Renda-se, como eu me rendi . Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
C. Lispector
Renda-se, como eu me rendi . Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
C. Lispector
A visão de Clint Eastwood sobre a velhice é marcada pelo realismo e por sua famosa filosofia "não deixe o velho entrar". Ele descreve o envelhecer como uma liberação, onde se perde o medo da dúvida e da incerteza, mas reconhece que há um peso físico e emocional, incluindo a solidão.
Li um artigo essa semana sobre o Ator e deu-me um aperto no peito. Caminhamos na mesma esteira- O TEMPO. Lembro de todos os filmes dele que assisti. Confesso que torci que Francesca ( Mary Streep) abrisse aquela maçaneta e deixasse o mundo pra trás. - PONTES DE MADSON, anos 90. Inútil, o roteirista já tinha decidido por ela. Um compromisso pessoal com a família falou mais alto. Clin resiste ao tempo. Aos 96 anos, ele espera o inevitável, em pé, na porta da frente da sala, com desafio, como se dissesse :Estou aqui , quero ver você me derrubar olhando-me nos olhos. Ele considera que envelhecer não é desistir, mas sim deixar de ouvir o barulho interior. Gigante.
“Ninguém pode escrever um livro. Para que seja
verdadeiramente um livro, são necessários a aurora e o poente, séculos, armas e
o mar que une e separa”
Jorge Luís Borges
Venço, em pequenos passos sobre dunas de areias um Romance que tento construir. Eu não escrevo, eu o construo sob imagens nítidas que vi. Ninguém as viu, só eu.
Vi o mar e as casas destruidas, vi os coqueiros devorados pela maresia e crianças que corriam. Vi o clarão sobre a cumieira dos fornos grandes das cozinhas e a menina que entrou em uma casa que não era sua. Dedilhou a mesa como num recital de piano e adornou a alma com a vida tosca de um passado que lhe era ausente.
Não me é dado escolhas. Eu ouço o ranger das rodas das carroças, o cheiro matinal de pão, o riso . Eles estão lá em algum lugar nos becos da memória. Vi sobre a cama do quarto o véu da noiva esticado ao lado do vestido. Ela queria estar longe de tudo aquilo. Mas todos a esperavam na sala. Vi a casa e a moça em pé no primeiro degrau da escada, com muito medo da vida que se abria sem ela ter nada pedido.
Vi a moça que morava na praia encontrar o corpo do marido na entrada da casa , enrolado em sacos brancos nuviados de sangue. A vi permanecer na terra sitiada quando todos fugiram.
Vi a outra receber do mensageiro a caixa com toda a sua história dentro. Ela abriu a caixa - a louça embrulhada com cuidado e embaixo de tudo os papéis de sua própria genealogia. A vi procurar nas ruas de Haia reminescências já apagadas do passado. A vi decifrar mapas antigos de terras Brasis. Em que lado do mundo, a inglesinha pensou, fica o nordeste brasileiro?
Elas contam tudo ao mesmo tempo e é dificil entender.
- Uma de cada vez por favor!
Às vezes, elas revelam lutar por um Amor que acreditam. Aviso que moro no século XXI e hoje ninguém luta por nada, por isso cartas de amor e encontros românticos me são difíceis de descrever. Aviso que vivo um cotidiano ordinário , e há muito as pessoas que o habitam nada mais tem a se dizer. Nem o Eco divide o mesmo espaço. Um dia perguntei as moças porque me escolheram e elas disseram que pisamos as mesmas pedras do caminho. Nem tudo falei.
-Se não agora um dia.
Achei sem propósito a comparação, pois nunca tomei decisões impulsivas, nunca fui presa, nunca delirei com meus personagens, nunca vivi um Amor clandestino. Nunca me casei tantas vezes como uma delas e nunca abandonei minhas crenças e fui morar em outro país para todo o sempre. Elas, acreditem, riem do que falo.
-Eu levei meu filho, disse uma.
- Eu também disse a outra.
-Eu, disse a última, nunca os encontrei.
Todas se chamam Ana e viveram um ''Dia do Desespero". Alertadas de todas as limitações literárias que tenho, elas insistem.
Então: Velas ao mar!
Um encontro , ás vezes, desmonta todo a rotina ordinária da vida.
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''Havia a levissima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às veze eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras- e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravm estarem juntos!
Até que tudo se transformou em Não. Tudo se transformou em nao quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela nao via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo erro, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavm mais bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome: porque quisera ser, eles que eram.. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo por não estarem mais distraídos.''
CLARICE LISPECTOR
L.A
''Às vezes tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia.''
C. Lispector
Escrevo quando tenho sentimentos tranversos. E eles passeiam como lagartixas frias e brancas, com seus olhos negros e inofensivos. Lindos. Nunca rouxinois azuis e verdes tremulando na janela. Isso são para pessoas que caminham pela vida com facilidade e elegância. A vida deu-me labirintos profundos que crescem todos os dias. Impossível vencê-los.
L.A
Às vezes, vejo as fotografias impressas na parede da sala, foto em preto e branco, sem foco, feito neblina de inverno
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Não procure entender, viver ultrapassa quaquer entendimento"
Clarice Lispector
TOC TOC- Eis que subitamente alguem bate à porta.
As pessoas, ao tempo de nossos avós, passavam pelo mundo com carimbo de ''sistemáticas'' quando tinham manias peculiares Os comportamentos repetitivos como apoiar-se no pé direito antes de sentar-se, lavar infinitamente as mãos depois de tocar em certos objetos, provocavam um começo de risos, e se não causavam grandes transtornos eram apenas adjetivos que ornamentavam a personalidade de quem os possuia. O problema é quando o copo transborda. Não há como lembrar em que dia o rio atingiu a ponte. No momento seguinte estamos diante de um estranho que insiste em perseguir formigas imaginárias, e em bater constantemente a faca na pia da cozinha.
Dizem os tratados de Psiquiatria que os sinais silenciosos da compulsão convivem com a família durante muito tempo, até que todos os olhares voltam-se ao memo tempo para um único ponto: e os dias... os dias seguintes não serão jamais os mesmos.
Luísa Ataíde
Estou procurando a cor, aonde ela não vai.