Eu entrava no shopping quando a menina me segurou fortemente
pela blusa, desnudando-me parte do corpo. Ela era um náufrago no Oceano e eu um tronco de
arvore, grande e firme. Aflição, desproteção e doçura. A mãe entregou-me uma
frase curta.
- Desculpa moça!
- Eu compreendo, tenho um assim.
A mão pequena ainda me arrastava
a roupa. Depositei um beijo entre os dedos dela.
Não olhei pra trás, segui os
passos ordinários em direção á porta. Sempre considerei que as mães atípicas se
voluntariam antes de receberem na maternidade o pequeno pacote embrulhado. Há alguns anos ganhei um pacotinho com laço
diferenciado, sou parte deste recrutamento feminino. Não houve tempo para troca
de confidências nem para conhecer o diagnóstico. Foi só um esbarrão.
Nós caminhamos nos corredores dos
shoppings sem esbarrar no cotidiano de ninguém. Sem ouvir o que aquela mulher a
dois degraus na escada rolante está pensando, sem saber das alegrias e conquista
dos que levemente riem. Nós somos leigos mortais atravessando avenidas, mas
temos nossas próprias defesas. Minha dor sempre será maior que a sua. Porque eu
a sinto. Nós somos a exclusividade do nosso próprio mundo. Mas em algum lugar nesse Universo ilimitado
essa menina caminha feliz em frente ao Shopping, não se assusta com a mulher baixinha
que entra apressada em busca do caixa eletrônico, E algum desses sítios do
Universo um rapaz falante entra ao lado dessa mulher é seu filho. Ele fala da
apresentação da Tese de Mestrado feita naquela manhã. A menina não esbarra na
mulher, reclama do sorvete que a mãe não comprou
- Estamos atrasadas, diz a mulher.
Essa é a frase que a mulher que
entra no shopping ouve.
Mas foi aqui neste mesmo lugar,
numa manhã de outono que uma moça atropelando as palavras, tocou-me o braço e
disse:
- Eu tenho um recado pra você,
Jesus mandou o recado.
Olhei para a jovem a minha
frente. Clara, cabelos cor de mel, uns trinta anos, vestido comum, limpo e
simples. No primeiro minuto pensei tratar-se de um fanatismo religioso. Indaguei-me porquê o dono do universo pararia
suas tarefas para mandar-me um recado. Mas pacientemente ouvi. Eu usava um
vestido com uma estampa manchada. A moça aprontou para a roupa e disse:
_ Nunca mais use essa roupa! você
entendeu? Nunca mais. Acredite em mim, ou alguma coisa muito grave vai ocorrer.
Entenda mais uma vez. Livre-se desse vestido.
Agradeci o recado e fiz menção de
seguir em frente. Ela me alertou mais uma vez.
- Promete que vai se desfazer
desse vestido?
Dei um sorriso afirmativo, desviei
os olhos por micros segundos e a olhei de novo. Ela havia evaporado na minha
frente. Procurei em todas as direções. A moça desaparecera. Pensei em como
aqueles pensamentos a atormentaram. E em algum momento, ela reconheceu na multidão,
a mulher e o vestido borrado da mensagem que precisava entregar. Por precaução
cheguei em casa e destruí o vestido. Nunca saberemos se ela era real.
Estamos cercados de anjos que
podem nos esbarrar. Que podem nos segurar pela blusa com força, que podem nos
entregar mensagens que nos parecem tolas. Nossos anjos podem nos ser entregues
no berçário da Maternidade, não importa que laço difícil aperta o pequeno
pacote. Sempre haverá frascos de controladores de neurotransmissores. Sempre haverá selos a serem colocados: TEA,
TDAH, Esquizofrenia, TOCs...
Que o Universo zele por nós

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