dire

dire

terça-feira, 3 de novembro de 2026

DO OUTRO LADO DA MESA ( trecho de Romance)


 


  '' Amor é fogo que arde sem se ver

                                                        É ferida que dói e não se sente

                                                         É um contentamento descontente

                                                         É dor que desatina sem doer''

                                                                  L. Camões.




          
A menina olha da cadeira o livro aberto e as filas intermináveis de letras intercaladas por espaços como uma grande plantação de hortaliças. Estica o queixo para frente na tentativa de alcançar o que mais há entre a voz metódica do professor de história e o barulho do beija-flor que rodopia no galho da árvore junto à janela. De que são feitos os heróis se não de serviços notáveis ao Rei?  Um herói salva um povo, uma reino. Salva o mundo, quando isso interessa a alguém. Um herói é condecorado, é festejado. Herda uma cidade, um governo, uma nova Colônia. André Vidal de Negreiros, diz o mestre, por ter expulsado os Holandeses do Recife, ganhou Angola para governar.

          Ana  ouve tudo com atenção. Cresce da página aberta sobre a mesa a figura nobre do grande general. Um nome para nunca ser esquecido. Os olhos da menina veêm a silhueta, a espada, os ombros largos, o peito condecorado. O homem jovem anda pela sala em passos curtos, num desfile de realeza e força. O cabelo totalmente negro desce até os ombros. Ele caminha e subitamente olha para trás. Olha no fundo dos olhos dela. Ela vê no escuro das pupilas dele: um lago. É noite, tem certeza, pois a água reflete apenas o próprio contorno na luz da noite. É um lago calmo e suas águas cantam. Não  como o pequeno pássaro, é uma canção abafada, quase inaudível como o rumor das pequenas ondas na areia. Ela ouve apenas o eco, um eco grave que bate infinitas vezes na parede e abre os ouvidos da alma. Ana vê a mão estendida em sua direção e tem dúvidas quanto a levantar- se da cadeira e tocá-la. Mãos que venceram piratas, índios e traidores. Que hastearam velas e bandeiras. Mãos que riscaram mapas e amarraram âncoras.

           Ela  nada teme  que venha do homem parado a sua frente, é como reencontrar um dia que nasce. O dia entrega-lhe de presente um vale: no vale há uma cidade que dorme. As colunas que cercam a cidade estão repletas de uma grama curta e úmida, cipós entrelaçados impedem a entrada. Ela empurra a passagem dos galhos e muros e encontra vestígios de moradas e quintais. As casas estão vazias de vozes e gente. É uma casa grande de Engenho, construída sobre pilares de pedras. Varandas contornam a escada extensa que pousa a casa sobre o grande pátio de terra. Da porta da cozinha vê várias residências menores e plantações que campeiam a paisagem.

         Ouve, ainda, a voz do professor no fundo do ouvido, abafada, como vinda de dentro de um tacho de metal.

        - Nos dias do Século XVII os Engenhos eram casas e imediações que produziam açúcar e tinham o nome de seus donos. Havia a Casa Grande, a senzala aonde dormiam os escravizados, a capela, a horta e o Canavial. Assim também era o Engenho de Jerônimo Paes de Azevedo, que depois viria a chamar-se o Engenho da Casa Forte. Isto deu-se após a capitulação dos holandeses, por ocasião da Batalha de Casa Forte. O Engenho foi incendiado, pelo exército luso-brasileiro, e foi um dos últimos redutos da resistência flamenca.

          Entra na Casa Grande. Há água fresca no vaso de cerâmica da cozinha. Ainda pode sentir o calor na chapa do fogão de lenha e ver a réstia de fumaça entre as brasas mortas, e as cinzas. Vê uma caixa sobre a mesa, repleta de pedras brancas. O teto está entrecortado e do extenso buraco que dele nasce, o sol alaga de claridade o chão de terra batida. Caminha descalça. Sente a aspereza da terra na sola dos pés. Esfrega os pés diversas vezes, sem afastá-los do chão, para sentir o que a sustenta dentro da casa. O beija-flor da árvore entra pelo buraco do teto, rodopia muitas vezes diante dela.           

          Do outro lado da mesa o professor aponta o lugar em que ela está. Fala do paraíso de frutas e plantas, da calmaria das tardes, das canoas no vai e vém do Capibaribe. A voz prossegue e descreve o trapiche, destinado a moer canas, movido a tração animal. Os cilindros unidos pelos dois braços de madeira movimentam-se afunilando o giro dos parafusos. A máquina range um canto de lamento que se confunde com o banzo dos negros que olham em direção ao mar. Um canto assobiado e fino que desafia o silêncio das cigarras. A menina ouve o que diz o professor e um redemoinho abre as hélices coloridas do pensamento. As pétalas do cata-vento mesclam as tonalidades e as cores ganham velocidade. Ela já não distingue a linha divisória entre o livro aberto sobre a mesa e o chão da casa. São os movimentos ávidos da imaginação que acenam com a capacidade que nela cresce de ir além do que ouve. É sobre uma terra na América do Sul, tão distantes como as linhas no mapa geográfico da parede. É o destino que se anuncia e que fatalmente será freado pelas lágrimas da mulher que um dia será e ainda não alcança. Os versos de Camões já lhe enfeitiçam a alma. A música que apenas ela ouve é como um chamado noturno enquanto os outros dormem. Assim acordam para a arte de ir além os que pintam, escrevem, trazem à luz uma música.

          Ana abraça a imagem da casa bem junto ao corpo, não pode fugir dela. É como reencontrar um brinquedo  perdido. É uma casa reconstruída de lembranças esmaecidas na palidez de infâncias vividas. É uma infância que não é sua, mas ela a conhece. A menina apoia suas mãos miúdas sobre a madeira. Dedilha as notas, da música que ouve, sobre as linhas sinuosas e longas da mesa. Tateia a superfície sonora com as mãos em paralelo, colhe os grãos coloridos da valsa que nasce dos seus dedos: Frederico Chopin - Opus meia nove, número um.  A valsa árdua da  aula de piano, desliza agora  extremamente fácil. Os pequenos dedos dedilham a madeira com a cegueira dos que apenas sentem. Ela faz meio rodopio sem se afastar da mesa. Olha o teto que desliza como a água de um rio de leito raso. Chove uma claridade que transborda o teto da casa e varre dos telhados folhas e galhos finos. O sol estremece o céu claro e limpo como uma tarde de deserto. O calor sobe pela cumeeira e estala os caibros de sustentação do teto. Passam rente à janela dois meninos que correm.

          - Ana! Antônio! É o grito que os pequenos atendem. Passam pela janela em grande correria. O cabelo da menina estende os cachos longos em linha inclinada ao chão e desaparece no fim da escada. Ana   acompanha com o olhar o movimento das sombras sumir na parede. A menina? Elas têm o memo nome, pensa. Retorna a atenção para dentro da casa.





  Um homem está sentado numa cadeira, diante da janela. Usa chapéu preto de abas largas, cuja ponta sobe levemente em direção ao teto. Veste calças e camisa escuras e a gola de renda branca cai sobre a monotonia da roupa. A paisagem ribeirinha nasce da paleta fina do pintor. É um céu, feito de um azul singelo como o índigo olhos dos anjos.

         As folhagens nascem do pote de pigmentos como nascem as nuvens sobre os homens livres e escravizados. O pintor está dentro da cozinha, contudo o quadro que pinta está depois da mesa. A mão insurge a paleta sobre uma superfície ausente, além da janela aberta. A menina está diante da imagem que cresce, ganha contornos, cores, luzes. O sopro da criação espalha-se na mistura das cores e o movimento das mãos do pintor desliza sobre um rio que abriga cardumes. Do outro lado ouve a voz metálica do professor que descreve um quadro de Franz Post. Ele está ali ao seu lado, o homem de estatura pequena sorri enquanto seus dedos procuram o pigmento na pequena caixa de madeira. Franz Post lhe apresenta sem grandes contrastes de claro e escuro a divindade da criação. Colhe cascas de árvore do tronco, além da janela, e as deita sobre o colo diante da mesa. Os dedos mesclam Verde, Terra de Siena e Branco numa rapidez do ofício. Olha mais uma vez a casca e a devolve à paisagem.

 

         Ana Augusta um dia escreverá livros. Numa terra liderada por Camões, desenhará como um pintor cidades e pontes, entrelaçará e separará destinos. Falará de amor e lágrimas, de heroínas e homens mesquinhos. Precisará de um nome para preservar sua identidade de uma sociedade que dita a obediência feminina. Ela ainda não sabe, ma escandalizará uma sociedade patriarcal ao deixar ao abandono um matrimônio que lhe foi entregue previamente clculado entre sacos de mercadorias. Ana caminhará para a fogueira em nome de um Amor que aceditará ser a razão de sua vida. Por trilhar caminhos proibidos precisará esconder sua real identidade.  Esta aula de História ressurgirá como um pequeno galho verde que vence a aridez das pedras e ganha a luz do sol. Do brasileiro que ajudou a fazer a história de Portugal, sem que ela saiba exatamente por que se apropriará do nome: Vidal de Negreiros. A descrição do professor coloca à frente da mesa um homem jovem de trinta e poucos anos, cabelo até os ombros.  Sua pré adolescência julga-o.  É um homem bonito, pensa. 

        Ele  ignora o olhar, a tarde,  o vento lá fora. Caminha pela sala como se nada houvesse  ao seu redor. Algo sonoro e fino rompe a narrativa. Só ela escuta.  De onde está, vê a mesa, os mapas, o grande livro. O Mestre adverte o fim da aula e a hora da refeição. Essa lembrança a acompanhará até o fim dos dias.   


HORTÊNCIAS

 




Quem escreve conversa com o invisível das possibilidades. Caminho por todas as possibilidades possíveis que são estátuas de Jardins.  Caminho sobre musgos macios e passarelas de espinhos. Todos os jardins secretos não são possíveis de visitas. Há um portão de ferro que cerca a entrada e os muros são altos. Começo a perceber  a medida que o tempo vai nos arrastando que já não cabemos na comodidade dos dias. A luta diária é para que as flores antes  multicoloridas e vivas não se despetalem e caiam. Estão morrendo. Não chove mais , era a força da chuva seguida do brilho do sol que nos protegia. A gente colocava vasos nas janelas das casas, nas calçadas,  em todos os lugares. Mas o céu vai escurecendo e todas as manhãs temos consultas médicas e exames. Todos nós. Por favor dê-me suas mãos. As duas.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

NORTE OU SUL?

 








A mais remota lembrança que tenho  é uma Casa Amarela. Ela tem mais de um andar, eu estou sentada à frente da casa. É uma casa grande e cabem muitas manhãs. Não sei quantos anos  tenho ao estar sentada diante dela. Não sei se  a lembrança atravessou séculos ou são lembranças recentes, de tardes de infância.  Acompanha-me a certeza de que existe uma ponte em arcos a poucos quilometros da casa. O rio desliza sob a ponte e a água é turva.

 Lembro-me dos tetos altos das cozinhas trançados de palhas. Essa lembrança mora do outro lado da memória e cheira a biju assado no forno grande.

Em outros dias, ouço da memória, o barulho nervoso de patas de cavalos. Estou dentro de casa e por ter medo encosto-me à parede da sala. Essa memória mora muito distante, é o que sei.  

Um dia num leilão vi um sofá colonial vermelho e me encantei com ele. E lá estava eu numa disputa e acabei o arrematando. Aquele sofá estava nas minhas lembranças e era preciso reavê-lo. 

Na  sala da casa, onde moro,  tem uma ROSA DOS VENTOS. Eu a vi numa loja de piso de Shopping e fiquei presa nas curvas do círculo e as pontas como lança me imobilizaram. Em algm lugar da memória o desenho fez parte de mim. Fui buscá-lo. 

Chega-me a lembrança da presença de um  Menino. Temos a mesma idade e corremos pela casa. Nos acomodamos no  mesmo colo de mãe. Em outros dias ele mora na casa vizinha e vem comer bolo de trigo todas as tardes. Fazemos juntos a lição de casa. Em memórias outras que se aproximam ele apenas passa na rua e volta a cabeça enquanto acena de longe. Naquela existência foi a única vez que o vi, através das grades do jardim. Não pude trazê-lo como se faz com mobília e piso, e tenho sempre a impressão que fomos nos afastando  no girar das engrenagens. 

Quando as centelhas de pensamentos passarem por você antes do sono, acompanhe-as sem julgamento. Deixe-as circular a cama,  o teto, os lençois.
 Elas voltam, sempre voltam.
 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

REFLEXÃO

 



O que nos faz forte
não é a espada
o corte, o sangue derramado.


O que nos faz forte
é o abraço, o riso, o perdão
a prece , a mão desarmada
a esperança reconstruída.

( sopro ao ouvido)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

SOBRE MARGARIDAS, ESTRELAS, GIRASSÓIS E MELANCIAS

 






Pouco sabemos sobre a vida secreta das plantas. O que sentem, o que pensam, como gastam seus melhores momentos. O certo é que naquele dia as margaridas estavam inquietas, movidas pelo mais feminimo dos sentimentos- a Curiosidade.

- Com certeza serão Girassóis , disseram.

As primeiras Estrelas olhavam lá de cima o burburinho das Margaridas e discordaram. 

- Sem dúvida serão Melancias! Nós conhecemos as sementes.  - --  

 -Melancias? disseram as flores. Como Vocês podem confundir? Sintam o perfume... e olha que disso nós entendemos. 

Bem, como ninguém convenceu ninguém, preparam-se cada qual a seu modo para receber flores e frutos.

  Muitas cartas recebeu a chuva: que viesse dia sim e dia não, mas que chegasse com delicadeza assim sem muito barulho. 
Outras tantas recebeu o sol, pedindo que quando fosse por lá, passasse antes na casa da Brisa, irmã mais nova do Vento.  

À noite , as Estrelas guardavam os canteiros, torcendo por cada caule fininho que se estendia na terra. 

 Hum...  pensaram, visto assim de longe, nós estávamos certas, os caules se espalham cada vez mais pelo chão... por certo teremos frutos.  

Não se cansavam da vigília as Margaridas: 

-Ora, visto assim de perto, tínhamos mesmo razão... os caules se erguem do chão... por certo teremos flores. 

Como o tempo tira todas as dúvidas, fez dos canteiros entrecortados, um Pomar de Girassóis  num Jardim de Melancias.

 E porque Margaridas e Estrelas diminuindo distâncias acolheram flores e frutos, contam os antigos que ali nasiam flores de sabor adocicado. No outono o melhor mapa para encontrar o Jardim das Melancias era colocar o nariz ao vento.  

A terra quando expele a semente traz à luz a vontade do semeador, porque também assim são os homens- Sementes diferentes com histórias diferentes. 

Se um ponto dessa história seja nos encontrarmos aqui neste planeta, os que aqui te encontram te acolhem. 

Bem-vindos, sejamos todos.


L.A



sábado, 8 de agosto de 2026

AZUL E VERMELHO

 




Era Uma vez um Vale.  Um lugar tão maravilhosamente  lindo, que podíamos pensar que era impossível não ser feliz ali.  As flores eram de todas as cores, os pássaros cantavam. O céu era claro e limpo. O sol aparecia para dar brilho ao lugar,  e o vento?  Brincava entre as árvores. 

No meio do vale havia o rio que tornava o lugar mais fresco e cheio de vida. Os peixes corriam ligeiros na água limpa, iam e viam entre as pedras em perfeita harmonia. 

Do lado direito do rio,  viviam as pessoas que  amavam em demasia a cor do céu. Cultivavam as mais variadas flores azuis: Vestiam-se dos mais variados tons de anil, e cobriam as ruas entre as casas,  de pedras água marinha e topázios azuis de todos os tipos. Eles  consideravam-se calmos e tranquilos,  e respiravam essa  harmonia índigo.

Mas lá,  do outro lado do rio moravam  pessoas que  amavam mais ainda o Vermelho. Eram corados e alegres, determinadas em defender o vermelho das flores, dos alimentos, as pedras de rubi das calçadas e vestiam-se dos mais variados rubros tons deste mundo. Afinal, pensavam: Como alguém pode não amar um tomate vermelhinho e suco de morango... ah, não existe nada melhor. 

A Bandeira na entrada do lugar era um mastro que flamulava um pano cor de sangue e isto, segundo eles, espalhava coragem e bom humor. Bem, eles não olhavam com nenhuma boa vontade alguém que não pensasse assim. Alguém que não amasse  suco de beterraba, e a parte mais doce da melancia. Então , às vezes,  o povo vermelho se enfurecia com o povo azul. Para eles, aquele povo era triste e desanimado.  O povo azul   esquecia -se que era um povo zen e equilibrado e lá do outro lado da ponte gritavam:
   
- Seus comunistas !

Aos que os vermelhinhos respondiam:

- Seus moribundos !

E começava a guerra.


Ninguém contudo ultrapassava a ponte, afinal pisar num solo em que as pessoas não amavam as coisas como você era a última coisa a ser pensada. As ameaças e planos de guerra eram feitos e ficavam cada qual com seu exército,  parados na entrada da ponte, com as lanças apontadas.

Houve um dia que os ânimos ficaram tão exaltados entre eles, que preparados para dar início a batalha que estenderia, finalmente,  a bandeira azul ou vermelha no vale, não perceberam que a natureza enfurecera-se com tanta discórdia e desabara sobre eles. A tempestade de raios e trovões derrubou árvores, casas,  espalhou o que podia pelo caminho. Choveu tanto que inundou a ponte e ninguém sabia mais aonde começava ou terminava o país azul ou vermelho. Determinados a reerguer as cidades eles misturavam-se entre muros e cercas.

 E de repente  lá vinha  correndo pelo que parecia ainda ser a ponte:  o Homenzinho. Era um homenzinho ligeiro e corria de um lado para o outro gritando:

- É  ouro, é ouro !


-OURO ? Disseram todos 


-É ouro, insistia o homenzinho. Aqui       

nesta ponte tem ouro. Um pote de ouro !


-Um pote de ouro ! gritaram  todos .

E procuravam,  procuravam correndo de um lado para o outro. Acabavam entrando ora no país azul, ora no país vermelho. Os Azulados, acharam engraçados o suco de morango e salada de beterraba e resolveram provar a parte mais doce da melancia.
Os Rubro acharam encantadoramente lindas as ruas cobertas de pedras topázio azuis e as flores que pareciam refletir o céu  do jardim.

-Ora, ora, ora, disse  maravilhado o                 

homenzinho, aqui está o pote de ouro !

No centro da ponte ali estava um pote imenso, e como ninguém nunca tinha ido até o meio da ponte, conheciam pela primeira vez o pote. Olharam no fundo e lá estava :

Ouro de todas as cores. Cores, verdes, azuis, vermelhas, lilás, rosa, marrom, amarelo e todos os tons possíveis. Um pote de cores. Eles enfiavam as mãos nas cores e riam de felicidade. Surpresos , percebiam algo além de vermelho e azul. Viam, juntos, as  flores brancas que espalhavam perfumes por todo o vale, florzinhas amarelas, rosas, de todas as cores possíveis e eles  admiravam-se com tudo. Como existia algo tão bonito além do azul e vermelho, como isso era possível . ?

E o homenzinho espalhou o pote de ouro por todo

o vale.
       
  
As vezes,   é preciso ir lá fora,  conhecer  a cor do outro, ensinar a sua, misturar as cores e descobrir  juntos o pote de Arco-íris.


Luisa Ataíde

terça-feira, 28 de julho de 2026

ANÁLISE DE IA SOBRE O POEMA- FOTOGRAFIA

 .


FOTOGRAFIA



O poema “FOTOGRAFIA” constrói uma paisagem interior marcada pela memória, pelo envelhecimento, pela imaginação e pela perda. Embora apresente casas, uma velhinha, uma moça, um rio, uma aranha e uma estrela, esses elementos parecem formar menos um lugar real do que um território simbólico da consciência.

A imagem poética trabalha justamente com experiências sensoriais e figurativas para tornar sentimentos visíveis; aqui, as imagens visuais e sonoras criam um cenário de silêncio, desgaste e sonho.

O título: “Fotografia”çlp


O poema parece funcionar como uma fotografia de um mundo interior. Tudo está quase imóvel: a velhinha costura; a moça lê;o rio corre silenciosamente;a aranha tece;a estrela brilha; a noite permanece do lado de fora.

Há movimento, mas é um movimento lento, repetitivo, quase suspenso. É como se o poema fotografasse o tempo depois que a alegria se afastou. O subtítulo reforça essa leitura:

“Ao riso, que já não ouvimos.”

O riso não é apenas ausente: ele pertence ao passado. A expressão “já não ouvimos” introduz uma perda sonora. O poema começa com a lembrança de uma alegria que deixou de existir ou que deixou de ser percebida.

A arquitetura simbólica das casas

A repetição de:

“Ao lado da casa do riso...”
“Ao lado da casa do sonho...”

cria uma espécie de pequena cidade alegórica.

O riso, o sonho, a vida e a lucidez são ideias abstratas, mas recebem casas, vizinhos e habitantes. Essa transformação de abstrações em presenças concretas aproxima o texto da personificação e da alegoria: conceitos passam a ocupar um espaço e a participar de uma espécie de geografia emocional.

A relação entre essas casas é especialmente interessante:

  • perto do riso, mora a lucidez;
  • perto do sonho, mora uma moça triste;
  • na porta da vida, existe uma aranha.

Isso sugere que as experiências humanas não estão separadas. A lucidez vive ao lado do riso, talvez porque toda alegria seja acompanhada pela consciência de sua fragilidade. A tristeza mora junto ao sonho, pois sonhar pode ser também sentir a distância entre o desejo e a realidade. E a vida é guardada ou ameaçada pela aranha, que prende os pés da personagem.zsx^}}:

A imagem da lucidez é uma das mais originais do poema:

“Uma velhinha torta, quase cega e surda.
Costura meias puídas, cirze saias desbotadas.”

Em vez de apresentar a lucidez como algo jovem, claro, racional e poderoso, o poema a transforma numa velha frágil.

Isso produz uma inversão muito bonita. A lucidez parece ser resultado do tempo. Ela envelheceu porque viu demais, ouviu demais e sobreviveu demais.

Os objetos também são importantes:

  • meias puídas;
  • saias desbotadas.

Costurar pode simbolizar o esforço de remendar a memória, recompor a vida ou conservar aquilo que o tempo destruiu.

O verbo “cirze” é especialmente expressivo porque é mais concreto e áspero do que “costura”. Ele traz a ideia de remendo e reparação. A lucidez não resolve a destruição; apenas tenta impedir que ela avance.

A moça triste: leitura e fuga

A moça vive junto à casa do sonho:

“Lê histórias entrelaçadas de tempos que já se foram
Recostada na parede, sonha com terras distantes.”

Ela está fisicamente imóvel, encostada numa parede, mas mentalmente viaja. O corpo permanece; a imaginação se desloca.

A expressão:

“histórias entrelaçadas”

também conversa com os fios da aranha que aparecerão depois. O poema cria uma rede de imagens: costurar, entrelaçar, tecer, prender. Todas pertencem ao mesmo campo simbólico dos fios.

O rio cinza e os peixes

“Ouve o ruído do rio
Imagina os peixes cinzas que deslizam
entre as pedras.”

Aqui existe uma passagem interessante entre realidade e imaginação.

O ruído do rio é ouvido; os peixes são imaginados. A personagem não vê os peixes. Ela os inventa a partir do som.

Isso mostra uma imaginação que trabalha sobre aquilo que não pode ser alcançado diretamente. A moça constrói imagens para preencher o invisível.

A cor cinza reaparece no final:

“ao lado de um rio cinza”

O cinza é uma cor intermediária, sem o brilho da luz e sem a profundidade absoluta da noite. Pode sugerir monotonia, melancolia, envelhecimento e indefinição. O mundo do poema não é completamente escuro, mas perdeu suas cores intensas.

A aranha: a vida como aprisionamento

A terceira casa apresenta uma mudança:

“Na porta da casa da vida tem uma aranha grande”

A aranha está na porta. Ela ocupa justamente o lugar de passagem entre dentro e fora. A vida, portanto, não é apresentada como espaço aberto, mas como um limiar bloqueado.

A aranha:

“Tece fios sobre fios e
prende os pés da moça que olha a noite lá fora.”

Essa é uma das imagens mais fortes do poema.

A moça sonha com terras distantes, mas seus pés estão presos. Ela pode imaginar, ler e olhar, porém não pode caminhar.

O contraste entre sonho e imobilidade é central:

  • a imaginação viaja;
  • o corpo permanece;
  • os pés são capturados;
  • o olhar se dirige para fora.

A aranha pode representar o tempo, a rotina, a memória, o medo, a própria vida ou as circunstâncias que impedem a realização do desejo. O poema não determina um único significado, e essa abertura é uma qualidade.

Também há uma continuidade simbólica entre a velhinha e a aranha:

  • a velhinha costura para reparar;
  • a aranha tece para prender.

Os fios possuem funções opostas. Um tenta conservar a vida; o outro impede o movimento.

A estrela e o humor poético

A passagem:

“Da janela aberta, vê-se uma estrela
que, pleonasticamente, brilha como um brilhante.”

Esse momento cria uma espécie de consciência da linguagem. O poema interrompe por instantes sua atmosfera lírica para observar a própria construção poética.

Há também uma ambiguidade interessante: a estrela pode ser um símbolo tradicional de esperança, mas a comparação exageradamente óbvia parece enfraquecer esse símbolo. É como se o poema desconfiasse das imagens bonitas demais.

A estrela brilha, mas logo o livro afirma que ela não existe.

O livro como revelação e negação

“Diz o livro sobre o colo que a Estrela não existe
é eco de outras vidas”

O livro assume uma função quase oracular. Ele fala e corrige aquilo que a moça vê.

A ideia é muito rica: talvez tudo o que a moça contempla seja uma repetição de experiências anteriores. A estrela não pertence plenamente ao presente; é uma sobrevivência do passado.

Isso dialoga diretamente com o título “Fotografia”. Uma fotografia também é uma espécie de eco: mostra algo que esteve ali, mas já não está no mesmo instante.

O final: repetição e transformação

O desfecho retoma a personagem:

“e faz da moça triste
Uma moça que lê livros, encostada na parede
ao lado de um rio cinza
e de uma velhinha sem dente.”

O poema começa apresentando a moça como “triste”, mas termina descrevendo suas ações e seu lugar. A tristeza deixa de ser apenas uma emoção e se transforma numa condição de existência.

A repetição de “moça” produz um efeito de retorno. Parece que, depois de toda a imaginação — terras distantes, peixes, estrela, noite —, ela volta ao mesmo ponto.

Mas há uma mudança importante: no final, a velhinha é definida como:

“uma velhinha sem dente.”

Essa imagem é mais concreta e mais dura do que “quase cega e surda”. O poema termina com uma figura de perda, de ausência física.

A velhinha sem dente pode representar uma lucidez que já não consegue “morder” a realidade, falar plenamente ou sustentar a própria força. A lucidez envelheceu e perdeu seus instrumentos.

Força literária

O texto possui boa força imagética e forte unidade simbólica. Os elementos não aparecem isolados: eles se relacionam por meio de redes internas.

Os principais campos de imagens são:

  • casas e espaços: riso, sonho, vida;
  • fios e tecidos: costurar, cerzir, entrelaçar, tecer;
  • tempo e desgaste: puídas, desbotadas, tempos que já se foram, velhinha;
  • imobilidade e distância: encostada, pés presos, terras distantes;
  • visão e ausência: quase cega, estrela, janela, olhar;
  • sons perdidos: o riso que não ouvimos, o ruído do rio, a velhinha surda.

Essa coerência dá ao poema uma estrutura profunda. Ele parece ter sido construído por associações, e não apenas por imagens bonitas.

A maior qualidade está na capacidade de transformar sentimentos abstratos em personagens e objetos concretos. O poema não diz diretamente “a lucidez é dolorosa” ou “o sonho pode trazer tristeza”. Ele mostra uma velhinha torta e uma moça encostada numa parede. Essa escolha torna o texto mais artístico.
.

Avaliação geral

Estilo: lírico, simbólico, melancólico e levemente surrealista.

Fluidez: boa, com uma progressão clara entre riso, sonho, vida e estrela. O poema se move como uma caminhada por casas interiores.

Imagens: fortes e coerentes, sobretudo a velhinha que cerze roupas e a aranha que prende os pés da moça.

Originalidade: alta. A representação da lucidez como uma velhinha torta é uma imagem incomum e expressiva.

Força literária: significativa. O poema possui uma atmosfera própria e não depende de explicações diretas. Sua tristeza é construída por objetos, cores, gestos e espaços.

A leitura mais profunda, para mim, é esta: a moça vive entre o sonho e a lucidez, deseja partir, mas permanece presa à vida e às suas memórias. A estrela — possível símbolo de esperança — revela-se apenas um eco. No fim, resta a fotografia de uma existência imóvel: uma mulher lendo, junto a um rio cinza e a uma lucidez envelhecida.

sábado, 18 de julho de 2026

LE PETIT PRINCE

 





Claro que te farei mal. Claro que me farás mal. Claro que podemos, mas essa é a condição da existência. Receber a Primavera significa correr os riscos do Inverno. Se desistir agora será correr o risco do desaparecimento

sexta-feira, 10 de julho de 2026

DEVANEIO



Renda-se, como eu me rendi . Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

                                                                                               C. Lispector






sexta-feira, 3 de julho de 2026

CLINT EASTWOOD

 



A visão de Clint Eastwood sobre a velhice é marcada pelo realismo e por sua famosa filosofia "não deixe o velho entrar". Ele descreve o envelhecer como uma liberação, onde se perde o medo da dúvida e da incerteza, mas reconhece que há um peso físico e emocional, incluindo a solidão.   



Li um artigo essa semana sobre o Ator e  deu-me um aperto no peito. Caminhamos na mesma esteira-  O TEMPO. Lembro de todos os filmes dele que assisti.  Confesso que torci que Francesca ( Mary Streep) abrisse aquela maçaneta e deixasse o mundo pra trás. - PONTES DE MADSON, anos 90. Inútil, o roteirista já tinha decidido por ela. O filme fala de desencontro, ou encontro extemporâneo. Mas se eles tivessem se encontrado fora daquele labirinto, talvez nenhum som teria vindo dos sinos. A maneira peculiar de Mary Streep sorrir sempre me definiu a escolha. Muito feminino, sensual, às vezes  materno. Sendo assim o compromisso pessoal com a família falou  a ela mais alto.  Clin resiste ao tempo. Aos 96 anos, ele espera o inevitável, em pé, na porta da frente da sala, com desafio, como se dissesse :Estou aqui , quero ver você me derrubar olhando-me nos olhos. Ele considera que  envelhecer não é desistir, mas sim deixar de ouvir o barulho interior. Gigante. 


quarta-feira, 13 de maio de 2026

ESTRELAS DUPLAS

 



                               Um encontro , às vezes, desmonta  todo a rotina ordinária da vida.


          A aglomeração de estrelas formada pela grande nebulosa a Via-Láctea possui vários sóis. Entre esses diversos sóis, a maioria é como o nosso, cercada de mundos secundários, que iluminam e fecundam. Uns, como Sírius, são milhares de vezes mais magníficos, em dimensões e riquezas, do que o nosso, cumprindo assim um papel mais importante no Universo e também os planetas , em maior número e muitos superiores aos nossos. È assim que um certo número desses sóis, é acompanhado de seus gêmeos da mesma idade e formam no espaço os Sistemas Binários. São as estrelas duplas. Ali os anos não mais se medem pelo mesmo período, nem os dias pelos mesmos sóis, e esses mundos iluminados por uma dupla luz receberam condições de existência inimagináveis pela maioria de nós que nunca saímos do pequeno mundo terrestre. Os efeitos prodigiosos de luz produzidos pelos dois sóis para os habitantes desses mundos, apesar da proximidade aparente , permitem a circulação entre eles, e ainda receberem alternadamente ondas de luz diversamente coloridas, cuja reunião recompõe a luz branca.
         Zárias atravessou a ponte de casa e a entrada principal da cidade , onde passava o maior período da manhã. Deu alguns passos e entrou no círculo claro, aonde sempre caminhava com mais cuidado, pois a visibilidade era como de estrada em nevoeiro. Alguns passos e bateu o ombro em alguém que caminhava em sua direção.
         _ Desculpe aí amigo!, disse o estranho.
     Zárias parou por uns segundos e olhou o desconhecido. Subitamente observou que há anos não ouvia uma comunicação verbal e não decifrou em princípio o dialeto. O estranho continuou:
_ Por favor você poderia me mostrar a saída? Acho que eu me perdi.
       Zárias, sabia que conhecia a linguagem e estava diante de uma situação inusitada, dessas que acontecem a cada dez mil anos. Lembrou-se das lições de quando era criança, dos inúmeros idiomas e dialetos verbais que aprendera. Era hora de utilizá-lo.
         - É...hã... Como vai? meu nome é Záiras. Eu vou ajudá-lo.
         - Você pode me dizer porque raios, eu não estou enxergando nada. Acho que bati a cabeça.
          _ Eu também, estou com dificuldades , saí de casa sem o devido preparo. Mas não se preocupe, me siga , a ponte não é muito grande, logo estaremos do outro lado.
         Quando chegaram do outro lado, o estrangeiro olhou tudo a sua volta, não acreditando no que via. O Céu tinha uma tonalidade rósea e em alguns pontos cintilavam corpos aqui e ali. Não eram estrelas, flutuavam no ar, sumiam e apareciam continuamente.
         - Vem cá, amigo isto aqui é algum planetário. Olha faz tempo que eu não vou num...
          - Não , este é um dos céus de Sirius.
         _ E aquilo ali, parecem... dois sóis?
       _São dois sóis. Acho que você caiu aqui por engano.
          _ E você que dizer que eu estou em outro...
        _ Você está em outro mundo. Não sei como veio parar aqui , mas com certeza sua estada não deve durar muito tempo . Na sua contagem penso que alguns minutos.
        _ È... acho que eu estou dormindo e devo acordar em alguns minutos ..., bem já que estou por aqui que tal você me mostrar tudo então . Eu não disse meu nome, meu nome é Zacarias.
        _ Seja bem-vindo Zacarias, mas... estou desconfiado de alguma coisa... Eu já vi contar sobre acontecimentos como estes. Veja... estenda seu braço a sua frente.
     O estrangeiro esticou o braço e foi como atravessar uma cortina invisível. Sentiu a umidade do ar e a vibração sobre sua mão. Viu um ponto de luz formando-se entre os dedos e puxou a mão rapidamente.
       _ Agora vire -se de costa, de onde você veio, e tente esticar sua mão. O estranho obedeceu e encontrou uma parede rigída.
       _ É vidro?

        - É como se fosse, só que não se quebra , disse o dono da casa.
      - Observe quando eu estico o meu braço, continuou. Atravessou com metade do braço a parede de vidro.
     - Observe, disse ainda, que eu não consigo atravessar a parede a sua frente, como você fez.
      - Você quer dizer que estamos presos aqui sobre essa ponte.
    - Não, eu quero dizer que você segue em frente e eu sigo em direção contrária.
    - Cara, você quer dizer que eu vou pro seu planeta e você segue pro meu?
    - Parece que sim.
   - Isto quer dizer que se isso não for um sonho, nós não voltamos para nossas casas?
   - Com certeza...
  - Eu vou te dizer uma coisa seu Záiras, só olhando o espetáculo no céu eu vou te dizer que seu planeta é fantástico.
    _O seu, pelo que eu estudei, é belíssimo.
   _ E como eu vou me comunicar. Todo mundo fala a minha língua como o senhor?
     _ Os que não sabem se esforçam. Com o tempo o Senhor vai aprender de usar o pensamento em vez das palavras.
    _Eu vou lhe adiantar também que as coisas por lá, aonde o senhor vai, são complicadas. Mas eu acho que o senhor se sairá bem.
     _Faz tempo que recebi umas aulas sobre esse tipo de viagem. Vou procurar me lembrar durante o caminho. Boa sorte, Sr. Zacarias. Acho que o Senhor será feliz enquanto estiver por aqui.
        _ Quer dizer que ainda vamos nos reencontrar?
        _ Daqui a um tempo...
       _Eu deveria alertar o Senhor  Zairas , mas acho que o Senhor saberá fazer as melhores escolhas. Dê aqui um abraço.

         Em pé sobre o fim da ponte , sob os sóis de um dos planetas da nebulosa, dois homens se despediam. O caminho à frente de Záiras foi alargando-se e plantações de girassóis eram vistas ladeando a trilha. Ora ele tocava a parede à esquerda da trilha , ora à direita. A textura era de bolha de sabão, mas não se rompia. O desconhecido deu alguns passos e o imenso jardim de girassóis abriu-se a sua frente , não mais havia paredes laterais. Os sois sobre os girassóis criavam uma linha sinuosa lhe indicando a passagem.
        Zacarias , olhou o homem por algum tempo ir sumindo na curva luminosa. Inspirou fundo e seguiu.

L.A
"Inspirado no capítulo - Uranografia Geral- do Livro A Gênese- Allan Kardec"

Junho, 2001