L.A
AS INCERTEZAS DA COR
dire
domingo, 7 de junho de 2026
UMA CIDADE CHAMADA FÁBRICA
L.A
O FILHO DO SOL
“Se emites pensamentos negativos,sejam de ódio, de egoísmo, de inveja ou de orgulho,endereçados a outra pessoa, as vibrações desse naipe alteram o fluido cósmico que te envolve,e o primeiro a absorvê-lo és tu mesmo”– Miramez -
Os caminhos que a suprema espiritualidade traçara para o jovem auati passavam, contudo, longe de desavenças políticas e interesses marítimos. Fernando não teve dificuldades em aprender a língua dos índios e a conviver com eles. Aprendeu todo o segredo das ervas, da medicina nativa. O aprendizado lhe era como canção de infância vindo-lhe aos poucos aos ouvidos. Sabia no íntimo que sempre pertencera àquela terra. Homem de extremada fidalguia e detentor de posses em terras de Espanha, não teve dúvidas em mandar distribuir seus bens entre os mais necessitados e não mais voltar ao país de berço. Para que tesouros, se tinha o doce das frutas, o céu estrelado para admirar em noites claras, a imensidão das matas a fornecer o remédio a todos os males do corpo? Acompanhou o sofrimento dos irmãos vindos da África e de igual forma aprendeu os costumes e a língua dos que fariam um dia a nação Zumbi. Ouvia as lendas dos orixás da chuva, do arco-íris e do vento com imenso respeito, entendendo a interpretação que cada povo que se espalhara no planeta fazia do Criador, tão diferente do que lhe fora moldado no cristianismo de Castela.
Fernando Miramez de Olívídeo aprendeu que a força do pensamento faz a saúde do corpo e que toda dor vem do próprio homem. Dedicou-se ao estudo da saúde espiritual e física e seus ensinamentos espalharam-se em inúmeros livros de mensagens que edificam o aprimoramento do homem em conhecer as respostas simples que a natureza fornece. O Filho do Sol, como fora chamado, nunca abandonou a Terra Brasil. Sua essência vive nas penas dos pássaros, no poder curativo das plantas, na chuva que renova a terra para o plantio do alimento bendito.
quinta-feira, 14 de maio de 2026
TODO AMOR É DE SALVAÇÃO
“Ninguém pode escrever um livro. Para que seja
verdadeiramente um livro, são necessários a aurora e o poente, séculos, armas e
o mar que une e separa”
Jorge Luís Borges
Venço, em pequenos passos sobre dunas de areias um Romance que tento construir. Eu não escrevo, eu o construo sob imagens nítidas que vi. Ninguém as viu, só eu.
Vi o mar e as casas destruidas, vi os coqueiros devorados pela maresia e crianças que corriam. Vi o clarão sobre a cumieira dos fornos grandes das cozinhas e a menina que entrou em uma casa que não era sua. Dedilhou a mesa como num recital de piano e adornou a alma com a vida tosca de um passado que lhe era ausente.
Não me é dado escolhas. Eu ouço o ranger das rodas das carroças, o cheiro matinal de pão, o riso . Eles estão lá em algum lugar nos becos da memória. Vi sobre a cama do quarto o véu da noiva esticado ao lado do vestido. Ela queria estar longe de tudo aquilo. Mas todos a esperavam na sala. Vi a casa e a moça em pé no primeiro degrau da escada, com muito medo da vida que se abria sem ela ter nada pedido.
Vi a moça que morava na praia encontrar o corpo do marido na entrada da casa , enrolado em sacos brancos nuviados de sangue. A vi permanecer na terra sitiada quando todos fugiram.
Vi a outra receber do mensageiro a caixa com toda a sua história dentro. Ela abriu a caixa - a louça embrulhada com cuidado e embaixo de tudo os papéis de sua própria genealogia. A vi procurar nas ruas de Haia reminescências já apagadas do passado. A vi decifrar mapas antigos de terras Brasis. Em que lado do mundo, a inglesinha pensou, fica o nordeste brasileiro?
Elas contam tudo ao mesmo tempo e é dificil entender.
- Uma de cada vez por favor!
Às vezes, elas revelam lutar por um Amor que acreditam. Aviso que moro no século XXI e hoje ninguém luta por nada, por isso cartas de amor e encontros românticos me são difíceis de descrever. Aviso que vivo um cotidiano ordinário , e há muito as pessoas que o habitam nada mais tem a se dizer. Nem o Eco divide o mesmo espaço. Um dia perguntei as moças porque me escolheram e elas disseram que pisamos as mesmas pedras do caminho. Nem tudo falei.
-Se não agora um dia.
Achei sem propósito a comparação, pois nunca tomei decisões impulsivas, nunca fui presa, nunca delirei com meus personagens, nunca vivi um Amor clandestino. Nunca me casei tantas vezes como uma delas e nunca abandonei minhas crenças e fui morar em outro país para todo o sempre. Elas, acreditem, riem do que falo.
-Eu levei meu filho, disse uma.
- Eu também disse a outra.
-Eu, disse a última, nunca os encontrei.
Todas se chamam Ana e viveram um ''Dia do Desespero". Alertadas de todas as limitações literárias que tenho, elas insistem.
Então: Velas ao mar!
quarta-feira, 13 de maio de 2026
ESTRELAS DUPLAS
Um encontro , ás vezes, desmonta todo a rotina ordinária da vida.
Zárias atravessou a ponte de casa e a entrada principal da cidade , onde passava o maior período da manhã. Deu alguns passos e entrou no círculo claro, aonde sempre caminhava com mais cuidado, pois a visibilidade era como de estrada em nevoeiro. Alguns passos e bateu o ombro em alguém que caminhava em sua direção.
Zárias parou por uns segundos e olhou o desconhecido. Subitamente observou que há anos não ouvia uma comunicação verbal e não decifrou em princípio o dialeto. O estranho continuou:
_ Por favor você poderia me mostrar a saída? Acho que eu me perdi.
Zárias, sabia que conhecia a linguagem e estava diante de uma situação inusitada, dessas que acontecem a cada dez mil anos. Lembrou-se das lições de quando era criança, dos inúmeros idiomas e dialetos verbais que aprendera. Era hora de utilizá-lo.
- É...hã... Como vai? meu nome é Záiras. Eu vou ajudá-lo.
- Você pode me dizer porque raios, eu não estou enxergando nada. Acho que bati a cabeça.
_ Eu também, estou com dificuldades , saí de casa sem o devido preparo. Mas não se preocupe, me siga , a ponte não é muito grande, logo estaremos do outro lado.
Quando chegaram do outro lado, o estrangeiro olhou tudo a sua volta, não acreditando no que via. O Céu tinha uma tonalidade rósea e em alguns pontos cintilavam corpos aqui e ali. Não eram estrelas, flutuavam no ar, sumiam e apareciam continuamente.
- Vem cá, amigo isto aqui é algum planetário. Olha faz tempo que eu não vou num...
- Não , este é um dos céus de Sirius.
_ E aquilo ali, parecem... dois sóis?
_São dois sóis. Acho que você caiu aqui por engano.
_ E você que dizer que eu estou em outro...
_ Você está em outro mundo. Não sei como veio parar aqui , mas com certeza sua estada não deve durar muito tempo . Na sua contagem penso que alguns minutos.
_ È... acho que eu estou dormindo e devo acordar em alguns minutos ..., bem já que estou por aqui que tal você me mostrar tudo então . Eu não disse meu nome, meu nome é Zacarias.
_ Seja bem-vindo Zacarias, mas... estou desconfiado de alguma coisa... Eu já vi contar sobre acontecimentos como estes. Veja... estenda seu braço a sua frente.
O estrangeiro esticou o braço e foi como atravessar uma cortina invisível. Sentiu a umidade do ar e a vibração sobre sua mão. Viu um ponto de luz formando-se entre os dedos e puxou a mão rapidamente.
_ Agora vire -se de costa, de onde você veio, e tente esticar sua mão. O estranho obedeceu e encontrou uma parede rigída.
_ É vidro?
- É como se fosse, só que não se quebra , disse o dono da casa.
- Observe quando eu estico o meu braço, continuou. Atravessou com metade do braço a parede de vidro.
- Observe, disse ainda, que eu não consigo atravessar a parede a sua frente, como você fez.
- Você quer dizer que estamos presos aqui sobre essa ponte.
- Não, eu quero dizer que você segue em frente e eu sigo em direção contrária.
- Cara, você quer dizer que eu vou pro seu planeta e você segue pro meu?
- Parece que sim.
- Isto quer dizer que se isso não for um sonho, nós não voltamos para nossas casas?
- Com certeza...
- Eu vou te dizer uma coisa seu Záiras, só olhando o espetáculo no céu eu vou te dizer que seu planeta é fantástico.
_O seu, pelo que eu estudei, é belíssimo.
_ E como eu vou me comunicar. Todo mundo fala a minha língua como o senhor?
_ Os que não sabem se esforçam. Com o tempo o Senhor vai aprender de usar o pensamento em vez das palavras.
_Eu vou lhe adiantar também que as coisas por lá, aonde o senhor vai, são complicadas. Mas eu acho que o senhor se sairá bem.
_Faz tempo que recebi umas aulas sobre esse tipo de viagem. Vou procurar me lembrar durante o caminho. Boa sorte, Sr. Zacarias. Acho que o Senhor será feliz enquanto estiver por aqui.
_ Quer dizer que ainda vamos nos reencontrar?
_ Daqui a um tempo...
_Eu deveria alertar o Senhor Zairas , mas acho que o Senhor saberá fazer as melhores escolhas. Dê aqui um abraço.
sexta-feira, 8 de maio de 2026
PERSUASÃO
C'est si difficile de parler, si difficile de dire l'indicible, c'est si silencieux. Comment traduire le silence profond de la rencontre entre deux âmes? Cést extremement difficile à raconter: nous sommes regardés, et nous sommes resté ainsi quelques instants. Nous étions un seul être. C'est moments sont mon secret. Il ya avait ce qu'on appelle une communion parfaite. Je l'appelle: Um état de bonheur intense.
sábado, 2 de maio de 2026
Em '' A DESCOBERTA DO MUNDO''
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''Havia a levissima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às veze eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras- e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravm estarem juntos!
Até que tudo se transformou em Não. Tudo se transformou em nao quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela nao via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo erro, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavm mais bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome: porque quisera ser, eles que eram.. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo por não estarem mais distraídos.''
CLARICE LISPECTOR
terça-feira, 28 de abril de 2026
O ESTRANGEIRO
Quando amanhecia ele pulava da cama e em poucos minutos estava na rua. Antes de fechar a porta olhava as paredes da sala e não negava-lhes resposta ao aceno de: -Tenha um bom dia!
Anoitecia. Ele sentava-se na mureta e observava. Observava os outros homens que não conhecia e os que caminhavam , lá do começo da rua. Não sabia seus nomes nem suas histórias. Todos eram estranhos entre si. Temiam-se quando distraidamente tocavam-se e guardavam as mãos dentro dos bolsos. Com o passar do tempo como as pessoas não lhe dirigiam a palavra , restava-lhe apenas decifrar a a linguagem das folhas e flores . Respondia às indagações das paredes e com o tempo de todos os objetos da casa. O orgulho dos homens, pensava, é como a imobilidade das pedras: inútil e grande.
Havia as cores das flores: o burburinho que elas faziam quando ele chegava pela manhã e a cantoria de despedida no fim da tarde. Dizia adeus às pedras, devolvia-lhes o aceno.
L.A
segunda-feira, 27 de abril de 2026
SOBRE ESCREVER
''Às vezes tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia.''
C. Lispector
Escrevo quando tenho sentimentos tranversos. E eles passeiam como lagartixas frias e brancas, com seus olhos negros e inofensivos. Lindos. Nunca rouxinois azuis e verdes tremulando na janela. Isso são para pessoas que caminham pela vida com facilidade e elegância. A vida deu-me labirintos profundos que crescem todos os dias. Impossível vencê-los.
L.A
segunda-feira, 13 de abril de 2026
PONTE SOBRE ALMODOVAR- CONTO
Às vezes, vejo as fotografias impressas na parede da sala, foto em preto e branco, sem foco, feito neblina de inverno
sexta-feira, 3 de abril de 2026
NO CORAÇÃO DE BODHISATTVA GUAN-YIN- CONTO
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PAISAGEM DE RIO
O rio aos poucos não dava mais medo. O tigre, agora mergulhado em gato manso, se preparava para dormir em cinzas. O tigre mergulhou de vez em águas.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
RECEITA DE BOLO- CONTO
Do livro Os Anjos de Prata (Antologia de contos e crónicas) - ALL PRINT Editora, 2007, São Paulo, Brasil, pp. 63-64.
Luisa Ataíde
AS INCERTEZAS DA COR- CONTO
Não procure entender, viver ultrapassa quaquer entendimento"
Clarice Lispector
TOC TOC- Eis que subitamente alguem bate à porta.
As pessoas, ao tempo de nossos avós, passavam pelo mundo com carimbo de ''sistemáticas'' quando tinham manias peculiares Os comportamentos repetitivos como apoiar-se no pé direito antes de sentar-se, lavar infinitamente as mãos depois de tocar em certos objetos, provocavam um começo de risos, e se não causavam grandes transtornos eram apenas adjetivos que ornamentavam a personalidade de quem os possuia. O problema é quando o copo transborda. Não há como lembrar em que dia o rio atingiu a ponte. No momento seguinte estamos diante de um estranho que insiste em perseguir formigas imaginárias, e em bater constantemente a faca na pia da cozinha.
Dizem os tratados de Psiquiatria que os sinais silenciosos da compulsão convivem com a família durante muito tempo, até que todos os olhares voltam-se ao memo tempo para um único ponto: e os dias... os dias seguintes não serão jamais os mesmos.
AS VIAGENS DE GULLIVER
Luísa Ataíde
quarta-feira, 1 de abril de 2026
CARVÃO EM FUNDO BRANCO- CONTO
Estou procurando a cor, aonde ela não vai.
Quando por fim retiram os limites de proteção e vieram todas aquelas pessoas estranhas que ,escolhendo os verbos, nos disseram que a casa amarela, como um grande fruto entre as árvores, nos pertencia; sentimos desconfiança. Entramos pela primeira vez na escola em fila, as mesas estavam alinhadas e limpas. Ana passou a palma da mão sobre a que estava a sua frente, muitas vezes. Puxei-lhe a ponta do vestido com força. Caminhávamos pela sala em grupos, o chinelo não reconhecia o assoalho de madeira. Nos dias que antecederam o início letivo, nos dirigíamos à escola todas as manhãs. Sentados nos degraus do portão, como gatos que arqueando a coluna e deslizando o pêlo roçam as pernas, pedíamos a intimidade da posse. As portas mantinham-se fechadas.
No primeiro dia de aula, acordados saímos aos tropeços. Até então o desconhecido estava na outra margem do rio, agora o tínhamos ali a alguns passos de casa.Estávamos aquele emaranhado de curiosos no corredor, quando nos separaram. Do fundo da outra sala, onde foi colocada, podia buscá-la a todo o momento. Ela esticou os braços sobre a mesa e pousou o queixo entre eles. Acompanhava com os olhos as listras irregulares da madeira e o cheiro era-lhe pura correnteza. Não se abrira ao quadro negro, ao arranjo de flores sobre a mesa ou ao bordado do vestido. Seus olhos buscavam os riscos da madeira. Soou-me o alarme. Levantei-me rápido e caminhei à sala. Ana mantinha-se na mesma posição, toquei-lhe os ombros. Nada lhe disse e voltei ao meu lugar. Uma vez de volta tentei acompanhar o meu próprio desenho na madeira. Compreendi por que ela poderia ficar lá, dentro dele. A quantos de nós o risco chamara a atenção? Ana não tinha o caminho de volta.
Estamos separados do instante seguinte pelo desconhecido, e dele necessitamos. Nenhum de nós estava preparado para a caixa de lápis de cor. Nós que tínhamos as unhas sombreadas de carvão, uma folha em branco, e a pequena caixa era da criação o desafio. Dedicamo-nos ao que era até então impossível: flores, árvores, nuvens, e rios. Eles nasciam fartos e nítidos como se Deus nos compartilhasse o dom.
Lembrei-me de Ana. Em pé no meio da sala, procurei-a. Ela juntara todos os lápis na mão e num movimento único riscava a folha. Riscava com força, indo e vindo.
_ Alice, volta!
Não poderia. Lancei-me ao mar para ir buscá-la. Atravessei as duas portas e parei em pé diante dela. O conjunto de cores formava um ninho de serpentes coloridas e por breve instante quase me aliei a seu imenso abismo. Segurei-lhe o pulso.
Para nós, meninos ribeirinhos, os dias que se seguiram foram de descoberta, para Ana foram dias de cego em terra estranha. Não aceitávamos deixar os lápis na escola, ela os devolvia como sobrevivente que perde o alimento. De volta a casa punha a cartilha sobre o fogão e dirigia-se ao fundo do quintal. Parava frente à parede caiada como se encontrasse uma porta na parede branca. Com um pedaço de carvão riscava sem força um risco fino. As figuras flutuavam no branco em formas irregulares. Às vezes eu as identificava ou as via perderem-se em outras. Diariamente, após as aulas dirigia-se à parede no fundo da casa. Passamos a viver as tardes ali. Sentava-me à curta distância, sem interrompê-la. Penteava-lhe os cabelos, trocava-lhe o vestido com cuidado. Em suas pausas curtas dava-lhe alimento e água. Quando o sol incomodava abria sobre nossos ombros a sombrinha.Guardo daqueles dias esta fotografia aérea: uma menina segurando um guarda-sol, um banco de madeira, outra menina sob o guarda-sol riscando a carvão uma parede cada vez mais escura. Nunca permiti que esta parte da casa fosse pintada, com o tempo, para nós, era um grande pano escuro. Para Ana as figuras estavam lado a lado, com começo e fim. Só ela ainda via sob o carvão o fundo branco. Nos fins de tarde, ensaboava-lhe as mãos com força até sumir dos dedos o sombreado.
Nasci incumbida de guiar a manada na grande travessia do rio. Éramos nós duas na casa, da mãe restara apenas a fotografia desbotada na cristaleira da sala. Aprendemos cedo a usar o fogão e o forno. Meu pai não falava em casar-se de novo e nossa era aquela casa. Saía para o trabalho na carvoaria sob um céu cheio de estrelas, voltava, a passos tortos, com o barulho dos baldes rolando pelo chão de cimento. Caiava a casa após a estação de chuvas, mas a meu pedido, nunca a parede no fundo da cozinha. Em Outubro Ana desinteressou-se dos livros, passei a trazer-lhe escondidos alguns lápis de cor. Já não se interessava por eles também, usava ainda os pedaços de carvão na parede escura. Passei a acordá-la no meio da noite, para que tivesse sono pela manhã e eu pudesse ir à escola.
Um dia deparei-me com todas as nossas coisas amontoadas no catre no canto da sala. Ana calçava sapatos e meias e tinha o cabelo penteado muito diferente do jeito que eu cuidava-lhe. Não temi por mim, mas como tirar-lhe a casa, o fogão, a parede riscada? Pela primeira vez eu a vi muito maior que eu. Ela dava-me aquela obediência de presente para que eu não tivesse medo. Cruzei o portão, e fui perdendo a escola, o rio, a mata que corria atrás dele. Olhei para trás o tanto que me foi possível. Ela batia compassadamente o pé no assoalho do carro.
L.A














