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quinta-feira, 2 de abril de 2026

AS INCERTEZAS DA COR- CONTO


 

                         Não procure entender, viver ultrapassa quaquer entendimento"

                                                                                          Clarice Lispector

TOC,TOC- Eis que subitamente alguem bate à porta. 


          As pessoas , ao tempo de nossos avós, passavam pelo mundo com carimbo de ''sistemáticas'' quando tinham manias peculiares Os comportamentos repetitivos como apoiar-se no pé direito antes de sentar-se, lavar infinitamente as mãos depois de tocar em certos objetos, provocavam um começo de risos,  e se não causavam grandes transtornos eram apenas adjetivos que ornamentavam a personalidade de quem os possuia. O problema é quando o copo transborda. Não há como lembrar em que dia o rio atingiu  a ponte. No momento seguinte estamos diante de um estranho que insiste em perseguir formigas imaginárias, e em bater constantemente  faca na pia da cozinha. 

          Dizem os tratados de psiquiatria qque os sinais silenciosos da compulsão convivem com a família durante muito tempo, até que todos os olhares voltam-se ao memo tempo para um único ponto: e os dias... os dias seguintes não serão jamais os mesmos.


AS VIAGENS DE GULLIVER
                                    
Maria Alma mora na casa de telhado vermelho no final da rua que terminna sob a sombra das árvores. Enquanto o bairro arde sob um sol abrasador, as tardes amenas contornam o jardim e a pequena fonte desce sulcos sobre o estreito caminho de pedras. A mulher dobra as toahas da cômoda e observa o menino, deitado sobre as folhas de papel, que risca montes, rios, cidades. Vai à cozinha e tráz um copo de água e  o coloca no chão, ao lado da mão esquerda, sempre fechada. Tem saudades do outro menino, que sumiu sem despedida.  Imergiu pra sempre no labirinto profundo do sono. Ela viu os braços deles crescerem como galhos de árvores e os ombros curvarm-se quando a cabeçça ameaçou atingir o teto. A mobília foi pisoteada pelos pés grandes, ávidos pela saída da porta. Antes de partir, o estranho apoiou as mãos na entrada e olhou como quem olha a profundeza de um poço seco e turvo. Maria Alma sentiu sobrar rente ao rosto o bafo morno de um futuro implacável, injusto como o muro negro da morte. Foi lá fora, procurou em todas as direções. As esquinas desabitadas murmurvam apenas o ruído de seus próprios sapatos. Um dia ele volta, pensou.

    
 TETO DE LÍTIO
                              Às vezes, e quase sempre, olhamos o quintal da casa ao lado e ouvimos o som harmonioso e irritante de um coro de anjos. A fotografia de uma família vestida de branco, ganha movimento em direção a uma mesa florida, meticulosamente arrumada . Olhamos o lado de cá;     O quarto revirado, a bandeja de café com os comprimidos ao lado da xícara de leite. Se todos os frascos vazios , tomados ao longo dos anos fossem colocados numa caixa, ora isso daria para...
                  - Pode levar, não vou tomar mais remédio.
               - Você precisa. Você toma isso desde os onze anos, não pode parar de repente.
                   - Não vou tomar mais, já disse.
                   - Você vai ficr nervoso,, e ter novos sintomaas de TOC.
                    - Sai daqui com isso!
                     - Você está gritando!  
          Ouve o arremesso da porta estremecer as paredes. Depois de tanto tempo, trine, de volta, o silibar da serpente que baba veneno na pia da cozinha. Ouve o barullho do recolher das asas das corujas que voltama dormir no teto. Com o passar dos anos aprendeu que o outro menino nao vai voltar .  Que o estranho que revirava as gavetas e batia com frenesi a cabeça na parede, engoliu o menino de uma única vez. Aprendeu que quando amanhece, ele volta à estatura normal, abre os braços e pede perdão ao mundo.
          Aqui dentro , um rapaz amenta o som ensurdecedor de uma música áspera que ela não decifra. Canta um rosnado rouco e longo e grita versos e rodopia pela casa. Arremessou os medicamentos pela janela e diz ouvir a voz dos anjos e visitar o demônio em dias ímpares. 
          Lá fora é possível, pela fresta, ver apenas a ponta do sapato masculino, as malas e muitas caixa, o que denuncia que veio para ficar. Maria Alma suspira fundo, Agora, depois de tanto tempo, tudo que conseguiu entender ameaça perder forma e cor. O silêncio confunde-se com o som estridente das cigarras. Sente o assoalho deslizando devagar e não tenta se agarrar em nada. Não sabe dizer as horas e o dia da semana. Não sabe dizer de que cor Deus tingiu o céu.

Luísa Ataíde


quarta-feira, 1 de abril de 2026

CARVÃO EM FUNDO BRANCO- CONTO



Estou procurando a cor, aonde ela não vai.


Nós, cumpre esclarecer, éramos algumas dezenas de meninos e meninas, filhos de carvoeiros, aos quais letras e números não haviam sido apresentados. Dividíamos os meses entre os secos e os que exageradamente nos mantinham em casa. O mundo entre o quintal e o outro lado do rio. Quando percebemos os movimentos de tijolos e madeiras, pressentimos que o que fosse ali erguido nos seria destinado. Mantivemo-nos em sentinela diária, num revezamento quase militar.
Quando por fim retiram os limites de proteção e vieram todas aquelas pessoas estranhas que ,escolhendo os verbos, nos disseram que a casa amarela, como um grande fruto entre as árvores, nos pertencia; sentimos desconfiança. Entramos pela primeira vez na escola em fila, as mesas estavam alinhadas e limpas. Ana passou a palma da mão sobre a que estava a sua frente, muitas vezes. Puxei-lhe a ponta do vestido com força. Caminhávamos pela sala em grupos, o chinelo não reconhecia o assoalho de madeira. Nos dias que antecederam o início letivo, nos dirigíamos à escola todas as manhãs. Sentados nos degraus do portão, como gatos que arqueando a coluna e deslizando o pêlo roçam as pernas, pedíamos a intimidade da posse. As portas mantinham-se fechadas.
No primeiro dia de aula, acordados saímos aos tropeços. Até então o desconhecido estava na outra margem do rio, agora o tínhamos ali a alguns passos de casa.Estávamos aquele emaranhado de curiosos no corredor, quando nos separaram. Do fundo da outra sala, onde foi colocada, podia buscá-la a todo o momento. Ela esticou os braços sobre a mesa e pousou o queixo entre eles. Acompanhava com os olhos as listras irregulares da madeira e o cheiro era-lhe pura correnteza. Não se abrira ao quadro negro, ao arranjo de flores sobre a mesa ou ao bordado do vestido. Seus olhos buscavam os riscos da madeira. Soou-me o alarme. Levantei-me rápido e caminhei à sala. Ana mantinha-se na mesma posição, toquei-lhe os ombros. Nada lhe disse e voltei ao meu lugar. Uma vez de volta tentei acompanhar o meu próprio desenho na madeira. Compreendi por que ela poderia ficar lá, dentro dele. A quantos de nós o risco chamara a atenção? Ana não tinha o caminho de volta.
Estamos separados do instante seguinte pelo desconhecido, e dele necessitamos. Nenhum de nós estava preparado para a caixa de lápis de cor. Nós que tínhamos as unhas sombreadas de carvão, uma folha em branco, e a pequena caixa era da criação o desafio. Dedicamo-nos ao que era até então impossível: flores, árvores, nuvens, e rios. Eles nasciam fartos e nítidos como se Deus nos compartilhasse o dom.
Lembrei-me de Ana. Em pé no meio da sala, procurei-a. Ela juntara todos os lápis na mão e num movimento único riscava a folha. Riscava com força, indo e vindo.
_ Alice, volta!
Não poderia. Lancei-me ao mar para ir buscá-la. Atravessei as duas portas e parei em pé diante dela. O conjunto de cores formava um ninho de serpentes coloridas e por breve instante quase me aliei a seu imenso abismo. Segurei-lhe o pulso.
Para nós, meninos ribeirinhos, os dias que se seguiram foram de descoberta, para Ana foram dias de cego em terra estranha. Não aceitávamos deixar os lápis na escola, ela os devolvia como sobrevivente que perde o alimento. De volta a casa punha a cartilha sobre o fogão e dirigia-se ao fundo do quintal. Parava frente à parede caiada como se encontrasse uma porta na parede branca. Com um pedaço de carvão riscava sem força um risco fino. As figuras flutuavam no branco em formas irregulares. Às vezes eu as identificava ou as via perderem-se em outras. Diariamente, após as aulas dirigia-se à parede no fundo da casa. Passamos a viver as tardes ali. Sentava-me à curta distância, sem interrompê-la. Penteava-lhe os cabelos, trocava-lhe o vestido com cuidado. Em suas pausas curtas dava-lhe alimento e água. Quando o sol incomodava abria sobre nossos ombros a sombrinha.Guardo daqueles dias esta fotografia aérea: uma menina segurando um guarda-sol, um banco de madeira, outra menina sob o guarda-sol riscando a carvão uma parede cada vez mais escura. Nunca permiti que esta parte da casa fosse pintada, com o tempo, para nós, era um grande pano escuro. Para Ana as figuras estavam lado a lado, com começo e fim. Só ela ainda via sob o carvão o fundo branco. Nos fins de tarde, ensaboava-lhe as mãos com força até sumir dos dedos o sombreado.

Nasci incumbida de guiar a manada na grande travessia do rio. Éramos nós duas na casa, da mãe restara apenas a fotografia desbotada na cristaleira da sala. Aprendemos cedo a usar o fogão e o forno. Meu pai não falava em casar-se de novo e nossa era aquela casa. Saía para o trabalho na carvoaria sob um céu cheio de estrelas, voltava, a passos tortos, com o barulho dos baldes rolando pelo chão de cimento. Caiava a casa após a estação de chuvas, mas a meu pedido, nunca a parede no fundo da cozinha. Em Outubro Ana desinteressou-se dos livros, passei a trazer-lhe escondidos alguns lápis de cor. Já não se interessava por eles também, usava ainda os pedaços de carvão na parede escura. Passei a acordá-la no meio da noite, para que tivesse sono pela manhã e eu pudesse ir à escola.
Um dia deparei-me com todas as nossas coisas amontoadas no catre no canto da sala. Ana calçava sapatos e meias e tinha o cabelo penteado muito diferente do jeito que eu cuidava-lhe. Não temi por mim, mas como tirar-lhe a casa, o fogão, a parede riscada? Pela primeira vez eu a vi muito maior que eu. Ela dava-me aquela obediência de presente para que eu não tivesse medo. Cruzei o portão, e fui perdendo a escola, o rio, a mata que corria atrás dele. Olhei para trás o tanto que me foi possível. Ela batia compassadamente o pé no assoalho do carro.



L.A

segunda-feira, 30 de março de 2026

DO ARCO DA VELHA- CONTO





Hoje, lido um texto budista sobre a conexão com o Sagrado pela Compaixão, abro  inevitavelmente as janelas das lembranças que, como chuva fina, lavam os vitrais das memórias:


 Era um menino grande, ombros largos, maior que todos da nossa idade. A voz grave saía sempre descontrolada como os passos ligeiros e fortes no assoalho da sala. Eu sentava na segunda fila, atrás da cabeleira de cachos escuros, achava que o muro alto e largo era um bom esconderijo. Ele, às vezes, virava-se repentinamente e entregava sua mão fechada sobre a carteira de madeira e deixava ali o que parecia uma pedrinha enrolada em papel branco: uma pequena bala de pontas contorcidas.

Nascemos para obedecer e caber nas caixinhas que estão prontas para nos receber. Deodato não cabia em nenhuma delas. Tinha dificuldade em riscar as curvas das letras, com regras de alinhamentos e condutas. Quase sempre era retirado da sala por derrubar cadernos e livros e não controlar as palavras que trovejavam no silêncio da classe. Hoje sei que aquela escola não o merecia, não estava preparada para ele, que era muito maior que tudo. Um desafio à Pedagogia rudimentar de um grupo escolar das terras de Minas.

Não sei exatamente o que houve, só  lembro-me de vê-lo a caminho da Diretoria com as calças molhadas, arrastando a pasta que deixava lápis e papéis pelo corredor. Foi seu último dia de aula, passou a estudar em casa com a mãe.

Ah, a mãe. Ela representava para mim, um livro de fábulas, uma rainha que guardava com todas as chaves uma mina de baús cheios de diamantes. Talvez porque a apontassem como feiticeira e louca. Ela criava gatos, dezenas deles.  Gatos sem donos, tortos, caolhos, gatos de rua. Havia os gatos de olhos azuis e pelos marrons, arrasadores e lindos, que piscavam duplamente e pareciam sorrir. Eu tinha uma visão parcial, da janela do quarto, pois tinha o privilégio de ser vizinha deles. 

 Um dia, minha mãe  disse:

  - Vá à casa ao lado e deixe o bolo, mas não entre. Volte da porta. 

Esta era uma missão que eu não saberia nomear. Calcei os chinelos e corri até lá. Ninguém nunca entrava na casa, eles não recebiam visitas. As pessoas no máximo deixavam a caixa com os gatos na porta, nada mais. Não entreguei o bolo. Assim que a criada abriu a porta, entrei apressadamente. Passei pela sala, atravessei a cozinha e cheguei ao quintal. Os gatos estavam lá espalhados na grama. Preguiçosos e gordos: brancos, pardos, negros, majestosos. Veio-me um sentimento de indagação: Por que o mundo jogava fora aqueles seres felinos, macios e tão belos ? Eram de uma mansidão ímpar, como um cobertor de veludo em noite de inverno. 
A mulher baixinha e gorda olhava espantada a invasão. Estendeu-me um gato pequeno, cinza e trêmulo, que parecia fugido da guerra. Acomodei-o na roda da saia e olhei aquele reino em volta. Era o mito da caverna desvendado mais uma vez. Não havia a velha bruxa dos gatos de rua e seu filho doido. Não havia o cheiro podre de fezes, pulgas e vírus no ar. Apenas uma casa grande e antiga, um quintal enorme, um leve soprar das folhas no jardim e um cheiro adocicado de ternura e compaixão. O menino estava lá, lia um livro aberto sobre a mesa.  Veio até mim e pousou sua mão sobre a minha. Recebi de sua mão úmida o pequeno papel retorcido de bala.  Estivera guardado todo o tempo.

Passamos a manter uma convivência clandestina. Quando a guardiã dos gatos abria o arco duplo dos portões da entrada da casa, abria sem saber o caminho do paraíso. Era um oásis de fontes cristalinas na aridez dos meus oito anos. Aprendi pela compaixão um Amor que não sabia existir. Aprendi que os gatos amam incondicionalmente e como dizem isso com os olhos, com o rabo, com a curva das costas. Que ligam um pequeno motor quando tocam-nos o rosto, e jogam-se aos nossos pés sem reservas, barriga pra cima, nos dizendo: - Eu confio.

 Aprendi a confiar no amor com aqueles gatos. Aprendi que nem tudo em que as pessoas acreditam é real e que a verdade é uma caixa que tem que ser aberta. As histórias ouvidas nas tardes, com sequilhos e suco de tangerina, transferiram para mim parte do tesouro daquela família.

 Um dia, a vida mudou-nos para outra cidade e não houve despedidas. Soube que a mulher continuou a cuidar dos gatos da cidade, mas, para todos, era a Velha dos gatos e seu filho doido: os estranhos que moravam depois da ponte do rio.  Aprendi que há sempre um ser abandonado nas ruas que tem sede e mais fome do que imaginamos. Nós não imaginamos a dor dos cães e gatos perdidos, e como seus corações batem descompassados de susto e medo no escuro da noite. Na verdade, não temos tempo para pensar nisso. Só seguimos ordinariamente em frente.

Luisa Ataíde




quinta-feira, 19 de março de 2026

LIBERDADE CONDICIONAL

Tente acompanhar agora o ruído do relógio. Não há como evitar que os ponteiros caminhem. Mas vem o dia que a gente se descobre nu.Mas há os antes. E foram estes:


Era o primeiro dia de aula. Além da festa que era calçar sapatos e meias, estava de laços nos cabelos e vestido novo. Não fosse a enorme pasta que carregva, ninguém perceberia que ia à escola- o uniforme não fora ainda comprado.

 

Devia ser um dia predestinado a surpresas. Numa intimadade fraterna apresentaram-lhe objetos novos. Prestes a uma nova convivência, não lhe preparam para isto: Tinha um nome estranho. Sempre atendera a menor junção das sílabas Li e La. Mas, súbito, como se tivesse sido pega em falta grave se foi apresentada. O nome seguia-se de outros, mas o primeiro a inomodava como se quisessem lhe convencer que um cão miava. Cães e gatos são diferentes, pensou. Marília devia ser um nome para ser usado fora de casa, assim como sapatos e meias.

 

O que completava a desordem do dia, era caminhar sem ninguém da família por perto, e assim aproveitava passo a passo o caminho de volta. Colocando na calçada a pasta para abrir o portão, percebeu duas amigas brincando de Amarelinha.

 

A maior parou com um dos pés no céu, admirada de ver a menina tão grande e linda, empinada como se não existisse o peso da pasta. A menina esqueceu do seu tamanho e beleza e sentou-se no chão. Falava sem pausas: dos livros, dos quadros, das salas,até... não do nome não. Era por enquanto um segredo seu.

 

As duas ouviam, sem interromper, até porque não havia espaço. Aí veio. A mãe chegou-se a janela e gritou:

 

- Lila! Vem já tirar esse vestido e lavar os copos!

 

Escureceu. Foi como se todos os príncipes perfilasem em sapos. Levantou-se rápido e entrou.

 

Numa obediência de sentenciados, tirou o vestido e os sapato, até os laços dos cabelos desmanchou em silêncio. Colocando o avental, não importou-se que estivessem sujos todos os copos da casa. Uma coisa era inevitável: No dia seguinte haveria aula.

 

Luisa Ataide


(Dedicado à Marília Campos) 

sábado, 7 de março de 2026

A ARCA DE NOÉ

 


''Lá vai São Francisco pelo caminho

De pés descalços tão pobrezinho

Dormindo a noite junto ao Moinho

Bebendo a água do Ribeirinho...''

                                   Vinicius de Morais



Às cinco horas da tarde, quando o vento tomba os lençois do varal e varre as folhas da rua, qualquer pedido feito com uma caixa estendida, nos faz olhar o pequeno grupo de meninos como um santo olha os fiés do altar- com respeito e comiseração. 

- Só hoje mãe, amanhã a gente arranja um outro lugar pra ele. Tá chovendo e ele esta morando embaixo da árvore.

- O que é isso? um rato?

- Não mãe, é um gatinho.

Lá estava eu concordando com vinte quatro horas de hospedagem. É claro que o gato cresceu e fez parte da família, assim como o pinto de cor lilás comprado na feira.

- Achei tão bonito e o menino se encantou com ele. Tinha de todas as cores, você precisava ver!

Pelos dias dos Pais e pelo encantamento do menino, o pinto que dias depois era um pequeno ser cor de rosa andando pela casa, por algum tempo fez parte da família. Temi pela segurança dele. Seguia qualquer um piando sem parar, como se perguntasse se sabíamos aonde era o planeta de seres de penugens coloridas como ele. Nunca obteve a resposta. Uma semana depois ao chegar do trabalho, vi o cortejo fúnebre em direção ao fim da rua. Uma caixa com flores e meia dúzia de meninos cabisbaixos dizia adeus a uma pequena ave, esmagada pelos pés do filho do meio. 

-Esse moleque é desastrado mãe, amassou o pinto! o acusado deu-me um olhar de socorro, não tive culpa.

Alguns dias depois caiu na área de serviço, o pássaro azul e branco. Cauda longa, asa quebrada.

- Mãe, a gente pode ficar com ele?

-Não, passarinho tem que viver livre.

-Ah... mãe mas só até ele sarar.

-Está bem, mas tem de ficar solto. As paredes do fundo são altas, ele não dá conta de ir embora mesmo.

O lindo pássaro azul, que por mais que eles buscassem nos livros não descobriram a família viveu por três semanas na área de serviço. O canto matinal entrava pelos quartos e como se vivêssemos no Campo recebíamos os dias. La fora uma floresta imensa está me esperando, era o que eu pensava enquanto calçava os chinelos para ir à cozinha.

Numa manhã estranhei o silêncio do hóspede alado. A área de serviço estava vazia, ele de novo era uma ave forte. Voara pro mundo, sem adeus, sem bilhete de despedida.

Quando a vida corria em seu leito de normalidade, chegou Roger- o coelho branco. Aquela coisinha macia dormia no meu braço, como um anjinho que caiu do céu. Havia suspiros pela casa, tão encantados estávamos com o ser angelical. Passou o tempo e o coelho cresceu, assim como alguma coisa libidinosa dentro dele. Ele conhecia cheiro de mulher, com um olfato de lobo caçando lebre. Alvoroçava-se e dava pinotes. Se fosse um daqueles dias de ciclo feminino, o coelho enloquecia. Eu só podia cuidar dele de calças compridas. Tudo bem, mas o que fazer com as visitas? Alguns minutos depois que uma amiga chegava, lá estava o coelho exibindo o sexo rosado. Engraçado para as mais chegadas, constrangedor para as visitas formais. Era ainda, péssimo exemplo para os meninos que viviam tentando explicar ao coelho que aquele era um comportamento impróprio diante das damas. Inútil. Um dia doamos o coelho ao vizinho.

 Antes do cachorro, para ajudar na cura de uma depressão extremada do menino mais novo que acabara de chegar aos doze anos, morou lá em casa um papagaio. Achei muito esquisito o pedido, mas o que não fazemos para ajudar os filhos?  Uma doença emocional tira-nos do eixo, fragiliza a vontade.

- Está bem, mas vocês lembram que não gosto de aves presas?

E acredite, tivemos um papagaio voando pela cozinha. As janelas viviam fechadas e os rasantes sobre a panela de água quente eram frequentes. Um dia pensei: isto é surreal é melhor que tenhamos um cachorro.

O gato? Quando adulto fugia para o telhado para namorar e de lá para a boemia noturna. Voltava sempre machucado. Morreu na UTI de uma virose antifelina. Foi um chororô sem fim, jurei nunca mais ter bichos.

Finalmente entre nós um cão. Uma cocker que roeu doze pares de sapatos, quatro controles remotos, o sofá novo e mais uma lista interminável de objetos. Alguém mencionou ser saudável que ela tiesse filhotes e lá estavam cinco filhotes correndo pela casa arrastando as meias do cesto. 

Aos poucos, as histórias dos bichos se tornam risos e logo serão lendas de um tempo que nunca mais viveremos. Sim, todos os bichos merecem o céu. Tem algo mais angustiante que miado de gato no meio da noite? Ele tem fome- penso.  Ele se perdeu da mãe Chego à janela e tento ouvir o lamento. Um dia, quando eu me for, encontrarei São Francisco andando pela noite com um pires de leite atrás de um gato faminto. Francisco irá sorrir e dizer que todas as aves, coelhos, cães  e felinos, são simples instrumentos de nossa paz.

L. A.

obs- Hoje não temos mais a cock spaniel, nem coelhos e nenhuma ave. Moram na casa uma ninhada grande de gatas. Quantas? melhor não dizer.

quinta-feira, 5 de março de 2026

ENTRE ASPAS



''... O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão.

 O Verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. 

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. 

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

 Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera...''


Marta Medeiros
 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

ÁGUA VIVA

 




O que te escrevo é um ''isto. Não vai parar: continua.
Olha para mim e me ama. Nao, tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.
O que te escrevo continua e estou enfeitiçada.


C.  LISPECTOR  

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

RISS



 

Eu entrava no shopping quando a menina me segurou fortemente pela blusa, desnudando-me parte do corpo.  Ela era um náufrago no Oceano e eu um tronco de arvore, grande e firme. Aflição, desproteção e doçura. A mãe entregou-me uma frase curta.

- Desculpa moça!

- Eu compreendo, tenho um assim.

A mão pequena ainda me arrastava a roupa. Depositei um beijo entre os dedos dela.

Não olhei pra trás, segui os passos ordinários em direção à porta. Sempre considerei que mães atípicas se voluntariam antes de receberem na maternidade o pequeno pacote embrulhado.  Há alguns anos ganhei um pacotinho com laço diferenciado, sou parte deste recrutamento feminino. Não houve tempo para troca de confidências nem para conhecer o diagnóstico. Foi só um esbarrão. 

Nós caminhamos nos corredores dos shoppings sem esbarrar no cotidiano dos que andam ao nosso lado. Sem ouvir o que aquela mulher a dois degraus na escada rolante está pensando, sem saber das alegrias e conquista dos que levemente riem. Nós somos leigos mortais atravessando avenidas, mas temos nossas próprias defesas. Minha dor sempre será maior que a sua. Porque eu a sinto.  Mas em algum lugar nesse Universo ilimitado essa menina caminha feliz em frente ao Shopping, não se assusta com a mulher baixinha que entra apressada em busca do caixa eletrônico. Em algum desses sítios   um rapaz falante entra ao lado dessa mulher -  é seu filho. Ele fala da apresentação da Tese de Mestrado feita naquela manhã. A menina não esbarra na mulher, reclama do sorvete que a mãe não comprou.

- Estamos atrasadas, diz a mulher.

Essa é a frase que ouço ao  entrar no shopping.

Mas foi aqui neste mesmo lugar, numa manhã de outono que uma moça atropelando as palavras, tocou-me o braço e disse:

- Eu tenho um recado pra você, Jesus mandou o recado.

Olhei para a jovem a minha frente. Clara, cabelos cor de mel, uns trinta anos, vestido comum, limpo e simples. No primeiro minuto pensei tratar-se de fanatismo religioso.  Indaguei-me porquê a Suprema Divindade largaria suas tarefas para mandar-me um recado. Mas pacientemente ouvi. Eu usava um vestido com uma estampa manchada. A moça aprontou para a roupa e disse:

_ Nunca mais use essa roupa! você entendeu? Nunca mais. Acredite em mim, ou alguma coisa muito grave vai ocorrer. Entenda mais uma vez. Livre-se desse vestido.

Agradeci o recado e fiz menção de seguir em frente. Ela  alertou-me  mais uma vez.

- Promete que vai se desfazer desse vestido?

Dei um sorriso afirmativo, desviei os olhos por micros segundos e a olhei de novo. Ela havia evaporado na minha frente. Procurei em todas as direções. A moça desaparecera. Pensei em como aqueles pensamentos a atormentaram. E em algum momento, ela reconheceu na multidão, a mulher e o vestido borrado da mensagem que precisava entregar. Por precaução cheguei em casa e destruí o vestido. Nunca saberemos se ela era real.

Estamos cercados de anjos que podem nos esbarrar. Que podem nos segurar pela blusa com força, que podem nos entregar mensagens que nos parecem tolas. Anjos podem nos ser entregues no berçário da Maternidade, não importa que laço difícil aperta o pequeno pacote. Sempre haverá frascos de controladores de neurotransmissores.  Sempre haverá selos a serem colocados: TEA, TDAH, Esquizofrenia, TOCs...

A Neurodivergência nossa de cada dia. Que o Universo zele por nós

 

L.A.  

sábado, 21 de fevereiro de 2026

DIÁRIO DE BORDO-

 





Lembrei-me no banho de um conto de Clarice. Não sei se vinha de LEGIÃO ESTRANGEIRA ou um outro catálogo mas lembro-me da menção aos Macacos. Não sei se ela apontava o andar deselegante e oscilante dos símios por se tratar de estranhezas, ou se eu, no papel de leitor decidi que  a estranheza interna,  tanto do rapaz como da moça de não compreenderem o momento de estarem diante um do outro, os fazia cambalear. Mas era que nada tinha um referencial anterior, então eles não sabiam lidar com isso. Não eram pré adolescentes como no conto ''O primeiro beijo'', eram adultos e caminhavam numa tarde juntos.  Não vou lembrar o nome do conto, mas vou considerar a cumplicidade e defesa feminina dela. Em qualquer circunstância, qualquer dos dois poderia embriagar o passo e parecer ridículo aos olhos do mundo. Mas  no caso, só a moça andava visivelmente bêbada. Contudo vamos considerar que Sentimentos visto de longe, ou são encantadores ou, como diz o poeta - são Ridículos. Com certeza não para os que estão no palco: Você provavelmente pode esquecer o texto. Não deveria. Como explicar que  todas as cadeiras estão ocupadas e o Teatro está cheio? Como explicar a sensação que o chão está fugindo e que provavelmente você está entrando no que chamam modernamente de estado de pânico? Como a lagarta explica a si a metamorfose? 
Não gosto de textos que tentam explicar Clarice , é como se alguém dotado de uma verdade cirúrgica a tentasse diagnosticar. O que possa parecer patologia pode ser a súbita precariedade de como a pele recebe os dias. A estupidez é tentar explicar. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

CLARA EVIDÊNCIA


 Antes, cumpre esclarecer, havia os dias brancos. Mas o sopro divino sobre dunas de sal , deixava sobre a soleira da porta, como dúzias de rosas cor de berinjela - os intermináveis dias negros. Cumpre ainda esclarecer que os dias não eram seus, mas do filho mais novo. Tal qual equilibrista sob guarda- sol, separava as cordas da bipolaridade. Ora lhe chovia sobre os ombros, ora os raios lhe queimavam as costas. Quando o sol  queimava-lhe as costas, o maior de todos os equilibristas, neste respeitável circo... dançava entre lençóis coloridos. 

-Venham todos ver o maior espetáculo da terra! Flores para a dama ao lado, sorvete e pipoca para todos!

Ah!... O grande mistério do Criador: não havia uma lógica aritmética, sendo assim para dois dias brancos poderia haver dezenas de dias escuros, que poderiam chegar por pacote expresso na entrega das dez , em qualquer dia da semana. Como saber?
Segunda -feira , oito horas. Passa pela cozinha:

_ Bom dia, você já chegou? nem notei...
Não espera a  resposta. Passa de volta quarenta minutos depois.

_ Bom dia, ué você já está aí ? Que bom.!

A empregada ameaça um sorriso.
Meia hora, depois passa de novo pela cozinha.

_ Agora que você chegou, isso são horas,? Eu já te falei que segunda-feira você tem que chegar cedo.

A empregada inspira fundo , observa. A roupa: a saia é verde, a blusa vermelha, o casaco é roxo... e as sandálias... ora não formam um par... estão ...

Soa o alarme. A mulher está parada na porta da cozinha e sorri. Sorri de que mesmo? Agora é só a ponte em frente. A ponte é estreita e há muito limo na parte externa, está sobre rio escuro . Uma mulher com uma saia velha e sandálias trocadas, tem no bolso do casaco um relógio parado, está no meio da ponte e porque chove abre a sombrinha.
_Qual o seu nome?

_Ela não lembra Doutor, intervém o marido , amanheceu sem memória.

_ Algum problema em casa?
- O menino mais novo é bipolar. Ela se aborreceu com ele.
- Ah...

Do lado de cá, a estação de rádio funciona em dialeto primitivo. Não há tempo para ensinar a linguagens não há tempo para traduções. Três estranhos numa sala branca. Uma mesa, uma maca , dois homens e uma mulher. Uma mulher sem nome - páginas e páginas de livro em branco.

_ O nome dela é Clara, ela tem quarenta e cinco anos.

A idade, veneno forte. Mata em dose única. Contra- indicação feminina, elas não se acostumam.

_ As vezes elas não voltam, tive um caso destes,  mês passado... ela quis ir, se tentou voltar, não sei, sei que não voltou.

_ Ah...

Atenção, a escolha é sua. È só caminhar de volta , bem devagar e a ponte não mais existe. Se o problema é o escuro , aguarde as primeiras horas. Não há noite que dure pra sempre. Não desista. Daqui a pouco  chegará o padeiro:

_ Dona Clara!!!

Você tem um nome, e a casa é esta, antes da ponte. O pão está na mesa e o café quente. A empregada , acredite , chegou antes das oito e fez o café.
Bom dia, sua consulta no dentista é as três.

Luísa Ataíde

MEMÓRIAS BRANCAS

 



(Image by Ben Goosens)

“... é a minha alma que se desprende dos laços terrestres e anda pairando no espaço com sua irmã fugitiva...” (Anna Plácido, 1832- 1895)



Sempre é o lugar de ontem.
Todos montados sobre cavalos estendem cabelos ao carrossel do Vento.
A lua filtra a claridade da rua
A casa e a rua sobrevivem ao tempo.
Aonde andam os meninos, os risos, as lágrimas, os gritos?
Os que aqui viviam habitam outros sonhos, outras vidas, outros dias.
Pintaram a casa, mudaram as janelas, apararam o jardim.
Trocaram o telhado, há pouca mobília.
Os personagens dos livros sentam-se à mesa, dobram lençóis, regalam-se nas sombras
Atravessam as paredes, desbotados, antigos
Não sabem o rumo de suas estórias.
O homem se foi; a mulher e seus filhos para terras distantes.
A cidade adormece, as luzes se acendem, é a mulher que volta.
Remexe o fogão, sobe as escadas e limpa a poeira.
Recolhe das cinzas pequenas memórias.
Esfrega nos dedos
Memórias sem vidas, branquinhas... branquinhas...
Observa os homens que saem dos livros
Apaga as luzes e volta pro parque.
Todos montados sobre os cavalos, estendem cabelos ao carrossel do vento.
O Ontem agora é um lugar de sempre.

Luísa Ataíde

(PRÊMIO LITERARIO RAQUEL DE QUEIROZ- 2007)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

REMINISCÊNCIAS





'' Não se compreende música : ouve-se. Ouve-me entao com teu corpo inteiro. Quando vieres a me ler perguntarás por que não restrijo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras - e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão,"  C. Lispector, ÁGUA VIVA


domingo, 11 de janeiro de 2026

ESCREVER É DESNUDAR-SE

 



Estranho essa pessoa do outro lado do espelho. Ela diz conhecer cada milímetro do meu corpo, meu andar pesado e taciturno. Meus raros risos. Já informei que meu riso mora dentro. Que eu abro, só eu abro, a porta que dá pras salas dos risos. Do lado direito tem a sala de cantos. Eu passava lá todos os dias quando tinha vinte anos. No andar de baixo encontra-se  uma mesa longa de madeira nela eu escrevia histórias. Histórias de encantamentos, puro encantamentos. Na verdade eram modos peculiares de respirar os dias. Parei de escrever histórias quando começou a estação de chuvas. No  processo criativo eu ouço uma mulher que dita  textos. Uma voz sonoramente abafada, pausada e por vezes insistente. Eu escuto o ditado e escrevo.

Anos depois descobri a sala dos pincéis. Eu que sempre desenhei tudo que via, principalmente palavras. Como um falsificador eu desenhava os nomes das pessoas. Mas chegaram dias que eu comecei a ver quadros oitocentistas na parede. Nítidos, graves, perfeitos. No começo achei muito esquisito estar vendo pinturas tão perfeitas. Com o tempo essas esquisitices que em mim habitam passaram a não me incomodar. E eu pintava quadros lindos. Encantei-me com Gogh e seu jeito reverso de fazer imagens. Passei a amar a incapacidade de não caber em caixinhas. Ele vive em algum lugar, ainda sobre a corda. Resolvi fechar a sala dos pincéis e tintas pois no céu deslizava um filete azulado de cinza payne . Prenúncios. 

Poemas? Tenho dificuldades em escrevê-los, assim como pintar flores. Eu os vomito. Aviso que odeio rimas. As rimas perfeitas são invisíveis, porque sendo invisíveis elas  apenas anestesiam o texto.  Alguém me disse que eu escrevo só poesias, que tudo em mim é  poesia.  É que a poesia se esconde, porque eu não digo,  apenas sugiro. Ia dizer algo sobre isso , mas preciso parar.

Começa o ruído de chuva no telhado. 


          Luísa Ataide ( imagem feita com auxílio de IA)


domingo, 4 de janeiro de 2026

DISLALIA



 "E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver."

C. Lispector


terça-feira, 2 de dezembro de 2025

LIVROS, LIVROS, LIVROS

 




         Estava no Shopping, numa livraria, tentando comprar um livro para um amigo querido. Entre pilhas de folhas com histórias dentro havia um livro - O DOM DA AMIZADE. ( J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis) . O vendedor era um menino magro de óculos, com uma doçura de quem ama livros. Ele já lera todos os  que me indicava. Eu devo ter sido traça  em vidas remotas, dessas almas penadas que habitam bibliotecas. Ou simplemente vivi entre folhas, capas duras e prateleiras. Sinto-me em casa. Queria poder levar todos. É como quando encontro gatos na rua. Para mim são todos órfãos sob miras de mísseis de fogo e eu os quero. Mas enfim o Dom da Amizade, me aguçou a imaginação. Mas, aquele amigo do outro lado do wsapp que tinha a função de indicar livro a outro que ele não conhecia falou-me de títulos magníficos. Pessoas que gostam de ler sofrem do mesmo vício insanável : Sentir entre as linhas. Meus mehores amigos amam literatura. Casei-me com alguém que  falava de Guimarães Rosa com reverência ímpar.  Meu filho mais novo é bibliófilo. Ama livros em demasia. Um perigo, navega no abstrato e pensa como um verbo intransitivo. Não transita no chão comum dos outros humanos. Bem, acabei deixando o Dom da Amizade na prateleira e rendi-me a outro.  Contudo, antes de sair pela porta de vidro olhei UM DEFEITO DE COR da ANA MARIA GONÇALVES e pensei. Você vai ser meu, até o Natal.