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sábado, 22 de dezembro de 2012

BURRINHO DE PRESÉPIO







Luiz Martins da Silva


Quando criança, me via
Miniatura de gente.
No presépio vivo,
Cada um deles.

Começar do Menino:
O Filho de Deus.
Mas não era digno.
Melhor, Melchior.

Mas, não sendo persa,
Nem mago, só magro,
Ensaiei Baltasar,
Presentes da Arábia.

Seria o Gaspar,
Com incenso da Índia?
Nem mirra, nem ouro.
Qual o meu tesouro?

Batendo cabeça,
Vaquinha, nada.
Escolho o jumento,
Montaria sagrada.

Carregar a família
Pra longe de Herodes
E no Dia de Ramos
Ir a Jerusalém.

Oferenda feita, amém.
Se precisas de andor,
Na poeira da estrada
Eu levo o Senhor.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O SÁBIO E A LENDA


FERNANDO HENRIQUE DE PASSOS- Lisboa, PT


 De dentro da noite, o sábio olhou a estrela, Uma estrela igual a cada estrela, Das muitas a brilhar dentro da noite. Se um dia fosse dia em vez de noite, Se um dia as leis fossem mais claras, Tão claras como é clara a luz do dia…
 Por certo, sabia muito o sábio, Mas, quanto mais sabia, Mais escura a noite se tornava. Se um dia uma estrela se soltasse, Se do céu caísse sobre a Terra, Contra as leis que o sábio conhecia…
 E o sábio tentou esquecer as leis Que com tanto trabalho descobrira, Mas as leis eram já parte do seu corpo. Contudo, uma estrela igual às outras, Que o sábio avistara nessa noite, Sendo igual, parecia ser diferente…
Dentro da noite, o sábio recordou a lenda muito antiga que um dia ouvira a sua mãe: Uma estrela, uma gruta, um Salvador- Um Deus Menino! Se ao menos aquela estrela se movesse...
E a estrela começa a deslocar-se e o sábio segue-a, segue-a durante muitas noites. E a estrela detêm-se sobre a gruta, a mesma gruta de há cem séculos, a mesma lenda muito antiga...
 E a luz daquela estrela instaura o dia, o dia que o sábio nunca vira, nem mesmo sabia imaginar. E no centro do dia havia um Deus, um Deus Menino, o Deus de que falava a velha lenda...
 E a mãe do Menino olhava o sábio, e ao sábio parecia a sua mãe, a mesma a quem ouvira a louca lenda,  e o sábio chorou e, de joelhos sob um dilúvio de luz abrasadora, pôde enfim esquecer todas as leis...

O PRIMEIRO PAI NATAL (1)


TERESA FERRER PASSOS- Lisboa, PT

 Cânone da fé, imagem da mansidão, mestre da continência, chegaste à região da verdade. Pela humildade conseguiste o mais sublime, pela pobreza o mais opulento.” S. João Crisóstomo  



Aquela criança chorava, como Nicolau (2) nunca vira. Olhou-a impressionado. Procurando a causa de tanta tristeza, fez-lhe mil perguntas, mas ela a nenhuma respondeu. A resposta era apenas o choro. Um choro cada vez mais contido. Mais silencioso. Depois parou. E o bispo Nicolau viu-a adormecer de cansaço. De facto, Nicolau passara naquela rua da bela cidade de Bari, pela primeira vez na sua vida. E ficara deveras impressionado com o desalento daquela criança. É que este encontro fortuito, tão inesperado, passava-se precisamente quando começava a cair, ao de leve, a noite que era a antevéspera do Dia de Natal. Vendo a pobre criança a dormir, não a quis acordar e afastou-se para casa, angustiado. Já em casa, mal podia orar a Deus, coisa que fazia sempre com sereno entusiasmo. O choro daquela criança não saía dos seus ouvidos, mais do qu
a tristeza que lhe lembrava tantas outras crianças tristes, a chorar. Faltavam só dois dias para o Dia de Natal. Depois daquele encontro que lhe fez tanta inquietação, acabou por se recolher para enfim repousar. Mas, o sono parecia que não chegava. Não podia adormecer ao pensar na criancinha daquela maneira a chorar e depois adormecida. Exausta. As horas, no sino da igreja, soavam, mas continuavam sempre iguais. Aquela insónia, aquela agitação entre as mantas que o aqueciam e deixavam enregelado, até parecia querer lembrar-lhe qualquer coisa. Faltaria acontecer algo de insólito na esfera do divino, ele que até já estava habituado?! “Será algum recado de Deus, será alguma palavra de Jesus, nestes dias tão próximos da Festa do seu Natal?...”, interrogava-se Nicolau, atormentado por ver que a vontade divina permanecia escondida do seu coração, sempre pronto a recebê-la... Depois, lembrava-se de que, quando era criança também chorava, mas chorava por ser de uma família rica, muito rica... Queria tanto ser pobre, pobre como aqueles meninos da rua, descalços e sem agasalhos, que via pela cidade de Mira, a cidade onde nascera, na distante Turquia. Havia já uma branda luz do amanhecer e o sono não chegava para o bispo Nicolau, nem mesmo que fosse só para sonhar que descobrira o desejo desse Deus, desse Deus tão escondido sempre. E como esse Deus, que era o nosso verdadeiro Pai, sempre se soubera esconder, sob o nome dos profetas, sob o nome de Jesus, sob o nome dos seus filhos mais pobres, dos mais pecadores ou dos mais santos e também sob a forma de uma estrela a indicar o estábulo do Nascimento de Jesus, ou sob a forma de pomba planando no azul sobre o rio Jordão na hora alta do Seu Baptismo. Cansado de tanto pensar naquela noite que já lhe parecia longa demais, Nicolau ouviu o sino da sua igreja. Tocavam as seis horas da manhã! “Tenho de me levantar, depressa”, exclamou muito aflito. “Senão, a missa que celebro às sete… como a vou celebrar?!”. Foi no instante em que se levantava sem ter entendido ainda a vontade de Deus, como tanto desejava, que soou de novo o sino a dar as seis horas da manhã. Ficou intrigado. “De novo, soou de novo?”. Algo de extraordinário estaria ainda para acontecer? De súbito, viu, quase sem acreditar, a estreita faixa de luz da fresta da janela a transformar-se na imagem que o seu coração guardava do próprio Menino Jesus. E como o Menino Jesus lhe sorria, ainda mais lindo do que todas as imagens que a sua memória guardava! E, como estava ali, à sua frente, de carne e osso?! Logo lhe quis sorrir também, cheio de um espanto desmedido… Sem o deixar dizer fosse o que fosse, Jesus antecipou-se. Num sussurro cheio de ternura, disse: “Nicolau, és um coração com tesouros de amor dentro de ti. Observei como te foi terrível ver aquela criança a chorar! Ela tem fome e não tem roupa como tu tiveste! Como eu gostava que levasses a todas as crianças pobres que choram de fome e de falta de agasalhos, os bens de que dispões no teu bispado. Como eu gostava que lhes pusesses em suas casas o que comprarias com essas riquezas precisamente no Dia do meu Natal!”. “Que vozinha pura a dizer tais coisas e coisas tão lindas! Sim, tudo darei, como pedes, meu divino Jesus! E como gosto de o fazer!”, respondeu Nicolau, entusiasmado. Ali estava o Menino-Deus, tão perto dele, no seu próprio quarto, a dizer-lhe as mais lindas palavras que já escutara! Como podia Ele, como podia, dar-lhe tal honra?! Tremia, os olhos muito abertos, as faces vermelhas de ansiedade, mas cheio de uma alegria nunca experimentada. De repente, a imagem do Menino escondeu-se na luz ténue da janela. Então, Nicolau deixou de o ver. Tudo ficou como antes no seu quarto. Pelo contrário, na sua alma nada ficou como era. O Menino Jesus ficou a sorrir no coração feliz de Nicolau, tal como sorria na hora imensa do seu Natal ao agradecer os presentes que os pastores da Judeia e os magos vindos da Arábia e da Babilónia lhe levavam (os cestinhos com mel, figos e uvas, as roupinhas de púrpura com rendas e bordados, o incenso, o ouro e a mirra). Como essa lembrança lhe ficara gravada! E como esta proposta do Menino-Deus a ele dirigida, poderia, dentro dos séculos futuros, ser continuada por aqueles que O seguissem, a Ele, o Deus já não escondido, mas a revelar-se… Poucos instantes depois da divina aparição, o bispo Nicolau reconhecia no Menino Jesus que acabava de lhe aparecer, a criança que chorava naquela rua por onde passara à tardinha, antes de recolher ao Paço episcopal. A criança inconsolável era o Menino Jesus, era Ele mesmo! E estivera ali, a pedir-lhe, a ele, o serviço que Nicolau mais alegria teria em fazer. Sabia agora que apesar de velho iria fazer a coisa mais bela da sua vida: dar todas as riquezas do Paço episcopal às crianças. Então, começou a pensar como o podia fazer sem que as crianças pudessem descobrir que era ele que lhes levava os agasalhos, os doces, e tantas outras coisas que nunca tinham provado? Tudo começaria com a distribuição de presentes às crianças pobres da sua cidade (onde fora escolhido bispo por um acaso Providencial, havia vários anos). Contudo, temia ser reconhecido como autor daquela ideia divina. Isso, não podia ser. Então, congeminou todo o dia como o iria fazer, sem que o povo desconfiasse dele. Ninguém devia saber que não era o próprio Deus-Menino a dar os presentes. De repente, Nicolau pensou que o melhor seria mascarar-se com uma das suas vestes vermelhas e pôr umas muito, muito longas barbas brancas. Ninguém o reconheceria, estava certo. Mas mesmo assim… Todo o cuidado era pouco. Para evitar ser descoberta a sua identidade, devia esconder-se melhor. Porque não fazê-lo de noite, subindo ele próprio aos baixos telhados das casinhas dos pobres com um longo e velho saco que, em parte, o encobriria? Se alguém o visse, pensou Nicolau, só podia perguntar: “Quem será? quem será? só pode ser ladrão… fujamos depressa”. Pelas chaminés das casinhas das crianças pobres, na véspera de Natal, pela noite dentro, deixaria escorregar, pela primeira vez, as prendinhas de Jesus, não dele! E “o Menino Jesus” estaria, pela primeira vez, mascarado de velho de barbas vestido de vermelho, naquele, mais do que nunca, Santo Natal. Na manhã seguinte, no Dia de Natal, as crianças abririam os embrulhos e veriam, com a alegria  a transbordar de seus corações, coisas com que tinham sempre sonhado e poucas vezes provados. A pobreza fora mais forte que os seus apetites e as suas extraordinárias fantasias.  Natal 2012. 

(1) Este conto inspira-se na figura do Pai Natal que o bispo Nicolau teria inventado para construir o verdadeiro Natal das crianças pobres. De um modo sagrado e puro, teria nascido a lenda dessa figura excêntrica e controversa, ainda viva nos nossos dias, que se chama o Pai Natal. Trata-se de uma figura mitológica a que se prendem as crianças para lhe pedirem prendas. A sociedade de consumo apropriou-se deste símbolo cativante para todos comprarem mais coisas, até desnecessárias. O Pai Natal é agora um ícone da sociedade da abundância. Mas quando Nicolau, escondido dos homens, como o próprio Deus, construiu este mascarado Menino-Jesus, estava longe desta evolução dessacralizada, tantas vezes longe de Deus e dos próprios homens.
(2) São Nicolau (Pai Natal, Papai Noel ou Sant(o)a Claus) nasceu, no século III, em Mira (Turquia) e morreu em Bari (Itália) já no século IV, em 342 (6 de Dezembro). À sua morte já era considerado santo. Participou, com posições polémicas, no Concílio de Niceia (325). Com fama de taumaturgo, patrono das crianças e dos pobres, foi e é ainda muito venerado nos países do Leste da Europa. É o primeiro santo da Igreja (Católica, Ortodoxa e Copta) a preocupar-se com a educação e a moral das crianças e de suas mães.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

MENSAGEM- MIRIAM CARVALHAL



Façamos de nossa vida uma extensão da noite de Natal,
renascendo continuamente em amor e fraternidade.
Natal, noite de alegria, Canções, festejos, bonança.
Que o seu coração e de sua família floresça em amor e esperança!



Um FELIZ NATAL E UM PRÓSPERO ANO NOVO!!!







sábado, 24 de novembro de 2012

AS SETE IDADES DA RAZÃO





Luiz Martins da Silva


I


Da primeira vez que se apresentou,

O mundo era simples, bom ou ruim,

Mas era ainda inteiro feito para mim,

Bem lambuzado, ora de prazer, ora de odor.


II


Quando libertado fui,

Das primeiras garras do egoísmo,

Alcei voo, mas ainda não voei,

Pregava-me à matéria espesso visgo.


III



Em seguida, veio com fervor propriamente a juventude,

E também aquela virulência de mudar o mundo,

Era ainda mistura, de alma pura e dilaceramento,

Entre a carne e a leveza; os vícios e as virtudes.


IV


Fez-se o homem, maduro, ainda que um touro,

Centauro imponente de fortaleza e gáudio,

Mas já uma refinada oitiva para a lira

Chamava-me para o que mais nos enleva de humano.


V


Veio essa era em que as heras se encravam pelos ombros,

Temerosas dos estranhamentos, quando a alma no espelho

Apresenta-nos o tempo feito vida estilhaçada na rasura

E a vaidade, no camarim, a nos pedir retoques em lápis-lazúli.


VI


Então, o medo do fim, uivo que de longe nos assombra,

Aproxima-se com as suas estações de climatério

A nos rachar os ossos, torcer as juntas, o pescoço, as nervuras...

Até nos transformar em alvas montanhas de doçura.


VII


Hora de exumar o que daqui ficou, na horizontal lavra,

Alquimia pretérita, síntese de fezes e de flores.

Bem que se ainda mais pudera, audazes ousaríamos

Ressurgir das cinzas, desafogar-nos da areia dos rios.


Fotografia- Ben Goosens

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

REFLEXÃO










A vida é, precisamente, a grande aventura de vivermos
mergulhados em tempos difíceis.
                                                              
                                                                                                              TERESA FERRER  PASSOS
 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

BULA PARA DOR DE ALMA

 



Luiz Martins da Silva

I

Para saberes se a tens,
Na sua própria agudez,
É não haver sobre o tátil
Sentido algum de nudez.
II

E se ninguém souber da rua,
De fato, não vale o chão.
Melhor sonhar com alguém,
Do outro lado da Lua.
III

Hão de lhe servir água pura,
Alvíssimo orvalho de irmã,
Ao se admirar um cálice,
Ornado de flores, talismã.
IV

Ah! Quanto de vida a saber
Das revelações de um mapa,
Linhas das mãos, pentagramas,
De um filme que está por vir.
V

Acordar, bambo e zonzo,
A três mil milhas depois,
Sino que ainda ressoa
Do toque solene de um anjo.

sábado, 3 de novembro de 2012

MATRIZ ESPIRITUAL





"O Espírito é herdeiro de si mesmo, de seus atos anteriores que lhes plasmam o destino futuro do qual não consegue evadir-se. Cada espírito é um arquivo vivo de suas vidas."


Do livro; Loucura e Obsessão, Divaldo  Pereira Franco

domingo, 21 de outubro de 2012

ASAS DO PARAÍSO




Luiz Martins da Silva


 
 
Há tênues fronteiras no Éden,
Mas elas não são cidadelas,
Nem muralhas, nem prisões.
 
 
Por isso, aparecem aqui.
Por distração se desgarram,
Já não reencontram portais.
 
 
Os mais puros e os mais belos
São todos suspeitos fujões,
Com certeza, os colibris.
 
 
Desconfio de aparências:
Borboletas, pássaros, flores...
Mas cismo também de ti.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

MEL PARA FORMIGAS

Se você quando jovem teve a sorte de viver em Paris,
então a lembrança o acompanhará pelo resto da vida,
onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante.
Ernesto Hemingway , do livro Paris é uma festa



Os Plátanos outonais que forram as praças que cercam a Champs Élysées nas manhãs de setembro são um tapete de folhas siennas que estalam sob os pés. Em que cidade as praças são douradas e as cúpulas e portões das catedrais nos gritam uma realeza que conhecemos apenas dos contos de Grimm. Estamos em Paris, a babel turística do mundo. Como distinguir um cidadão parisiense que vai para o trabalho, nos milhares de casacos escuros e botas de salto fino. Para nós, brasileiros em férias, eles representam a elegância de ser. Para eles, talvez leiamos a sorte por algumas moedas, talvez esbanjemos ouro. Na verdade somos a essência da mistura. Nem brancos nem negros, nem ricos nem pobres, e dizem que estamos na contramão econômica do mundo. Não que tenhamos tesouros, na verdade nosso grande segredo é o riso. O ruidoso riso de grupos de pessoas misturados à discrição e polidez de uma cidade. Senti isto, no trem que nos levava a Versalhes. Um grupo de músicos, não sei a nacionalidade, tocava instrumentos de sopro e corda, o que alegrava a viagem. Há quanto tempo eu não ouvia:

Ai, ai, ai.. ai.... está chegando a hora... o dia já vem raiando meu bem eu tenho que ir embora...

Cantamos como um grupo  colegial em férias. Provavelmente, pensei, enquanto o trem avançava: no Brasil, conhecemos a versão em português do folclore do mundo. Na verdade, descobri depois que  esta alegria melodiosa que dava a viagem um ritmo de infância festiva vem do México. Concluí na minha lógica latina que além das moedas ao chapéu estendido, poderíamos em agradecimento sorrir. De muitos passageiros do trem, os músicos não receberam uma moeda, um sorriso, um olhar.

Volto minhas recordações a esses dias em Paris. Nós nunca esqueceremos os jardins perfeitos em delicadeza e cores. O Grand e o Petit Palais, os corredores majestosos do Louvre. Nós nunca esqueceremos a elegância dos franceses e nossa estupefação à moça que pega o dinheiro e com a mesma mão escolhe o pão que nos entrega, sem lavá-las, sem a proteção de um guardanapo. Nós nunca esqueceremos as lojas cheias e os perfumes esplendorosos. O torcer do nariz quando eles percebem que você fala  francês com sotaque e a delícia que é jantar queijo e vinho na terra de Luis XV.

Estima-se que quinhentos mil brasileiros visitem Paris todos os anos. Por semanas deixamos nossas vidas  e atravessamos o oceano. Oxalá, a nossa simpatia e alegria contaminem as ruas históricas da capital turística do mundo. Que possamos compartilhar o que aprendemos nesses quinhentos anos de existência: superar as adversidades, e como dizemos  aqui: não desistir nunca. Ensinar e aprender fundem-se em compartilhar. Eis o verbo que resume a sabedoria da modernidade.

Luísa Ataíde

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

SONATA PARA INSÔNIA

 
Luiz Martins da Silva
I

Sete notas musicais,
Sustenidos e bemóis.
Nos ouvidos são átomos,
De passados atonais.

II

A ânsia melódica da chuva
Soa na madrugada inventada.
Quem a compôs monocórdia,
Mas de tão doce, lavada?

III

Solfejo de uma nota só,
Tão somente si e si,
Ou se algum perdido dó
De brisa toca no vidro...

IV

Percussão de xilofone,
Assovio de cupido,
Cri-cris de grilos conspícuos,
Vozes em pingos, alaridos.

V

Alaúde, bojo mudo,
Toque de caixa hermética,
Fofas notas sobre folhas,
Já salivação de húmus.

VI

Esgueiram-se gueixas esguias,
Salientes lascivas lesmas,
A sair lambendo laivos,
Agora, que o tempo deixa.

VII

Eu, ainda sonho de nuvem,
Nego a antevéspera do estrume.
Mas, cismo, um dia túmulo,
Regado a saudades muxoxas.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O CÃO





LUIZ MARTINS DA SILVA



Não sei o que de concreto contempla

Do mundo pela janela em neblina.

O dia, opaco, a existência infinda.

Eu é que vejo desertos, caravanas.






De repente, algo o incomoda, ladra,

Como se ainda existissem ladrões

E ameaças a circundar cidadelas.

Eu é que diviso pontos, muralhas.





Dali a pouco, recolha, novelo.

Já não é nem lobo, nem matilha,

Dormitando o casulo emprestado.




Estamos juntos, desde nossas gêneses.

Ele, até hoje, sem dias de amanhã.

Eu, cinjo o pescoço com um novo nó.

sábado, 4 de agosto de 2012

DOM DE VOAR


Luiz Martins da Silva



Esses versos, tão pequenos
Já herdei-os assim:
Ânsias de não sei o que,
De não sei quem os plantou,
Remotas lavouras de mim.


Às vezes, afoitos, leves,
Míticos, teimam em voar
Para algum lugar a Leste,
Onde é passível planar
Em consonância de brisas.


Outras, um instinto perverso
Os impede de sonhar,
Abandonando-os à míngua,
Num barco sem leme,
Sem remos, no meio do ar.


Sobrevivem, voltam sempre,
Pelos instintos de amar,
Que levam sempre a um porto
Nas asas de qualquer tema,
Ora, de ir; hora, de voltar

quinta-feira, 26 de julho de 2012

ORAÇÃO CELTA DO AMOR


Que jamais, em tempo algum,o teu coração acalente ódio.
Que o canto da maturidade jamais asfixie a tua criança interior.
Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.

Que as perdas do teu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida.
Que a musica seja tua companheira de momentos secretos contigo mesmo.

Que os teus momentos de amor contenham a magia de tua alma eterna em cada beijo.

Que os teus olhos sejam dois sóis olhando a luz da vida em cada amanhecer.
Que cada dia seja um novo recomeço, onde tua alma dance na luz.

Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas de tua passagem em cada coração.

Que em cada amigo o teu coração faça festa, que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins.

Que em teus momentos de solidão e cansaço, esteja sempre presente em teu coração a lembrança de que tudo passa e se transforma, quando a alma é grande e generosa.

Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente, para que tu percebas a ternura invisível, tocando o centro do teu ser eterno.

Que um suave acalanto te acompanhe, na terra ou no espaço, e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver.

Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável!

Que os teus pensamentos e os teus amores, o teu viver e a tua passagem pela vida, sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome. Aquele amor que não se explica, só se sente.

Que esse amor seja o teu acalento secreto, viajando eternamente no centro do teu ser.
Que a estrada se abra à sua frente.

Que o vento sopre levemente às suas costas.

Que o sol brilhe morno e suave em sua face.

Que respondas ao chamado do teu Dom e encontre a coragem para seguir-lhe o caminho.
Que a chama da raiva te liberte da falsidade.

Que o ardor do coração mantenha a tua presença flamejante e que a ansiedade jamais te ronde.
Que a tua dignidade exterior reflita uma dignidade interior da alma.
Que tenhas vagar para celebrar os milagres silenciosos que não buscam atenção.

Que sejas consolado na simetria secreta da tua alma.
Que sintas cada dia como uma dádiva sagrada tecida em torno do cerne do assombro.
Que a chuva caía de mansinho em seus campos...

E, até que nos encontremos de novo...
Que os Anjos lhe guardem na palma de Suas mãos.
Que despertes para o mistério de estar aqui e compreendas a silenciosa imensidão da tua presença.

Que tenhas alegria e paz no templo dos teus sentidos.
Que recebas grande encorajamento quando novas fronteiras acenam.
Que este amor transforme os teus dramas em luz, a tua tristeza em celebração, e os teus passos cansados em alegres passos de dança renovadora.
Que jamais, em tempo algum, tu esqueças da Presença que está em ti e em todos os seres.

Que o teu viver seja pleno de Paz e Luz!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

AO PRÓXIMO


Dai-nos a palavra
que abre celas
que anestesia dores
que clareia os dias.


Dai-nos a palavra
que abre o riso
que ampara, que celebra esperança
e canta alegria.


Dai-nos a palavra
que nada pede,que equilibra
 que se entrega pelo riso alheio.


Dai-nos a palavra
que nos ensina a ser irmãos
que une as mãos silenciosas da prece.
Dai-nos a palavra
Amor

Reflexão- (Sopro ao ouvido- 4/7/2012)