'' Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer''
L. Camões.
A menina olha da cadeira o livro aberto e as filas intermináveis de letras intercaladas por espaços como uma grande plantação de hortaliças. Estica o queixo para frente na tentativa de alcançar o que mais há entre a voz metódica do professor de história e o barulho do beija-flor que rodopia no galho da árvore junto à janela. De que são feitos os heróis se não de serviços notáveis ao Rei? Um herói salva um povo, uma reino. Salva o mundo, quando isso interessa a alguém. Um herói é condecorado, é festejado. Herda uma cidade, um governo, uma nova Colônia. André Vidal de Negreiros, diz o mestre, por ter expulsado os Holandeses do Recife, ganhou Angola para governar.
Ana ouve tudo com atenção. Cresce da página aberta sobre a mesa a figura nobre do grande general. Um nome para nunca ser esquecido. Os olhos da menina veêm a silhueta, a espada, os ombros largos, o peito condecorado. O homem jovem anda pela sala em passos curtos, num desfile de realeza e força. O cabelo totalmente negro desce até os ombros. Ele caminha e subitamente olha para trás. Olha no fundo dos olhos dela. Ela vê no escuro das pupilas dele: um lago. É noite, tem certeza, pois a água reflete apenas o próprio contorno na luz da noite. É um lago calmo e suas águas cantam. Não como o pequeno pássaro, é uma canção abafada, quase inaudível como o rumor das pequenas ondas na areia. Ela ouve apenas o eco, um eco grave que bate infinitas vezes na parede e abre os ouvidos da alma. Ana vê a mão estendida em sua direção e tem dúvidas quanto a levantar- se da cadeira e tocá-la. Mãos que venceram piratas, índios e traidores. Que hastearam velas e bandeiras. Mãos que riscaram mapas e amarraram âncoras.
Ela nada teme que venha do homem parado a sua frente, é como reencontrar um dia que nasce. O dia entrega-lhe de presente um vale: no vale há uma cidade que dorme. As colunas que cercam a cidade estão repletas de uma grama curta e úmida, cipós entrelaçados impedem a entrada. Ela empurra a passagem dos galhos e muros e encontra vestígios de moradas e quintais. As casas estão vazias de vozes e gente. É uma casa grande de Engenho, construída sobre pilares de pedras. Varandas contornam a escada extensa que pousa a casa sobre o grande pátio de terra. Da porta da cozinha vê várias residências menores e plantações que campeiam a paisagem.
Ouve, ainda, a voz do professor no fundo do ouvido, abafada, como vinda de dentro de um tacho de metal.
- Nos dias do Século XVII os Engenhos eram casas e imediações que produziam açúcar e tinham o nome de seus donos. Havia a Casa Grande, a senzala aonde dormiam os escravizados, a capela, a horta e o Canavial. Assim também era o Engenho de Jerônimo Paes de Azevedo, que depois viria a chamar-se o Engenho da Casa Forte. Isto deu-se após a capitulação dos holandeses, por ocasião da Batalha de Casa Forte. O Engenho foi incendiado, pelo exército luso-brasileiro, e foi um dos últimos redutos da resistência flamenca.
Entra na Casa Grande. Há água fresca no vaso de cerâmica da cozinha. Ainda pode sentir o calor na chapa do fogão de lenha e ver a réstia de fumaça entre as brasas mortas, e as cinzas. Vê uma caixa sobre a mesa, repleta de pedras brancas. O teto está entrecortado e do extenso buraco que dele nasce, o sol alaga de claridade o chão de terra batida. Caminha descalça. Sente a aspereza da terra na sola dos pés. Esfrega os pés diversas vezes, sem afastá-los do chão, para sentir o que a sustenta dentro da casa. O beija-flor da árvore entra pelo buraco do teto, rodopia muitas vezes diante dela.
Do outro lado da mesa o professor aponta o lugar em que ela está. Fala do paraíso de frutas e plantas, da calmaria das tardes, das canoas no vai e vém do Capibaribe. A voz prossegue e descreve o trapiche, destinado a moer canas, movido a tração animal. Os cilindros unidos pelos dois braços de madeira movimentam-se afunilando o giro dos parafusos. A máquina range um canto de lamento que se confunde com o banzo dos negros que olham em direção ao mar. Um canto assobiado e fino que desafia o silêncio das cigarras. A menina ouve o que diz o professor e um redemoinho abre as hélices coloridas do pensamento. As pétalas do cata-vento mesclam as tonalidades e as cores ganham velocidade. Ela já não distingue a linha divisória entre o livro aberto sobre a mesa e o chão da casa. São os movimentos ávidos da imaginação que acenam com a capacidade que nela cresce de ir além do que ouve. É sobre uma terra na América do Sul, tão distantes como as linhas no mapa geográfico da parede. É o destino que se anuncia e que fatalmente será freado pelas lágrimas da mulher que um dia será e ainda não alcança. Os versos de Camões já lhe enfeitiçam a alma. A música que apenas ela ouve é como um chamado noturno enquanto os outros dormem. Assim acordam para a arte de ir além os que pintam, escrevem, trazem à luz uma música.
Ana abraça a imagem da casa bem junto ao corpo, não pode fugir dela. É como reencontrar um brinquedo perdido. É uma casa reconstruída de lembranças esmaecidas na palidez de infâncias vividas. É uma infância que não é sua, mas ela a conhece. A menina apoia suas mãos miúdas sobre a madeira. Dedilha as notas, da música que ouve, sobre as linhas sinuosas e longas da mesa. Tateia a superfície sonora com as mãos em paralelo, colhe os grãos coloridos da valsa que nasce dos seus dedos: Frederico Chopin - Opus meia nove, número um. A valsa árdua da aula de piano, desliza agora extremamente fácil. Os pequenos dedos dedilham a madeira com a cegueira dos que apenas sentem. Ela faz meio rodopio sem se afastar da mesa. Olha o teto que desliza como a água de um rio de leito raso. Chove uma claridade que transborda o teto da casa e varre dos telhados folhas e galhos finos. O sol estremece o céu claro e limpo como uma tarde de deserto. O calor sobe pela cumeeira e estala os caibros de sustentação do teto. Passam rente à janela dois meninos que correm.
- Ana! Antônio! É o grito que os pequenos atendem. Passam pela janela em grande correria. O cabelo da menina estende os cachos longos em linha inclinada ao chão e desaparece no fim da escada. Ana acompanha com o olhar o movimento das sombras sumir na parede. A menina? Elas têm o memo nome, pensa. Retorna a atenção para dentro da casa.
As folhagens nascem do pote de pigmentos como nascem as nuvens sobre os homens livres e escravizados. O pintor está dentro da cozinha, contudo o quadro que pinta está depois da mesa. A mão insurge a paleta sobre uma superfície ausente, além da janela aberta. A menina está diante da imagem que cresce, ganha contornos, cores, luzes. O sopro da criação espalha-se na mistura das cores e o movimento das mãos do pintor desliza sobre um rio que abriga cardumes. Do outro lado ouve a voz metálica do professor que descreve um quadro de Franz Post. Ele está ali ao seu lado, o homem de estatura pequena sorri enquanto seus dedos procuram o pigmento na pequena caixa de madeira. Franz Post lhe apresenta sem grandes contrastes de claro e escuro a divindade da criação. Colhe cascas de árvore do tronco, além da janela, e as deita sobre o colo diante da mesa. Os dedos mesclam Verde, Terra de Siena e Branco numa rapidez do ofício. Olha mais uma vez a casca e a devolve à paisagem.
Ana Augusta um dia escreverá livros. Numa terra liderada por Camões, desenhará como um pintor cidades e pontes, entrelaçará e separará destinos. Falará de amor e lágrimas, de heroínas e homens mesquinhos. Precisará de um nome para preservar sua identidade de uma sociedade que dita a obediência feminina. Ela ainda não sabe, ma escandalizará uma sociedade patriarcal ao deixar ao abandono um matrimônio que lhe foi entregue previamente clculado entre sacos de mercadorias. Ana caminhará para a fogueira em nome de um Amor que aceditará ser a razão de sua vida. Por trilhar caminhos proibidos precisará esconder sua real identidade. Esta aula de História ressurgirá como um pequeno galho verde que vence a aridez das pedras e ganha a luz do sol. Do brasileiro que ajudou a fazer a história de Portugal, sem que ela saiba exatamente por que se apropriará do nome: Vidal de Negreiros. A descrição do professor coloca à frente da mesa um homem jovem de trinta e poucos anos, cabelo até os ombros. Sua pré adolescência julga-o. É um homem bonito, pensa.
Ele ignora o olhar, a tarde, o vento lá fora. Caminha pela sala como se nada houvesse ao seu redor. Algo sonoro e fino rompe a narrativa. Só ela escuta. De onde está, vê a mesa, os mapas, o grande livro. O Mestre adverte o fim da aula e a hora da refeição. Essa lembrança a acompanhará até o fim dos dias.









