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AS INCERTEZAS DA COR
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sexta-feira, 3 de abril de 2026
NO CORAÇÃO DE BODHISATTVA GUAN-YIN- CONTO
PAISAGEM DE RIO
O rio aos poucos não dava mais medo. O tigre, agora mergulhado em gato manso, se preparava para dormir em cinzas. O tigre mergulhou de vez em águas.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
RECEITA DE BOLO- CONTO
Do livro Os Anjos de Prata (Antologia de contos e crónicas) - ALL PRINT Editora, 2007, São Paulo, Brasil, pp. 63-64.
Luisa Ataíde
AS INCERTEZAS DA COR- CONTO
Não procure entender, viver ultrapassa quaquer entendimento"
Clarice Lispector
TOC TOC- Eis que subitamente alguem bate à porta.
As pessoas, ao tempo de nossos avós, passavam pelo mundo com carimbo de ''sistemáticas'' quando tinham manias peculiares Os comportamentos repetitivos como apoiar-se no pé direito antes de sentar-se, lavar infinitamente as mãos depois de tocar em certos objetos, provocavam um começo de risos, e se não causavam grandes transtornos eram apenas adjetivos que ornamentavam a personalidade de quem os possuia. O problema é quando o copo transborda. Não há como lembrar em que dia o rio atingiu a ponte. No momento seguinte estamos diante de um estranho que insiste em perseguir formigas imaginárias, e em bater constantemente a faca na pia da cozinha.
Dizem os tratados de Psiquiatria que os sinais silenciosos da compulsão convivem com a família durante muito tempo, até que todos os olhares voltam-se ao memo tempo para um único ponto: e os dias... os dias seguintes não serão jamais os mesmos.
AS VIAGENS DE GULLIVER
Luísa Ataíde
quarta-feira, 1 de abril de 2026
CARVÃO EM FUNDO BRANCO- CONTO
Estou procurando a cor, aonde ela não vai.
Quando por fim retiram os limites de proteção e vieram todas aquelas pessoas estranhas que ,escolhendo os verbos, nos disseram que a casa amarela, como um grande fruto entre as árvores, nos pertencia; sentimos desconfiança. Entramos pela primeira vez na escola em fila, as mesas estavam alinhadas e limpas. Ana passou a palma da mão sobre a que estava a sua frente, muitas vezes. Puxei-lhe a ponta do vestido com força. Caminhávamos pela sala em grupos, o chinelo não reconhecia o assoalho de madeira. Nos dias que antecederam o início letivo, nos dirigíamos à escola todas as manhãs. Sentados nos degraus do portão, como gatos que arqueando a coluna e deslizando o pêlo roçam as pernas, pedíamos a intimidade da posse. As portas mantinham-se fechadas.
No primeiro dia de aula, acordados saímos aos tropeços. Até então o desconhecido estava na outra margem do rio, agora o tínhamos ali a alguns passos de casa.Estávamos aquele emaranhado de curiosos no corredor, quando nos separaram. Do fundo da outra sala, onde foi colocada, podia buscá-la a todo o momento. Ela esticou os braços sobre a mesa e pousou o queixo entre eles. Acompanhava com os olhos as listras irregulares da madeira e o cheiro era-lhe pura correnteza. Não se abrira ao quadro negro, ao arranjo de flores sobre a mesa ou ao bordado do vestido. Seus olhos buscavam os riscos da madeira. Soou-me o alarme. Levantei-me rápido e caminhei à sala. Ana mantinha-se na mesma posição, toquei-lhe os ombros. Nada lhe disse e voltei ao meu lugar. Uma vez de volta tentei acompanhar o meu próprio desenho na madeira. Compreendi por que ela poderia ficar lá, dentro dele. A quantos de nós o risco chamara a atenção? Ana não tinha o caminho de volta.
Estamos separados do instante seguinte pelo desconhecido, e dele necessitamos. Nenhum de nós estava preparado para a caixa de lápis de cor. Nós que tínhamos as unhas sombreadas de carvão, uma folha em branco, e a pequena caixa era da criação o desafio. Dedicamo-nos ao que era até então impossível: flores, árvores, nuvens, e rios. Eles nasciam fartos e nítidos como se Deus nos compartilhasse o dom.
Lembrei-me de Ana. Em pé no meio da sala, procurei-a. Ela juntara todos os lápis na mão e num movimento único riscava a folha. Riscava com força, indo e vindo.
_ Alice, volta!
Não poderia. Lancei-me ao mar para ir buscá-la. Atravessei as duas portas e parei em pé diante dela. O conjunto de cores formava um ninho de serpentes coloridas e por breve instante quase me aliei a seu imenso abismo. Segurei-lhe o pulso.
Para nós, meninos ribeirinhos, os dias que se seguiram foram de descoberta, para Ana foram dias de cego em terra estranha. Não aceitávamos deixar os lápis na escola, ela os devolvia como sobrevivente que perde o alimento. De volta a casa punha a cartilha sobre o fogão e dirigia-se ao fundo do quintal. Parava frente à parede caiada como se encontrasse uma porta na parede branca. Com um pedaço de carvão riscava sem força um risco fino. As figuras flutuavam no branco em formas irregulares. Às vezes eu as identificava ou as via perderem-se em outras. Diariamente, após as aulas dirigia-se à parede no fundo da casa. Passamos a viver as tardes ali. Sentava-me à curta distância, sem interrompê-la. Penteava-lhe os cabelos, trocava-lhe o vestido com cuidado. Em suas pausas curtas dava-lhe alimento e água. Quando o sol incomodava abria sobre nossos ombros a sombrinha.Guardo daqueles dias esta fotografia aérea: uma menina segurando um guarda-sol, um banco de madeira, outra menina sob o guarda-sol riscando a carvão uma parede cada vez mais escura. Nunca permiti que esta parte da casa fosse pintada, com o tempo, para nós, era um grande pano escuro. Para Ana as figuras estavam lado a lado, com começo e fim. Só ela ainda via sob o carvão o fundo branco. Nos fins de tarde, ensaboava-lhe as mãos com força até sumir dos dedos o sombreado.
Nasci incumbida de guiar a manada na grande travessia do rio. Éramos nós duas na casa, da mãe restara apenas a fotografia desbotada na cristaleira da sala. Aprendemos cedo a usar o fogão e o forno. Meu pai não falava em casar-se de novo e nossa era aquela casa. Saía para o trabalho na carvoaria sob um céu cheio de estrelas, voltava, a passos tortos, com o barulho dos baldes rolando pelo chão de cimento. Caiava a casa após a estação de chuvas, mas a meu pedido, nunca a parede no fundo da cozinha. Em Outubro Ana desinteressou-se dos livros, passei a trazer-lhe escondidos alguns lápis de cor. Já não se interessava por eles também, usava ainda os pedaços de carvão na parede escura. Passei a acordá-la no meio da noite, para que tivesse sono pela manhã e eu pudesse ir à escola.
Um dia deparei-me com todas as nossas coisas amontoadas no catre no canto da sala. Ana calçava sapatos e meias e tinha o cabelo penteado muito diferente do jeito que eu cuidava-lhe. Não temi por mim, mas como tirar-lhe a casa, o fogão, a parede riscada? Pela primeira vez eu a vi muito maior que eu. Ela dava-me aquela obediência de presente para que eu não tivesse medo. Cruzei o portão, e fui perdendo a escola, o rio, a mata que corria atrás dele. Olhei para trás o tanto que me foi possível. Ela batia compassadamente o pé no assoalho do carro.
L.A
segunda-feira, 30 de março de 2026
DO ARCO DA VELHA- CONTO
quinta-feira, 19 de março de 2026
LIBERDADE CONDICIONAL- CONTO
Era o primeiro dia de aula. Além da festa que era calçar sapatos e meias, estava de laços nos cabelos e vestido novo. Não fosse a enorme pasta que carregva, ninguém perceberia que ia à escola- o uniforme não fora ainda comprado.
Devia ser um dia predestinado a surpresas. Numa intimadade fraterna apresentaram-lhe objetos novos. Prestes a uma nova convivência, não lhe preparam para isto: Tinha um nome estranho. Sempre atendera a menor junção das sílabas Li e La. Mas, súbito, como se tivesse sido pega em falta grave se foi apresentada. O nome seguia-se de outros, mas o primeiro a inomodava como se quisessem lhe convencer que um cão miava. Cães e gatos são diferentes, pensou. Marília devia ser um nome para ser usado fora de casa, assim como sapatos e meias.
O que completava a desordem do dia, era caminhar sem ninguém da família por perto, e assim aproveitava passo a passo o caminho de volta. Colocando na calçada a pasta para abrir o portão, percebeu duas amigas brincando de Amarelinha.
A maior parou com um dos pés no céu, admirada de ver a menina tão grande e linda, empinada como se não existisse o peso da pasta. A menina esqueceu do seu tamanho e beleza e sentou-se no chão. Falava sem pausas: dos livros, dos quadros, das salas,até... não do nome não. Era por enquanto um segredo seu.
As duas ouviam, sem interromper, até porque não havia espaço. Aí veio. A mãe chegou-se a janela e gritou:
- Lila! Vem já tirar esse vestido e lavar os copos!
Escureceu. Foi como se todos os príncipes perfilasem em sapos. Levantou-se rápido e entrou.
Numa obediência de sentenciados, tirou o vestido e os sapato, até os laços dos cabelos desmanchou em silêncio. Colocando o avental, não importou-se que estivessem sujos todos os copos da casa. Uma coisa era inevitável: No dia seguinte haveria aula.
Luisa Ataide
(Dedicado à Marília Campos)
sábado, 7 de março de 2026
A ARCA DE NOÉ
''Lá vai São Francisco pelo caminho
De pés descalços tão pobrezinho
Dormindo a noite junto ao Moinho
Bebendo a água do Ribeirinho...''
Vinicius de Morais
Às cinco horas da tarde, quando o vento tomba os lençois do varal e varre as folhas da rua, qualquer pedido feito com uma caixa estendida, nos faz olhar o pequeno grupo de meninos como um santo olha os fiés do altar- com respeito e comiseração.
- Só hoje mãe, amanhã a gente arranja um outro lugar pra ele. Tá chovendo e ele esta morando embaixo da árvore.
- O que é isso? um rato?
- Não mãe, é um gatinho.
Lá estava eu concordando com vinte quatro horas de hospedagem. É claro que o gato cresceu e fez parte da família, assim como o pinto de cor lilás comprado na feira.
- Achei tão bonito e o menino se encantou com ele. Tinha de todas as cores, você precisava ver!
Pelos dias dos Pais e pelo encantamento do menino, o pinto que dias depois era um pequeno ser cor de rosa andando pela casa, por algum tempo fez parte da família. Temi pela segurança dele. Seguia qualquer um piando sem parar, como se perguntasse se sabíamos aonde era o planeta de seres de penugens coloridas como ele. Nunca obteve a resposta. Uma semana depois ao chegar do trabalho, vi o cortejo fúnebre em direção ao fim da rua. Uma caixa com flores e meia dúzia de meninos cabisbaixos dizia adeus a uma pequena ave, esmagada pelos pés do filho do meio.
-Esse moleque é desastrado mãe, amassou o pinto! o acusado deu-me um olhar de socorro, não tive culpa.
Alguns dias depois caiu na área de serviço, o pássaro azul e branco. Cauda longa, asa quebrada.
- Mãe, a gente pode ficar com ele?
-Não, passarinho tem que viver livre.
-Ah... mãe mas só até ele sarar.
-Está bem, mas tem de ficar solto. As paredes do fundo são altas, ele não dá conta de ir embora mesmo.
O lindo pássaro azul, que por mais que eles buscassem nos livros não descobriram a família viveu por três semanas na área de serviço. O canto matinal entrava pelos quartos e como se vivêssemos no Campo recebíamos os dias. La fora uma floresta imensa está me esperando, era o que eu pensava enquanto calçava os chinelos para ir à cozinha.
Numa manhã estranhei o silêncio do hóspede alado. A área de serviço estava vazia, ele de novo era uma ave forte. Voara pro mundo, sem adeus, sem bilhete de despedida.
Quando a vida corria em seu leito de normalidade, chegou Roger- o coelho branco. Aquela coisinha macia dormia no meu braço, como um anjinho que caiu do céu. Havia suspiros pela casa, tão encantados estávamos com o ser angelical. Passou o tempo e o coelho cresceu, assim como alguma coisa libidinosa dentro dele. Ele conhecia cheiro de mulher, com um olfato de lobo caçando lebre. Alvoroçava-se e dava pinotes. Se fosse um daqueles dias de ciclo feminino, o coelho enloquecia. Eu só podia cuidar dele de calças compridas. Tudo bem, mas o que fazer com as visitas? Alguns minutos depois que uma amiga chegava, lá estava o coelho exibindo o sexo rosado. Engraçado para as mais chegadas, constrangedor para as visitas formais. Era ainda, péssimo exemplo para os meninos que viviam tentando explicar ao coelho que aquele era um comportamento impróprio diante das damas. Inútil. Um dia doamos o coelho ao vizinho.
Antes do cachorro, para ajudar na cura de uma depressão extremada do menino mais novo que acabara de chegar aos doze anos, morou lá em casa um papagaio. Achei muito esquisito o pedido, mas o que não fazemos para ajudar os filhos? Uma doença emocional tira-nos do eixo, fragiliza a vontade.
- Está bem, mas vocês lembram que não gosto de aves presas?
E acredite, tivemos um papagaio voando pela cozinha. As janelas viviam fechadas e os rasantes sobre a panela de água quente eram frequentes. Um dia pensei: isto é surreal é melhor que tenhamos um cachorro.
O gato? Quando adulto fugia para o telhado para namorar e de lá para a boemia noturna. Voltava sempre machucado. Morreu na UTI de uma virose antifelina. Foi um chororô sem fim, jurei nunca mais ter bichos.
Finalmente entre nós um cão. Uma cocker que roeu doze pares de sapatos, quatro controles remotos, o sofá novo e mais uma lista interminável de objetos. Alguém mencionou ser saudável que ela tiesse filhotes e lá estavam cinco filhotes correndo pela casa arrastando as meias do cesto.
Aos poucos, as histórias dos bichos se tornam risos e logo serão lendas de um tempo que nunca mais viveremos. Sim, todos os bichos merecem o céu. Tem algo mais angustiante que miado de gato no meio da noite? Ele tem fome- penso. Ele se perdeu da mãe Chego à janela e tento ouvir o lamento. Um dia, quando eu me for, encontrarei São Francisco andando pela noite com um pires de leite atrás de um gato faminto. Francisco irá sorrir e dizer que todas as aves, coelhos, cães e felinos, são simples instrumentos de nossa paz.
L. A.
quinta-feira, 5 de março de 2026
ENTRE ASPAS
''... O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão.
O Verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera...''
Marta Medeiros
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
ÁGUA VIVA
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
RISS
Eu entrava no shopping quando a menina me segurou fortemente
pela blusa, desnudando-me parte do corpo. Ela era um náufrago no Oceano e eu um tronco de
arvore, grande e firme. Aflição, desproteção e doçura. A mãe entregou-me uma
frase curta.
- Desculpa moça!
- Eu compreendo, tenho um assim.
A mão pequena ainda me arrastava
a roupa. Depositei um beijo entre os dedos dela.
Não olhei pra trás, segui os
passos ordinários em direção à porta. Sempre considerei que mães atípicas se
voluntariam antes de receberem na maternidade o pequeno pacote embrulhado. Há alguns anos ganhei um pacotinho com laço
diferenciado, sou parte deste recrutamento feminino. Não houve tempo para troca
de confidências nem para conhecer o diagnóstico. Foi só um esbarrão.
Nós caminhamos nos corredores dos
shoppings sem esbarrar no cotidiano dos que andam ao nosso lado. Sem ouvir o que aquela mulher a
dois degraus na escada rolante está pensando, sem saber das alegrias e conquista
dos que levemente riem. Nós somos leigos mortais atravessando avenidas, mas
temos nossas próprias defesas. Minha dor sempre será maior que a sua. Porque eu
a sinto. Mas em algum lugar nesse Universo ilimitado
essa menina caminha feliz em frente ao Shopping, não se assusta com a mulher baixinha
que entra apressada em busca do caixa eletrônico. Em algum desses sítios um rapaz falante entra ao lado dessa mulher - é seu filho. Ele fala da
apresentação da Tese de Mestrado feita naquela manhã. A menina não esbarra na
mulher, reclama do sorvete que a mãe não comprou.
- Estamos atrasadas, diz a mulher.
Essa é a frase que ouço ao entrar no shopping.
Mas foi aqui neste mesmo lugar,
numa manhã de outono que uma moça atropelando as palavras, tocou-me o braço e
disse:
- Eu tenho um recado pra você,
Jesus mandou o recado.
Olhei para a jovem a minha
frente. Clara, cabelos cor de mel, uns trinta anos, vestido comum, limpo e
simples. No primeiro minuto pensei tratar-se de fanatismo religioso. Indaguei-me porquê a Suprema Divindade largaria suas tarefas para mandar-me um recado. Mas pacientemente ouvi. Eu usava um
vestido com uma estampa manchada. A moça aprontou para a roupa e disse:
_ Nunca mais use essa roupa! você
entendeu? Nunca mais. Acredite em mim, ou alguma coisa muito grave vai ocorrer.
Entenda mais uma vez. Livre-se desse vestido.
Agradeci o recado e fiz menção de
seguir em frente. Ela alertou-me mais uma vez.
- Promete que vai se desfazer
desse vestido?
Dei um sorriso afirmativo, desviei
os olhos por micros segundos e a olhei de novo. Ela havia evaporado na minha
frente. Procurei em todas as direções. A moça desaparecera. Pensei em como
aqueles pensamentos a atormentaram. E em algum momento, ela reconheceu na multidão,
a mulher e o vestido borrado da mensagem que precisava entregar. Por precaução
cheguei em casa e destruí o vestido. Nunca saberemos se ela era real.
Estamos cercados de anjos que
podem nos esbarrar. Que podem nos segurar pela blusa com força, que podem nos
entregar mensagens que nos parecem tolas. Anjos podem nos ser entregues
no berçário da Maternidade, não importa que laço difícil aperta o pequeno
pacote. Sempre haverá frascos de controladores de neurotransmissores. Sempre haverá selos a serem colocados: TEA,
TDAH, Esquizofrenia, TOCs...
A Neurodivergência nossa de cada dia. Que o Universo zele por nós
L.A.
sábado, 21 de fevereiro de 2026
DIÁRIO DE BORDO-
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
CLARA EVIDÊNCIA
Antes, cumpre esclarecer, havia os dias brancos. Mas o sopro divino sobre dunas de sal , deixava sobre a soleira da porta, como dúzias de rosas cor de berinjela - os intermináveis dias negros. Cumpre ainda esclarecer que os dias não eram seus, mas do filho mais novo. Tal qual equilibrista sob guarda- sol, separava as cordas da bipolaridade. Ora lhe chovia sobre os ombros, ora os raios lhe queimavam as costas. Quando o sol queimava-lhe as costas, o maior de todos os equilibristas, neste respeitável circo... dançava entre lençóis coloridos.
_ Bom dia, você já chegou? nem notei...
_ Bom dia, ué você já está aí ? Que bom.!
A empregada ameaça um sorriso.
Meia hora, depois passa de novo pela cozinha.
parado, está no meio da ponte e porque chove abre a sombrinha._Qual o seu nome?
- O menino mais novo é bipolar. Ela se aborreceu com ele.
- Ah...
MEMÓRIAS BRANCAS
(Image by Ben Goosens)
Sempre é o lugar de ontem.
Todos montados sobre cavalos estendem cabelos ao carrossel do Vento.
A lua filtra a claridade da rua
A casa e a rua sobrevivem ao tempo.
Aonde andam os meninos, os risos, as lágrimas, os gritos?
Os que aqui viviam habitam outros sonhos, outras vidas, outros dias.
Pintaram a casa, mudaram as janelas, apararam o jardim.
Trocaram o telhado, há pouca mobília.
Os personagens dos livros sentam-se à mesa, dobram lençóis, regalam-se nas sombras
Atravessam as paredes, desbotados, antigos
Não sabem o rumo de suas estórias.
O homem se foi; a mulher e seus filhos para terras distantes.
A cidade adormece, as luzes se acendem, é a mulher que volta.
Remexe o fogão, sobe as escadas e limpa a poeira.
Recolhe das cinzas pequenas memórias.
Esfrega nos dedos
Memórias sem vidas, branquinhas... branquinhas...
Observa os homens que saem dos livros
Apaga as luzes e volta pro parque.
Todos montados sobre os cavalos, estendem cabelos ao carrossel do vento.
O Ontem agora é um lugar de sempre.
Luísa Ataíde
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
REMINISCÊNCIAS
'' Não se compreende música : ouve-se. Ouve-me entao com teu corpo inteiro. Quando vieres a me ler perguntarás por que não restrijo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras - e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão," C. Lispector, ÁGUA VIVA












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