Do livro Os Anjos de Prata (Antologia de contos e crónicas) - ALL PRINT Editora, 2007, São Paulo, Brasil, pp. 63-64.
Luisa Ataíde
Não procure entender, viver ultrapassa quaquer entendimento"
Clarice Lispector
TOC TOC- Eis que subitamente alguem bate à porta.
As pessoas, ao tempo de nossos avós, passavam pelo mundo com carimbo de ''sistemáticas'' quando tinham manias peculiares Os comportamentos repetitivos como apoiar-se no pé direito antes de sentar-se, lavar infinitamente as mãos depois de tocar em certos objetos, provocavam um começo de risos, e se não causavam grandes transtornos eram apenas adjetivos que ornamentavam a personalidade de quem os possuia. O problema é quando o copo transborda. Não há como lembrar em que dia o rio atingiu a ponte. No momento seguinte estamos diante de um estranho que insiste em perseguir formigas imaginárias, e em bater constantemente a faca na pia da cozinha.
Dizem os tratados de Psiquiatria que os sinais silenciosos da compulsão convivem com a família durante muito tempo, até que todos os olhares voltam-se ao memo tempo para um único ponto: e os dias... os dias seguintes não serão jamais os mesmos.
Luísa Ataíde
Estou procurando a cor, aonde ela não vai.
Era o primeiro dia de aula. Além da festa que era calçar sapatos e meias, estava de laços nos cabelos e vestido novo. Não fosse a enorme pasta que carregva, ninguém perceberia que ia à escola- o uniforme não fora ainda comprado.
Devia ser um dia predestinado a surpresas. Numa intimadade fraterna apresentaram-lhe objetos novos. Prestes a uma nova convivência, não lhe preparam para isto: Tinha um nome estranho. Sempre atendera a menor junção das sílabas Li e La. Mas, súbito, como se tivesse sido pega em falta grave se foi apresentada. O nome seguia-se de outros, mas o primeiro a inomodava como se quisessem lhe convencer que um cão miava. Cães e gatos são diferentes, pensou. Marília devia ser um nome para ser usado fora de casa, assim como sapatos e meias.
O que completava a desordem do dia, era caminhar sem ninguém da família por perto, e assim aproveitava passo a passo o caminho de volta. Colocando na calçada a pasta para abrir o portão, percebeu duas amigas brincando de Amarelinha.
A maior parou com um dos pés no céu, admirada de ver a menina tão grande e linda, empinada como se não existisse o peso da pasta. A menina esqueceu do seu tamanho e beleza e sentou-se no chão. Falava sem pausas: dos livros, dos quadros, das salas,até... não do nome não. Era por enquanto um segredo seu.
As duas ouviam, sem interromper, até porque não havia espaço. Aí veio. A mãe chegou-se a janela e gritou:
- Lila! Vem já tirar esse vestido e lavar os copos!
Escureceu. Foi como se todos os príncipes perfilasem em sapos. Levantou-se rápido e entrou.
Numa obediência de sentenciados, tirou o vestido e os sapato, até os laços dos cabelos desmanchou em silêncio. Colocando o avental, não importou-se que estivessem sujos todos os copos da casa. Uma coisa era inevitável: No dia seguinte haveria aula.
Luisa Ataide
(Dedicado à Marília Campos)
''Lá vai São Francisco pelo caminho
De pés descalços tão pobrezinho
Dormindo a noite junto ao Moinho
Bebendo a água do Ribeirinho...''
Vinicius de Morais
Às cinco horas da tarde, quando o vento tomba os lençois do varal e varre as folhas da rua, qualquer pedido feito com uma caixa estendida, nos faz olhar o pequeno grupo de meninos como um santo olha os fiés do altar- com respeito e comiseração.
- Só hoje mãe, amanhã a gente arranja um outro lugar pra ele. Tá chovendo e ele esta morando embaixo da árvore.
- O que é isso? um rato?
- Não mãe, é um gatinho.
Lá estava eu concordando com vinte quatro horas de hospedagem. É claro que o gato cresceu e fez parte da família, assim como o pinto de cor lilás comprado na feira.
- Achei tão bonito e o menino se encantou com ele. Tinha de todas as cores, você precisava ver!
Pelos dias dos Pais e pelo encantamento do menino, o pinto que dias depois era um pequeno ser cor de rosa andando pela casa, por algum tempo fez parte da família. Temi pela segurança dele. Seguia qualquer um piando sem parar, como se perguntasse se sabíamos aonde era o planeta de seres de penugens coloridas como ele. Nunca obteve a resposta. Uma semana depois ao chegar do trabalho, vi o cortejo fúnebre em direção ao fim da rua. Uma caixa com flores e meia dúzia de meninos cabisbaixos dizia adeus a uma pequena ave, esmagada pelos pés do filho do meio.
-Esse moleque é desastrado mãe, amassou o pinto! o acusado deu-me um olhar de socorro, não tive culpa.
Alguns dias depois caiu na área de serviço, o pássaro azul e branco. Cauda longa, asa quebrada.
- Mãe, a gente pode ficar com ele?
-Não, passarinho tem que viver livre.
-Ah... mãe mas só até ele sarar.
-Está bem, mas tem de ficar solto. As paredes do fundo são altas, ele não dá conta de ir embora mesmo.
O lindo pássaro azul, que por mais que eles buscassem nos livros não descobriram a família viveu por três semanas na área de serviço. O canto matinal entrava pelos quartos e como se vivêssemos no Campo recebíamos os dias. La fora uma floresta imensa está me esperando, era o que eu pensava enquanto calçava os chinelos para ir à cozinha.
Numa manhã estranhei o silêncio do hóspede alado. A área de serviço estava vazia, ele de novo era uma ave forte. Voara pro mundo, sem adeus, sem bilhete de despedida.
Quando a vida corria em seu leito de normalidade, chegou Roger- o coelho branco. Aquela coisinha macia dormia no meu braço, como um anjinho que caiu do céu. Havia suspiros pela casa, tão encantados estávamos com o ser angelical. Passou o tempo e o coelho cresceu, assim como alguma coisa libidinosa dentro dele. Ele conhecia cheiro de mulher, com um olfato de lobo caçando lebre. Alvoroçava-se e dava pinotes. Se fosse um daqueles dias de ciclo feminino, o coelho enloquecia. Eu só podia cuidar dele de calças compridas. Tudo bem, mas o que fazer com as visitas? Alguns minutos depois que uma amiga chegava, lá estava o coelho exibindo o sexo rosado. Engraçado para as mais chegadas, constrangedor para as visitas formais. Era ainda, péssimo exemplo para os meninos que viviam tentando explicar ao coelho que aquele era um comportamento impróprio diante das damas. Inútil. Um dia doamos o coelho ao vizinho.
Antes do cachorro, para ajudar na cura de uma depressão extremada do menino mais novo que acabara de chegar aos doze anos, morou lá em casa um papagaio. Achei muito esquisito o pedido, mas o que não fazemos para ajudar os filhos? Uma doença emocional tira-nos do eixo, fragiliza a vontade.
- Está bem, mas vocês lembram que não gosto de aves presas?
E acredite, tivemos um papagaio voando pela cozinha. As janelas viviam fechadas e os rasantes sobre a panela de água quente eram frequentes. Um dia pensei: isto é surreal é melhor que tenhamos um cachorro.
O gato? Quando adulto fugia para o telhado para namorar e de lá para a boemia noturna. Voltava sempre machucado. Morreu na UTI de uma virose antifelina. Foi um chororô sem fim, jurei nunca mais ter bichos.
Finalmente entre nós um cão. Uma cocker que roeu doze pares de sapatos, quatro controles remotos, o sofá novo e mais uma lista interminável de objetos. Alguém mencionou ser saudável que ela tiesse filhotes e lá estavam cinco filhotes correndo pela casa arrastando as meias do cesto.
Aos poucos, as histórias dos bichos se tornam risos e logo serão lendas de um tempo que nunca mais viveremos. Sim, todos os bichos merecem o céu. Tem algo mais angustiante que miado de gato no meio da noite? Ele tem fome- penso. Ele se perdeu da mãe Chego à janela e tento ouvir o lamento. Um dia, quando eu me for, encontrarei São Francisco andando pela noite com um pires de leite atrás de um gato faminto. Francisco irá sorrir e dizer que todas as aves, coelhos, cães e felinos, são simples instrumentos de nossa paz.
L. A.
''... O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão.
O Verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera...''
Marta Medeiros
Eu entrava no shopping quando a menina me segurou fortemente
pela blusa, desnudando-me parte do corpo. Ela era um náufrago no Oceano e eu um tronco de
arvore, grande e firme. Aflição, desproteção e doçura. A mãe entregou-me uma
frase curta.
- Desculpa moça!
- Eu compreendo, tenho um assim.
A mão pequena ainda me arrastava
a roupa. Depositei um beijo entre os dedos dela.
Não olhei pra trás, segui os
passos ordinários em direção à porta. Sempre considerei que mães atípicas se
voluntariam antes de receberem na maternidade o pequeno pacote embrulhado. Há alguns anos ganhei um pacotinho com laço
diferenciado, sou parte deste recrutamento feminino. Não houve tempo para troca
de confidências nem para conhecer o diagnóstico. Foi só um esbarrão.
Nós caminhamos nos corredores dos
shoppings sem esbarrar no cotidiano dos que andam ao nosso lado. Sem ouvir o que aquela mulher a
dois degraus na escada rolante está pensando, sem saber das alegrias e conquista
dos que levemente riem. Nós somos leigos mortais atravessando avenidas, mas
temos nossas próprias defesas. Minha dor sempre será maior que a sua. Porque eu
a sinto. Mas em algum lugar nesse Universo ilimitado
essa menina caminha feliz em frente ao Shopping, não se assusta com a mulher baixinha
que entra apressada em busca do caixa eletrônico. Em algum desses sítios um rapaz falante entra ao lado dessa mulher - é seu filho. Ele fala da
apresentação da Tese de Mestrado feita naquela manhã. A menina não esbarra na
mulher, reclama do sorvete que a mãe não comprou.
- Estamos atrasadas, diz a mulher.
Essa é a frase que ouço ao entrar no shopping.
Mas foi aqui neste mesmo lugar,
numa manhã de outono que uma moça atropelando as palavras, tocou-me o braço e
disse:
- Eu tenho um recado pra você,
Jesus mandou o recado.
Olhei para a jovem a minha
frente. Clara, cabelos cor de mel, uns trinta anos, vestido comum, limpo e
simples. No primeiro minuto pensei tratar-se de fanatismo religioso. Indaguei-me porquê a Suprema Divindade largaria suas tarefas para mandar-me um recado. Mas pacientemente ouvi. Eu usava um
vestido com uma estampa manchada. A moça aprontou para a roupa e disse:
_ Nunca mais use essa roupa! você
entendeu? Nunca mais. Acredite em mim, ou alguma coisa muito grave vai ocorrer.
Entenda mais uma vez. Livre-se desse vestido.
Agradeci o recado e fiz menção de
seguir em frente. Ela alertou-me mais uma vez.
- Promete que vai se desfazer
desse vestido?
Dei um sorriso afirmativo, desviei
os olhos por micros segundos e a olhei de novo. Ela havia evaporado na minha
frente. Procurei em todas as direções. A moça desaparecera. Pensei em como
aqueles pensamentos a atormentaram. E em algum momento, ela reconheceu na multidão,
a mulher e o vestido borrado da mensagem que precisava entregar. Por precaução
cheguei em casa e destruí o vestido. Nunca saberemos se ela era real.
Estamos cercados de anjos que
podem nos esbarrar. Que podem nos segurar pela blusa com força, que podem nos
entregar mensagens que nos parecem tolas. Anjos podem nos ser entregues
no berçário da Maternidade, não importa que laço difícil aperta o pequeno
pacote. Sempre haverá frascos de controladores de neurotransmissores. Sempre haverá selos a serem colocados: TEA,
TDAH, Esquizofrenia, TOCs...
A Neurodivergência nossa de cada dia. Que o Universo zele por nós
L.A.
parado, está no meio da ponte e porque chove abre a sombrinha.
(Image by Ben Goosens)
'' Não se compreende música : ouve-se. Ouve-me entao com teu corpo inteiro. Quando vieres a me ler perguntarás por que não restrijo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras - e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão," C. Lispector, ÁGUA VIVA
Estranho essa pessoa do outro lado do espelho. Ela diz conhecer cada milímetro do meu corpo, meu andar pesado e taciturno. Meus raros risos. Já informei que meu riso mora dentro. Que eu abro, só eu abro, a porta que dá pras salas dos risos. Do lado direito tem a sala de cantos. Eu passava lá todos os dias quando tinha vinte anos. No andar de baixo encontra-se uma mesa longa de madeira nela eu escrevia histórias. Histórias de encantamentos, puro encantamentos. Na verdade eram modos peculiares de respirar os dias. Parei de escrever histórias quando começou a estação de chuvas. No processo criativo eu ouço uma mulher que dita textos. Uma voz sonoramente abafada, pausada e por vezes insistente. Eu escuto o ditado e escrevo.
Anos depois descobri a sala dos pincéis. Eu que sempre desenhei tudo que via, principalmente palavras. Como um falsificador eu desenhava os nomes das pessoas. Mas chegaram dias que eu comecei a ver quadros oitocentistas na parede. Nítidos, graves, perfeitos. No começo achei muito esquisito estar vendo pinturas tão perfeitas. Com o tempo essas esquisitices que em mim habitam passaram a não me incomodar. E eu pintava quadros lindos. Encantei-me com Gogh e seu jeito reverso de fazer imagens. Passei a amar a incapacidade de não caber em caixinhas. Ele vive em algum lugar, ainda sobre a corda. Resolvi fechar a sala dos pincéis e tintas pois no céu deslizava um filete azulado de cinza payne . Prenúncios.
Poemas? Tenho dificuldades em escrevê-los, assim como pintar flores. Eu os vomito. Aviso que odeio rimas. As rimas perfeitas são invisíveis, porque sendo invisíveis elas apenas anestesiam o texto. Alguém me disse que eu escrevo só poesias, que tudo em mim é poesia. É que a poesia se esconde, porque eu não digo, apenas sugiro. Ia dizer algo sobre isso , mas preciso parar.
Começa o ruído de chuva no telhado.
Luísa Ataide ( imagem feita com auxílio de IA)
"E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver."
C. Lispector