião de personagens, habitantes do limbo de um “cemitério de estrelas”, à espera de ganhar o direito à vida nos livros, mediante a decisão do escritor: “A espada é pena umedecida em tinta a escolher a esmo, um ou dúzias de nós para conhecer a luz dos dias.”
Os personagens entram em desespero ao perceberem que o escritor, com o poder de insuflar-lhes o sopro da vida, não existe mais. Vislumbram um rapaz parado do outro lado da ponte. É Simão Botelho, personagem de Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco, que acena e grita: “Todo amor, acreditem, é de salvação!”. Os candidatos a personagens da ficção de Camilo jazem no cemitério de estrelas. Logo depois da morte do escritor, um misterioso incêndio arrasou com a casa onde morava: “Somos ferro, pedra, poeira e pó. Sopro divino a remover cinzas”.
Luísa não ganhou o concurso com o conto Cemitério de estrelas. Em compensação, conquistou o primeiro lugar na categoria poesia, com um despretensioso poema intitulado Memórias brancas, dedicado a Ana Plácido. Com o dinheiro ganho no concurso literário, Luisa pôde ir a Lisboa entregar, pessoalmente, o exemplar raríssimo de Herança de lágrimas para a Biblioteca Nacional de Portugal. Camilo deve estar bastante satisfeito, se é que não foi ele quem armou tudo isso.
Nota do Blog: O Concurso Literário deu-se em 2008 e foi patrocinado pelo Sindicato dos Sevidores da Justiça.SINDIJUS. A entrega do livro de Ana Plácido em Portugal deu-se pelo esforço da escritora portuguesa que mora em Lisboa, Teresa Passos, junto à BNP.
O jornalista Severino Francisco surpreendeu-me com esta crônica linda e não houve tempo de revermos alguns detalhes. Grata a ele pelas palavras .
Luísa Ataíde
CÉMITÉRIO DE ESTRELAS
MEMÓRIAS BRANCAS
quarta-feira, 4 de abril de 2012
OS OLHOS DE TOMÉ (CONTO)
“Tudo consumado, como era para ser.
enquanto nuvens rasgam de púrpura
as vestes sanguíneas do crepúsculo...”
Gólgota, Luiz Martins da Silva.
Imagine, um grande campo a ser plantado. Imagine que abaixo do que você vê, as sementes tentam romper o solo. Todos os dias você vai lá fora e olha o campo. Ele é um vasto terreno deserto. Nem uma simples erva balança sua folha ao vento. Uma manhã, alguém vem visitá-lo e, já da porta, olha o seu quintal. Abre os braços admirado com a fartura dos frutos das árvores. Puxa da terra folhas grandes e suculentas e enche cestos com hortaliças e maçãs. A abundância esteve todo o tempo ali e você não viu.
SEGÓVIA- ESPANHA
Julian Esteves olhou a avenida de pedras e a arquitetura do aqueduto com seus arcos empilhados. Julian captou a imagem, para seu arquivo de fotos de diversos ângulos. Por alguns instantes pensou no que lhe dissera o guia da viagem. A construção feita pelos romanos diminuíra consideravelmente ao longo dos anos. Ainda é um espetáculo para ser registado, pensou, enquanto seus olhos eram invadidos pelas falanges de pedras.
A tarde misturava as cores dos vitrais às hastes da Catedral de Segóvia quando o rapaz cruzou as muralhas do claustro do Monastério. Subiu os poucos degraus do pórtico da entrada e olhou as colunas altas findadas no rendilhado bordado das abóbodas das naves. A hora do crepúsculo era um salto no silêncio entre o dia e a noite - a hora do zumbido dos grilos, da procissão das aves de volta aos galhos das árvores.
O cheiro adocicado do jardim deslizava pelos corredores vazios. Havia os arcos de pedra abertos à cidade murada. Seus pés estavam ali, na estreita faixa das janelas, e podia sentir sob os sapatos os riscos do cimento. Ainda era possível captar a imagem na rasa luminosidade da tarde. Esgueirou o corpo entre as aberturas laterais e direcionou a câmera em direção ao que os olhos alcançavam: o contorno da Serra de Guadarrama. Mas , havia o ruído que vinha de dentro da sala, curvou o corpo de volta e caminhou pelos corredores vazios. O silêncio sepulcral das paredes altas e os contornos dos anjos, focados pela réstia de luz que entrava pelos vitrais gritavam-lhe aos ouvidos. Mas o que exatamente parecia ouvir? Era um emaranhado de vozes e cânticos. Os sons batiam nos muros de pedras e deslizavam de volta entre os fios dos cabelos. Desciam em cascatas através dos pelos dos braços e pernas e retornavam às colunas em ciclos de ondas. Julian sentiu o ritmo forte do pulsar de seu sangue e seus olhos abriram-se como os cálices de cristal perfilados diante do altar.
A claridade abraçava as colunas de sustentação e saltavam gotas minúsculas de luz no piso do claustro. O rapaz caminhou em direção aos degraus diante do pátio de terra, aberto ao vento, ao fim da tarde. Pensou estar num cenário de teatro. Ali o terreno alto , a pouca distância, a enorme cruz de madeira fincada sobre o chão. Ao fundo, um crepúsculo púrpuro numa tarde que sangrava luz. A partir dali, não conseguia caminhar em nenhuma direção, pois a imagem rodopiava ao seu redor abrindo o risco completo do compasso. Estendeu, num gesto inútil, a mão para alcançar. Havia o sangue escorrido até o chão onde formava manchas de vários tamanhos. O soldado usava uma armadura de ferro cuja parte frontal, mais clara, tinha riscos sobre o peito largo. Olhava para o alto, enquanto lançava ao ar frases de escárnio e desafios. Por breve instante, o Centurião olhou na direção da porta e pareceu ver o estranho. Julian virou-se bruscamente e estava de volta aos corredores de pedras. Buscou a sala mais uma vez e não encontrou a saída para o pátio de terra. Indagou aos frades, ao guia, às pessoas, onde estava a porta. Não havia nenhuma saída, nenhuma porta, nenhuma escada que conduzisse ao pátio. Percorreu diversas vezes o mesmo caminho. Não havia o pátio de terra.
Julian Esteves deixou Segóvia com as primeiras estrelas no céu e a impressão de estar entre o susto e a razão. Mas o que é a razão senão a realidade que nossos sentidos alcançam, pensou. A moça da poltrona ao lado viu entrar no ônibus um rapaz e sua câmera, provavelmente um estudante em férias e sorriu. O motorista aborrecido pela espera viu um turista chegar atrasado. As rodas dos pneus deslizaram sobre as ruas vazias e o rapaz olhou as muralhas da cidade afastarem-se e sumirem aos poucos no retrovisor da janela. Ouvia o ruído, cada vez mais distante, das águas do rio que descia as encostas da serra de Guadarrama.
No jardim do Mosteiro, dois homens conversavam:
– Você parece preocupado. O que houve?
– Perdi minhas pedrinhas de luz, elas estavam aqui nos meus bolsos...
– Não se preocupe, mal nenhum pode fazer.
– Às vezes, elas dão a quem as encontra à ilusão de um salto de consciência.
– Uma consciência externa conectada com a sua consciência interior que se for elevada irá captar o que as paredes deste Templo produzem: a presença do Cristo. Lembra quando nós o encontramos na estrada de Emaús?
– Sim, nunca poderia esquecer, nós não o reconhecemos. Conversamos com ele, falamos da nossa desilusão em perdê-lo sem saber que estávamos diante do Cristo ressuscitado. Só depois quando ele elevou nossas consciência ao nível que podíamos contemplá-lo foi possível vê-lo.
– São os caminhos prévios por onde caminha a fé. A nossa percepção da realidade construída com nossas vivências. Se não percebemos a importância espiritual da realidade, se não nos abrimos a essa percepção, a nossa visão particular só atingirá a matéria. Enquanto persistirmos seremos céticos. Se nos abrirmos ao conhecimento já é o preparo da terra para a colheita. A Paz, a Saúde, A Alegria e o Amor, esta é a terra de leite e mel à nossa disposição. Uma colheita que pode começar com a boa vontade do conhecimento. Pois ninguém que se abre de perto à vida e aos ensinamentos de Jesus deixará de amá-lo.
A lua abriu seu lume sobre um ônibus que desaparecia nas curvas das montanhas de Segóvia. Estendeu seu facho de luz sobre dois vultos que conversavam no jardim do mosteiro, sobre um aqueduto secular, de braços abertos aos visitantes da cidade. Espalhou as minúsculas poeiras cintilantes nos quatro cantos do planeta, misturando-as à atmosfera a ser absorvida pelos que naquele momento levantavam-se para mais um dia de trabalho, liam o jornal da manhã, atravessavam a cidade em seus carros apressados. Sobre os que batiam as mãos no peito da incredulidade, aos que soluçavam nos leitos dos hospitais. Aos que riam e cantavam pela simples razão de serem presenteados com mais um dia.
Luísa Ataíde
quinta-feira, 15 de março de 2012
OUTRO DIA
Luiz Martins da Silva
Eia, pois, aqui,
agora e sempre,
Regando esperanças
de colheitas,
Com suavidades
de orvalho
E doçuras de colibris.
Chovem sobre a
terra
Com a força das
sementes
Dádivas que já
leio em cestos
Abarrotados de serestas.
Você é quem amansa
Esta nova aragem
Que aquieta o
fogo
E acalma as águas.
Daqui a pouco,
feito brisas,
As crianças despertam,
Como pássaros de
flores
Em seus
uniformes de manhãs.
Ama e louva
este povo
Que vem a ti de
novo
Acariciar teu
pão
E aromatizar teu
café.
Não turva tua
fé.
De ira, nem um
pingo.
Aproveita esses
degraus de ternura,
Tapete leve que
te eleva aonde estás a ir.
quinta-feira, 8 de março de 2012
LAR
O teu coração é tua nova casa.
A outra perdeu-se na neblina distante da memória.
Nao insitas nas portas antigas,
nas salas escuras de tua alma.
O teu coração é teu afeto e tua nova realidade.
As casas feitas pelo Pai
estão abertas ao conhecimento, à boa vontade e a fé.
Abra o teu coração,
habite-o
renove-o, ornamente-o com as flores da paz.
Aceite.
O teu coração é tua nova casa.
(sopro ao ouvido- 07/03/2012)
imagem: óleo sobre tela- Gilbert Williams
sábado, 3 de março de 2012
O POÇO DOS DESEJOS (CONTO)
“Aquele
que segue o caminho do guerreiro, não visa somente a vitória, e
sim esclarecer a vida e suas peculiaridades.Deve-se
sempre cultivar e aperfeiçoar, traçando a meta, na evolução de
si mesmo, descobrindo e definindo seu bushido, ou seja, seu
caminho de volta."
Tenzen Ito (Séc. XVII)
O
jovem Samurai Yuzo completava naquele dia dezesseis anos. Olhou
pela janela do Castelo Daimyo e avistou a imensa paisagem verde
e as montanhas de Kobe que contornavam a paisagem da manhã. O
menino guerreiro habitava a torre central e mais alta da
residência aonde se instalavam os cavaleiros cujo ofício e meta
de vida era a defesa do Clã. A luz em forma de espada
atravessava o corredor do quarto, o que denunciava que há muitas
horas o dia amanhecera. O Silêncio nos alojamentos que ladeavam
o quarto era grito aos ouvidos:
Um
Samurai só se entrega ao sono da morte.
Enquanto todos os jovens soldados espalhavam-se entre os
jardins, templos e ruelas, Yuzo detinha-se diante do reflexo de
seu rosto no prato de água sobre a mesa de pedra. Afundou as
mãos na água e as trouxe ao rosto. As gotas desciam dos dedos em
movimento rápido e sentiu a umidade fria o despertando para o
dia. Há semanas uma voz interior o incomodava. Há dias os
rituais do templo se apresentavam sem as cores habituais do
arco-íris. Não havia mais sabor no arroz cozido, não havia
nenhum sentido na disciplina dos exercícios de guerra. Para ele
todas as chamas da casa iluminavam unicamente a porta do
calabouço aonde eram guardadas as provisões de inverno.
O rapaz desceu
as escadas estreitas aonde a luz ia findando-se à medida que
avançava. O menino Samurai não soube quanto tempo esteve sentado
nos degraus gelados do subsolo do castelo. As pupilas se
misturavam ao escuro e acostumadas à pouca luz davam-lhe a
nítida impressão que este era seu real habitat. Olhou sobre os
ombros a pequena abertura na parede perto do teto e lá fora
estava o caminho das nuvens. A estreita porção do céu oferecia
uma nesga de luz ao quarto escuro. O jovem continuava sentado na
base alta dos degraus e as pernas balançavam frente à parede de
pedra. Com o arrastar das horas já não via a luz da manhã.
Ergueu os olhos sobre os ombros e descobriu na pequena abertura
a pouca luminosidade da lua. A voz que vinha do peito era um
uivo de lobo em noite de lua. Sentia o sangue descendo em
abundância sob a armadura, mas o Jovem Yuzo não sabia o tamanho
da espada que o cortara. As lembranças estavam se tornando
branquinhas
como areia entre os dedos e distantes como um canto de infância.
Um novelo embaraçado de pensamentos e sentimentos contornava-lhe
a alma e o arrastava para o fundo. O rapaz sentia-se preso
entre os degraus de pedras e o brilho da lua.
Deitado sob o
braço direito, viu o pequeno inseto que na
luminosidade rodopiava a janela. A minúscula
borboleta dava voltas em torno de si como um beija-flor em
movimento. O menino olhou demoradamente o bailado dela.
Seria uma borboleta ou um grande inseto de luz perdido do grupo?
O bichinho alado entrou no calabouço e percorreu os sacos de
mantimentos. Passou sobre a cabeça do jovem, rodopiou-lhe os
ombros. Yuzo levantou-se rápido tentando alcançar o que era
realmente uma borboleta luminosa. O animal inquieto avançou
sobre os degraus estreitos que conduziam à saída do Depósito de
alimentos. O rapaz corria agora atrás das asas pelos
corredores do palácio. O inseto corria entre as árvores do
Jardim e o jovem guerreiro esqueceu-se da ferida e do sangue que
lhe encharcara as roupas durante todo o dia. A branda
luminosidade mesclava com a neblina da madrugada. O
menino caminhava devagar, pois que já não via a borboleta e nem
mesmo as árvores. A luz do sol chegava entre a vegetação da
planície, vinda lá das altas montanhas que contornavam o lugar.
A luz em forma de espada terminava para Yuzo em um poço de
pedra. Lembrou-se da estória do poço que seu avô sempre
contava à Hora do Chá. Ali estava O Poço dos Desejos dos
primeiros Samurais. Há muitos anos o
Imperador mandara cobrir o poço sem água, pois que agora servia apenas de berço às aves mortas e meninos
desatentos. O jovem aproximou-se do Poço e viu sua imagem refletida. A palidez do rosto
denunciava a falta de alimentação e a tristeza. Deteve-se por
alguns instantes diante do reflexo que balançava lentamente
entre o contorno das pedras. O avô contara que os primeiros
Guerreiros Samurais quando dirigiam-se para uma grande batalha
olhavam, antes naquelas águas sua imagem refletida. Se não
conseguissem visualizar o reflexo seria o caminho inevitável da
morte, o que era tão honrado quanto a volta vitoriosa. O Soldado
Samurai lançava então sobre as águas um desejo de que qualquer
que fosse o seu destino haveria de ser coberto pelo manto da
Honra. Buscava pela segunda vez a imagem. Na verdade, explicava
o avô, o poço refletia o destino da alma de um guerreiro,
pois que a Morte não é eterna, a Honra sim. O menino olhou mais
uma vez seu rosto estampado na água. O brilho da luz do sol em forma de
espada estendia-se verticalmente sobre os ombros e a armadura
ganhara uma cor dourada. Seu rosto roubara do arco-íris o tom
róseo e seus cabelos desciam negros e brilhantes sobre a
armadura de guerra. O menino avançou a ponta dos dedos em
direção ao poço de pedra na tentativa de alcançar a imagem do
valente guerreiro.
–
É você Yuzo!
Voltou o corpo em busca da voz. Ouviu o silêncio
entre as árvores e viu a neblina se desfazendo entre as
primeiras luzes do dia. O menino Samurai olhou o castelo Daimyo
e a imensa planície verde ao seu redor. A voz interna não era
mais um lamento, e decidiu chegar à torre mais alta antes do
despertar dos soldados no alojamento. Um jovem e honrado Samurai
disparou entre as árvores do jardim do castelo de volta ao seu
exército. Muitas batalhas ainda travaria até caminhar
com a espada deitada sobre os braços e entregá-la aquele que
criara as planícies, rios e montanhas.
Luísa Ataíde
domingo, 26 de fevereiro de 2012
JOÃO E ADELINA (CONTO)
“O tempo acaba o ano, o mês e a hora
A força, a arte, a manha, a fortaleza:
O tempo acaba a fama e a riqueza
O tempo o mesmo tempo de si chora:
O tempo busca e acaba onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza
Mas não pode acabar minha tristeza
Enquanto não fizerdes vós, Senhora.”
— Luís de Camões
Conheci Adelina beirando os oitenta anos e os olhos azuis eram duas pedrinhas embaçadas pela catarata. Os cabelos longos perdiam-se numa extensa trança rala que descia, aonde terminava o lenço sobre a cabeça. Adelina, já curvada pelo peso dos anos, quase não sorria: era só uma velhinha. Para nós, os outros, precisava apenas de uma cama encostada na parede, onde prendesse as fotos em marrom e bege. Fotos com histórias cheias de risos e lágrimas. A história de Adelina nascia de um grande mosaico colorido que fui formando ao longo dos anos. Isto não é conversa pra criança, era o que eu ouvia enquanto a porta ia avançando contra o meu nariz. Dele tenho apenas o nome. João Ataíde era apenas um nome perdido nas bocas das tias. A foto pregada na parede da cama mostrava um homem, de média estatura, segurando um livro grosso com papéis saindo pelas páginas. A fotografia retratava um professor de escola primária do norte de Portugal. Eu olhava do outro lado da cama o homem incomodado sob a luz do sol. Minha avó Magnólia dizia que o pai atravessara o oceano em busca de melhores dias em terras brasileiras, encontrara nas dunas de areia do Espírito Santo a brasileira de olhos azuis.
Os fatos, que conheci depois ,vieram embaralhados. Sei que João e Adelina tiveram quatro filhos e que a moça da praia não fora o modelo de mãe e esposa que ele sonhara. Os portugueses que aqui aportaram, no fim do século XIX, eram dotados de tino comercial . Todos os Manuéis e Antônios de minha infância possuíam prósperas quitandas ou padarias. João Ataíde era um homem voltado para os livros; varava as madrugadas sob luz da lamparina; lia e anotava incessantemente. A esposa não passara das carteiras do grupo escolar e não se seduzia por livros com estórias transbordando dentro. Assim foi formando-se, pela erosão dos dias, um imenso buraco entre os dois. De um lado Adelina e seu cesto de peixes, do outro João e os poemas dos livros. Hoje, entendo porque as mulheres da família apontavam Adelina como o avesso do pano. Todas do álbum de fotografia tiveram muitos filhos e enfrentaram altivas os problemas que entram pela porta com a filharada e pouco dinheiro. Todas permaneceram de pé, até o último ato.
Um dia, a moça da praia olhou o professor do outro lado da sala. Viu apenas um terno puído e um homem franzino dentro. O som lusitano da voz já não lhe era canção ao vento. Sonhara com um português comerciante e uma mesa farta, cortinas que voassem em rendas pela janela e mais que peixe miúdo e guandu sobre a mesa. Distribuiu os filhos entre os vizinhos, prendeu os cabelos numa trança bonita e bateu a porta.
Neste ponto perdemos João Ataíde. Nunca perguntei às tias o que ele fez da vida. Voltou para o Porto? Chorou as tardes na praia? Continuou lendo Camões sob a luz da lamparina? Na verdade, perdemos João e Adelina. Ela só apareceu diante dos filhos muitos anos depois do fim da Segunda Guerra. Um dia Magnólia, a filha, abriu a porta da casa e lá estava um cesto vazio. Em pé, ao lado do cesto, uma senhora de olhos azuis.
Quando conheci Adelina, beirando os oitenta anos, já se chamava Dindinha, usava xale e arrastava um chinelo grande. Dizia meu nome com muitos “is” no meio e falava que eu devia ser professora. Ensinar a ler , dizia, é coisa de gente abençoada, gente de alma boa. Nós olhávamos juntas o jovem avô da fotografia. Acho que ela pensava que aquele imenso buraco na sala poderia nunca ter crescido. Começamos a aprender pela dor e pelo que perdemos. O amor de João e Adelina não morreu, mudou-se para algum lugar neste universo imenso. Acredito, procurando na vastidão do céu pontilhado de estrelas, que um dia ela vai encontrá-lo no pátio da escola e estender-lhe um velho poema português. O rapaz ficará comovido com o interesse da jovem por literatura lusa e trocarão ideias afins. Aprendemos também pelo riso que vem junto com o que reconstruímos.
Luísa Ataíde
9ª Antologia dos AnJos de Prata- Contos e Crônicas, Editora All Print- 2007
A força, a arte, a manha, a fortaleza:
O tempo acaba a fama e a riqueza
O tempo o mesmo tempo de si chora:
O tempo busca e acaba onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza
Mas não pode acabar minha tristeza
Enquanto não fizerdes vós, Senhora.”
— Luís de Camões
Conheci Adelina beirando os oitenta anos e os olhos azuis eram duas pedrinhas embaçadas pela catarata. Os cabelos longos perdiam-se numa extensa trança rala que descia, aonde terminava o lenço sobre a cabeça. Adelina, já curvada pelo peso dos anos, quase não sorria: era só uma velhinha. Para nós, os outros, precisava apenas de uma cama encostada na parede, onde prendesse as fotos em marrom e bege. Fotos com histórias cheias de risos e lágrimas. A história de Adelina nascia de um grande mosaico colorido que fui formando ao longo dos anos. Isto não é conversa pra criança, era o que eu ouvia enquanto a porta ia avançando contra o meu nariz. Dele tenho apenas o nome. João Ataíde era apenas um nome perdido nas bocas das tias. A foto pregada na parede da cama mostrava um homem, de média estatura, segurando um livro grosso com papéis saindo pelas páginas. A fotografia retratava um professor de escola primária do norte de Portugal. Eu olhava do outro lado da cama o homem incomodado sob a luz do sol. Minha avó Magnólia dizia que o pai atravessara o oceano em busca de melhores dias em terras brasileiras, encontrara nas dunas de areia do Espírito Santo a brasileira de olhos azuis.
Os fatos, que conheci depois ,vieram embaralhados. Sei que João e Adelina tiveram quatro filhos e que a moça da praia não fora o modelo de mãe e esposa que ele sonhara. Os portugueses que aqui aportaram, no fim do século XIX, eram dotados de tino comercial . Todos os Manuéis e Antônios de minha infância possuíam prósperas quitandas ou padarias. João Ataíde era um homem voltado para os livros; varava as madrugadas sob luz da lamparina; lia e anotava incessantemente. A esposa não passara das carteiras do grupo escolar e não se seduzia por livros com estórias transbordando dentro. Assim foi formando-se, pela erosão dos dias, um imenso buraco entre os dois. De um lado Adelina e seu cesto de peixes, do outro João e os poemas dos livros. Hoje, entendo porque as mulheres da família apontavam Adelina como o avesso do pano. Todas do álbum de fotografia tiveram muitos filhos e enfrentaram altivas os problemas que entram pela porta com a filharada e pouco dinheiro. Todas permaneceram de pé, até o último ato.
Um dia, a moça da praia olhou o professor do outro lado da sala. Viu apenas um terno puído e um homem franzino dentro. O som lusitano da voz já não lhe era canção ao vento. Sonhara com um português comerciante e uma mesa farta, cortinas que voassem em rendas pela janela e mais que peixe miúdo e guandu sobre a mesa. Distribuiu os filhos entre os vizinhos, prendeu os cabelos numa trança bonita e bateu a porta.
Neste ponto perdemos João Ataíde. Nunca perguntei às tias o que ele fez da vida. Voltou para o Porto? Chorou as tardes na praia? Continuou lendo Camões sob a luz da lamparina? Na verdade, perdemos João e Adelina. Ela só apareceu diante dos filhos muitos anos depois do fim da Segunda Guerra. Um dia Magnólia, a filha, abriu a porta da casa e lá estava um cesto vazio. Em pé, ao lado do cesto, uma senhora de olhos azuis.
Quando conheci Adelina, beirando os oitenta anos, já se chamava Dindinha, usava xale e arrastava um chinelo grande. Dizia meu nome com muitos “is” no meio e falava que eu devia ser professora. Ensinar a ler , dizia, é coisa de gente abençoada, gente de alma boa. Nós olhávamos juntas o jovem avô da fotografia. Acho que ela pensava que aquele imenso buraco na sala poderia nunca ter crescido. Começamos a aprender pela dor e pelo que perdemos. O amor de João e Adelina não morreu, mudou-se para algum lugar neste universo imenso. Acredito, procurando na vastidão do céu pontilhado de estrelas, que um dia ela vai encontrá-lo no pátio da escola e estender-lhe um velho poema português. O rapaz ficará comovido com o interesse da jovem por literatura lusa e trocarão ideias afins. Aprendemos também pelo riso que vem junto com o que reconstruímos.
Luísa Ataíde
9ª Antologia dos AnJos de Prata- Contos e Crônicas, Editora All Print- 2007
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
PABLO NERUDA
Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
TRADUZINDO MANHÃS
LUIZ MARTINS DA SILVA
Ouço, vai amanhecer. São os trinados.
Daqui a pouco, diante do espelho,
Contemplarei novos antimilagres,
Mais uma ruga, mais um fio alvo.
Há muito eles vêm se ajuntando.
Um dia, não mais haverá dia.
Serão notas num molho de harmonia,
Acordes desde o harmônio de uma nave.
Um dia, uma noite, no ar,
O próprio arquétipo, sem as suas coisas,
Flutuando sobre um trigal ao luar.
A profecia da honradez prateada.
Oro, pois ainda é hora, da irreal fantasia.
O tempo! Ah! O tempo, temido algoz!
Manso e implacável rio, descolorindo fios,
Tangendo aluviões de vaidade até a foz.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
PARAMAHANSA YOGANANDA ( 0 iogue de Cristo)
“Não é pela concentração em dogmas que poderemos alcançar Deus, e sim pelo verdadeiro conhecimento da alma… Para mim, não existem judeus, cristãos ou hindus; todos são meus irmãos. Eu presto adoração em qualquer templo, pois todos foram construídos em honra de meu Pai”.
sábado, 28 de janeiro de 2012
CRÔNICA DE UMA PAIXÃO CRÔNICA
Santa Maria, há tantas. Santa Maria, há uma só. Santa Maria de tantos Josés e inúmeras Marias, há varias pelo Brasil afora. Mas Santa Maria, dos fatos inusitados, de tantos talentos e de gente boa como Zé de Maria, violeiro e ambulante, "retra(r)tista" e amigo, há somente uma: A nossa Santa Maria da Vitória...
Que outra Santa Maria é SAMAVI? ( Pra lhe ser transparente, Homem de Vidro, nunca Vi!) que outra consegue prender tantos andarilhos com uma Só Corrente? João-come-tudo, aqui arrotou com liberdade... Maria Ré-Ré, usou a marcha correta quando percebera que deixava a cidade. Cidade Riso, na boca do povo a qualquer hora, em qualquer hora, porque Zelino Jega Yéia continua vivo e o cirquinho dele agora é itinerante. Está nas "resenhas" no bar de Tampinha, nas esquinas da Leopoldo, na Rua dos doidos, no Malvão, Macambira ou nas anedotas de Salvador. Não Salvador do Mercado Modelo, mas de Salvador do Mercado, somente. é verdade! Esta Santa maria da "Contraditória" é assim: "Rua de cima" na parte baixa da cidade; Seu Alto era baixo; Zé leite, negro: As Carrancas do Mestre, quanto mais feias mais beleza expressam. Grande é pequeno; Pequeno de Maria Alegre é grande na liderança de um coletivo que não pára no ponto.
Quem de sua água bebe, mais sede de viver tem. Quem abusou da Farmácia do Nelito, adoeceu e bateu as Botas..."
(Adeus ingrata: Santa Maria Bateu na Lapa!!!).
Belisca-me oh! Irmã de Morais, desperta-me para compor versos irreverentes que sinceramente, não parece com ninguém. Assim como o céu de Santa Maria que não parece com nenhum outro. È extremamente lindo! Estirado numa esteira, contemplo-o sem compromisso e talvez por isso, adormece em mim uma Poesia que insiste não virar poema. Que bom! Assim , cada qual pode descrevê-la a sua maneira, poeticamente falando. Santa Maria é assim, com a mesma liberdade que os mais velhos põem cadeira na porta, uma moça pula da cama, só de camisola, e sem hesitar, nos mesmos trajes, acompanha a Alvorada da 06 de Outubro pelas ruas da cidade até que , sobre os telhados lá pelo rumo de Sambaíba, surge um clarão anunciando mais um nascer de dia, nesta cidade encantadora que renasce a todo instante para proporcionar a seus filhos e moradores a maior Vitória da existência humana: A certeza de que viver, cercado de amigos, respirando o ar puro desta cidade é mais que gratificante, é SA-MA-VI-TAL!!!
Por essas e outras, confesso-te: "Amar-te-ei de coração,
Oh! Santa Maria, minha Terra, minha Razão!"Parabéns pelos 96 anos!!! Um forte abraço do filho que te ama
Becê Ataíde
Nota do Blog: Santa Maria da Vitória (Bahia) completou 102 Anos em 2011, a bela crônica do Benilson foi escrita em 2005.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
ANO BOM
JULIO CAPILÉ
Estamos recebendo um ano novo. Um papel em branco para nele escrevermos parte de nossa história espiritual. Estamos consciente de que temos falhado em muita coisa durante o ano que findou. Alguns tiveram desditas, frustações, desentendimentos, dificuldades de toda ordem, mas , se fizerem um balanço entre o tempo de sofrimento e de alegria, estes estão sobressaindo. Tivemos lutas? Mas estamos aqui ainda em pé e com a obrigação de fazes deste ano um ano bom. Os antigos não cumprimentavam dizendo " Feliz Ano Novo" Chamavam o ano entrante de Ano Bom. Isto revelava a esperança que sempre deve ser renovada de que tudo ocorrerá melhor no futuro.
Temos à nossa frente trezentos e sessenta e seis dias bem novinhos à nossa disposição para enfeitarmos com nossos pensamentos e realizações. Com o conhecimento de nossas falhas anteriores podemos corrigir rumos, a fim de não insistirmos nas mesmas faltas. Mantendo-nos com pensamentos positivos teremos mais oportunidades de acertar. Somos falíveis, mas tenhamos em mente que não temos o direito de sofrer. Somos filhos de Deus e como tal, seus herdeiros. Deus não tem sofrimento e, consequentemente, não podemos herdar isso. Além disso, este mundo não é de sofrimento e sim , de provas e espiações. Portanto ,temos a obrigação de vivermos felizes.
Existem as pessoas que, psicologicamente, são sofredoras naturais. São incorrigíveis. Sofrem na alegria e na dor. São proprietárias das nosologias, cujos sintomas e desconforto, sentem. Dizem "a minha gastrite", "minha enxaqueca" . Em vez de dizerem que sentem a dor, dizem: sofro de dor no estômago, na coluna, nas pernas. Portanto estão ligadas ao sofrimento e, dessa forma. às dores, aos desconfortos e, dessa forma, o mal estar aumenta. Se pensarmos sempre positivamente e usarmos o verbo sentir em vez de sofrer, minimizaremos todos os males. O sofredor vive pensando sempre em si mesmo e pesquisando sensibilidades. O não sofredor não dramatiza os males de que é acometido, e, assim, não sofre, ou por outra, suporta melhor as dores. não as apregoa e nem se queixa. O sofredor é queixoso.
Portanto, pensemos no bem e escrevamos as páginas deste ano com atos felizes , esforço para errarmos menos, boa vontade para com todos inclusive para com "os que nos maltratam e caluniam". Procuremos servir sempre, ter paz interior, evitar pensar no mal, praticar a caridade em todas suas nuanças, ter alegria de viver, procurar transmitir alegria em todos os ambientes em que estivermos, lutar por compreender nossos semelhante, usar só palavras que estimulam e confortam e amar tanto quanto possível a todas as pessoas. Se assim procedermos teremos no final um ano bom.
Deus é Felicidade, é Abundância, é Vida Plena. Portanto vivamos felizes. Temos a grande felicidade: somos filhos de um Pai que não tem defeitos!
Nota do Blog: Júlio Capilé é um jovem médico de 96 anos.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
ACEITAÇÃO
Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
MINUDÊNCIAS DIVINAS
Luiz Martins da Silva
Já por mim, é do meu feitio gostar de certas nódoas,
Postas como flagrar quando Deus desce das maiúsculas
E vem cear no orvalho das carícias sobre musgos,
Delícias de liquens sobre rugosas superfícies.
É nesses momentos de incontido júbilo
Que olho para os céus e, nos desenhos de nuvens,
Cismo de ver como entes voláteis, mas insinuantes,
Combinam devaneios de enviar para cá as substâncias.
Eu escrevo estas lereias como se fossem homilias
De um novo, mas velhíssimo culto do bucólico,
Afeito a contemplações de texturas caóticas,
Mas que são dos oráculos reveladoras trilhas.
Dos oceanos emanam atenções magnânimas,
Por vezes, pavorosos duelos de titãs.
Mas que no seu arrebatamento espetaculoso
Apenas revolvem e reciclam intimidades ínfimas.
N’outro dia, alguém sabendo-me desses bobos:
“Olha, fotografa, você que gosta desses troços...”.
Ora, eram radiantes recém-nascidos cogumelos,
Esgueirando-se inaugurais de uma tampa de esgoto.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
BETELGEUSE- A LUMINOSA DE ÓRION (conto)
A constelação de Órion apresenta a forma de um quadrilátero com as Três Marias no centro. O vértice nordeste do quadrilátero é formado pela estrela avermelhada Betelgeuse, que marca o ombro direito de Órion. O vértice sudoeste do quadrilátero é formado pela estrela azulada Rigel. Betelgeuse e Rigel são as estrelas mais brilhantes da Constelação.
Houve um tempo em que a Astronomia confundia-se com a Astrologia. Os mapas findavam-se em contornos retos e as estrelas, ainda pagãs, espalhadas na vastidão noturna faziam do céu um espetáculo a quem quisesse ver. Os sacerdotes da Pérsia que não eram reis, santos ou magos, pressentiram que a grandiosidade da luz simbolizava o nascimento, em algum lugar do Oriente, do rei de todos os reinos. Conta-nos o Livro Sagrado que munidos de incenso, ouro e mirra seguiram a estrela, que parou sobre a casa onde dormia o menino-Deus. Para alguns céticos, Gaspar, Melchior e Baltazar, talvez nunca tenham empreendido a viagem até Belém e a estrela, para o Evangelista, simbolizasse a fé, assim como o ouro simbolizava a riqueza, o incenso a espiritualidade e a mirra a imortalidade. Contudo, astrônomos, posteriormente, confirmaram a presença do fenômeno luminoso, à época, embora os calendários se contradigam na precisão da data. O certo é que aquela poderia ser a estrela mais brilhante da constelação de Órion e cujo brilho para realmente ser visto, necessário faz-se que fechemos os olhos e sigamos o pulsar das batidas do coração. Uma vez misturados os sentidos, poderemos ver por todos os poros do corpo, ouvir pelo êxtase das pupilas e sentir o toque acre ou doce da pele entrar pelo centro da cabeça e escorrer como rio caudaloso por todos os órgãos do corpo.
ESTAÇÃO DE PASSAGEM
Mintaka é uma das três entradas da Estação de Passagem a sítios mais distantes. As manhãs são envoltas em neblinas e uma chuva fina cai incessantemente e incomoda quando toca os ombros. São lágrimas das mulheres, as mães, cujas silhuetas desenhadas pela parca luminosidade, formam um círculo extenso que contorna o cinturão de Órion. Eles, por sua vez, chegam em pequenos grupos. São muito jovens e falam pouco ou quase nada. O véu do esquecimento deixou-lhes um vasto buraco negro na memória, contudo um rasgo pequeno deixa-lhes a última cena gravada, num vai e vem contínuo. Se levantarmos a ponta do véu a hipnose individual cai ao chão como pequenos cristais e a cena, antes fragmentada, ganha movimento e vida.
A moça olha para trás subitamente como se ouvisse o ruído forte de frenagem de pneus. Os olhos rendem-se ao pavor da luz do farol que avança em grande velocidade. O baque forte do encontro dos carros quebra o silêncio que havia em volta. Ela sente o corpo arremessado pra frente e cai. Os outros caminham ao redor e presos ao ímã de sua própria fatalidade, seguem em frente. Ela chora em demasia e se contorce de dor.
DEZEMBRO
Quando as luzes intermitentes do planeta anunciam a comemoração do nascimento do Cristo, as ruas vestem-se de cor e sonhos e as lojas os vendem embalados em laços coloridos. Os anjos da misericórdia sopram sobre as casas uma mistura analgésica de fraternidade, esperança e fé. Contudo, em meio ao som dos cânticos natalinos, da urgência das lojas e festas há um som abafado de dor que prende a tarja do luto como uma guirlanda negra presa à entrada das casas. De toda saudade pelas vítimas da violência urbana, dos acidentes de trânsito, das intempéries climáticas, entre as vítimas das escolhas indevidas, está o soluço forte das mães dos jovens que habitam a Constelação de Órion. Que canto lhes alegraria a alma? O que poderia interromper subitamente o punhal arremessado ao peito?
Em Mintaka, Alnilan e Alnitaka, as Três Marias do cinturão de Órion, era noite de Natal. A Estação de passagem e apoio aos jovens, que deixam bruscamente suas casas e não mais retornam, foi invadida pelo som de harpas e flautas. As vozes dos cantos gregorianos, contrariando a ordem natural da rota de mensagens, acordaram os anjos e as almas. O som veio de algum lugar do planeta, cruzou as paredes de pedras, dançou sobre planícies e rios e subiu ao céu. Os jovens chegaram às janelas dos hospitais e olharam a noite, o tabuleiro estrelado que se abria sobre suas cabeças. Os anjos trabalhadores do Cinturão de Órion ouviram o som miraculoso dos cânticos. Não havia a sombra das silhuetas no portão de entrada e a chuva fina cessara subitamente. Além da Nebulosa, além do cintilar dos pingentes de brilhantes, as mulheres dormiam. Betelgeuse, uma das luminosas da Constelação emitia seu esplendor sobre a noite escura. A estrela erguia seus raios como uma torre impera sobre um reino de beleza e luz.
Chegaram: Gaspar, Melchior e Baltazar. Um deles era tão jovem quanto os meninos de Órion. O do meio era um homem feito e o último tinha barbas brancas e uma harmonia que irradiava, quando ele olhou tudo em volta. Logo depois, chegaram as mães. Elas vinham de chinelos e roupas de dormir. Algumas traziam um rosário entre os dedos, outras apenas um livro pequeno. O canto dos monges viajava entre os ouvidos e fluía por todos os poros do corpo. Os jovens, das janelas, olhavam lá embaixo: os camelos, os sacerdotes da Pérsia e o riso das mulheres. Ali, naquele momento, era possível morrer apenas a saudade.
Primeiro eles mandaram bilhetes e cartas. Os papéis voavam das janelas e as mães corriam em direção a eles. Elas acenavam aos rostos conhecidos e riam. Um riso cristalino e farto como um rio. Os meninos desceram as escadas em direção ao redemoinho de papéis. Os três reis reconheceram a estrela que os conduzira há muitos anos, sobre mares, montanhas e desertos. Betelgeuse atravessou as fronteiras da galáxia, e o Criador envolto num novo projeto de ampliação do Universo sorriu por breve instante. Havia a chuva de pingos cintilantes, sobre os visitantes de Órion.
Luísa Ataíde
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