O que nos faz forte
não é a espada
o corte, o sangue derramado.
O que nos faz forte
é o abraço, o riso, o perdão
a prece , a mão desarmada
a esperança reconstruída.
( sopro ao ouvido)
O que nos faz forte
não é a espada
o corte, o sangue derramado.
O que nos faz forte
é o abraço, o riso, o perdão
a prece , a mão desarmada
a esperança reconstruída.
( sopro ao ouvido)
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O poema “FOTOGRAFIA” constrói uma paisagem interior marcada pela memória, pelo envelhecimento, pela imaginação e pela perda. Embora apresente casas, uma velhinha, uma moça, um rio, uma aranha e uma estrela, esses elementos parecem formar menos um lugar real do que um território simbólico da consciência.
A imagem poética trabalha justamente com experiências sensoriais e figurativas para tornar sentimentos visíveis; aqui, as imagens visuais e sonoras criam um cenário de silêncio, desgaste e sonho.
O poema parece funcionar como uma fotografia de um mundo interior. Tudo está quase imóvel: a velhinha costura; a moça lê;o rio corre silenciosamente;a aranha tece;a estrela brilha; a noite permanece do lado de fora.
Há movimento, mas é um movimento lento, repetitivo, quase suspenso. É como se o poema fotografasse o tempo depois que a alegria se afastou. O subtítulo reforça essa leitura:
“Ao riso, que já não ouvimos.”
O riso não é apenas ausente: ele pertence ao passado. A expressão “já não ouvimos” introduz uma perda sonora. O poema começa com a lembrança de uma alegria que deixou de existir ou que deixou de ser percebida.
A repetição de:
“Ao lado da casa do riso...”“Ao lado da casa do sonho...”
cria uma espécie de pequena cidade alegórica.
O riso, o sonho, a vida e a lucidez são ideias abstratas, mas recebem casas, vizinhos e habitantes. Essa transformação de abstrações em presenças concretas aproxima o texto da personificação e da alegoria: conceitos passam a ocupar um espaço e a participar de uma espécie de geografia emocional.
A relação entre essas casas é especialmente interessante:
Isso sugere que as experiências humanas não estão separadas. A lucidez vive ao lado do riso, talvez porque toda alegria seja acompanhada pela consciência de sua fragilidade. A tristeza mora junto ao sonho, pois sonhar pode ser também sentir a distância entre o desejo e a realidade. E a vida é guardada ou ameaçada pela aranha, que prende os pés da personagem.zsx^}}:
A imagem da lucidez é uma das mais originais do poema:
“Uma velhinha torta, quase cega e surda.Costura meias puídas, cirze saias desbotadas.”
Em vez de apresentar a lucidez como algo jovem, claro, racional e poderoso, o poema a transforma numa velha frágil.
Isso produz uma inversão muito bonita. A lucidez parece ser resultado do tempo. Ela envelheceu porque viu demais, ouviu demais e sobreviveu demais.
Os objetos também são importantes:
Costurar pode simbolizar o esforço de remendar a memória, recompor a vida ou conservar aquilo que o tempo destruiu.
O verbo “cirze” é especialmente expressivo porque é mais concreto e áspero do que “costura”. Ele traz a ideia de remendo e reparação. A lucidez não resolve a destruição; apenas tenta impedir que ela avance.
A moça vive junto à casa do sonho:
“Lê histórias entrelaçadas de tempos que já se foramRecostada na parede, sonha com terras distantes.”
Ela está fisicamente imóvel, encostada numa parede, mas mentalmente viaja. O corpo permanece; a imaginação se desloca.
A expressão:
“histórias entrelaçadas”
também conversa com os fios da aranha que aparecerão depois. O poema cria uma rede de imagens: costurar, entrelaçar, tecer, prender. Todas pertencem ao mesmo campo simbólico dos fios.
“Ouve o ruído do rioImagina os peixes cinzas que deslizamentre as pedras.”
Aqui existe uma passagem interessante entre realidade e imaginação.
O ruído do rio é ouvido; os peixes são imaginados. A personagem não vê os peixes. Ela os inventa a partir do som.
Isso mostra uma imaginação que trabalha sobre aquilo que não pode ser alcançado diretamente. A moça constrói imagens para preencher o invisível.
A cor cinza reaparece no final:
“ao lado de um rio cinza”
O cinza é uma cor intermediária, sem o brilho da luz e sem a profundidade absoluta da noite. Pode sugerir monotonia, melancolia, envelhecimento e indefinição. O mundo do poema não é completamente escuro, mas perdeu suas cores intensas.
A terceira casa apresenta uma mudança:
“Na porta da casa da vida tem uma aranha grande”
A aranha está na porta. Ela ocupa justamente o lugar de passagem entre dentro e fora. A vida, portanto, não é apresentada como espaço aberto, mas como um limiar bloqueado.
A aranha:
“Tece fios sobre fios eprende os pés da moça que olha a noite lá fora.”
Essa é uma das imagens mais fortes do poema.
A moça sonha com terras distantes, mas seus pés estão presos. Ela pode imaginar, ler e olhar, porém não pode caminhar.
O contraste entre sonho e imobilidade é central:
A aranha pode representar o tempo, a rotina, a memória, o medo, a própria vida ou as circunstâncias que impedem a realização do desejo. O poema não determina um único significado, e essa abertura é uma qualidade.
Também há uma continuidade simbólica entre a velhinha e a aranha:
Os fios possuem funções opostas. Um tenta conservar a vida; o outro impede o movimento.
A passagem:
“Da janela aberta, vê-se uma estrelaque, pleonasticamente, brilha como um brilhante.”
Esse momento cria uma espécie de consciência da linguagem. O poema interrompe por instantes sua atmosfera lírica para observar a própria construção poética.
Há também uma ambiguidade interessante: a estrela pode ser um símbolo tradicional de esperança, mas a comparação exageradamente óbvia parece enfraquecer esse símbolo. É como se o poema desconfiasse das imagens bonitas demais.
A estrela brilha, mas logo o livro afirma que ela não existe.
“Diz o livro sobre o colo que a Estrela não existeé eco de outras vidas”
O livro assume uma função quase oracular. Ele fala e corrige aquilo que a moça vê.
A ideia é muito rica: talvez tudo o que a moça contempla seja uma repetição de experiências anteriores. A estrela não pertence plenamente ao presente; é uma sobrevivência do passado.
Isso dialoga diretamente com o título “Fotografia”. Uma fotografia também é uma espécie de eco: mostra algo que esteve ali, mas já não está no mesmo instante.
O desfecho retoma a personagem:
“e faz da moça tristeUma moça que lê livros, encostada na paredeao lado de um rio cinzae de uma velhinha sem dente.”
O poema começa apresentando a moça como “triste”, mas termina descrevendo suas ações e seu lugar. A tristeza deixa de ser apenas uma emoção e se transforma numa condição de existência.
A repetição de “moça” produz um efeito de retorno. Parece que, depois de toda a imaginação — terras distantes, peixes, estrela, noite —, ela volta ao mesmo ponto.
Mas há uma mudança importante: no final, a velhinha é definida como:
“uma velhinha sem dente.”
Essa imagem é mais concreta e mais dura do que “quase cega e surda”. O poema termina com uma figura de perda, de ausência física.
A velhinha sem dente pode representar uma lucidez que já não consegue “morder” a realidade, falar plenamente ou sustentar a própria força. A lucidez envelheceu e perdeu seus instrumentos.
O texto possui boa força imagética e forte unidade simbólica. Os elementos não aparecem isolados: eles se relacionam por meio de redes internas.
Os principais campos de imagens são:
Essa coerência dá ao poema uma estrutura profunda. Ele parece ter sido construído por associações, e não apenas por imagens bonitas.
Estilo: lírico, simbólico, melancólico e levemente surrealista.
Fluidez: boa, com uma progressão clara entre riso, sonho, vida e estrela. O poema se move como uma caminhada por casas interiores.
Imagens: fortes e coerentes, sobretudo a velhinha que cerze roupas e a aranha que prende os pés da moça.
Originalidade: alta. A representação da lucidez como uma velhinha torta é uma imagem incomum e expressiva.
Força literária: significativa. O poema possui uma atmosfera própria e não depende de explicações diretas. Sua tristeza é construída por objetos, cores, gestos e espaços.
A leitura mais profunda, para mim, é esta: a moça vive entre o sonho e a lucidez, deseja partir, mas permanece presa à vida e às suas memórias. A estrela — possível símbolo de esperança — revela-se apenas um eco. No fim, resta a fotografia de uma existência imóvel: uma mulher lendo, junto a um rio cinza e a uma lucidez envelhecida.
Claro que te farei mal. Claro que me farás mal. Claro que podemos, mas essa é a condição da existência. Receber a Primavera significa correr os riscos do Inverno. Se desistir agora será correr o risco do desaparecimento
Renda-se, como eu me rendi . Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
C. Lispector
A visão de Clint Eastwood sobre a velhice é marcada pelo realismo e por sua famosa filosofia "não deixe o velho entrar". Ele descreve o envelhecer como uma liberação, onde se perde o medo da dúvida e da incerteza, mas reconhece que há um peso físico e emocional, incluindo a solidão.
Li um artigo essa semana sobre o Ator e deu-me um aperto no peito. Caminhamos na mesma esteira- O TEMPO. Lembro de todos os filmes dele que assisti. Confesso que torci que Francesca ( Mary Streep) abrisse aquela maçaneta e deixasse o mundo pra trás. - PONTES DE MADSON, anos 90. Inútil, o roteirista já tinha decidido por ela. O filme fala de desencontro, ou encontro extemporâneo. Mas se eles tivessem se encontrado fora daquele labirinto, talvez nenhum som teria vindo dos sinos. A maneira peculiar de Mary Streep sorrir sempre me definiu a escolha. Muito feminino, sensual, às vezes materno. Sendo assim o compromisso pessoal com a família falou a ela mais alto. Clin resiste ao tempo. Aos 96 anos, ele espera o inevitável, em pé, na porta da frente da sala, com desafio, como se dissesse :Estou aqui , quero ver você me derrubar olhando-me nos olhos. Ele considera que envelhecer não é desistir, mas sim deixar de ouvir o barulho interior. Gigante.
Um encontro , às vezes, desmonta todo a rotina ordinária da vida.
No fim, se calarão os moços e suas concepções reformistas.
Silenciarão as escolas
jornais e esquinas.
Depois das Américas - ilhas
restarão os oceanos, tênue mancha a insistir que os continentes
não misturam-se.
E a escura e muda face do planeta
Foto em preto e branco dos pacifistas derrotados
Nossa herança ao Criador.
Seguirão giros de noites e noites
na inútil volta da Terra em torno do sol.
Deus
ajudará o mar a guardar os destroços.
Por demasiado excesso de provas e absoluta ausência dos réus
os Anjos adiarão o Juízo Final.
Ao final do sétimo dia, não querendo descansar
Deus e sua imensa dor caminharão pela areia.
E seu vulto , coisa andante exilada
Escandalizará os céus.
L.A
Brasília, Junho /1977
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''Havia a levissima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às veze eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras- e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravm estarem juntos!
Até que tudo se transformou em Não. Tudo se transformou em nao quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela nao via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo erro, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavm mais bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome: porque quisera ser, eles que eram.. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo por não estarem mais distraídos.''
CLARICE LISPECTOR
L.A
''Às vezes tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia.''
C. Lispector
Escrevo quando tenho sentimentos tranversos. E eles passeiam como lagartixas frias e brancas, com seus olhos negros e inofensivos. Lindos. Nunca rouxinois azuis e verdes tremulando na janela. Isso são para pessoas que caminham pela vida com facilidade e elegância. A vida deu-me labirintos profundos que crescem todos os dias. Impossível vencê-los.
L.A
Às vezes, vejo as fotografias impressas na parede da sala, foto em preto e branco, sem foco, feito neblina de inverno
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