De longe observo as palavras. Elas estão a poucos sentidos da mão, e ainda não me pertencem. Eu sei que a história toda está pronta e quase a alcanço. A marca d’água , para os que escrevem, é uma realidade sombreada de cotidiano . Lá, nossas mãos são feitas de vidro e a voz é distorcida em notas que sobem e descem infinitamente como uma melodia desafinada. O corpo se alonga como a imagem num jogo de espelhos, se retrai e se achata no instante seguinte. Lá não temos lembranças e marchamos obedientes às manhãs úmidas e brancas. Lembro-me de minha mãe e seu imenso amor pelos miseráveis do mundo. Lembro-me de todas as histórias de bruxas e princesas que contei nas distantes noites de infância , quando eu era o centro do círculo e minha voz soprava aos ouvidos atentos. Eu ainda não dominava o lápis mas tinha a propriedade da narrativa. A história, sinto muito, era minha. Sempre deixei mais tempo sob os refletores: a Bruxa. Se vivi no tempo da inquisição, fui arremessada a um precipício fundo e minha saia escura se inflou ao vento antes do baque surdo - tudo por que eu imaginava. Daquele tempo até chegar aqui assombrei Bibliotecas Publicas, nas madrugadas, quando os leitores e os guardas deixavam as salas vazias. Um dia , um Anjo-Traça disse: Vá lá fora, o temporal passou . Há um dia dedicado aos mortos e às bruxas. Ele contudo, esqueceu de falar sobre os dias em caixa fechada: os presentes- surpresa .Um brinde aos vivos e a todas as meninas que inventam histórias coloridas.
Viva o dia da Vida e das bruxas com alma de princesa
L.A