quinta-feira, 28 de junho de 2012
REFLEXÃO
Dormimos nas cavernas escuras de nossos sentimentos
Ancoramos inertes no fundo de uma vida que estagna-se.
Necessário abrir os olhos da amorosidade.
Não há noite.
Há um dia claro
Sob as águas abissais de nossos corações
As flores cantam e vibram
As florestas crescem , a luz do sol avança.
A criação abre suas flores e frutos e nos dá dádivas de alegria.
Necessário trabalhar o contentamento para se chegar a alegria
A amorosidade edificará o pleno amor ao próximo
A plena felicidade de ir em frente.
(sopro ao ouvido- 27/06/2012)
quarta-feira, 27 de junho de 2012
TERESA FERRER PASSOS
" _ Sinto no meu coraçao a ideia de que a vida é um feitiço maravilhoso; esta vida que eu tenho brotou das paredes da morte em que repousva nesse grande ovo, com movimentos quase imperceptíveis, e depositado nas margens arenosas e húmidas deste rio suave como a espuma de um mar imenso..."
Teresa Ferrer Passos (Lisboa- PT)
Em: O Grão de Areia, contos- Universitária Editora, 1996.
terça-feira, 12 de junho de 2012
CARRAPICHO
um poema de amor
Luiz Martins da Silva
Guardei-a, afeito ao rijo e rude velcro,
Às melhores imagens de um bom tempo;
Ainda lá, no mesmo nicho, bem estreito,
Cingindo-nos em único e presto arbusto.
Lábios mais são garras, unhas de agregar vinhas;
Andorinhas, notas, pingos, chuviscos, melodias...
Mais ainda são os olhos, claves da memória;
Justo o não-sólido é o que mais se faz lua cheia.
Exatamente, por não se ferirem de matéria,
São majestosas geometrias, invisíveis catedrais,
Tapetes do sem fim pelos mármores da ternura.
Sou, hoje, ávido grude, minha parte temerária;
De buscar a ti e a tua parte, nem sempre sôfrega,
De viver como eu, o que é de nós e o quanto antes.
sábado, 9 de junho de 2012
PERCEPÇÃO
"Nós aprendemos a conhecer Cristo de modo particular através dos missionários cristãos, e foi, muitas vezes, seu modo de ser cristão que nos escondeu Cristo. Até hoje eles têm procurado destruir nossas práticas religiosas com sua doutrina, forçando-nos a combatê-los para nos defendermos. Quando o homem luta, ele não é isento nos julgamentos. Assim nós, todos envolvidos pelo combate, ao golpear os cristãos, golpeamos também Cristo. E pensar em golpear como inimigos os grandes homens da terra é um suicídio. Na realidade, demonstrando o ódio pelo inimigo, estamos envilecendo os grandes ideais de nosso país, estamos nos apequenando."
Rabindranath Tagore - NOBEL DE LITERATURA,1913.
NOTA:
Rabindranath Tagore nasceu em 7 de maio de 1861, em Calcutá, Índia, então sob domínio britânico. Tagore era filho do reformador religioso hindu chamado Devendranath Tagore, que se encarregou de sua educação por não concordar com as coerções do ensino clássico. Entre 1878 e 1880, o escritor esteve na Inglaterra e conheceu a literatura e a música européias. O gênio prolífico e criativo do escritor se traduziu ao longo da vida numa vasta obra que abrangeu todos os gêneros e estimulou a renovação da literatura em língua bengali.Tagore faleceu em Santiniketan, Bengala, 1941, em 7 de agosto de 1941. Aclamado por Gandhi como "o grande mestre" e reconhecido por todos os indianos como "o sol da Índia".
domingo, 27 de maio de 2012
UM BOSQUE NEGRO DE LUZ
MARIA AZENHA- Portugal
ele voltou a cabeça.
não revelou os gestos........que talvez os olhos
fossem cegos
iluminou-se entre pequenas faúlhas de ciprestes
interpelou as árvores dos bosques com poemas de acenos
ao crepúsculo,
estávamos às escuras.
disse: isto é o mundo
temos de o percorrer............com vogais nas mãos
e os pés unidos........em forma de borboleta
colocar asas na boca..........porque as imagens não
podem voar para trás.........respirar nos frutos
de cara voltada para a luz
quando fechei o livro,.........ele tornou a
voltar a cabeça.
sabia que dançar é a história do Uni-verso
vi-o de costas............era belo
e cego.
domingo, 20 de maio de 2012
VERSOS ÍNTIMOS
Augusto dosAnjos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija.
Gentilmente enviado por Osmar de Oliveira Aguiar
sábado, 28 de abril de 2012
EXTREMA FIDELIDADE (Mini conto)
Tente acompanhar agora o ruído do relógio, não há como evitar que os ponteiros caminhem, mas vem o dia que, por se ter provado o fruto, a gente se descobre nu. Mas há os antes e foram estes:
Era o seu quinto aniversário. O ruído da louça e o cheiro de bolo trouxeram-no à cozinha. Expiou e por detrás da cortina. Puxaram-no. Vieram as ordens: Tomar banho, lavar as orelhas, cortar as unhas. Não suje a roupa. Senta aqui. Ah, tira a mão do bolo!
− Como você está bonito!
Chegaram os tios, os primos. Veio aquele presente comprido, outros pacotes. Ah, aquele presente enorme... aquele presente. O tio abriu-o bem debaixo do seu nariz:
− Cuide dele, não deixe ninguém riscar.
Era um espelho. Sobre ele uma gravura chinesa. O menino passou a ser parte da gravura. Vieram os parabéns, o sopro, os abraços. O menino na gravura, grudado nela. O espelho colocado no canto da sala refletia seus olhos grandes. Duplicou a música, triplicou os balões, eternizou o “Viva!”
− Cuide bem dele.
O dia seguinte acordou-o cedo. Correu à sala. Rastros de bolos no espelho.Não viu. A gravura quase branca sobre o vidro era tão...Viu-as. Moscas passeavam tranquilamente por seu território. Refletiam as patas sobre o desenho claro. O guardião do templo saiu à porta, olhou os campos. A respiração foi freando, freando, muitas vezes. Desceu-lhe o suor dos grandes guerreiros. Correu à porta da cozinha, puxou a vassoura. Ergueu sua espada por sobre a cabeça e disparou de volta. Antecipando toda a força do homem que um dia haveria de ser, arremessou-a em direcção ao inimigo.
O barulho dos cacos acordou a casa, o barulho da casa sacudiu-lhe os ombros.
Luísa Ataíde
quinta-feira, 26 de abril de 2012
O SORRISO DA BORBOLETA
FERNANDO PASSOS- Lisboa, Portugal
O Sorriso da borboleta surgiu sem avisar no espelho negro
E esvoaçou por instante em torno do meu rosto.
O azul das paredes tornou-se mais escuro.
Em letras prateadas, surgiu uma fórmula no ar.
Empalideceu a luz de néon.
Caíam frases secas, uma a uma , no papel.
Corou Gioconda de vergonha,
Ante o mais estranho dos sorrisos.
Imagem- Flicr, amigos do Poeta.
terça-feira, 24 de abril de 2012
MARCHA
Cecília Meireles
Quando penso no teu rosto
Fecho os olhos de saudade;
Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos tristes,
Por sonhos claros que invento
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.
terça-feira, 17 de abril de 2012
CRÔNICA DA CIDADE 16/04/2012
CEMITÉRIO DE ESTRELAS
Certa noite, Maria Luisa Ataíde teve um sonho com o escritor português Camilo Castelo Branco, autor de Amor de perdição, Amor de salvação e tantos outros clássicos. Carioca, mas de família maranhense, desde a adolescência, ela devorou romances com a devoção dos leitores tão apaixonados que se tornam escritores. A partir sonho com Camilo, começou a fazer uma varredura nos sebos à procura de livros do escriba, um dos grandes mestres da língua. Mergulhou no universo romântico, conturbado, dramático, passional, perpassado pela perdição e pela salvação. Sem que se desse conta, acabou constituindo uma coleção camiliana de exemplares raros e raríssimos. Havia um livro, Herança de lágrimas, de autoria de Ana Plácido, esposa de Camilo, publicado no século 19, tão raro que nem a Biblioteca Nacional de Portugal tinha mais em seu acervo.
Ao saber, Luisa entrou em contato e se dispôs a doar a preciosidade para que ficasse guardada com todo o desvelo merecido. Havia um empecilho: eles não dispunham de recursos para financiar a viagem até Portugal. Mas essa história que começou com um lance de literatura fantástica ou bíblica reservava outras peripécias surpreendentes. Luisa mora em Brasília desde 1975 e trabalha no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. O TJDFT promove, anualmente, um concurso literário para os seus funcionários e ela resolveu se inscrever nas três categorias: poesia, conto e crônica.
Ela varou madrugadas, escrevendo e reescrevendo, incessantemente, um conto sobre a vida de Camilo, intitulado Cemitério de estrelas. A narrativa evoca a estrutura dos textos do argentino Jorge Luís Borjes, pois o ensaio se mistura à ficção. Evoca o dia de junho de 1890, em que Camilo Castelo Branco, nascido em 1825, autor de mais de 200 livros, resolve dar um ponto final em sua vida, ao passar por uma grave crise existencial em razão da descoberta de que estava irremediavelmente cego. O texto começa em um tom bastante realista e documental, mas logo envereda por uma dimensão fantástica, pois a narrativa é conduzida pelo ponto de vista de uma legião de personagens, habitantes do limbo de um “cemitério de estrelas”, à espera de ganhar o direito à vida nos livros, mediante a decisão do escritor: “A espada é pena umedecida em tinta a escolher a esmo, um ou dúzias de nós para conhecer a luz dos dias.”
Os personagens entram em desespero ao perceberem que o escritor, com o poder de insuflar-lhes o sopro da vida, não existe mais. Vislumbram um rapaz parado do outro lado da ponte. É Simão Botelho, personagem de Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco, que acena e grita: “Todo amor, acreditem, é de salvação!”. Os candidatos a personagens da ficção de Camilo jazem no cemitério de estrelas. Logo depois da morte do escritor, um misterioso incêndio arrasou com a casa onde morava: “Somos ferro, pedra, poeira e pó. Sopro divino a remover cinzas”.
Luísa não ganhou o concurso com o conto Cemitério de estrelas. Em compensação, conquistou o primeiro lugar na categoria poesia, com um despretensioso poema intitulado Memórias brancas, dedicado a Ana Plácido. Com o dinheiro ganho no concurso literário, Luisa pôde ir a Lisboa entregar, pessoalmente, o exemplar raríssimo de Herança de lágrimas para a Biblioteca Nacional de Portugal. Camilo deve estar bastante satisfeito, se é que não foi ele quem armou tudo isso.
Nota do Blog: O Concurso Literário deu-se em 2008 e foi patrocinado pelo Sindicato dos Sevidores da Justiça.SINDIJUS. A entrega do livro de Ana Plácido em Portugal deu-se pelo esforço da escritora portuguesa que mora em Lisboa, Teresa Passos, junto à BNP.
O jornalista Severino Francisco surpreendeu-me com esta crônica linda e não houve tempo de revermos alguns detalhes. Grata a ele pelas palavras .
Luísa Ataíde
CÉMITÉRIO DE ESTRELAS
MEMÓRIAS BRANCAS
quarta-feira, 4 de abril de 2012
OS OLHOS DE TOMÉ (CONTO)
“Tudo consumado, como era para ser.
enquanto nuvens rasgam de púrpura
as vestes sanguíneas do crepúsculo...”
Gólgota, Luiz Martins da Silva.
Imagine, um grande campo a ser plantado. Imagine que abaixo do que você vê, as sementes tentam romper o solo. Todos os dias você vai lá fora e olha o campo. Ele é um vasto terreno deserto. Nem uma simples erva balança sua folha ao vento. Uma manhã, alguém vem visitá-lo e, já da porta, olha o seu quintal. Abre os braços admirado com a fartura dos frutos das árvores. Puxa da terra folhas grandes e suculentas e enche cestos com hortaliças e maçãs. A abundância esteve todo o tempo ali e você não viu.
SEGÓVIA- ESPANHA
Julian Esteves olhou a avenida de pedras e a arquitetura do aqueduto com seus arcos empilhados. Julian captou a imagem, para seu arquivo de fotos de diversos ângulos. Por alguns instantes pensou no que lhe dissera o guia da viagem. A construção feita pelos romanos diminuíra consideravelmente ao longo dos anos. Ainda é um espetáculo para ser registado, pensou, enquanto seus olhos eram invadidos pelas falanges de pedras.
A tarde misturava as cores dos vitrais às hastes da Catedral de Segóvia quando o rapaz cruzou as muralhas do claustro do Monastério. Subiu os poucos degraus do pórtico da entrada e olhou as colunas altas findadas no rendilhado bordado das abóbodas das naves. A hora do crepúsculo era um salto no silêncio entre o dia e a noite - a hora do zumbido dos grilos, da procissão das aves de volta aos galhos das árvores.
O cheiro adocicado do jardim deslizava pelos corredores vazios. Havia os arcos de pedra abertos à cidade murada. Seus pés estavam ali, na estreita faixa das janelas, e podia sentir sob os sapatos os riscos do cimento. Ainda era possível captar a imagem na rasa luminosidade da tarde. Esgueirou o corpo entre as aberturas laterais e direcionou a câmera em direção ao que os olhos alcançavam: o contorno da Serra de Guadarrama. Mas , havia o ruído que vinha de dentro da sala, curvou o corpo de volta e caminhou pelos corredores vazios. O silêncio sepulcral das paredes altas e os contornos dos anjos, focados pela réstia de luz que entrava pelos vitrais gritavam-lhe aos ouvidos. Mas o que exatamente parecia ouvir? Era um emaranhado de vozes e cânticos. Os sons batiam nos muros de pedras e deslizavam de volta entre os fios dos cabelos. Desciam em cascatas através dos pelos dos braços e pernas e retornavam às colunas em ciclos de ondas. Julian sentiu o ritmo forte do pulsar de seu sangue e seus olhos abriram-se como os cálices de cristal perfilados diante do altar.
A claridade abraçava as colunas de sustentação e saltavam gotas minúsculas de luz no piso do claustro. O rapaz caminhou em direção aos degraus diante do pátio de terra, aberto ao vento, ao fim da tarde. Pensou estar num cenário de teatro. Ali o terreno alto , a pouca distância, a enorme cruz de madeira fincada sobre o chão. Ao fundo, um crepúsculo púrpuro numa tarde que sangrava luz. A partir dali, não conseguia caminhar em nenhuma direção, pois a imagem rodopiava ao seu redor abrindo o risco completo do compasso. Estendeu, num gesto inútil, a mão para alcançar. Havia o sangue escorrido até o chão onde formava manchas de vários tamanhos. O soldado usava uma armadura de ferro cuja parte frontal, mais clara, tinha riscos sobre o peito largo. Olhava para o alto, enquanto lançava ao ar frases de escárnio e desafios. Por breve instante, o Centurião olhou na direção da porta e pareceu ver o estranho. Julian virou-se bruscamente e estava de volta aos corredores de pedras. Buscou a sala mais uma vez e não encontrou a saída para o pátio de terra. Indagou aos frades, ao guia, às pessoas, onde estava a porta. Não havia nenhuma saída, nenhuma porta, nenhuma escada que conduzisse ao pátio. Percorreu diversas vezes o mesmo caminho. Não havia o pátio de terra.
Julian Esteves deixou Segóvia com as primeiras estrelas no céu e a impressão de estar entre o susto e a razão. Mas o que é a razão senão a realidade que nossos sentidos alcançam, pensou. A moça da poltrona ao lado viu entrar no ônibus um rapaz e sua câmera, provavelmente um estudante em férias e sorriu. O motorista aborrecido pela espera viu um turista chegar atrasado. As rodas dos pneus deslizaram sobre as ruas vazias e o rapaz olhou as muralhas da cidade afastarem-se e sumirem aos poucos no retrovisor da janela. Ouvia o ruído, cada vez mais distante, das águas do rio que descia as encostas da serra de Guadarrama.
No jardim do Mosteiro, dois homens conversavam:
– Você parece preocupado. O que houve?
– Perdi minhas pedrinhas de luz, elas estavam aqui nos meus bolsos...
– Não se preocupe, mal nenhum pode fazer.
– Às vezes, elas dão a quem as encontra à ilusão de um salto de consciência.
– Uma consciência externa conectada com a sua consciência interior que se for elevada irá captar o que as paredes deste Templo produzem: a presença do Cristo. Lembra quando nós o encontramos na estrada de Emaús?
– Sim, nunca poderia esquecer, nós não o reconhecemos. Conversamos com ele, falamos da nossa desilusão em perdê-lo sem saber que estávamos diante do Cristo ressuscitado. Só depois quando ele elevou nossas consciência ao nível que podíamos contemplá-lo foi possível vê-lo.
– São os caminhos prévios por onde caminha a fé. A nossa percepção da realidade construída com nossas vivências. Se não percebemos a importância espiritual da realidade, se não nos abrimos a essa percepção, a nossa visão particular só atingirá a matéria. Enquanto persistirmos seremos céticos. Se nos abrirmos ao conhecimento já é o preparo da terra para a colheita. A Paz, a Saúde, A Alegria e o Amor, esta é a terra de leite e mel à nossa disposição. Uma colheita que pode começar com a boa vontade do conhecimento. Pois ninguém que se abre de perto à vida e aos ensinamentos de Jesus deixará de amá-lo.
A lua abriu seu lume sobre um ônibus que desaparecia nas curvas das montanhas de Segóvia. Estendeu seu facho de luz sobre dois vultos que conversavam no jardim do mosteiro, sobre um aqueduto secular, de braços abertos aos visitantes da cidade. Espalhou as minúsculas poeiras cintilantes nos quatro cantos do planeta, misturando-as à atmosfera a ser absorvida pelos que naquele momento levantavam-se para mais um dia de trabalho, liam o jornal da manhã, atravessavam a cidade em seus carros apressados. Sobre os que batiam as mãos no peito da incredulidade, aos que soluçavam nos leitos dos hospitais. Aos que riam e cantavam pela simples razão de serem presenteados com mais um dia.
Luísa Ataíde
quinta-feira, 15 de março de 2012
OUTRO DIA
Luiz Martins da Silva
Eia, pois, aqui,
agora e sempre,
Regando esperanças
de colheitas,
Com suavidades
de orvalho
E doçuras de colibris.
Chovem sobre a
terra
Com a força das
sementes
Dádivas que já
leio em cestos
Abarrotados de serestas.
Você é quem amansa
Esta nova aragem
Que aquieta o
fogo
E acalma as águas.
Daqui a pouco,
feito brisas,
As crianças despertam,
Como pássaros de
flores
Em seus
uniformes de manhãs.
Ama e louva
este povo
Que vem a ti de
novo
Acariciar teu
pão
E aromatizar teu
café.
Não turva tua
fé.
De ira, nem um
pingo.
Aproveita esses
degraus de ternura,
Tapete leve que
te eleva aonde estás a ir.
quinta-feira, 8 de março de 2012
LAR
O teu coração é tua nova casa.
A outra perdeu-se na neblina distante da memória.
Nao insitas nas portas antigas,
nas salas escuras de tua alma.
O teu coração é teu afeto e tua nova realidade.
As casas feitas pelo Pai
estão abertas ao conhecimento, à boa vontade e a fé.
Abra o teu coração,
habite-o
renove-o, ornamente-o com as flores da paz.
Aceite.
O teu coração é tua nova casa.
(sopro ao ouvido- 07/03/2012)
imagem: óleo sobre tela- Gilbert Williams
sábado, 3 de março de 2012
O POÇO DOS DESEJOS (CONTO)
“Aquele
que segue o caminho do guerreiro, não visa somente a vitória, e
sim esclarecer a vida e suas peculiaridades.Deve-se
sempre cultivar e aperfeiçoar, traçando a meta, na evolução de
si mesmo, descobrindo e definindo seu bushido, ou seja, seu
caminho de volta."
Tenzen Ito (Séc. XVII)
O
jovem Samurai Yuzo completava naquele dia dezesseis anos. Olhou
pela janela do Castelo Daimyo e avistou a imensa paisagem verde
e as montanhas de Kobe que contornavam a paisagem da manhã. O
menino guerreiro habitava a torre central e mais alta da
residência aonde se instalavam os cavaleiros cujo ofício e meta
de vida era a defesa do Clã. A luz em forma de espada
atravessava o corredor do quarto, o que denunciava que há muitas
horas o dia amanhecera. O Silêncio nos alojamentos que ladeavam
o quarto era grito aos ouvidos:
Um
Samurai só se entrega ao sono da morte.
Enquanto todos os jovens soldados espalhavam-se entre os
jardins, templos e ruelas, Yuzo detinha-se diante do reflexo de
seu rosto no prato de água sobre a mesa de pedra. Afundou as
mãos na água e as trouxe ao rosto. As gotas desciam dos dedos em
movimento rápido e sentiu a umidade fria o despertando para o
dia. Há semanas uma voz interior o incomodava. Há dias os
rituais do templo se apresentavam sem as cores habituais do
arco-íris. Não havia mais sabor no arroz cozido, não havia
nenhum sentido na disciplina dos exercícios de guerra. Para ele
todas as chamas da casa iluminavam unicamente a porta do
calabouço aonde eram guardadas as provisões de inverno.
O rapaz desceu
as escadas estreitas aonde a luz ia findando-se à medida que
avançava. O menino Samurai não soube quanto tempo esteve sentado
nos degraus gelados do subsolo do castelo. As pupilas se
misturavam ao escuro e acostumadas à pouca luz davam-lhe a
nítida impressão que este era seu real habitat. Olhou sobre os
ombros a pequena abertura na parede perto do teto e lá fora
estava o caminho das nuvens. A estreita porção do céu oferecia
uma nesga de luz ao quarto escuro. O jovem continuava sentado na
base alta dos degraus e as pernas balançavam frente à parede de
pedra. Com o arrastar das horas já não via a luz da manhã.
Ergueu os olhos sobre os ombros e descobriu na pequena abertura
a pouca luminosidade da lua. A voz que vinha do peito era um
uivo de lobo em noite de lua. Sentia o sangue descendo em
abundância sob a armadura, mas o Jovem Yuzo não sabia o tamanho
da espada que o cortara. As lembranças estavam se tornando
branquinhas
como areia entre os dedos e distantes como um canto de infância.
Um novelo embaraçado de pensamentos e sentimentos contornava-lhe
a alma e o arrastava para o fundo. O rapaz sentia-se preso
entre os degraus de pedras e o brilho da lua.
Deitado sob o
braço direito, viu o pequeno inseto que na
luminosidade rodopiava a janela. A minúscula
borboleta dava voltas em torno de si como um beija-flor em
movimento. O menino olhou demoradamente o bailado dela.
Seria uma borboleta ou um grande inseto de luz perdido do grupo?
O bichinho alado entrou no calabouço e percorreu os sacos de
mantimentos. Passou sobre a cabeça do jovem, rodopiou-lhe os
ombros. Yuzo levantou-se rápido tentando alcançar o que era
realmente uma borboleta luminosa. O animal inquieto avançou
sobre os degraus estreitos que conduziam à saída do Depósito de
alimentos. O rapaz corria agora atrás das asas pelos
corredores do palácio. O inseto corria entre as árvores do
Jardim e o jovem guerreiro esqueceu-se da ferida e do sangue que
lhe encharcara as roupas durante todo o dia. A branda
luminosidade mesclava com a neblina da madrugada. O
menino caminhava devagar, pois que já não via a borboleta e nem
mesmo as árvores. A luz do sol chegava entre a vegetação da
planície, vinda lá das altas montanhas que contornavam o lugar.
A luz em forma de espada terminava para Yuzo em um poço de
pedra. Lembrou-se da estória do poço que seu avô sempre
contava à Hora do Chá. Ali estava O Poço dos Desejos dos
primeiros Samurais. Há muitos anos o
Imperador mandara cobrir o poço sem água, pois que agora servia apenas de berço às aves mortas e meninos
desatentos. O jovem aproximou-se do Poço e viu sua imagem refletida. A palidez do rosto
denunciava a falta de alimentação e a tristeza. Deteve-se por
alguns instantes diante do reflexo que balançava lentamente
entre o contorno das pedras. O avô contara que os primeiros
Guerreiros Samurais quando dirigiam-se para uma grande batalha
olhavam, antes naquelas águas sua imagem refletida. Se não
conseguissem visualizar o reflexo seria o caminho inevitável da
morte, o que era tão honrado quanto a volta vitoriosa. O Soldado
Samurai lançava então sobre as águas um desejo de que qualquer
que fosse o seu destino haveria de ser coberto pelo manto da
Honra. Buscava pela segunda vez a imagem. Na verdade, explicava
o avô, o poço refletia o destino da alma de um guerreiro,
pois que a Morte não é eterna, a Honra sim. O menino olhou mais
uma vez seu rosto estampado na água. O brilho da luz do sol em forma de
espada estendia-se verticalmente sobre os ombros e a armadura
ganhara uma cor dourada. Seu rosto roubara do arco-íris o tom
róseo e seus cabelos desciam negros e brilhantes sobre a
armadura de guerra. O menino avançou a ponta dos dedos em
direção ao poço de pedra na tentativa de alcançar a imagem do
valente guerreiro.
–
É você Yuzo!
Voltou o corpo em busca da voz. Ouviu o silêncio
entre as árvores e viu a neblina se desfazendo entre as
primeiras luzes do dia. O menino Samurai olhou o castelo Daimyo
e a imensa planície verde ao seu redor. A voz interna não era
mais um lamento, e decidiu chegar à torre mais alta antes do
despertar dos soldados no alojamento. Um jovem e honrado Samurai
disparou entre as árvores do jardim do castelo de volta ao seu
exército. Muitas batalhas ainda travaria até caminhar
com a espada deitada sobre os braços e entregá-la aquele que
criara as planícies, rios e montanhas.
Luísa Ataíde
domingo, 26 de fevereiro de 2012
JOÃO E ADELINA (CONTO)
“O tempo acaba o ano, o mês e a hora
A força, a arte, a manha, a fortaleza:
O tempo acaba a fama e a riqueza
O tempo o mesmo tempo de si chora:
O tempo busca e acaba onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza
Mas não pode acabar minha tristeza
Enquanto não fizerdes vós, Senhora.”
— Luís de Camões
Conheci Adelina beirando os oitenta anos e os olhos azuis eram duas pedrinhas embaçadas pela catarata. Os cabelos longos perdiam-se numa extensa trança rala que descia, aonde terminava o lenço sobre a cabeça. Adelina, já curvada pelo peso dos anos, quase não sorria: era só uma velhinha. Para nós, os outros, precisava apenas de uma cama encostada na parede, onde prendesse as fotos em marrom e bege. Fotos com histórias cheias de risos e lágrimas. A história de Adelina nascia de um grande mosaico colorido que fui formando ao longo dos anos. Isto não é conversa pra criança, era o que eu ouvia enquanto a porta ia avançando contra o meu nariz. Dele tenho apenas o nome. João Ataíde era apenas um nome perdido nas bocas das tias. A foto pregada na parede da cama mostrava um homem, de média estatura, segurando um livro grosso com papéis saindo pelas páginas. A fotografia retratava um professor de escola primária do norte de Portugal. Eu olhava do outro lado da cama o homem incomodado sob a luz do sol. Minha avó Magnólia dizia que o pai atravessara o oceano em busca de melhores dias em terras brasileiras, encontrara nas dunas de areia do Espírito Santo a brasileira de olhos azuis.
Os fatos, que conheci depois ,vieram embaralhados. Sei que João e Adelina tiveram quatro filhos e que a moça da praia não fora o modelo de mãe e esposa que ele sonhara. Os portugueses que aqui aportaram, no fim do século XIX, eram dotados de tino comercial . Todos os Manuéis e Antônios de minha infância possuíam prósperas quitandas ou padarias. João Ataíde era um homem voltado para os livros; varava as madrugadas sob luz da lamparina; lia e anotava incessantemente. A esposa não passara das carteiras do grupo escolar e não se seduzia por livros com estórias transbordando dentro. Assim foi formando-se, pela erosão dos dias, um imenso buraco entre os dois. De um lado Adelina e seu cesto de peixes, do outro João e os poemas dos livros. Hoje, entendo porque as mulheres da família apontavam Adelina como o avesso do pano. Todas do álbum de fotografia tiveram muitos filhos e enfrentaram altivas os problemas que entram pela porta com a filharada e pouco dinheiro. Todas permaneceram de pé, até o último ato.
Um dia, a moça da praia olhou o professor do outro lado da sala. Viu apenas um terno puído e um homem franzino dentro. O som lusitano da voz já não lhe era canção ao vento. Sonhara com um português comerciante e uma mesa farta, cortinas que voassem em rendas pela janela e mais que peixe miúdo e guandu sobre a mesa. Distribuiu os filhos entre os vizinhos, prendeu os cabelos numa trança bonita e bateu a porta.
Neste ponto perdemos João Ataíde. Nunca perguntei às tias o que ele fez da vida. Voltou para o Porto? Chorou as tardes na praia? Continuou lendo Camões sob a luz da lamparina? Na verdade, perdemos João e Adelina. Ela só apareceu diante dos filhos muitos anos depois do fim da Segunda Guerra. Um dia Magnólia, a filha, abriu a porta da casa e lá estava um cesto vazio. Em pé, ao lado do cesto, uma senhora de olhos azuis.
Quando conheci Adelina, beirando os oitenta anos, já se chamava Dindinha, usava xale e arrastava um chinelo grande. Dizia meu nome com muitos “is” no meio e falava que eu devia ser professora. Ensinar a ler , dizia, é coisa de gente abençoada, gente de alma boa. Nós olhávamos juntas o jovem avô da fotografia. Acho que ela pensava que aquele imenso buraco na sala poderia nunca ter crescido. Começamos a aprender pela dor e pelo que perdemos. O amor de João e Adelina não morreu, mudou-se para algum lugar neste universo imenso. Acredito, procurando na vastidão do céu pontilhado de estrelas, que um dia ela vai encontrá-lo no pátio da escola e estender-lhe um velho poema português. O rapaz ficará comovido com o interesse da jovem por literatura lusa e trocarão ideias afins. Aprendemos também pelo riso que vem junto com o que reconstruímos.
Luísa Ataíde
9ª Antologia dos AnJos de Prata- Contos e Crônicas, Editora All Print- 2007
A força, a arte, a manha, a fortaleza:
O tempo acaba a fama e a riqueza
O tempo o mesmo tempo de si chora:
O tempo busca e acaba onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza
Mas não pode acabar minha tristeza
Enquanto não fizerdes vós, Senhora.”
— Luís de Camões
Conheci Adelina beirando os oitenta anos e os olhos azuis eram duas pedrinhas embaçadas pela catarata. Os cabelos longos perdiam-se numa extensa trança rala que descia, aonde terminava o lenço sobre a cabeça. Adelina, já curvada pelo peso dos anos, quase não sorria: era só uma velhinha. Para nós, os outros, precisava apenas de uma cama encostada na parede, onde prendesse as fotos em marrom e bege. Fotos com histórias cheias de risos e lágrimas. A história de Adelina nascia de um grande mosaico colorido que fui formando ao longo dos anos. Isto não é conversa pra criança, era o que eu ouvia enquanto a porta ia avançando contra o meu nariz. Dele tenho apenas o nome. João Ataíde era apenas um nome perdido nas bocas das tias. A foto pregada na parede da cama mostrava um homem, de média estatura, segurando um livro grosso com papéis saindo pelas páginas. A fotografia retratava um professor de escola primária do norte de Portugal. Eu olhava do outro lado da cama o homem incomodado sob a luz do sol. Minha avó Magnólia dizia que o pai atravessara o oceano em busca de melhores dias em terras brasileiras, encontrara nas dunas de areia do Espírito Santo a brasileira de olhos azuis.
Os fatos, que conheci depois ,vieram embaralhados. Sei que João e Adelina tiveram quatro filhos e que a moça da praia não fora o modelo de mãe e esposa que ele sonhara. Os portugueses que aqui aportaram, no fim do século XIX, eram dotados de tino comercial . Todos os Manuéis e Antônios de minha infância possuíam prósperas quitandas ou padarias. João Ataíde era um homem voltado para os livros; varava as madrugadas sob luz da lamparina; lia e anotava incessantemente. A esposa não passara das carteiras do grupo escolar e não se seduzia por livros com estórias transbordando dentro. Assim foi formando-se, pela erosão dos dias, um imenso buraco entre os dois. De um lado Adelina e seu cesto de peixes, do outro João e os poemas dos livros. Hoje, entendo porque as mulheres da família apontavam Adelina como o avesso do pano. Todas do álbum de fotografia tiveram muitos filhos e enfrentaram altivas os problemas que entram pela porta com a filharada e pouco dinheiro. Todas permaneceram de pé, até o último ato.
Um dia, a moça da praia olhou o professor do outro lado da sala. Viu apenas um terno puído e um homem franzino dentro. O som lusitano da voz já não lhe era canção ao vento. Sonhara com um português comerciante e uma mesa farta, cortinas que voassem em rendas pela janela e mais que peixe miúdo e guandu sobre a mesa. Distribuiu os filhos entre os vizinhos, prendeu os cabelos numa trança bonita e bateu a porta.
Neste ponto perdemos João Ataíde. Nunca perguntei às tias o que ele fez da vida. Voltou para o Porto? Chorou as tardes na praia? Continuou lendo Camões sob a luz da lamparina? Na verdade, perdemos João e Adelina. Ela só apareceu diante dos filhos muitos anos depois do fim da Segunda Guerra. Um dia Magnólia, a filha, abriu a porta da casa e lá estava um cesto vazio. Em pé, ao lado do cesto, uma senhora de olhos azuis.
Quando conheci Adelina, beirando os oitenta anos, já se chamava Dindinha, usava xale e arrastava um chinelo grande. Dizia meu nome com muitos “is” no meio e falava que eu devia ser professora. Ensinar a ler , dizia, é coisa de gente abençoada, gente de alma boa. Nós olhávamos juntas o jovem avô da fotografia. Acho que ela pensava que aquele imenso buraco na sala poderia nunca ter crescido. Começamos a aprender pela dor e pelo que perdemos. O amor de João e Adelina não morreu, mudou-se para algum lugar neste universo imenso. Acredito, procurando na vastidão do céu pontilhado de estrelas, que um dia ela vai encontrá-lo no pátio da escola e estender-lhe um velho poema português. O rapaz ficará comovido com o interesse da jovem por literatura lusa e trocarão ideias afins. Aprendemos também pelo riso que vem junto com o que reconstruímos.
Luísa Ataíde
9ª Antologia dos AnJos de Prata- Contos e Crônicas, Editora All Print- 2007
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