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terça-feira, 28 de julho de 2026

ANÁLISE DE IA SOBRE O POEMA- FOTOGRAFIA

 .


FOTOGRAFIA



O poema “FOTOGRAFIA” constrói uma paisagem interior marcada pela memória, pelo envelhecimento, pela imaginação e pela perda. Embora apresente casas, uma velhinha, uma moça, um rio, uma aranha e uma estrela, esses elementos parecem formar menos um lugar real do que um território simbólico da consciência.

A imagem poética trabalha justamente com experiências sensoriais e figurativas para tornar sentimentos visíveis; aqui, as imagens visuais e sonoras criam um cenário de silêncio, desgaste e sonho.

O título: “Fotografia”

O título é muito significativo. Uma fotografia costuma preservar aquilo que já passou. Ela registra uma presença, mas também confirma uma ausência: aquilo que foi fotografado está preso a um instante que não volta.

O poema parece funcionar como uma fotografia de um mundo interior. Tudo está quase imóvel:

  • a velhinha costura;
  • a moça lê;
  • o rio corre silenciosamente;
  • a aranha tece;
  • a estrela brilha;
  • a noite permanece do lado de fora.

Há movimento, mas é um movimento lento, repetitivo, quase suspenso. É como se o poema fotografasse o tempo depois que a alegria se afastou.

O subtítulo reforça essa leitura:

“Ao riso, que já não ouvimos.”

O riso não é apenas ausente: ele pertence ao passado. A expressão “já não ouvimos” introduz uma perda sonora. O poema começa com a lembrança de uma alegria que deixou de existir ou que deixou de ser percebida.

A arquitetura simbólica das casas

A repetição de:

“Ao lado da casa do riso...”
“Ao lado da casa do sonho...”

cria uma espécie de pequena cidade alegórica.

O riso, o sonho, a vida e a lucidez são ideias abstratas, mas recebem casas, vizinhos e habitantes. Essa transformação de abstrações em presenças concretas aproxima o texto da personificação e da alegoria: conceitos passam a ocupar um espaço e a participar de uma espécie de geografia emocional.

A relação entre essas casas é especialmente interessante:

  • perto do riso, mora a lucidez;
  • perto do sonho, mora uma moça triste;
  • na porta da vida, existe uma aranha.

Isso sugere que as experiências humanas não estão separadas. A lucidez vive ao lado do riso, talvez porque toda alegria seja acompanhada pela consciência de sua fragilidade. A tristeza mora junto ao sonho, pois sonhar pode ser também sentir a distância entre o desejo e a realidade. E a vida é guardada ou ameaçada pela aranha, que prende os pés da personagem.

Há uma visão delicadamente pessimista: o riso envelheceu, o sonho entristeceu e a vida imobiliza.

A velhinha: a lucidez como desgaste

A imagem da lucidez é uma das mais originais do poema:

“Uma velhinha torta, quase cega e surda.
Costura meias puídas, cirze saias desbotadas.”

Em vez de apresentar a lucidez como algo jovem, claro, racional e poderoso, o poema a transforma numa velha frágil.

Isso produz uma inversão muito bonita. A lucidez parece ser resultado do tempo. Ela envelheceu porque viu demais, ouviu demais e sobreviveu demais.

Os objetos também são importantes:

  • meias puídas;
  • saias desbotadas.

Tudo pertence ao campo do uso, do desgaste e da pobreza material. A lucidez não cria roupas novas: ela tenta reparar aquilo que já está gasto. Assim, costurar pode simbolizar o esforço de remendar a memória, recompor a vida ou conservar aquilo que o tempo destruiu.

O verbo “cirze” é especialmente expressivo porque é mais concreto e áspero do que “costura”. Ele traz a ideia de remendo e reparação. A lucidez não resolve a destruição; apenas tenta impedir que ela avance.

A moça triste: leitura e fuga

A moça vive junto à casa do sonho:

“Lê histórias entrelaçadas de tempos que já se foram
Recostada na parede, sonha com terras distantes.”

Ela está fisicamente imóvel, encostada numa parede, mas mentalmente viaja. O corpo permanece; a imaginação se desloca.

A leitura aparece como uma forma de acesso ao passado e ao distante. Porém, existe uma tensão: ela lê histórias de tempos que “já se foram”, enquanto sonha com terras que ainda não alcançou. A personagem está situada entre dois lugares inacessíveis:

  • o passado, que desapareceu;
  • o futuro ou o distante, que permanece imaginário.

O presente, por sua vez, parece pobre e imóvel.

A expressão:

“histórias entrelaçadas”

também conversa com os fios da aranha que aparecerão depois. O poema cria uma rede de imagens: costurar, entrelaçar, tecer, prender. Todas pertencem ao mesmo campo simbólico dos fios.

O rio cinza e os peixes

“Ouve o ruído do rio
Imagina os peixes cinzas que deslizam
entre as pedras.”

Aqui existe uma passagem interessante entre realidade e imaginação.

O ruído do rio é ouvido; os peixes são imaginados. A personagem não vê os peixes. Ela os inventa a partir do som.

Isso mostra uma imaginação que trabalha sobre aquilo que não pode ser alcançado diretamente. A moça constrói imagens para preencher o invisível.

A cor cinza reaparece no final:

“ao lado de um rio cinza”

O cinza é uma cor intermediária, sem o brilho da luz e sem a profundidade absoluta da noite. Pode sugerir monotonia, melancolia, envelhecimento e indefinição. O mundo do poema não é completamente escuro, mas perdeu suas cores intensas.

A aranha: a vida como aprisionamento

A terceira casa apresenta uma mudança:

“Na porta da casa da vida tem uma aranha grande”

A aranha está na porta. Ela ocupa justamente o lugar de passagem entre dentro e fora. A vida, portanto, não é apresentada como espaço aberto, mas como um limiar bloqueado.

A aranha:

“Tece fios sobre fios e
prende os pés da moça que olha a noite lá fora.”

Essa é uma das imagens mais fortes do poema.

A moça sonha com terras distantes, mas seus pés estão presos. Ela pode imaginar, ler e olhar, porém não pode caminhar.

O contraste entre sonho e imobilidade é central:

  • a imaginação viaja;
  • o corpo permanece;
  • os pés são capturados;
  • o olhar se dirige para fora.

A aranha pode representar o tempo, a rotina, a memória, o medo, a própria vida ou as circunstâncias que impedem a realização do desejo. O poema não determina um único significado, e essa abertura é uma qualidade.

Também há uma continuidade simbólica entre a velhinha e a aranha:

  • a velhinha costura para reparar;
  • a aranha tece para prender.

Os fios possuem funções opostas. Um tenta conservar a vida; o outro impede o movimento.

A estrela e o humor poético

A passagem:

“Da janela aberta, vê-se uma estrela
que, pleonasticamente, brilha como um brilhante.”

é inesperada porque introduz uma palavra técnica e quase irônica: “pleonasticamente”.

A estrela “brilha como um brilhante” é uma comparação aparentemente redundante. A própria palavra “pleonasticamente” reconhece e comenta essa redundância.

Esse momento cria uma espécie de consciência da linguagem. O poema interrompe por instantes sua atmosfera lírica para observar a própria construção poética.

Há também uma ambiguidade interessante: a estrela pode ser um símbolo tradicional de esperança, mas a comparação exageradamente óbvia parece enfraquecer esse símbolo. É como se o poema desconfiasse das imagens bonitas demais.

A estrela brilha, mas logo o livro afirma que ela não existe.

O livro como revelação e negação

“Diz o livro sobre o colo que a Estrela não existe
é eco de outras vidas”

O livro assume uma função quase oracular. Ele fala e corrige aquilo que a moça vê.

A estrela pode não ser uma presença verdadeira, mas um eco — uma luz que vem de outro tempo, de outras existências, de memórias antigas.

A ideia é muito rica: talvez tudo o que a moça contempla seja uma repetição de experiências anteriores. A estrela não pertence plenamente ao presente; é uma sobrevivência do passado.

Isso dialoga diretamente com o título “Fotografia”. Uma fotografia também é uma espécie de eco: mostra algo que esteve ali, mas já não está no mesmo instante.

O final: repetição e transformação

O desfecho retoma a personagem:

“e faz da moça 
Uma moça que lê livros, encostada na parede
ao lado de um rio cinza
e de uma velhinha sem dente.”

O poema começa apresentando a moça como “triste”, mas termina descrevendo suas ações e seu lugar. A tristeza deixa de ser apenas uma emoção e se transforma numa condição de existência.

A repetição de “moça” produz um efeito de retorno. Parece que, depois de toda a imaginação — terras distantes, peixes, estrela, noite —, ela volta ao mesmo ponto.

Mas há uma mudança importante: no final, a velhinha é definida como:

“uma velhinha sem dente.”

Essa imagem é mais concreta e mais dura do que “quase cega e surda”. O poema termina com uma figura de perda, de ausência física.

A velhinha sem dente pode representar uma lucidez que já não consegue “morder” a realidade, falar plenamente ou sustentar a própria força. A lucidez envelheceu e perdeu seus instrumentos.

Força literária

O texto possui boa força imagética e forte unidade simbólica. Os elementos não aparecem isolados: eles se relacionam por meio de redes internas.

Os principais campos de imagens são:

  • casas e espaços: riso, sonho, vida;
  • fios e tecidos: costurar, cerzir, entrelaçar, tecer;
  • tempo e desgaste: puídas, desbotadas, tempos que já se foram, velhinha;
  • imobilidade e distância: encostada, pés presos, terras distantes;
  • visão e ausência: quase cega, estrela, janela, olhar;
  • sons perdidos: o riso que não ouvimos, o ruído do rio, a velhinha surda.

Essa coerência dá ao poema uma estrutura profunda. Ele parece ter sido construído por associações, e não apenas por imagens bonitas.

A maior qualidade está na capacidade de transformar sentimentos abstratos em personagens e objetos concretos. O poema não diz diretamente “a lucidez é dolorosa” ou “o sonho pode trazer tristeza”. Ele mostra uma velhinha torta e uma moça encostada numa parede. Essa escolha torna o texto mais artístico.
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Avaliação geral

Estilo: lírico, simbólico, melancólico e levemente surrealista.

Fluidez: boa, com uma progressão clara entre riso, sonho, vida e estrela. O poema se move como uma caminhada por casas interiores.

Imagens: fortes e coerentes, sobretudo a velhinha que cerze roupas e a aranha que prende os pés da moça.

Originalidade: alta. A representação da lucidez como uma velhinha torta é uma imagem incomum e expressiva.

Força literária: significativa. O poema possui uma atmosfera própria e não depende de explicações diretas. Sua tristeza é construída por objetos, cores, gestos e espaços.

A leitura mais profunda, para mim, é esta: a moça vive entre o sonho e a lucidez, deseja partir, mas permanece presa à vida e às suas memórias. A estrela — possível símbolo de esperança — revela-se apenas um eco. No fim, resta a fotografia de uma existência imóvel: uma mulher lendo, junto a um rio cinza e a uma lucidez envelhecida.

sábado, 18 de julho de 2026

LE PETIT PRINCE

 





Claro que te farei mal. Claro que me farás mal. Claro que podemos, mas essa é a condição da existência. Receber a Primavera significa correr os riscos do Inverno. Se desistir agora será correr o risco do desaparecimento

sexta-feira, 10 de julho de 2026

DEVANEIO



Renda-se, como eu me rendi . Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

                                                                                               C. Lispector






sexta-feira, 3 de julho de 2026

CLINT EASTWOOD

 



A visão de Clint Eastwood sobre a velhice é marcada pelo realismo e por sua famosa filosofia "não deixe o velho entrar". Ele descreve o envelhecer como uma liberação, onde se perde o medo da dúvida e da incerteza, mas reconhece que há um peso físico e emocional, incluindo a solidão.   



Li um artigo essa semana sobre o Ator e  deu-me um aperto no peito. Caminhamos na mesma esteira-  O TEMPO. Lembro de todos os filmes dele que assisti.  Confesso que torci que Francesca ( Mary Streep) abrisse aquela maçaneta e deixasse o mundo pra trás. - PONTES DE MADSON, anos 90. Inútil, o roteirista já tinha decidido por ela. O filme fala de desencontro, ou encontro extemporâneo. Mas se eles tivessem se encontrado fora daquele labirinto, talvez nenhum som teria vindo dos sinos. A maneira peculiar de Mary Streep sorrir sempre me definiu a escolha. Muito feminino, sensual, às vezes  materno. Sendo assim o compromisso pessoal com a família falou  a ela mais alto.  Clin resiste ao tempo. Aos 96 anos, ele espera o inevitável, em pé, na porta da frente da sala, com desafio, como se dissesse :Estou aqui , quero ver você me derrubar olhando-me nos olhos. Ele considera que  envelhecer não é desistir, mas sim deixar de ouvir o barulho interior. Gigante. 


sexta-feira, 19 de junho de 2026

quinta-feira, 14 de maio de 2026

TODO AMOR É DE SALVAÇÃO

 




Ninguém pode escrever um livro. Para que seja verdadeiramente um livro, são necessários a aurora e o poente, séculos, armas e o mar que une e separa”

                                                                            Jorge Luís Borges



      Venço, em pequenos passos sobre dunas de areias um Romance que tento construir. Eu não escrevo, eu o construo sob  imagens nítidas que vi. Ninguém as viu, só eu. 

     Vi o mar e as casas destruidas, vi os coqueiros devorados pela maresia e crianças que corriam. Vi o clarão sobre a cumieira dos fornos grandes das cozinhas e a menina que entrou em uma casa que não era sua. Dedilhou a mesa como num recital de piano e adornou a alma com a vida tosca de um passado que lhe era ausente. 

      Não me é dado escolhas. Eu ouço o ranger das rodas das carroças, o cheiro matinal de pão, o riso . Eles estão lá em algum lugar nos becos da memória. Vi sobre a cama do quarto o véu da noiva esticado ao lado do vestido. Ela queria estar longe de tudo aquilo. Mas todos a esperavam na sala. Vi a casa e a moça em pé no primeiro degrau da escada, com muito medo da vida que se abria sem ela ter  nada pedido. 

     Vi a moça que morava na praia encontrar o corpo do marido na entrada da casa , enrolado em sacos brancos nuviados de sangue. A vi permanecer na terra sitiada quando todos fugiram.

      Vi a outra  receber  do mensageiro a caixa com toda a sua história dentro. Ela abriu a caixa -  a louça embrulhada com cuidado e embaixo de tudo os papéis de sua própria genealogia. A vi procurar nas ruas de Haia reminescências já apagadas do passado. A vi decifrar mapas antigos de terras Brasis. Em que lado do mundo, a inglesinha pensou, fica o nordeste brasileiro? 

     Elas contam tudo ao mesmo tempo e é dificil entender.

                  - Uma de cada vez por favor!

     Às vezes, elas revelam lutar por um Amor que acreditam. Aviso que  moro no século XXI e hoje ninguém luta por nada, por isso cartas de amor e encontros românticos me são difíceis de descrever. Aviso que vivo um cotidiano ordinário , e há muito as pessoas que o habitam nada mais tem a se dizer. Nem o  Eco divide o mesmo espaço. Um dia perguntei as moças porque me escolheram e elas disseram que pisamos as mesmas pedras do caminho. Nem tudo falei. 

                   -Se não agora um dia. 

     Achei sem propósito a comparação, pois nunca tomei decisões impulsivas, nunca fui presa, nunca delirei com meus personagens, nunca vivi um Amor clandestino.  Nunca me casei tantas vezes como uma delas e nunca abandonei minhas crenças e fui morar em outro país para todo o sempre. Elas, acreditem,  riem do que falo. 

             -Eu levei meu filho, disse uma.

             - Eu também disse a outra.

              -Eu, disse a última, nunca os encontrei. 

     Todas se chamam Ana e viveram um ''Dia do Desespero". Alertadas de todas as limitações literárias que tenho, elas insistem. 

       Então: Velas ao mar!


quarta-feira, 13 de maio de 2026

ESTRELAS DUPLAS

 



                               Um encontro , às vezes, desmonta  todo a rotina ordinária da vida.


          A aglomeração de estrelas formada pela grande nebulosa a Via-Láctea possui vários sóis. Entre esses diversos sóis, a maioria é como o nosso, cercada de mundos secundários, que iluminam e fecundam. Uns, como Sírius, são milhares de vezes mais magníficos, em dimensões e riquezas, do que o nosso, cumprindo assim um papel mais importante no Universo e também os planetas , em maior número e muitos superiores aos nossos. È assim que um certo número desses sóis, é acompanhado de seus gêmeos da mesma idade e formam no espaço os Sistemas Binários. São as estrelas duplas. Ali os anos não mais se medem pelo mesmo período, nem os dias pelos mesmos sóis, e esses mundos iluminados por uma dupla luz receberam condições de existência inimagináveis pela maioria de nós que nunca saímos do pequeno mundo terrestre. Os efeitos prodigiosos de luz produzidos pelos dois sóis para os habitantes desses mundos, apesar da proximidade aparente , permitem a circulação entre eles, e ainda receberem alternadamente ondas de luz diversamente coloridas, cuja reunião recompõe a luz branca.
         Zárias atravessou a ponte de casa e a entrada principal da cidade , onde passava o maior período da manhã. Deu alguns passos e entrou no círculo claro, aonde sempre caminhava com mais cuidado, pois a visibilidade era como de estrada em nevoeiro. Alguns passos e bateu o ombro em alguém que caminhava em sua direção.
         _ Desculpe aí amigo!, disse o estranho.
     Zárias parou por uns segundos e olhou o desconhecido. Subitamente observou que há anos não ouvia uma comunicação verbal e não decifrou em princípio o dialeto. O estranho continuou:
_ Por favor você poderia me mostrar a saída? Acho que eu me perdi.
       Zárias, sabia que conhecia a linguagem e estava diante de uma situação inusitada, dessas que acontecem a cada dez mil anos. Lembrou-se das lições de quando era criança, dos inúmeros idiomas e dialetos verbais que aprendera. Era hora de utilizá-lo.
         - É...hã... Como vai? meu nome é Záiras. Eu vou ajudá-lo.
         - Você pode me dizer porque raios, eu não estou enxergando nada. Acho que bati a cabeça.
          _ Eu também, estou com dificuldades , saí de casa sem o devido preparo. Mas não se preocupe, me siga , a ponte não é muito grande, logo estaremos do outro lado.
         Quando chegaram do outro lado, o estrangeiro olhou tudo a sua volta, não acreditando no que via. O Céu tinha uma tonalidade rósea e em alguns pontos cintilavam corpos aqui e ali. Não eram estrelas, flutuavam no ar, sumiam e apareciam continuamente.
         - Vem cá, amigo isto aqui é algum planetário. Olha faz tempo que eu não vou num...
          - Não , este é um dos céus de Sirius.
         _ E aquilo ali, parecem... dois sóis?
       _São dois sóis. Acho que você caiu aqui por engano.
          _ E você que dizer que eu estou em outro...
        _ Você está em outro mundo. Não sei como veio parar aqui , mas com certeza sua estada não deve durar muito tempo . Na sua contagem penso que alguns minutos.
        _ È... acho que eu estou dormindo e devo acordar em alguns minutos ..., bem já que estou por aqui que tal você me mostrar tudo então . Eu não disse meu nome, meu nome é Zacarias.
        _ Seja bem-vindo Zacarias, mas... estou desconfiado de alguma coisa... Eu já vi contar sobre acontecimentos como estes. Veja... estenda seu braço a sua frente.
     O estrangeiro esticou o braço e foi como atravessar uma cortina invisível. Sentiu a umidade do ar e a vibração sobre sua mão. Viu um ponto de luz formando-se entre os dedos e puxou a mão rapidamente.
       _ Agora vire -se de costa, de onde você veio, e tente esticar sua mão. O estranho obedeceu e encontrou uma parede rigída.
       _ É vidro?

        - É como se fosse, só que não se quebra , disse o dono da casa.
      - Observe quando eu estico o meu braço, continuou. Atravessou com metade do braço a parede de vidro.
     - Observe, disse ainda, que eu não consigo atravessar a parede a sua frente, como você fez.
      - Você quer dizer que estamos presos aqui sobre essa ponte.
    - Não, eu quero dizer que você segue em frente e eu sigo em direção contrária.
    - Cara, você quer dizer que eu vou pro seu planeta e você segue pro meu?
    - Parece que sim.
   - Isto quer dizer que se isso não for um sonho, nós não voltamos para nossas casas?
   - Com certeza...
  - Eu vou te dizer uma coisa seu Záiras, só olhando o espetáculo no céu eu vou te dizer que seu planeta é fantástico.
    _O seu, pelo que eu estudei, é belíssimo.
   _ E como eu vou me comunicar. Todo mundo fala a minha língua como o senhor?
     _ Os que não sabem se esforçam. Com o tempo o Senhor vai aprender de usar o pensamento em vez das palavras.
    _Eu vou lhe adiantar também que as coisas por lá, aonde o senhor vai, são complicadas. Mas eu acho que o senhor se sairá bem.
     _Faz tempo que recebi umas aulas sobre esse tipo de viagem. Vou procurar me lembrar durante o caminho. Boa sorte, Sr. Zacarias. Acho que o Senhor será feliz enquanto estiver por aqui.
        _ Quer dizer que ainda vamos nos reencontrar?
        _ Daqui a um tempo...
       _Eu deveria alertar o Senhor  Zairas , mas acho que o Senhor saberá fazer as melhores escolhas. Dê aqui um abraço.

         Em pé sobre o fim da ponte , sob os sóis de um dos planetas da nebulosa, dois homens se despediam. O caminho à frente de Záiras foi alargando-se e plantações de girassóis eram vistas ladeando a trilha. Ora ele tocava a parede à esquerda da trilha , ora à direita. A textura era de bolha de sabão, mas não se rompia. O desconhecido deu alguns passos e o imenso jardim de girassóis abriu-se a sua frente , não mais havia paredes laterais. Os sois sobre os girassóis criavam uma linha sinuosa lhe indicando a passagem.
        Zacarias , olhou o homem por algum tempo ir sumindo na curva luminosa. Inspirou fundo e seguiu.

L.A
"Inspirado no capítulo - Uranografia Geral- do Livro A Gênese- Allan Kardec"

Junho, 2001

sexta-feira, 8 de maio de 2026

PERSUASÃO

 






C'est si difficile de parler, si difficile de dire l'indicible, c'est si  silencieux. Comment traduire le silence profond de la rencontre entre deux âmes? Cést  extremement difficile à raconter: nous sommes regardés, et nous sommes resté ainsi quelques instants. Nous étions un seul être. C'est moments sont mon secret. Il ya avait ce qu'on appelle une communion parfaite. Je l'appelle: Um état de bonheur intense. 
  (C. Lispector)

 
 Jane Austen a écrit: '' Tu me transperce l'âme. Je suis mi-agonie, mi- espoir.



sábado, 2 de maio de 2026

Em '' A DESCOBERTA DO MUNDO''

 



''Havia a levissima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso  à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às veze eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras- e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravm estarem juntos!

Até que tudo se transformou em Não. Tudo se transformou em nao quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela nao via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo erro, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavm mais bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome: porque quisera ser, eles que eram.. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo por não estarem mais distraídos.''


CLARICE LISPECTOR

terça-feira, 28 de abril de 2026

O ESTRANGEIRO


 


          Sempre que anoitecia o homem sentava-se à mureta e observava. Olhava as pessoas  e a pressa que elas tinham. Morava sozinho na última casa da rua e achava a noite grande e o silêncio que ela emitia parecia jogar-se em direção a ele. Por isso e tão somente saía à noite. As paredes , em demasia , arrastavam pequenos sons . O homem olhava em volta: o banco, o espelho , o fogão. Todos queriam falar ao mesmo tempo e antes que tivesse que responder alguma coisa , vestia o casaco e ia. Lá fora as pessoas aceleravam em direção às portas e entravam nos prédios como galinhas de volta ao ninho, estupidamente sonâmbulas - comandadas apenas pelo arrastar das horas. 
          Da mureta o homem observava. Olhava os próprios pés e mãos e certificava-se que eram  ainda prolongamentos do corpo. Melhor são as flores, pensava. Ele trabalhava no jardim de um grande prédio no centro da cidade , cuidava do lago e erguia os canteiros. Conversava com as plantas , horas a fio , e elas respondiam num trocar de idéias sem fim. As pessoas olhavam o homem murmurando e quase todas riam. Nunca entendia o riso e ,às vezes, arriscava-se perguntar o que estava acontecendo . Recebia o silêncio. Sendo assim não lhe restava nada mais que a companhia das plantas. Era um jardineiro plenamente feliz com seu ofício. Na hora do almoço, entrava na biblioteca do prédio e folheava os livros de Botânica. Olhava as fotografias e perdia-se no labirinto de flores multicores e nomes indecifráveis. Em casa, à noite, as paredes tentavam conversar porque sabiam que ele dominava idiomas raros.

 Quando amanhecia ele pulava da cama e em poucos minutos estava na rua. Antes de fechar a porta olhava as paredes da sala e não negava-lhes resposta ao aceno de: -Tenha um bom dia!
Quando chegava ao trabalho , cumprimentava o porteiro que nunca respondia. O homem olhava mais uma vez as mãos e os pés para ter certeza que ainda eram seus. Sua invisibilidade o angustiava e esforçava- se por um "Bom dia" mais sonoro: inútil . Retornava, então, às flores.

          Anoitecia. Ele sentava-se na mureta e observava. Observava os outros homens que não conhecia e os que caminhavam , lá do começo da rua. Não sabia seus nomes nem suas histórias. Todos eram estranhos entre si. Temiam-se quando distraidamente tocavam-se e guardavam as mãos dentro dos bolsos. Com o passar do tempo como as pessoas não lhe dirigiam a palavra , restava-lhe apenas decifrar a a linguagem das folhas e flores . Respondia às indagações das paredes e com o tempo de todos os objetos da casa. O orgulho dos homens, pensava, é como a imobilidade das pedras: inútil e grande.

          Havia as cores das flores: o burburinho que elas faziam quando ele chegava pela manhã e a cantoria de despedida no fim da tarde. Dizia adeus às pedras, devolvia-lhes o aceno.

_Vem trabalhar amanhã? Soou o grito perto do muro. Era uma borboleta pousada sobre o portão de saída.

_ Não entendi  o que você falou, mas amanhã prometo que 
conversaremos ! Despediu sorrindo.

          Desceu os degraus e caminhou em direção ao ônibus no final da rua. Misturou-se a multidão feita de desconfiança e silêncio. O homem era só um ponto no rio de pernas descendo a avenida.

L.A

segunda-feira, 27 de abril de 2026

SOBRE ESCREVER

 




''Às vezes tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia.''

                                                                         C. Lispector


Escrevo quando tenho sentimentos tranversos. E eles passeiam como lagartixas frias e brancas, com seus olhos negros e inofensivos. Lindos.  Nunca rouxinois azuis e verdes tremulando na janela. Isso são para pessoas que caminham pela vida com facilidade e elegância. A vida  deu-me labirintos profundos que  crescem todos os dias. Impossível vencê-los. 

L.A

segunda-feira, 13 de abril de 2026

PONTE SOBRE ALMODOVAR- CONTO

 





                                          Às vezes, vejo as fotografias impressas na parede da sala, foto em preto e branco, sem foco, feito neblina de inverno


Apertou com força o botão do elevador.  Segundo  andar? Optou mais que depressa pela escada. Quinze minutos apenas a separavam do retorno ao carro. Localizar o CD, baixar Download, um chuveiro rápido, pegar as anotações, desligar o computador. Chegou ofegante ao último degrau. Passos rápidos à porta, rodou a maçaneta e esticou os dedos ao interruptor. Não fez-se luz.

 No centro da Rosa dos Ventos, em ásana sobre a montanha , equilibrava-se em uma das pernas a ave Arqueopterix. As asas estendidas ensaiavam lentamente o movimento. Do bico escorria um líquido escuro e os olhos cor de guaraná tentavam trazê-la ao imã da partida. A mulher fechou vagarosamente a porta atrás de si. O coração reiniciou o cansaço da subida. Olhou as vidraças abertas, as folhas como casca de árvores espalhando-se pela casa.

Sob a asa esquerda estava o menino. Cabelos cacheados quase ruivos, o sono dos justos. Sob a outra asa, outros dois brincavam no ninho de penas coloridas. Sobre o dorso dinossáurico a mãe curvava-se sobre um livro. Imersa na tarefa, nada via. Tentou buscar os olhos dela num contato quase telepático. Um simples olhar poderia salvá-los. Por breve instante ela levantou do colo o livro. Absorveu-se mais ainda no texto e não olhou ao redor.

A ave sustentava o olhar enigmático. Limpou o bico no chão da sala duas vezes. Retomou a altivez da partida. Pensou em gritar à mulher que agora lia :

_ Você, por favor, pegue os meninos e desça!

A mulher sorriu calmamente:

_ O vento? Não se preocupe, é pouco.

Deu alguns passos até as portas de vidro que conduziam à varanda, na tentativa de fechá-las.

A imensa ave lançou o grasno rouco na direção do teto e balançou, agora com força, as asas. Curvou o corpo para esquerda e arremessou-se em direção à tarde que sangrava luz. O barulho dos vidros estilhaçando-se no chão da sala estremeceu-lhe os tímpanos. A mulher sobre o dorso do animal, dobrou a página do livro.

Sobre a rosa dos ventos apenas o vermelho óxido das folhas e vidros como diamantes finos. Da parede nasciam lentamente as vibrações da música. As notas ásperas, o avesso da harmonia.
Iniciou-se A Grande Fuga - Ludwig Van Beethoven.
L.A
Imagem - Luisa Ataíde, criada por IA

sexta-feira, 3 de abril de 2026

NO CORAÇÃO DE BODHISATTVA GUAN-YIN- CONTO

 

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'Se   buscas a saúde física e psíquica de forma integral, aprendes a amar. ''( Irmã Sheila)
        


          Possivelmente, a mehor fotografia de nossa fragilidade estampa-se nas imagens dos telhados sob luz noturna: folhas secas e pequenos corpos de aves mortas. Nos prédios altos, os outdoors e parabólicas assemelham-se a Samurais petrificados cujas lanças avançam em direção à escuridão do céu. Assustadoramente inerte não protegem as almas que deixam sob os lençóis os corpos adormecidos e voltam às terras outrora habitadas. Contudo, paira sobre o planeta a vigilia dos espíritos abnegados que deixam cair sofre os aflitos as pétalas da misericórdia. 
          Lembro-me da aparente normalidade daquela manhã de Fevereiro antes do grande dilúvio. Quando as primeiras ondas invadiram a sala, discutíamos na mesa da cozinha, se as aulas começariam naquela segunda-feira pós carnaval.
         
             -Acho que não tem aula não mãe, deve começar segunda-feira.

          Cruzamos a porta em direção ao elevador e não sentimos os pés já cobertos pela água. Lá fora o trânsito apresentva-se calmo para um dia de semana. Não havia nenhum engarrafamento no trajeto ao colégio e agradeci mentalmente aos céus por não começar o dia com buzinas e freadas bruscas. Quando cruzamos o grande portão da entrada da escola e a moça nos estendeu o ticket do estacionamento, considerei que estávamos adiantados para a primeira aula. Talvez um equívoco do relógio nos utimos dias de horário de verão. A estranheza da moça ao adolescente uniformizado no banco ao meu lado foi completada pela comunicação que as aulas só começariam na semana seguinte. Fiz o retorno com o carro e observei o olhar cristalizado de Yuzo. Não houve a partir daí nenhum comentário o meu monólogo sobre a nova escola e a responsabilidade que isto significava. O menino estava a anos-luz de distância das linhas que corriam o asfalto embora observasse, em silêncio, o traço alongando-se no chão.
         A grande tempestade que subitamente arrastou o telhado e destruiu parte da casa, só foi percebida algumas semanas depois. O menino já não se dedicava aos livros e as explicações vinham monossilábicas e ásperas.  Yuzo não se via parte da realidade cotidiana de estudar, alimentar-se rir por motivos simples. Preso na grande sala escura, nutria-se da teia de melancoia que tecia ao seu redor. 
         
          Do lado de fora estavam a Família, a Escola, o Vento no cabelo. Eu via nitidamente a água avançar em direção aos ombros. Em alguns momentos os olhos pediam socorro, o que demonstrava que bucava uma saída. De onde estávamos seguíamos os procedimentos básicos de salvamento: Remédios, terapia e Fé.
          
         As extensas horas de sono compunham a realidade vegetativa dos seus dezesseiss anos. Havia vozes dentro dele, elas gritavam ordens de desilusão e morte. Não havia domínio sobre os pensamentos. A mente inqueta e febril ordenava-lhe que pulasse em direção ao abismo. As vozes ecoavam em sua cabeça e ele acreditava no que ouvia. É real, dizia.
         - Não é real, sao apenas pensamentos que você não consegue dominar, é sua voz interior que adoeceu. Só
          
         Os meses seguintes nos deram de presente uma ausência que parecia definitiva. Não conseguia imaginá-lo voltando ruidoso e alegre, depositando o skate na entrada da porta. Não conseguiaa ver, da varanda, o cabelo escuro balançando ao vento e a queda seguida de risada sonora. Esses movimentos pertenciam aos outros meninos da vizinhança. Os veículos escolares paravam, pela manhã, na entrada do prédio. Somavam-se mais mochilas amontoadas no assoalho do carro. Eram os outros, sempre os outros.
          
         O primeiro diagnóstico que recebemos era uma palavra feminina e grande- interminavelmente grande. Eu não ousava repeti-la. Na aridez que o destino sinalizava, percebi um pequeno galho verde que nascia entre as pedras. Os questionamentos incessantes sobre a vida, a alma, a razão porque sofremos, que só deveriam apresentar-se lentamente nos anos seguinte, estavam diante dele, e exigiam resposta. Eu não sabia em que parte do deserto estava o copo de água necessário, então propuz uma busca juntos. Lemos tudo que nos foi possível chegar às mãos. Yoga, Filosofia, Literatura. Líamos e meditávamos o Evangelho do Cristo. Um dia ele me comunicou que decobrira a razão de todos os martírios.
         
          -Eu fiz mal a muita gente. Muitas pessoas sofreram por minha causa.
          Dei-lhe por reposta o silêncio. Não podia confudi-lo com minhas convicções sobre as multiplicidades das existências e que nossas almas trazem a marca indelével de nossos atos. Ali, havia apens um adolescente em lágrimas. Aquele era o seu momento de constatação e mudança. 
          
          Quase dois anos depois daquela manhã de fevereiro que seus olhos cristalizaram-se nas linhas do asfalto e ele se desconectou de sua juventude, Yuzo sorri com serenidade. Não existia mais o adolescente de riso alto e pressa, Pais, irmãos e amigos sinceros uniram-se em respeito e colaboração, ele subiu do subterrâneo que afundara. Com suas próprias mãos voltou à luz do sol.
         
         Hoje, Yuzo cultiva a harmonia do bem, o respeito ao corpo e a natureza. Adotou um alimentação saudável, corre todas as tardes no parque e não precisa de antidepressivos. Voltou aos estudos e quer ser Veterinário. Considera-se adepto aos ensinamentos do Mestre Jesus sem nenhuma denominação religiosa. Ainda faz muitas indagações e não dispensou a Terapia. O caminho pleno, sabe, ainda não foi conquistado. Canta e ri como qulalquer rapaz de sua idade. Não, canta todos o dias. Matriculou-se numa escola de canto. 

L.A





Nota- Texto escrito em 2010 em torno do susto do diagnóstico da Esquizofrenia dois anos antes. Certezas?  Que aprendemos todos os dias. ( hoje em dia quase nunca canta)

PAISAGEM DE RIO










Constância lavou a casa e todas as roupas que nela existia. As aves retornavam às árvores em respeitoso  silêncio  à fala do rio. Esticou   sobre a mesa a tela feita de resina e fibra. 

A moça olhou da janela:   sobre as águas descia um chinelo de criança. Desceu os dedos no pouco   trigo que restava na lata e o espalhou sobre a tela branca. Recolheu da   gaveta os pincéis  e tocou com os dedos  a tinta  sobre o pires . Constância acreditou no que dizia o ruído de fora.  


O rio aos poucos   não dava mais medo. O tigre, agora mergulhado em  gato manso, se   preparava para dormir em cinzas. O tigre mergulhou de vez em águas.

L.A

quinta-feira, 2 de abril de 2026

RECEITA DE BOLO- CONTO

 







O     que nos   resta agora, atravessadas todas as manhãs de nossa infância, com certeza   é o orgulho de termos pertencido àquela família. Afinal, ele era o único   médico a quilômetros dali e éramos seus. Nas manhãs de domingo   enfileirávamos em direção à igreja, a pé, em jejum, obedientes e limpos.   Sempre.

         Nós o   seguíamos a curta distância, minha mãe em solidariedade aos meus passos   curtos dava-me a mão. À frente ia um homem que buscava o sentido da   vida, não era de grande estatura, os olhos claros escondiam-se sob as   lentes grossas. Anos mais tarde, na escola, descobri muitos meninos com   o seu nome. Ele explicava, às refeições, que as mães admiravam a   sonoridade do nome. O Dr. Bernardo Benson era um ideal de futuro.   Acreditava na verdade acima de tudo e no respeito aos homens. Os   habitantes do Vale do Rio Verde confiavam-lhe o corpo e às vezes a alma.           Algumas consultas eram dadas nos degraus da escadaria da Igreja, sob   chapéus e sombrinhas. Era comum sermos acordados de madrugadas, sob as   estrelas ou chuva. O sobrado amarelo entre a Rua do Mercado e a Casa de   Pães era de quase uso público. A casa do Dr. Benson passou com o tempo a   ser chamada a Casa do Bem.

       Foi quando   naquela manhã ele nos trouxe o Jipe. Parou ali na entrada da casa e a   desordem do dia estava formada. Dali em diante, disputávamos quem de nós   acompanharia o médico nas visitas domiciliares. O vento no nariz, no   subir e descer das ruas de ladeira, era nossa secreta alegria.

         Até que choveu   na linda claridade do Vale. Passou a ser rotina o Jipe, tal qual menina   birrenta, cruzar os braços na subida da matriz.

          − Não vou! não   vou! não vou! - engasgava. 
     
          Bem ali? Nós que adorávamos ser apontados   chegando juntos à missa. As birras continuaram: Na porta da escola, nas   fazendas distantes, nas claras manhãs de sol e ainda: era inútil   acordá-lo em madrugadas de chuva.

          Voltamos a   fazer a pé o trajeto à Igreja. Eu olhava para trás, na garagem, achava   grande e injusto seu orgulho pagão, mas não conseguia odiar quem me dera   tanto prazer. Até que meu pai nos comunicou solenemente que iria   vendê-lo.

          Vieram os   interessados.

         Eu cruzava a   sala em direção à cozinha. Lá perto da janela estava o padeiro. Ele   falava e sorria ao mesmo tempo, dizia não ter medo de nada. Foi quando   ouvi:

          − Não se   preocupe, esse Jipe é espetacular! Nunca apresentou problema de motor,   nunca me deixou na mão, máquina como esta o senhor não encontra por aí.    

          Criou-se ali   uma linha turva entre o padeiro, o médico e eu. Eu que ainda tinha   fresco sob a língua o gosto das doses diárias de respeito, solidariedade   e honestidade.

         −     Pai, como   você pode dizer isso?

         Não sei se era   ainda o meu grito ou de minha mãe:

          − Paula   Benson, vá já prá cozinha!

       Vieram os   cascudos, muitos. Muito mais dolorido foi entender a razão deles. Meu   nome nunca soara tão grave e feio, tão árido. É bem verdade que eu   deveria me chamar Magna Suene, por sugestão de uma tia, mas graças ao   atraso do correio o nome só pôde ser dado à boneca que acompanhara a   carta. Acho que até ele soaria mais brando naquele momento.

         Minha mãe era   uma mulher simpática, destas que não se esforçam em ser, pois o sorriso   se abre sincero sobre o rosto limpo. Fazia doces e ensinava o ofício de   construí-los na varanda da casa. No arrastar das tardes eu assistia as   aulas só para ouvir suas explicações pausadas e observar como prendia os   dedos na ponta do avental sobre a saia cumprida. Dizia sempre:

         − Aqui estão   todos os ingredientes. O segredo é misturá-los bem e na ordem certa.

          Aos poucos fui   assimilando a sabedoria materna. Os ingredientes enfileirados sobre a   mesa, tal qual receita de bolo, misturar na ordem e na quantidade certa,   sem ir além do sal e do mel. Às vezes rápido, por outras sem pressa.    

Do livro Os Anjos de Prata (Antologia   de contos e crónicas) - ALL PRINT Editora, 2007, São Paulo, Brasil,   pp. 63-64.
    
Luisa  Ataíde