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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
FELIZ ANO NOVO
“Se o Belo é o Bem”, corramos a traçá-lo no caminho da inquieta humanidade."
Com renovação de projectos e o Amor a guiar-nos, sem perder tempo, sem olhar para trás, sem cairmos nos obstáculos, ou se tivermos mesmo de cair, que não nos falte o gosto de sermos levantados!
Boa passagem de Ano!
FERNANDO PASSOS E TERESA PASSOS (LISBOA- PT)
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
PARA NÃO SERMOS UMA ILHA
Que o Natal nos seja um presente, todos os dias.
Em Dezembro, ao Sul da América a neve nunca cai sobre os telhados das casas
Não há lareira nos lares e os pinheiros tropicais são árvores multicores.
Os bonecos de neve moram nos shopings
Gorduchinhos estáticos sob a fina chuva de isopor.
Os meninos apontam os dedos e o riso às cidades de quase neve
Os pais resgatam os pacotes de dentro das lojas
Guardam neles o natal que nunca tiveram.
Em Dezembro, ao Sul da América só a chuva cai sobre os telhados das casas
As estrelas descem à Terra e iluminam as varandas
E enchem de luz os corações dos homens.
Natalino, o Espírito retorna às ruas
Preenche de sons de sinos quintais e avenidas
Recolhe das portas as doações de paladar e cor
E salva o Natal dos que sonham com fartura e riso.
Em Dezembro, ao sul do Sul da América, cai um pouquinho de neve
Há lareiras e pinheiros coloridos
Há canções com estrelas dentro.
Há risos e meninos encantados
Espelhado na íris o último expresso da Infância.
Perdoamos a intenção comercial do caminhão iluminado
E recolhemos apenas o que ele sopra de magia e luz em nossas vidas.
Aqui, ao Sul da América há cantatas e luzes nas praças
Enchemo-nos com o vento da fé para os outros meses do ano
Agradecemos cada dia dado.
Que a esperança, hóspede contumaz de nossas casas
Corra os mares e terras distantes
E nos faça apenas filhos do mesmo planeta
Que pede respeito e paz.
L.A
terça-feira, 23 de novembro de 2010
O DESTINO DE ANN WARD ( conto)
O maior de todos os tesouros da infância é a fotografia que guardamos dela. Quando o crepúsculo silencioso dedilhar seus últimos acordes, talvez compreendamos porque ganhamos aquela casa, aquela família, aqueles dias. Relembrar as notas distantes de um canto esquecido de infância e o momento que recebemos a caixa, repleta de fundos secretos, chamada: Destino.
Londres. Segunda-feira, 6 de julho de 1772.
Quando o coche deslizou sobre o primeiro arco da ponte do Rio Tamisa naquela manhã de verão, a menina olhou as embarcações espalhadas e julgou que provavelmente estava vendo a paisagem pela última vez. Desde que recebera a notícia da mudança para a casa dos tios na cidade de Bath, seu coração sombreara-se como gotas de cinzas turvam um jarro de água cristalina.
Naquela manhã, Átila, a Águia Real, como sentinela entre as torres da Abadia de Westminster era uma presença imperceptível. A ave de rapina buscava no burburinho de idas e vindas: o alvo. Na altura do quarto arco, as rodas de ferro pararam bruscamente e George, o condutor, comunicou -lhe com poucas palavras, que seria necessário afastar-se por alguns instantes.
– Não saia daí Ann, eu voltarei rápido.
Como deixar uma menina de sete anos sozinha sobre uma ponte? O que o meu pai vai pensar disso, Emily? Indagou à boneca recostada ao banco.
Sinto muito... Foi o que pensou enquanto seus pés desciam em direção ao movimento lá fora. Deu alguns passos sobre a calçada e foi empurrada por um movimento brusco que por pouco não lhe arrancou o chapéu da cabeça. A menina fez um giro rápido para trás, a tempo de observar o pássaro grande coberto de penas verde metálico em contraste com os olhos amarelo claro. Por breve instante teve a impressão que a ave a olhou no fundo dos olhos. Segurou o grito de espanto e instintivamente levou as mãos à cabeça. A Águia seguiu em voo ascendente em direção às torres da Abadia, contudo, concluiu a curva e continuou o movimento, agora, de volta à ponte. O Pássaro descia em grande velocidade e foi possível perceber o volume que trazia nas garras. A inglesinha encolheu-se à procura de abrigo - foi quando ouviu o baque sonoro da caixa arremessada sobre o teto do coche. A ave soltou o pacote e seguiu em voo para leste. Antes de seguir em linha reta, abriu as asas em compasso sobre as embarcações, e tomou finalmente a linha do horizonte. As pessoas em volta não pareciam se importar com a cena, a não ser a mulher parada na mureta da ponte.
– É seu o presente, disse a mulher, empurrando a caixa com a bengala em direção ao chão. Ann estendeu os braços e aparou a caixa de madeira.
– A senhora acha que a caixa foi deixada para mim?
– Possivelmente. É seu aniversário?
– Daqui a alguns dias eu e a Emily faremos aniversário.
A mulher parecia não ouvir a menina, absorta em localizar, em algum ponto da claridade do céu, um sinal do pássaro. Um alvoroço de imagens atropelava-se em algum lugar de suas lembranças. A cena pertencia a uma manhã perdida no começo do século sobre a antiga ponte de Londres: um pacote arremessado sobre seus pés. A velha senhora olhou as nuvens, as pessoas em seus muros secretos, a brisa empurrando a vida como as águas do rio.
Ann Oates Ward, a menina que em alguns dias completaria oito anos, abriu a trava da tampa e viu o que aparentava ser uma caixa vazia. Puxou com as pontas do dedo a cobertura e deparou-se com um envelope e algumas folhas de papel arrumadas ao lado de hastes finas de metal, terminadas em grafite. No envelope estava seu nome escrito, o que tirava todas as dúvidas do direito de propriedade sobre o objeto. De volta ao coche, Ann olhou a mulher sobre a ponte, os barcos em seu vai e vem infindo e segurou com força o presente contra o peito.
Ao fim do dia , quando a tarde estendia sobre a estrada seus últimos raios de luz, a condução atingiu as imediações da cidade de Bath e a sonoridade do Rio Avon. A menina ouviu o ruído da água e apoiou o queixo entre os braços diante da janela, observando a espuma que escorregava entre as pedras de um rio que tinha pressa. À entrada da cidade havia uma ponte em construção e a carroça atreveu-se por caminhos estreitos e sinuosos. Filas de trabalhadores de volta aos lares seguiam ao lado das rodas de ferro e curvavam um aceno à passagem do carro. Enquanto a tarde recolhia a luminosidade, ainda foi possível ver um grande semicírculo de casas, em construção, que lembrava a pintura do Coliseu romano. A cidade pareceu-lhe um formigueiro revirado.
Os portões da casa de Tomas Bentley abriram-se à passagem do coche com todas as lanternas do jardim acesas. A pequena hóspede, sua boneca e a caixa de madeira saltaram em direção aos degraus da entrada da casa. O ruído noturno se reduzia a pequenos pontos sonoros, minúsculos piados agudos que rodeavam as árvores e escorriam com a brisa úmida.
Não foi possível dormir na primeira noite e poderia dizer quantos riscos havia no telhado do quarto que descia em declive sobre a pequena cama que, agora, lhe pertencia. Escondeu a caixa atrás do armário de roupas e corria a ela nas tardes silenciosas. Um fato curioso descobrira: a caixinha, às vezes, lhe parecia funda, ou, por outras, totalmente estreita. Às vezes sua mão encontrava um compartimento desconhecido, como quando descobrira os pequenos pincéis na parte lateral. Correu os dedos em todo contorno e deparou-se com pequenos potes de pigmentos para pintura. É uma caixa de ilusionismo, concluiu. Passava os dias na biblioteca procurando nos livros respostas sobre encantamentos e magias. Olhava o jardim da janela do quarto e a chuva que molhava as folhas largas dos canteiros bem cuidados. Olhava a lua abrindo seu lume sobre o telhado e imaginava o riso dos meninos que moravam em alguma casa vizinha. Tinha sempre a impressão de ouvi-los e abria a janela às estrelas e aos pássaros noturnos. Ouvia o ruído dos arreios e frenagem de carruagem, e descia aos tropeços a escada em direção à porta. A visita paterna era como a caixa de tintas.
Era uma casa de paredes altas e moradores que dormiam cedo. Entre os corredores , Ann Ward construía um mundo de pensamentos sombrios e personagens invisíveis. Quando tudo parecia-lhe um imenso calabouço abandonado lembrava-se das cores da caixa, das folhas em branco e das hastes em grafite. O que a Águia quis lhe dar, naquela manhã sobre a Ponte de Westminster? Indagava-se a menina olhando as prateleiras da biblioteca que cresciam em direção ao teto. Extensas prateleiras repletas de livros antigos sobre as lendas celtas da Bretanha: uma terra destinada a ter inúmeros filhos enfeitiçados pela escrita.
Todas as respostas que teve que decifrar não estavam nos livros da casa, nas histórias que sua imaginação tecia olhando as estrelas da janela do quarto. A menina Ward, que, mais tarde, se transformaria na escritora Ann Radcliffe, construiu os primeiros enredos de suas histórias nos corredores sombrios da casa dos tios. Nos textos de suspense que anos depois seriam vendidos pelos livreiros além das terras bretãs, havia as passagens secretas que só os olhos atentos podiam perceber. À menina, de imaginação prodigiosa, sobre a ponte de Westminster, ou no enredo de um sonho ao dormir, foi dada a capacidade de pintar com as palavras, de jogar um facho de luz sobre calabouços e sótãos. De falar de poesia e cores escondidas nas passagens secretas de uma caixa de tinta.
Luisa Ataíde
À memória de Ann Ward Radcliffe ( 1764-1823)
NOTA: Ann Radcliffe, escritora inglesa, nasceu em Londres.
Primeiro Livro da escritora: em 1789 -. The Castles of Athlin and Dunbayne. O notável sucesso do livro definiu seu gosto por castelos medievais, heroínas acorrentadas, noites sombrias. Publicou dois anos depois - The Sicilian Romance e The Romance of the Forest. Suas obras mais marcantes seriam publicadas em 1794 e 1797, respectivamente: The Mysteries of Udolpho e The Italian. Ainda no século XVIII a escritora traçou seu estilo audacioso para a época. Ann traçava enredos paralelos, iniciava a narrativa pelo final , depois contava origem da trama, - tudo como é feito no cinema moderno. Daí ser considerada a percussora do realismo fantástico. Ann Radcliffe desaparece em 1823 do cenário literário entre brumas e mistérios tornando-se uma lenda eterna da literatura que retrata o que há de mais profundo na alma humana: o medo.
Fonte de pesquisa e Dados biográficos: - Obra póstuma da autora: Gaston de Blondeville na Corte de Henrique III v. 1 e o Livro : A vida de John Jebb. e Senhora de Udolpho
Luisa Ataíde
À memória de Ann Ward Radcliffe ( 1764-1823)
NOTA: Ann Radcliffe, escritora inglesa, nasceu em Londres.
Primeiro Livro da escritora: em 1789 -. The Castles of Athlin and Dunbayne. O notável sucesso do livro definiu seu gosto por castelos medievais, heroínas acorrentadas, noites sombrias. Publicou dois anos depois - The Sicilian Romance e The Romance of the Forest. Suas obras mais marcantes seriam publicadas em 1794 e 1797, respectivamente: The Mysteries of Udolpho e The Italian. Ainda no século XVIII a escritora traçou seu estilo audacioso para a época. Ann traçava enredos paralelos, iniciava a narrativa pelo final , depois contava origem da trama, - tudo como é feito no cinema moderno. Daí ser considerada a percussora do realismo fantástico. Ann Radcliffe desaparece em 1823 do cenário literário entre brumas e mistérios tornando-se uma lenda eterna da literatura que retrata o que há de mais profundo na alma humana: o medo.
Fonte de pesquisa e Dados biográficos: - Obra póstuma da autora: Gaston de Blondeville na Corte de Henrique III v. 1 e o Livro : A vida de John Jebb. e Senhora de Udolpho
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
ASHRAM
LUIZ MARTINS DA SILVA
Aos que me têm ungido na amizade
Haverá para nós um lugar, com beleza,
Onde há a luz com que dos dias nos tingimos.
Ora, são ondas, de inquietas marés de lençóis,
Ora é o próprio linho manso, estendido sobre a mesa.
Haverá de ser, para nós, recato, límpida fonte;
Propriamente, diria, não afeita ao tempo e ao chão,
Mas, sobretudo, incensário de vapores e címbalos,
Quando nos elevamos desde sinceras devoções.
Um lugar, limiar, divisa entre o pé e o horizonte;
Entre o que somos e o que ainda nem em semente;
Ânsia de vir a ser, pois não há futuro sem uma ponte;
Pois que a sejamos no deleite do que unimos para sempre
terça-feira, 16 de novembro de 2010
domingo, 14 de novembro de 2010
O ENTREGADOR DE LIVROS
“Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocamos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.”
Cora Coralina
Diz o filme “Peixe Grande” que um homem conta suas histórias tantas vezes que ele se mistura a elas , e las sobrevivem a ele, e é deste jeito que ele se torna imortal. Manuel de Jesus Lima é um Contador de Histórias. Discípulo de Cora Coralina redigiu o primeiro livro da escritora. As tardes da Casa da Ponte, feitas de café passado no coador e doces cristalizados, ficaram para sempre nas águas do Rio Vermelho; nas calçadas de pedras de Goiás Velho. No caminhão de mudança para Brasília, apenas boas lembranças da cumplicidade literária entre o rapaz Manoel e Dona Cora. A reportagem de capa do Correio Braziliense, de 14 de março, nos fala como um homem pode salvar o seu sonho. Autor do livro A Guerra de Juquinha e outras Guerras, cuja edição foi custeada com as economias ao longo dos anos, não conseguindo vendê-los tomou uma decisão extremada: colocou um anúncio nos classificados doando-os a quem os quisesse, bastando telefonar. Desde então seu telefone não parou mais de tocar. Regularmente, Seu Manoel pega sua camionete branca e faz as entregas dos livros. Bibliotecas, residências, escolas. Quem pede, lá vai ele dirigindo ao encontro de um provável leitor de sua obra desconhecida. Provavelmente seus dois mil exemplares ganharão definitivamente leitores donos, pois neste país diz o dito popular: de graça, até injeção na testa. Numa linguagem de Guimarães Rosa, onde os personagens se misturam como numa novela de Garcia Marques, estão as aventuras do menino herói do Sertão. O ato de generosidade do escritor é, antes de tudo, um protesto às editoras nacionais que se apropriam do maior percentual dos exemplares vendidos. Manoel, servidor aposentado do Tribunal de Justiça, nunca deixou o exercício da escrita e isso o diferencia dos outros senhores de cabeça branca que cruzam por ele nas trilhas da caminhada matinal. Cercado por uma legião de personagens imaginários troca com eles inesgotáveis diálogos. Para o mundo, caminha pelo parque um homem solitário, um homem de poucas palavras. Na verdade, um escritor nunca está só. Na verdade, um escritor tem a divindade nos dedos ao criar pessoas, escrever estórias e decidir destinos. Seu Manoel, o Jovem Senhor Contador de Histórias, já não é tão desconhecido assim. Por certo, salvou o sonho ao aproximar livros e leitores. Ele pede a todos que ganharem um exemplar que o leia, divulgue, empreste, doe para que outros leitores conheçam as aventuras inusitadas de um menino que nunca jogou vídeo-game. O livro está em sua segunda edição. Eu telefonei e ganhei um, e digo que tem tudo para ser um best-seller. Contato com o escritor? 8404-9,,,. Só para quem gosta de ler.
Luisa Ataíde
Da Antologia- Prêmio Literário Rachel de Queiróz 2008Fotografia: Casa da Cora Coralina, Goiás Velho.
sábado, 6 de novembro de 2010
LETRA PARA FADO
Luiz Martins da Silva
Ah! A conquista, final de caramelo!
É até de melhor grado aquela inquieta ânsia,
De quem há muito espera na incerteza e na inocência:
Quando a verdade sabe a Lua, mas bem se faz de tonta,
Se de fato alguém nos amará ou não.
Ah! A prontidão dos que logo dizem sim,
Entre pompas de sinfonia, metais e querubins...
Desconfia. Até do caimento do vestido,
Do exagero de um decote, bem partido:
Presságios de antevésperas, leituras de sinais.
Ah! Minha fortuna, minha musa, meu louvor!
Será que essa tua languidez envolta de perfume
Não é o que resume a próxima carta do tarô?
A torre, o diabo, o louco, o enforcado...
Depois da anestesia, quem vem não é a dor?
Todavia, que te apresses, a demora é uma esfinge.
Melhor o não sabido, se saber é desventura.
Destino de quem ama é só um lance a ser jogado.
Quem há de querer abrir cortina do futuro,
Se o fado se canta bem é de olhos bem fechados?
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Dia dos Vivos
De longe observo as palavras. Elas estão a poucos sentidos da mão, e ainda não me pertencem. Eu sei que a história toda está pronta e quase a alcanço. A marca d’água , para os que escrevem, é uma realidade sombreada de cotidiano . Lá, nossas mãos são feitas de vidro e a voz é distorcida em notas que sobem e descem infinitamente como uma melodia desafinada. O corpo se alonga como a imagem num jogo de espelhos, se retrai e se achata no instante seguinte. Lá não temos lembranças e marchamos obedientes às manhãs úmidas e brancas. Lembro-me de minha mãe e seu imenso amor pelos miseráveis do mundo. Lembro-me de todas as histórias de bruxas e princesas que contei nas distantes noites de infância , quando eu era o centro do círculo e minha voz soprava aos ouvidos atentos. Eu ainda não dominava o lápis mas tinha a propriedade da narrativa. A história, sinto muito, era minha. Sempre deixei mais tempo sob os refletores: a Bruxa. Se vivi no tempo da inquisição, fui arremessada a um precipício fundo e minha saia escura se inflou ao vento antes do baque surdo - tudo por que eu imaginava. Daquele tempo até chegar aqui assombrei Bibliotecas Publicas, nas madrugadas, quando os leitores e os guardas deixavam as salas vazias. Um dia , um Anjo-Traça disse: Vá lá fora, o temporal passou . Há um dia dedicado aos mortos e às bruxas. Ele contudo, esqueceu de falar sobre os dias em caixa fechada: os presentes- surpresa .Um brinde aos vivos e a todas as meninas que inventam histórias coloridas.
Viva o dia da Vida e das bruxas com alma de princesa
L.A
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
NA FLORESTA DO ALHEAMENTO
FERNANDO PESSOA
Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê...
Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. (...)
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
JANELA DE ÔNIBUS
LUIZ MARTINS DA SILVA
Nem chegava a ser aldeia,
Mas tão somente um enclave
De casinholas plantadas
Em meio a torrões de areia.
Linha limite de olhar rente,
Olhos de câmera a insistir
Em registrar em retinas
Aquela teima de gente.
E não é que havia festa,
Sons de imaginários caniços,
Música para ouvidos secos
Acordes de surda planície!
Que instinto lhes tangia?
Caprichos da natureza?
Colher encanto e beleza
Em canteiros de anestesia?
Que graça a vida em confins
Terá para tais serventia?
Devotos da solidão
Sequidão e castidade?
Pior a não mais se ver
Paisagem para cidade
E não é que fluía no ar
Mormaços de saciedade?
De toda aquela modorra
Ficou-me paz solidária
Dos escondidos afetos
De quem vive sem calendário.
Talvez a lhes ungir no deserto
Um fraternal sentimento
De que há sempre um feriado,
Matiz de aldeia sonolenta.
Lembranças em desconcerto
Persistem pretéritas afora
Enchendo-me de convencimento
De que posso ser feliz, mesmo agora.
sábado, 25 de setembro de 2010
UM CAMINHO SECRETO PARA MACHU PICCHU
São Tomé das Letras- MG é uma cidade cercada de lugares e histórias místicas. A Gruta do Carimbado é um desses lugares que dizem os antigos tratar-se de uma passagem subterrânea para se chegar a Machu Picchu ( PERU) usada pelo Incas numa era pré-colonização. Nunca foi possível, ou não há registro desta informação ser verdadeira pois as excursões arqueológicas feitas nunca retornaram. Até aonde há registro trata-se de um caminho escuro e de alta temperatura.Nota do Blog: Arqueólogos e pesquisadores afirmam a existência de uma conexão real e visível entre São Paulo e o Império Inca. A saber, a trilha conhecido como Peabiru ("caminho forrado" em guarani, por ser coberta de grama), construído não pelos incas, mas pelos nossos guaranis e carijós, para possibilitar a comunicação e a troca entre aldeias dos atuais Sul e Sudeste do Brasil à província incaica do Collasuyu (atualmente Bolívia e norte da Argentina), passando por Assunção do Paraguai.
leia mais em: http://spintravel.blogtv.uol.com.br/2007/12/20/gruta-do-carimbado-sao-thome-das-letrasmg-portal-para-machu-picchu
leia mais em: http://spintravel.blogtv.uol.com.br/2007/12/20/gruta-do-carimbado-sao-thome-das-letrasmg-portal-para-machu-picchu
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
FOTOGRAFIA
Ao riso , que já não ouvimos.
Ao lado da casa do riso, mora a lucidez
Uma velhinha torta, quase cega e surda.
Costura meias puídas, cirze saias desbotadas.
Ao lado da casa do sonho, mora uma moça triste
Lê histórias entrelaçadas de tempos que já se foram
Recostada na parede , sonha com terras distantes.
Ouve o ruído do rio
Imagina os peixes cinzas que deslizam
entre as pedras .
Na porta da casa da vida tem uma aranha grande
Tece fios sobre fios e
prende os pés da moça que olha a noite lá fora.
Da janela aberta , vê-se uma estrela
que , pleonasticamente, brilha como um brilhante.
Diz o livro sobre o colo que a Estrela não existe
é eco de outras vidas
e faz da moça triste
Uma moça que lê livros, encostada na parede
ao lado de um rio cinza
e de uma velhinha sem dente.
L.A
sábado, 18 de setembro de 2010
A Fábula do Porco-Espinho
Autor desconhecido
Durante a Era Glacial, muitos animais morriam por causa do frio.Os porcos-espinhos, percebendo a situação, resolveram se juntar em grupos. Assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente, mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente os que ofereciam mais calor. Por isso, decidiram se afastar uns dos outros e voltaram a morrer congelados.
Então precisavam fazer uma escolha: ou desapareceriam da Terra ou aceitavam os espinhos dos companheiros. Com sabedoria, decidiram voltar a ficar juntos. Aprenderam, assim, a conviver com as pequenas feridas que a relação com uma pessoa muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor do outro.
Dessa forma, puderam sobreviver…
Viver não consiste em respirar, mas em agir, e nada de grandioso se consegue sem uma forte vontade e uma grande parcela de amor, para podermos superar as nossas dificuldades e as nossas limitações.As vezes os espinhos que outras pessoas possuem nos incomodam, mas temos que tentar conviver com os nossos espinhos e os de outras pessoas que nos são caras.
Viver não consiste em respirar, mas em agir, e nada de grandioso se consegue sem uma forte vontade e uma grande parcela de amor, para podermos superar as nossas dificuldades e as nossas limitações.As vezes os espinhos que outras pessoas possuem nos incomodam, mas temos que tentar conviver com os nossos espinhos e os de outras pessoas que nos são caras.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
OS SINOS DA IGREJA ( CONTO)
" Eu tinha exaltado a minha imaginação de forma a realmente acreditar que em torno de toda a casa e do terreno flutuava uma atmosfera peculiar a ambos e à sua vizinhança imediata – uma atmosfera que não tinha afinidade com o ar do céu, mas que se havia evolado das árvores senis, das paredes cinzentas, do pântano silente – um vapor pestilento e místico, pesado, inerte, mal perceptível, cor de chumbo. .." A Queda da Casa de Usher, Edgard Allan Poe
As janelas vizinhas fecham-se bruscamente às noites de quarta-feira . O baque das portas e janelas de madeira é o único som no caminho da noite. Apenas cães passam em frente aos degraus da pequena escada que levam à porta da casa de arquitetura antiga. As luzes apagam-se pontualmente às nove horas e os moradores dos prédios vizinhos dão às costas e ampliam os sons de fritura nas cozinhas . É como um canto alto quando as luzes se apagam . O sobrevivente do escuro canta para espantar o medo - o mais alto que sua voz alcança. Assim fazem os moradores: ligam o noticiário da noite e fritam carnes e ovos. Falam do trivial do dia, do atraso do ônibus, do preço das frutas. Todas as atenções mais profundas estão nas luzes que se apagam às nove horas, mas todos os ruídos tentam ignorá-las.
O Pêndulo e o Calabouço
No interior da sala, apenas o dedilhar distante de um piano inunda o ambiente azulado. Homens e mulheres ouvem a música imersos no turbilhão de caminhos que abrem-se ao redor da mesa: o rio, o barco, uma estrada de terra. Cada um escolhe uma direção. A mulher , por sua vez, para diante de uma porta entreaberta . Olha a parte de cima para onde se ergue o portal extremamente alto e largo. Ouve os sinos mesclando-se ao som do piano . As notas pulam uma a uma como se partissem para dar lugar ao badalar dos sinos. Empurra a porta apoiando toda a força no pulso da mão direita. Adentra ao salão da Igreja. É um espaço amplo, quase oval com dezenas de bancos espalhados. O teto sobe arredondado afunilando-se ao que pode ser a entrada das torres. A catedral ! É a imagem que seu coração aos saltos reconhece. Está em Diamantina, na catedral de Santo Antônio. Conhece cada canto da igreja de sua infância. Não há santos no altar mor e vazios estão os altares menores que espalham-se nas paredes. Os muros que sustentam a igreja perdem -se na claridade que desce do centro da sala e inclina-se como uma espada de poeira e luz. Caminha em direção ao último banco e ao homem de terno escuro curvado sobre as pernas. Observa o traçado do terno, o laço que deveria ser a gravata, observa as botas.
_Senhor, posso ajudar?
O homem levanta o rosto e crava-lhe o olhar. Ela pensa por um instante conhecer a fisionomia: o formato das sobrancelhas, a testa acentuada, o cabelo. O Homem parece ouvir os sons finais dos pêndulos. Levanta os olhos ao teto e segura o queixo.
_ A Senhora sabe há quanto tempo vivo nestes bancos e ouço o barulho das asas, o som ensurdecedor dos sinos? Quanto? Por acaso tem ideia?
_ Provavelmente muito. Fala, observando a roupa do homem.
_ A Senhora sabe que se eles me encontrarem terei que correr para os muros de outra igreja? Eles odeiam igrejas, geralmente não entram.
_ Por que o Senhor não tenta conversar com eles?
_ Inútil, eles não querem conversa. Reclamam de mim, a Paz! !É possível compreender isso? Eles dizem que eu lhes tirei a paz. Alimentei o tormento de suas almas com o peso dos meus versos, de minhas palavras.
- O Senhor faz versos?
_ Eu achava que sim. Hoje não resta muito, o grande escritor se foi. Com o tempo passei a compreender os poços profundos que construí com minhas narrativas. Suicídios, adorações nocivas, leitores que se identificavam com meus enredos tecidos no liame da morte. Nunca leram uma palavra de alento, uma história que desse vida a um pensamento bom. Nada. Todas as madrugadas soprei o clarim , aliciando-os ao exército das trevas. Pisavam nos pés um dos outros, cortavam as próprias mãos , feriam a pele do próprio rosto. Os cânticos foram sempre gritos incessantes dilacerados pela febre. Marcharam voluntariamente para o desalento ao som funesto de meus versos. Em minhas aldeias escuras, edifiquei casas sobre o pântano do medo. A droga não é tragada, não é líquida ou gasosa , mas a perfeita invasão dos sentidos. Corre na pele e cava sulcos em direção às veias. Engana primeiro a visão, entorpece o olfato. A língua cresce dentro da boca e impede o grito. Os dentes sangram sempre, e um som ensurdecedor é criado de acordo com a agonia individual . Os olhos não encontram as saídas e resta-lhes o calabouço , as correntes, a prisão. Ouça ! É o grasnar das aves sobre as torres da igreja. Vestem-se com as asas dos pássaros, mas são eles, eu sei que são...
_ Há uma escada do seu lado direito, diz a mulher. Podemos chegar ao pátio da torre sem sermos visto, o ar puro vai te fazer bem.
O Homem aceita a mão estendida e caminha ao lado da mulher. Percorre o espaço que antecede a saída ao pequeno pátio . As aves estão enfileiradas do outro lado - petrificado exército de ébano. O homem olha a noite, os pêndulos do sino já não cantam, as paredes altas das torres são muros inertes. Olha o céu. A noite é clara e o tapete de pontos iluminados cobre-lhe a cabeça. A mulher segura-lhe a mão e ele ergue devagar os olhos à paisagem noturna. Por breve instante observa. Sente a brisa leve tecendo delicados riscos entre os fios dos cabelos. Sente o silêncio respeitoso das horas e a umidade que se estende sobre os telhados das casas beija-lhe timidamente os lábios. A cidade, seus sobrados e ladeiras dormem.
_ Veja, não há mais ninguém , todos se foram.
O homem olha o canteiro de casas espalhadas , o contorno das portas que na pouca claridade seus olhos esforçam receber.
_Não há nenhum motivo para o Senhor se esconder nos porões, nas igrejas... mais ninguém o procura.
_ Para onde foram?
_ Para suas vidas!
- Se voltarem?
- Se voltarem, dê-lhes toda a poesia que não conhecem. Fale da alegria e das canções. Que depois das noites escuras e tormentosas há muita lama para limpar e muito trabalho a fazer, Que suas asas podem lhes dar voos imprevisíveis, que é preciso viver e também sonhar. Que a boa sintonia mental é como música : é preciso ouvi-la e seguir. Diga-lhes que o perdão é necessário em nossas vidas como flores são necessárias aos jardins. Casas sem jardins são tristes e precisamos cuidar deles todos os dias. Somos todos , jardineiros do mundo. Dê-lhes boas palavras, bons livros, boas histórias.
_ Só isso será suficiente?
- Vai ajudar muito.
- Quando poderei fazer ?
_ Não sei exatamente quando, mas quando for possível, esteja pronto e não fuja do necessário. O que já foi feito é irremediável, mas todos eles cruzarão sua vida de novo e a maneira mais fácil de influenciá-los será através do que mais gosta : de sua imaginação. Ela estará presentes em livros , teatros, em músicas, e em outros caminhos que o Senhor ainda não conhece . No fundo serão histórias, suas histórias.
O Homem olhou em volta e não havia mais a mulher, o burburinho das aves. Apenas ele e a vastidão de pontos luminosos que circulavam o piso da torre da igreja e cintilavam ao seu redor como cristais iluminados. Estendeu as mãos e pegou um dos pontos e o colocou no bolso da camisa. A pequena luz escorregava como bolinhas de mercúrio. Continuou a brincadeira de persegui-las e não percebeu que elas trançavam riscos contínuos por sua silhueta até se confundirem em um formato único. Lá embaixo a cidade amanhecia com suas ladeiras e sua gente.
Luísa Ataíde
NOTA do Blog: - A estranha morte de Edgar Allan Poe
A Biografia De Edgard Allan Poe é repleta de mistérios, em especial a parte que refere-se ao seu desencarne. Encontrado inconsciente numa vala de rua, ficou hospitalizado por uma semana. Em seu delírio narrava a visita de um enigmático Sr. Reynolds, que teria vindo buscá-lo e cobrar-lhe todos os desatinos da vida desajustada. Segundo pesquisadores, Edgar Allan Poe passou as últimas horas de sua vida numa taberna e entrou em coma alcoólico , o referido visitante só foi visto por ele. Alguém o encontrou desacordado, e em suas roupas um endereço e foi assim possível comunicar à família o paradeiro daquele que era um dos maiores sucessos literários da época. A causa real de sua morte não foi esclarecida e teorias conspiradoras diversas foram escritas, filmadas e divulgadas pelo mundo.
Entre 2000 e 2001 foi resgatado em um centro espírita no Brasil o espírito de Edgar Allan Poe. Segundo a experiência narrada, o escritor após o desencarne no meados do século XIX permaneceu fugindo daqueles que ele passou a considerar os seus algozes - os seus próprios leitores. A legião de espíritos atormentados consideravam-se influenciados negativamente por seus contos de terror: levados ao vício, ao suicídio, à loucura. O espírito disse que um dos poucos lugares que ele conseguia paz era no interior das Catedrais. e por mais de um século vagou por diversas delas, por todo o mundo , até ser atendido por uma médium brasileira . Segundo o relato da médium que o socorreu, ele , como todos os outros escritores góticos, firmou compromisso de na próxima experiência carnal usar a criatividade para melhorar a sintonia espiritual do planeta. O texto acima foi baseado em tal relato.
Luísa Ataíde.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
NÓS
GEORGE CARLIN
Nós bebemos demais, fumamos demais, gastamos sem critérios, dirigimos rápido demais, ficamos acordados até muito mais tarde, acordamos muito cansados, lemos muito pouco, assistimos TV demais e rezamos raramente.
Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores.
Nós falamos demais, amamos raramente, odiamos freqüentemente.
Aprendemos a sobreviver, mas não a viver; adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos. Fomos e voltamos à Lua, mas temos dificuldade em cruzar a rua e encontrar um novo vizinho.
Conquistamos o espaço, mas não o nosso próprio.
Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores. Limpamos o ar,mas poluímos a alma; dominamos o átomo, mas não nosso preconceito; escrevemos mais, mas aprendemos menos; planejamos mais, mas realizamos menos.
Aprendemos a nos apressar e não, a esperar. Construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos menos. Estamos na era do 'fast-food' e da digestão lenta; do homem grande de caráter pequeno; lucros
acentuados e relações vazias.
Essa é a era de dois empregos, vários divórcios, casas chiques e lares despedaçados.Essa é a era das viagens rápidas, fraldas e moral descartáveis, das rapidinhas, dos cérebros ocos e das pílulas "mágicas". Um momento de muita coisa na vitrine e muito pouco na despensa. Uma era que leva essa carta a você, e uma era que te permite dividir essa reflexão ou simplesmente clicar 'delete'.
Lembre-se de passar tempo com as pessoas que ama, pois elas não estarão por aqui para sempre. Lembre-se dar um abraço carinhoso num amigo, pois não lhe custa um centavo sequer. Lembre-se de dizer "eu te amo" à sua companheira(o) e às pessoas que ama, mas, em primeiro lugar, ame... Ame muito.
Um beijo e um abraço curam a dor, quando vêm de lá de dentro. O segredo da vida não é ter tudo que você quer, mas AMAR tudo que você tem!
Por isso, valorize o que você tem e as pessoas que estão ao seu lado.
Gentilmente enviado por Edvirgens Gomes.
Gentilmente enviado por Edvirgens Gomes.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
DE TUDO O QUE É DE TODOS
Para os meus (mais mestres que alunos)
Por algum puro desígnio já vim nu ao mundo,
E cada uma das posses me foi dizendo não.
Mas fiz ao longo de uma vida vasto latifúndio,
Que foi expandir cada vez mais meu coração.
Não que não me desse conta bem do quanto
De ilusões em quimeras no caminho aparecendo,
Mas todas, com o tempo, foram se despindo,
Pois nada do que se é dono veste o ser humano.
Hoje, por não ter nada, de tudo tenho com fartura:
Posso ser dono, cidadão e servo ao mesmo tempo.
Livre contemplar como pássaro a linha do horizonte.
Voar foi meu destino. E, no delírio das alturas,
Ir aos confins, até onde chegam o Céu e o Oceano,
Registrar em meu nome toda a Terra em escritura.
terça-feira, 13 de julho de 2010
LUZ E SOMBRA
Carl Gustav Jung desenvolveu a expressão "sombra" para denominar tudo aquilo que somos mas ignoramos ser. Esse termo, em psicologia, significa que tudo o que o homem não quer ser ou ver em si mesmo permanece oculto no seu inconsciente. É o outro lado de nós mesmos o que se encontra no mais escuro de nossa alma" Do livro, A IMENSIDÃO DOS SENTIDOS, Francisco do Espirito Santo Neto, pelo Espírito Hamed- Editora Boa Nova
Se o Criador nos deu um anjo guardião , este anjo chama-se "Nós mesmos". Nossa própria consciência em exercício diário de vigiar e orar. Vigia o vento as pragas dos campos, o jardineiro as ervas daninhas. Oram as mães, ou quem ocupa este lugar, pelo sucesso dos filhos. Oram as estrelas iluminando os caminhos na terra. Temos de estar em estado de vigília mesmos quando os dias são fartos e anestesiados, porque nestes dias estarão ocultas as armadilhas. Nossas armadilhas chamam-se Saúde, Abundância, Vaidade e tantas outras que são doces da ilusão. Estamos aqui para sermos felizes e fazer os outros igualmente felizes. Há um segredo e um tesouro escondido no Amar ao próximo. Se o verbo Amar fosse sempre conjugado não haveria lugar para as guerras, a miséria material, as diferenças inúteis das etnias, a Violência nossa de todos os dias. Somos filhos da Criação Divina, simples filhos das mãos estendidas da misericórdia. As repetições de fatos de violência na mídia nos leva a refletir que somos frágeis quando anestesiados pela ilusão da vaidade, somos presas fáceis de nossas sombras. A grande Luz celestial paira sobre o planeta mas insistimos em nos esconder nos vales e sombras. Temos responsabilidade com todos ao nosso redor, uma responsabilidade que nos foi confiada. Na convivência com a Família, no cruzar das avenidas, ao abrirmos a janela para mais um dia.
L.A
sexta-feira, 2 de julho de 2010
SÓ O AMOR É REAL
" Não deixe que a depressão ou a ansiedade tolha o seu crescimento. Sentir-se deprimido é perder a perspectiva, esquecer e aceitar tudo como natural. Aperfeiçoe o seu enfoque. Restabeleça os seus valores. Lembre-se de que há coisas que não devem ser aceitas como inevitáveis. Mude a sua perspectiva e lembre-se do que é importante e do que importa menos. Saia da rotina. Lembre-se de ter esperança. Ficar ansioso é perder-se no Ego. É perder de vista as nossas fronteiras. Há uma vaga lembrança de perda de amor, de orgulho de ferido, de perda de paciência e de paz. Lembre-se : você nunca está sozinho. Nunca perca a coragem de assumir riscos. Você é imortal. Ninguém pode feri-lo"
Do Livro- SÓ O AMOR É REAL
Brian Weiss
domingo, 20 de junho de 2010
O ROUXINOL E A COTOVIA-Prêmio Delicatta IV - GRUPO EDITORIAL SCORTECCI , categoria conto- 1º lugar
Toda esta noite o rouxinol chorou
Gemeu, rezou, gritou perdidamente !
Alma de rouxinol, Alma da gente
Tu és,talvez , alguém que se finou !
Alma Perdida- Florbela Espanca
Noturno
Todas as noites, despido da farda do sono, nosso espírito sobe a escada que leva ao sótão em busca da caixa. Todas as noiteS procuramos incessantemente na caixa o velho álbum de fotografias. Uma vez aberto o livro, procuramos a chave que abre as outras portas. Na roleta de centenas de fechaduras e pilhas de chaves entrelaçadas, tentamos mais uma vez abrir a porta certa para um campo verde, um céu ensolarado: uma casa grande, povoada de risadas e cortinas brancas.
Salinas, sul do Espírito Santo, 1928.
Chamam-me Magnólia. Meu pai deu-me esse nome de flor porque amava o perfume delas. Pegava-me no colo e lá do alto eu ouvia seus lábios moverem-se.
- Minha florzinha cheirosa!
Se pudesse, eu escreveria tudo que vivo num diário e depois de findo o dia, voltaria ao passado , estendida sobre uma cama com lençóis branquinhos. Interromper o escovar dos cabelos e deixar as palavras se acomodarem sobre os travesseiros. Uma a uma, escolheria as letras e elas iriam florescer como um jardim. Isto se eu pudesse . Não fui à escola e no quarto não há camas. Estendem-se pelo chão esteiras secas e gastas. Algumas têm as pontas desfiadas e fazem cócegas no nariz. Enquanto todos dormem espero o sono que ronda o quintal lá fora. È noite escura e a coruja pia. Os sapos fazem coro e acendo a lamparina. Milhares de patas cruzam minha cabeça como um turbilhão de cavalos correndo em direção ao rio. Posso sentir o riscar das patas na terra em todos os sentidos. Curvo-me em direção à lamparina e com a parte fina do pente risco a cabeça dolorida. As feridas voltam a doer e dezenas de pontos negros descem em direção ao fogo. Estalam quando queimam e o cheiro inunda o quarto. Sonho com um cabelo limpo , cheio de ondas que descem até os ombros. As ondas brilham e cheiram à alfazema. Sonho com um quarto e uma cama macia, e nele só eu durmo. Sonho com minha mãe de volta e broa de milho novamente no café da manhã. Lembro-me do dia que ela desceu os três degraus da entrada da casa , arrastando uma mala grande, sem olhar pra trás. Espalhou os filhos na vizinhança e bateu a porta . Nunca deciframos Adelina e seus segredos.
Todas as moças dormem. Coçam incessantemente a cabeça durante o sono , mas nada as acorda. O trabalho na roça é árduo : doem-me os braços e os dedos dos pés. Por que estou lembrando, agora, do homem fardado que parou o cavalo na porta da casa? Rapaz alto , pele queimada pelo sol , um dente dourado do lado esquerdo. Todos os homens deveriam ter dentes de ouro e relógio no braço... Ele procurava alguém , tenho certeza. Olhou pra dentro da casa e pro bordado que eu tinha sobre as pernas. Faltam poucos meses para o casamento e muitos sacos a serem bordados. À noite, as costas doem e o trabalho não rende ; é melhor costurar antes do escurecer. Em Setembro , meu Amor retorna , estou certa, e direi adeus a todo o sofrimento. Digo em pensamento adeus a casa e a essa família que não pertenço. Oito moças dormem espalhadas pelo chão. Foram minhas irmãs quando a ausência materna levava-me para trás da casa, para chorar escondido. Dividimos a água da moringa e a tapioca esturricada sobre a mesa, o banco da carroça e as orações da missa. Aprendi a cantar e cerzir, a raspar mandioca e espremer a puba. Tudo o que aprendi, aprendi com elas. Cada uma traz um tesouro guardado. É o tesouro da virtude lhes diz a mãe. Os olhos das moças brilham como espelhados num poço fundo. À noite ? Elas desencantam e como estátuas tombam - dormem pesado sobre as esteiras nuas.
Salinas foi tragada pelo mar, 2008.
Numa das noites em que a única moça da casa não conseguia dormir porque os pés doíam, houve repentinamente um ruído forte entre a cerca e a porta. A janela foi arremessada para o fundo da parede e o homem entrou . A moça reconheceu o homem fardado e faltou-lhe voz para gritar. As irmãs dormiam e não se mexeram com o arremesso da janela. O homem com botas longas entra no quarto e sem pedir licença a arrasta para o escuro da noite. É o rapaz fardado, é ele. Tem os olhos graves e por breve instante seus olhares cruzam. Sente o corpo jogado para o alto e as mãos do homem a segura pela cintura.
A luminosidade é pouca e a moça tenta se soltar do nó que os braços lhe fazem em volta do corpo. O cavalo corre pela trilha ladeada de galhos e ela lembra-se dos sacos por bordar dentro do caixote sob a mesa. Sente a proximidade do homem e o abraço não é macio como o do noivo. O estremecimento do peito é medo. Na curva da ponte vê a casa afastando-se como um fantasma fincado no escuro. Os dias, a casa e a vida sonhada correm rápidos sobre o rio ao lado do cavalo. O animal pula as pedras e curva pro lado oposto ao rio. Sente a respiração forte do homem sobre os ombros. Sente uma saudade antecipada de tudo que a mão já não alcança.
Quando o noivo voltou a moça há meses não vivia na casa, e os padrinhos lamentaram a fuga e a falta de notícias. Souberam que foram para a Serra e passaram por lá duas semanas. Algum tempo depois houve o casamento na igrejinha antiga, aquela que fica depois da ponte e o rio.Deixou todos os sacos bordados no caixote do quarto e nunca veio buscá-los.
- Então ela não conhecia o soldado?
- Viu pela primeira vez, naquela manhã.
- Por que ele fez isso?
- Vingança. O tal Noivo dormiu com a mulher dele enquanto ele estava no exército.
- Mas ele casou com a moça!
- A intenção era levá-la pra longe e desmoralizar o noivo. Ele não se aproximou dela enquanto estavam na casa da serra. A moça disse ao soldado que não poderia voltar à cidade, duas semanas depois, como se nada tivesse acontecido.Disse ainda que o noivo não ia aceitá-la de volta, só restava-lhe casar com ele ou morreria de vergonha.
- O noivo sabia a razão de tudo?
- Sabia. Tanto que nem a procurou. No mesmo dia partiu pra cidade e não mais voltou. Teve medo do soldado.
- E como foi a vida dela? Preciso escrever o final da história.
Escreva que viveram de cidade em cidade, como se ele, o soldado, procurasse alguém. Tiveram muitos filhos e dormiam em quartos separados. A moça tornou-se , de vez, uma mulher da terra . Uma mulher de braços e coração forte: dessas com as unhas dos pés encravadas e tamanco de madeira sob o calcanhar rachado . Não mais sonhava com quartos claros e cama macia. Nunca aprendeu a ler, mas tinha uma sabedoria que não se aprende nos livros, floresce na alma como um jardim. A mãe voltou numa manhã de sol e ela abriu-lhe a porta e os braços. O noivo transformou -se em uma mancha que foi apagando-se antes do sono, como uma foto desbotada. Se a moça, ao dormir, subia ao sótão das lembranças e procurava a chave, nunca vamos saber. Se a moça corria pelos campos verdes e encontrava a casa iluminada e o seu amor lá dentro, também não saberemos. Morreu numa cama de hospital, cercada de tubos e lençóis brancos. Finalmente os lençóis.
L.A
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Nota da autora: Obrigada, Luíza Moreira , coordenadora do projeto e a Editora Scortecci, por acreditarem no meu trabalho e ajudarem a imortalizar um pouco da história de Magnólia Constância, minha avó, que ensinou-me a ver o mundo com compreensão e respeito.
Obs: a festa foi linda. Conheci pessoas interessantes , alegres e cheias de vida. Parabéns a todos os participantes!
Obs: a festa foi linda. Conheci pessoas interessantes , alegres e cheias de vida. Parabéns a todos os participantes!


PALAVRA FINAL DE LUÍZA MOREIRA:
SEGUE A LISTA DOS AUTORES QUE SE DESTACARAM NO PROJETO DELICATTA IV
1º LUGAR CONTO
LUISA ATAÍDE
"O ROUXINOL E A COTOVIA"
2º LUGAR CONTO
STEFANNI MARION
" ESQUINA"
3º LUGAR CONTO
LEIDE BORGES
" A VINGANÇA"
1º LUGAR CRÔNICA
ADALBERTO ANTÔNIO LIMA
"PERCALINA VERDE-DRUMMOND"
2º LUGAR CRÔNICA
REBECA XAVIER
"O SORRISO DA MOÇA"
3º LUGAR CRÔNICA
ANTONIO PEREIRA DE SANTANA
"GERAIS DE MINAS"
1º LUGAR SONETO
TULIO RODRIGUES
"MAIS FELIZES"
2º LUGAR SONETO
HILTON CORDEIRO
" LÚGUBRE SACRIFÍCIO"
3º LUGAR SONETO
FABIO DAFLON
"SONETO DA INFIDELIDADE"
1º LUGAR TROVA
FRANCISCO BORGES
" VEREDAS"
2º LUGAR TROVA
JANE ROSSI
" CLARA E GEMA"
3º TROVA
MATHEUS FANTELLI STELINI
" TROVAS TRISTES E ENGRAÇADAS"
1º LUGAR POEMA LIVRE
JF LISBOA
" A PAIXÃO EM DEZ PÉS"
2º LUGAR POEMA LIVRE
SOAROIR DE CAMPOS
" VERSOS VERDES FRITOS"
3º LUGAR POEMA LIVRE
HELENITA SCHERMA
" DESTINO"
DESTAQUE - PERSONALIDADE 2009
MARILENE TEUBNER
CONJUNTO DA OBRA
MARCELO ROQUE.
FOI UM FINAL DE SEMANA INESQUECÍVEL PRA MIM!
ESPERO TER A SUA PARTICIPAÇÃO NO PROJETO DELICATTA V, CUJAS INSCRIÇÕES JÁ ESTÃO ABERTAS COM LANÇAMENTO EM AGOSTO DE 2010 NA 21º BIENAL DO LIVRO DE SÃO PAULO!
BEIJO
LUIZA MOREIRA.
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