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sábado, 7 de março de 2026

A ARCA DE NOÉ

 


''Lá vai São Francisco pelo caminho

De pés descalços tão pobrezinho

Dormindo a noite junto ao Moinho

Bebendo a água do Ribeirinho...''

                                   Vinicius de Morais



Às cinco horas da tarde, quando o vento tomba os lençois do varal e varre as folhas da rua, qualquer pedido feito com uma caixa estendida, nos faz olhar o pequeno grupo de meninos como um santo olha os fiés do altar- com respeito e comiseração. 

- Só hoje mãe, amanhã a gente arranja um outro lugar pra ele. Tá chovendo e ele esta morando embaixo da árvore.

- O que é isso? um rato?

- Não mãe, é um gatinho.

Lá estava eu concordando com vinte quatro horas de hospedagem. É claro que o gato cresceu e fez parte da família, assim como o pinto de cor lilás comprado na feira.

- Achei tão bonito e o menino se encantou com ele. Tinha de todas as cores, você precisava ver!

Pelos dias dos Pais e pelo encantamento do menino, o pinto que dias depois era um pequeno ser cor de rosa andando pela casa, por algum tempo fez parte da família. Temi pela segurança dele. Seguia qualquer um piando sem parar, como se perguntasse se sabíamos aonde era o planeta de seres de penugens coloridas como ele. Nunca obteve a resposta. Uma semana depois ao chegar do trabalho, vi o cortejo fúnebre em direção ao fim da rua. Uma caixa com flores e meia dúzia de meninos cabisbaixos dizia adeus a uma pequena ave, esmagada pelos pés do filho do meio. 

-Esse moleque é desastrado mãe, amassou o pinto! o acusado deu-me um olhar de socorro, não tive culpa.

Alguns dias depois caiu na área de serviço, o pássaro azul e branco. Cauda longa, asa quebrada.

- Mãe, a gente pode ficar com ele?

-Não, passarinho tem que viver livre.

-Ah... mãe mas só até ele sarar.

-Está bem, mas tem de ficar solto. As paredes do fundo são altas, ele não dá conta de ir embora mesmo.

O lindo pássaro azul, que por mais que eles buscassem nos livros não descobriram a família viveu por três semanas na área de serviço. O canto matinal entrava pelos quartos e como se vivêssemos no Campo recebíamos os dias. La fora uma floresta imensa está me esperando, era o que eu pensava enquanto calçava os chinelos para ir à cozinha.

Numa manhã estranhei o silêncio do hóspede alado. A área de serviço estava vazia, ele de novo era uma ave forte. Voara pro mundo, sem adeus, sem bilhete de despedida.

Quando a vida corria em seu leito de normalidade, chegou Roger- o coelho branco. Aquela coisinha macia dormia no meu braço, como um anjinho que caiu do céu. Havia suspiros pela casa, tão encantados estávamos com o ser angelical. Passou o tempo e o coelho cresceu, assim como alguma coisa libidinosa dentro dele. Ele conhecia cheiro de mulher, com um olfato de lobo caçando lebre. Alvoroçava-se e dava pinotes. Se fosse um daqueles dias de ciclo feminino, o coelho enloquecia. Eu só podia cuidar dele de calças compridas. Tudo bem, mas o que fazer com as visitas? Alguns minutos depois que uma amiga chegava, lá estava o coelho exibindo o sexo rosado. Engraçado para as mais chegadas, constrangedor para as visitas formais. Era ainda, péssimo exemplo para os meninos que viviam tentando explicar ao coelho que aquele era um comportamento impróprio diante das damas. Inútil. Um dia doamos o coelho ao vizinho.

 Antes do cachorro, para ajudar na cura de uma depressão extremada do menino mais novo que acabara de chegar aos doze anos, morou lá em casa um papagaio. Achei muito esquisito o pedido, mas o que não fazemos para ajudar os filhos?  Uma doença emocional tira-nos do eixo, fragiliza a vontade.

- Está bem, mas vocês lembram que não gosto de aves presas?

E acredite, tivemos um papagaio voando pela cozinha. As janelas viviam fechadas e os rasantes sobre a panela de água quente eram frequentes. Um dia pensei: isto é surreal é melhor que tenhamos um cachorro.

O gato? Quando adulto fugia para o telhado para namorar e de lá para a boemia noturna. Voltava sempre machucado. Morreu na UTI de uma virose antifelina. Foi um chororô sem fim, jurei nunca mais ter bichos.

Finalmente entre nós um cão. Uma cocker que roeu doze pares de sapatos, quatro controles remotos, o sofá novo e mais uma lista interminável de objetos. Alguém mencionou ser saudável que ela tiesse filhotes e lá estavam cinco filhotes correndo pela casa arrastando as meias do cesto. 

Aos poucos, as histórias dos bichos se tornam risos e logo serão lendas de um tempo que nunca mais viveremos. Sim, todos os bichos merecem o céu. Tem algo mais angustiante que miado de gato no meio da noite? Ele tem fome- penso.  Ele se perdeu da mãe Chego à janela e tento ouvir o lamento. Um dia, quando eu me for, encontrarei São Francisco andando pela noite com um pires de leite atrás de um gato faminto. Francisco irá sorrir e dizer que todas as aves, coelhos, cães  e felinos, são simples instrumentos de nossa paz.

L. A.

obs- Hoje não temos mais a cock spaniel, nem coelhos e nenhuma ave. Moram na casa uma nihada grande de gatas. Quantas? melhor não dizer.

quinta-feira, 5 de março de 2026

ENTRE ASPAS



''... O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão.

 O Verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. 

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. 

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

 Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera...''


Marta Medeiros
 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

ÁGUA VIVA

 




O que te escrevo é um ''isto. Não vai parar: continua.
Olha para mim e me ama. Nao, tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.
O que te escrevo continua e estou enfeitiçada.


C.  LISPECTOR  

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

RISS



 

Eu entrava no shopping quando a menina me segurou fortemente pela blusa, desnudando-me parte do corpo.  Ela era um náufrago no Oceano e eu um tronco de arvore, grande e firme. Aflição, desproteção e doçura. A mãe entregou-me uma frase curta.

- Desculpa moça!

- Eu compreendo, tenho um assim.

A mão pequena ainda me arrastava a roupa. Depositei um beijo entre os dedos dela.

Não olhei pra trás, segui os passos ordinários em direção à porta. Sempre considerei que mães atípicas se voluntariam antes de receberem na maternidade o pequeno pacote embrulhado.  Há alguns anos ganhei um pacotinho com laço diferenciado, sou parte deste recrutamento feminino. Não houve tempo para troca de confidências nem para conhecer o diagnóstico. Foi só um esbarrão. 

Nós caminhamos nos corredores dos shoppings sem esbarrar no cotidiano dos que andam ao nosso lado. Sem ouvir o que aquela mulher a dois degraus na escada rolante está pensando, sem saber das alegrias e conquista dos que levemente riem. Nós somos leigos mortais atravessando avenidas, mas temos nossas próprias defesas. Minha dor sempre será maior que a sua. Porque eu a sinto.  Mas em algum lugar nesse Universo ilimitado essa menina caminha feliz em frente ao Shopping, não se assusta com a mulher baixinha que entra apressada em busca do caixa eletrônico. Em algum desses sítios   um rapaz falante entra ao lado dessa mulher -  é seu filho. Ele fala da apresentação da Tese de Mestrado feita naquela manhã. A menina não esbarra na mulher, reclama do sorvete que a mãe não comprou.

- Estamos atrasadas, diz a mulher.

Essa é a frase que ouço ao  entrar no shopping.

Mas foi aqui neste mesmo lugar, numa manhã de outono que uma moça atropelando as palavras, tocou-me o braço e disse:

- Eu tenho um recado pra você, Jesus mandou o recado.

Olhei para a jovem a minha frente. Clara, cabelos cor de mel, uns trinta anos, vestido comum, limpo e simples. No primeiro minuto pensei tratar-se de fanatismo religioso.  Indaguei-me porquê a Suprema Divindade largaria suas tarefas para mandar-me um recado. Mas pacientemente ouvi. Eu usava um vestido com uma estampa manchada. A moça aprontou para a roupa e disse:

_ Nunca mais use essa roupa! você entendeu? Nunca mais. Acredite em mim, ou alguma coisa muito grave vai ocorrer. Entenda mais uma vez. Livre-se desse vestido.

Agradeci o recado e fiz menção de seguir em frente. Ela  alertou-me  mais uma vez.

- Promete que vai se desfazer desse vestido?

Dei um sorriso afirmativo, desviei os olhos por micros segundos e a olhei de novo. Ela havia evaporado na minha frente. Procurei em todas as direções. A moça desaparecera. Pensei em como aqueles pensamentos a atormentaram. E em algum momento, ela reconheceu na multidão, a mulher e o vestido borrado da mensagem que precisava entregar. Por precaução cheguei em casa e destruí o vestido. Nunca saberemos se ela era real.

Estamos cercados de anjos que podem nos esbarrar. Que podem nos segurar pela blusa com força, que podem nos entregar mensagens que nos parecem tolas. Anjos podem nos ser entregues no berçário da Maternidade, não importa que laço difícil aperta o pequeno pacote. Sempre haverá frascos de controladores de neurotransmissores.  Sempre haverá selos a serem colocados: TEA, TDAH, Esquizofrenia, TOCs...

A Neurodivergência nossa de cada dia. Que o Universo zele por nós

 

 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

DIÁRIO DE BORDO-

 





Lembrei-me no banho de um conto de Clarice. Não sei se vinha de LEGIÃO ESTRANGEIRA ou um outro catálogo mas lembro-me da menção aos Macacos. Não sei se ela apontava o andar deselegante e oscilante dos símios por se tratar de estranhezas, ou se eu, no papel de leitor decidi que  a estranheza interna,  tanto do rapaz como da moça de não compreenderem o momento de estarem diante um do outro, os fazia cambalear. Mas era que nada tinha um referencial anterior, então eles não sabiam lidar com isso. Não eram pré adolescentes como no conto ''O primeiro beijo'', eram adultos e caminhavam numa tarde juntos.  Não vou lembrar o nome do conto, mas vou considerar a cumplicidade e defesa feminina dela. Em qualquer circunstância, qualquer dos dois poderia embriagar o passo e parecer ridículo aos olhos do mundo. Mas  no caso, só a moça andava visivelmente bêbada. Contudo vamos considerar que Sentimentos visto de longe, ou são encantadores ou, como diz o poeta - são Ridículos. Com certeza não para os que estão no palco: Você provavelmente pode esquecer o texto. Não deveria. Como explicar que  todas as cadeiras estão ocupadas e o Teatro está cheio? Como explicar a sensação que o chão está fugindo e que provavelmente você está entrando no que chamam modernamente de estado de pânico? Como a lagarta explica a si a metamorfose? 
Não gosto de textos que tentam explicar Clarice , é como se alguém dotado de uma verdade cirúrgica a tentasse diagnosticar. O que possa parecer patologia pode ser a súbita precariedade de como a pele recebe os dias. A estupidez é tentar explicar. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

CLARA EVIDÊNCIA


 Antes, cumpre esclarecer, havia os dias brancos. Mas o sopro divino sobre dunas de sal , deixava sobre a soleira da porta, como dúzias de rosas cor de berinjela - os intermináveis dias negros. Cumpre ainda esclarecer que os dias não eram seus, mas do filho mais novo. Tal qual equilibrista sob guarda- sol, separava as cordas da bipolaridade. Ora lhe chovia sobre os ombros, ora os raios lhe queimavam as costas. Quando o sol  queimava-lhe as costas, o maior de todos os equilibristas, neste respeitável circo... dançava entre lençóis coloridos. 

-Venham todos ver o maior espetáculo da terra! Flores para a dama ao lado, sorvete e pipoca para todos!

Ah!... O grande mistério do Criador: não havia uma lógica aritmética, sendo assim para dois dias brancos poderia haver dezenas de dias escuros, que poderiam chegar por pacote expresso na entrega das dez , em qualquer dia da semana. Como saber?
Segunda -feira , oito horas. Passa pela cozinha:

_ Bom dia, você já chegou? nem notei...
Não espera a  resposta. Passa de volta quarenta minutos depois.

_ Bom dia, ué você já está aí ? Que bom.!

A empregada ameaça um sorriso.
Meia hora, depois passa de novo pela cozinha.

_ Agora que você chegou, isso são horas,? Eu já te falei que segunda-feira você tem que chegar cedo.

A empregada inspira fundo , observa. A roupa: a saia é verde, a blusa vermelha, o casaco é roxo... e as sandálias... ora não formam um par... estão ...

Soa o alarme. A mulher está parada na porta da cozinha e sorri. Sorri de que mesmo? Agora é só a ponte em frente. A ponte é estreita e há muito limo na parte externa, está sobre rio escuro . Uma mulher com uma saia velha e sandálias trocadas, tem no bolso do casaco um relógio parado, está no meio da ponte e porque chove abre a sombrinha.
_Qual o seu nome?

_Ela não lembra Doutor, intervém o marido , amanheceu sem memória.

_ Algum problema em casa?
- O menino mais novo é bipolar. Ela se aborreceu com ele.
- Ah...

Do lado de cá, a estação de rádio funciona em dialeto primitivo. Não há tempo para ensinar a linguagens não há tempo para traduções. Três estranhos numa sala branca. Uma mesa, uma maca , dois homens e uma mulher. Uma mulher sem nome - páginas e páginas de livro em branco.

_ O nome dela é Clara, ela tem quarenta e cinco anos.

A idade, veneno forte. Mata em dose única. Contra- indicação feminina, elas não se acostumam.

_ As vezes elas não voltam, tive um caso destes,  mês passado... ela quis ir, se tentou voltar, não sei, sei que não voltou.

_ Ah...

Atenção, a escolha é sua. È só caminhar de volta , bem devagar e a ponte não mais existe. Se o problema é o escuro , aguarde as primeiras horas. Não há noite que dure pra sempre. Não desista. Daqui a pouco  chegará o padeiro:

_ Dona Clara!!!

Você tem um nome, e a casa é esta, antes da ponte. O pão está na mesa e o café quente. A empregada , acredite , chegou antes das oito e fez o café.
Bom dia, sua consulta no dentista é as três.

Luísa Ataíde

MEMÓRIAS BRANCAS

 



(Image by Ben Goosens)

“... é a minha alma que se desprende dos laços terrestres e anda pairando no espaço com sua irmã fugitiva...” (Anna Plácido, 1832- 1895)



Sempre é o lugar de ontem.
Todos montados sobre cavalos estendem cabelos ao carrossel do Vento.
A lua filtra a claridade da rua
A casa e a rua sobrevivem ao tempo.
Aonde andam os meninos, os risos, as lágrimas, os gritos?
Os que aqui viviam habitam outros sonhos, outras vidas, outros dias.
Pintaram a casa, mudaram as janelas, apararam o jardim.
Trocaram o telhado, há pouca mobília.
Os personagens dos livros sentam-se à mesa, dobram lençóis, regalam-se nas sombras
Atravessam as paredes, desbotados, antigos
Não sabem o rumo de suas estórias.
O homem se foi; a mulher e seus filhos para terras distantes.
A cidade adormece, as luzes se acendem, é a mulher que volta.
Remexe o fogão, sobe as escadas e limpa a poeira.
Recolhe das cinzas pequenas memórias.
Esfrega nos dedos
Memórias sem vidas, branquinhas... branquinhas...
Observa os homens que saem dos livros
Apaga as luzes e volta pro parque.
Todos montados sobre os cavalos, estendem cabelos ao carrossel do vento.
O Ontem agora é um lugar de sempre.

Luísa Ataíde

(PRÊMIO LITERARIO RAQUEL DE QUEIROZ- 2007)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

REMINISCÊNCIAS





'' Não se compreende música : ouve-se. Ouve-me entao com teu corpo inteiro. Quando vieres a me ler perguntarás por que não restrijo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras - e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão,"  C. Lispector, ÁGUA VIVA


domingo, 11 de janeiro de 2026

ESCREVER É DESNUDAR-SE

 



Estranho essa pessoa do outro lado do espelho. Ela diz conhecer cada milímetro do meu corpo, meu andar pesado e taciturno. Meus raros risos. Já informei que meu riso mora dentro. Que eu abro, só eu abro, a porta que dá pras salas dos risos. Do lado direito tem a sala de cantos. Eu passava lá todos os dias quando tinha vinte anos. No andar de baixo encontra-se  uma mesa longa de madeira nela eu escrevia histórias. Histórias de encantamentos, puro encantamentos. Na verdade eram modos peculiares de respirar os dias. Parei de escrever histórias quando começou a estação de chuvas. No  processo criativo eu ouço uma mulher que dita  textos. Uma voz sonoramente abafada, pausada e por vezes insistente. Eu escuto o ditado e escrevo.

Anos depois descobri a sala dos pincéis. Eu que sempre desenhei tudo que via, principalmente palavras. Como um falsificador eu desenhava os nomes das pessoas. Mas chegaram dias que eu comecei a ver quadros oitocentistas na parede. Nítidos, graves, perfeitos. No começo achei muito esquisito estar vendo pinturas tão perfeitas. Com o tempo essas esquisitices que em mim habitam passaram a não me incomodar. E eu pintava quadros lindos. Encantei-me com Gogh e seu jeito reverso de fazer imagens. Passei a amar a incapacidade de não caber em caixinhas. Ele vive em algum lugar, ainda sobre a corda. Resolvi fechar a sala dos pincéis e tintas pois no céu deslizava um filete azulado de cinza payne . Prenúncios. 

Poemas? Tenho dificuldades em escrevê-los, assim como pintar flores. Eu os vomito. Aviso que odeio rimas. As rimas perfeitas são invisíveis, porque sendo invisíveis elas  apenas anestesiam o texto.  Alguém me disse que eu escrevo só poesias, que tudo em mim é  poesia.  É que a poesia se esconde, porque eu não digo,  apenas sugiro. Ia dizer algo sobre isso , mas preciso parar.

Começa o ruído de chuva no telhado. 


          Luísa Ataide ( imagem feita com auxílio de IA)


domingo, 4 de janeiro de 2026

DISLALIA



 "E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver."

C. Lispector


terça-feira, 2 de dezembro de 2025

LIVROS, LIVROS, LIVROS

 




         Estava no Shopping, numa livraria, tentando comprar um livro para um amigo querido. Entre pilhas de folhas com histórias dentro havia um livro - O DOM DA AMIZADE. ( J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis) . O vendedor era um menino magro de óculos, com uma doçura de quem ama livros. Ele já lera todos os  que me indicava. Eu devo ter sido traça  em vidas remotas, dessas almas penadas que habitam bibliotecas. Ou simplemente vivi entre folhas, capas duras e prateleiras. Sinto-me em casa. Queria poder levar todos. É como quando encontro gatos na rua. Para mim são todos órfãos sob miras de mísseis de fogo e eu os quero. Mas enfim o Dom da Amizade, me aguçou a imaginação. Mas, aquele amigo do outro lado do wsapp que tinha a função de indicar livro a outro que ele não conhecia falou-me de títulos magníficos. Pessoas que gostam de ler sofrem do mesmo vício insanável : Sentir entre as linhas. Meus mehores amigos amam literatura. Casei-me com alguém que  falava de Guimarães Rosa com reverência ímpar.  Meu filho mais novo é bibliófilo. Ama livros em demasia. Um perigo, navega no abstrato e pensa como um verbo intransitivo. Não transita no chão comum dos outros humanos. Bem, acabei deixando o Dom da Amizade na prateleira e rendi-me a outro.  Contudo, antes de sair pela porta de vidro olhei UM DEFEITO DE COR da ANA MARIA GONÇALVES e pensei. Você vai ser meu, até o Natal. 

sábado, 20 de setembro de 2025

BRUXO OU ALQUIMISTA?


         


         Algumas pessoas chegam a esse mundo fora da caixinha e constroem espaços inimagináveis. Assim, em 1936, foi HERMETO PASCOAL . Tudo para aquele menino estrábico e albino era o ato de ouvir. Ouvir e observar. Desse  detalhe assimilava os sons do rio, dos pássaros, de tudo que se movia ou não. O que lhe chegasse as mãos, ele transformava em sonoridade. Ensinou isso ao mundo. A nós, os outros,  só cabia  admirar, nos admirar e usufruir. Para um menino, predestinado a ressonar o corpóreo e o que também não fosse, encontrar entre os pertences do pai um velho acordeon, foi o cumprimento do legado que  vida lhe reservara. Foi o começo. Foi o poço profundo da criatividade se abrindo -  foi o  FAÇA-SE A MÚSICA!
          Hermeto fazia música com todo e qualquer tipo de objeto: bules, brinquedos flauta, voz, um cano de mamona, um Jerimum. Instrumentos convencionais ou não. Para admirar a obra deste fabuloso Bruxo você há de se despir de tudo que é Convencional.  É Sentar na Calçada, fechar os olhos e olhar pra dentro. Pra dentro e adiante.  
         Mas há alguns dias Deus chamou seu menino de volta. Acho que o céu andava silencioso.
         Muita luz nessa passagem. 




    

domingo, 13 de abril de 2025

DESIGUAIS

 



Tão difeentes são

Como dois seres hão

Vindo ao mundo dois irmãos,

Saldos do mesmo ventre,

Ora, brincam, ora aos dentes

O segundo e o primeiro.

Mas, na hora do soninho

Nao sabem sonhar sozinhos,

Um ao outro travesseiro


                    LUIZ MARTINS DA SILVA

domingo, 2 de março de 2025

OS ESCRAVOS MULTILADOS DO CONGO

 



Eu nunca soube, na história do Humanidade, quem fora  LEOPOLDO II da Bélgica e seu reinado de horror. Até que uma noite sonhei com um grande teatro. Eu adentrava ao teatro. Sentei-me em uma das poltronas vazias. No palco diversas pessoas em pé se preparavam para apresentar um coral. A canção começou. Era um canto lindo, arrepiante. Mas percebi ser um canto triste, um lamento. Admirei a beleza das vozes e a harmonia da canção. Eram todos negros, e vestiam-se de branco. As ventimentas pareciam lençois moldados aos corpos. Observei aos poucos que em alguns faltavam, dedos,  as mãos, o antebraço...  Todos tinham  a falta de algum membro. Entendi a dor e o lamento. Eles cantavam pra mim e o canto era lindo. Era uma emoção estar ali e receber aquele presente.

 Quando acordei fiquei impressionada com a imagem e fui pesquisar na internet se houve na história do mundo  algum epsódio de tantos Escravos multilados . Sim, LEOPOLDO II da Bélgica criou um reino particular no Congo para explorar marfim, borracha e minerais riquíssimos. O hábito de amputar membros dos Escravizados que não atingiam metas,  era visto com naturalidade e as maiores atrocidades contra crianças, jovens homens e mulheres foi cometido. A História Do Mundo  não pode apagar esse Capítulo. Eu nunca ouvira falar, apenas depois do sonho. Gratidão aos Escravizados Do Congo pela belíssima apresentação. Eu era a única convidada ali,  nunca esquecerei. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

REINVENTE-SE

 




Ás vezes é necessário Regar-se

Adubar-se

Sombrear-se

Podar-se

Solarizar-se.

Tudo para poder Florir.