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segunda-feira, 30 de março de 2026

DO ARCO DA VELHA- CONTO





Hoje, lido um texto budista sobre a conexão com o Sagrado pela Compaixão, abro  inevitavelmente as janelas das lembranças que, como chuva fina, lavam os vitrais das memórias:


 Era um menino grande, ombros largos, maior que todos da nossa idade. A voz grave saía sempre descontrolada como os passos ligeiros e fortes no assoalho da sala. Eu sentava na segunda fila, atrás da cabeleira de cachos escuros, achava que o muro alto e largo era um bom esconderijo. Ele, às vezes, virava-se repentinamente e entregava sua mão fechada sobre a carteira de madeira e deixava ali o que parecia uma pedrinha enrolada em papel branco: uma pequena bala de pontas contorcidas.

Nascemos para obedecer e caber nas caixinhas que estão prontas para nos receber. Deodato não cabia em nenhuma delas. Tinha dificuldade em riscar as curvas das letras, com regras de alinhamentos e condutas. Quase sempre era retirado da sala por derrubar cadernos e livros e não controlar as palavras que trovejavam no silêncio da classe. Hoje sei que aquela escola não o merecia, não estava preparada para ele, que era muito maior que tudo. Um desafio à Pedagogia rudimentar de um grupo escolar das terras de Minas.

Não sei exatamente o que houve, só  lembro-me de vê-lo a caminho da Diretoria com as calças molhadas, arrastando a pasta que deixava lápis e papéis pelo corredor. Foi seu último dia de aula, passou a estudar em casa com a mãe.

Ah, a mãe. Ela representava para mim, um livro de fábulas, uma rainha que guardava com todas as chaves uma mina de baús cheios de diamantes. Talvez porque a apontassem como feiticeira e louca. Ela criava gatos, dezenas deles.  Gatos sem donos, tortos, caolhos, gatos de rua. Havia os gatos de olhos azuis e pelos marrons, arrasadores e lindos, que piscavam duplamente e pareciam sorrir. Eu tinha uma visão parcial, da janela do quarto, pois tinha o privilégio de ser vizinha deles. 

 Um dia, minha mãe  disse:

  - Vá à casa ao lado e deixe o bolo, mas não entre. Volte da porta. 

Esta era uma missão que eu não saberia nomear. Calcei os chinelos e corri até lá. Ninguém nunca entrava na casa, eles não recebiam visitas. As pessoas no máximo deixavam a caixa com os gatos na porta, nada mais. Não entreguei o bolo. Assim que a criada abriu a porta, entrei apressadamente. Passei pela sala, atravessei a cozinha e cheguei ao quintal. Os gatos estavam lá espalhados na grama. Preguiçosos e gordos: brancos, pardos, negros, majestosos. Veio-me um sentimento de indagação: Por que o mundo jogava fora aqueles seres felinos, macios e tão belos ? Eram de uma mansidão ímpar, como um cobertor de veludo em noite de inverno. 
A mulher baixinha e gorda olhava espantada a invasão. Estendeu-me um gato pequeno, cinza e trêmulo, que parecia fugido da guerra. Acomodei-o na roda da saia e olhei aquele reino em volta. Era o mito da caverna desvendado mais uma vez. Não havia a velha bruxa dos gatos de rua e seu filho doido. Não havia o cheiro podre de fezes, pulgas e vírus no ar. Apenas uma casa grande e antiga, um quintal enorme, um leve soprar das folhas no jardim e um cheiro adocicado de ternura e compaixão. O menino estava lá, lia um livro aberto sobre a mesa.  Veio até mim e pousou sua mão sobre a minha. Recebi de sua mão úmida o pequeno papel retorcido de bala.  Estivera guardado todo o tempo.

Passamos a manter uma convivência clandestina. Quando a guardiã dos gatos abria o arco duplo dos portões da entrada da casa, abria sem saber o caminho do paraíso. Era um oásis de fontes cristalinas na aridez dos meus oito anos. Aprendi pela compaixão um Amor que não sabia existir. Aprendi que os gatos amam incondicionalmente e como dizem isso com os olhos, com o rabo, com a curva das costas. Que ligam um pequeno motor quando tocam-nos o rosto, e jogam-se aos nossos pés sem reservas, barriga pra cima, nos dizendo: - Eu confio.

 Aprendi a confiar no amor com aqueles gatos. Aprendi que nem tudo em que as pessoas acreditam é real e que a verdade é uma caixa que tem que ser aberta. As histórias ouvidas nas tardes, com sequilhos e suco de tangerina, transferiram para mim parte do tesouro daquela família.

 Um dia, a vida mudou-nos para outra cidade e não houve despedidas. Soube que a mulher continuou a cuidar dos gatos da cidade, mas, para todos, era a Velha dos gatos e seu filho doido: os estranhos que moravam depois da ponte do rio.  Aprendi que há sempre um ser abandonado nas ruas que tem sede e mais fome do que imaginamos. Nós não imaginamos a dor dos cães e gatos perdidos, e como seus corações batem descompassados de susto e medo no escuro da noite. Na verdade, não temos tempo para pensar nisso. Só seguimos ordinariamente em frente.

Luisa Ataíde




quinta-feira, 19 de março de 2026

LIBERDADE CONDICIONAL- CONTO

Tente acompanhar agora o ruído do relógio. Não há como evitar que os ponteiros caminhem. Mas vem o dia que a gente se descobre nu.Mas há os antes. E foram estes:


Era o primeiro dia de aula. Além da festa que era calçar sapatos e meias, estava de laços nos cabelos e vestido novo. Não fosse a enorme pasta que carregva, ninguém perceberia que ia à escola- o uniforme não fora ainda comprado.

 

Devia ser um dia predestinado a surpresas. Numa intimadade fraterna apresentaram-lhe objetos novos. Prestes a uma nova convivência, não lhe preparam para isto: Tinha um nome estranho. Sempre atendera a menor junção das sílabas Li e La. Mas, súbito, como se tivesse sido pega em falta grave se foi apresentada. O nome seguia-se de outros, mas o primeiro a inomodava como se quisessem lhe convencer que um cão miava. Cães e gatos são diferentes, pensou. Marília devia ser um nome para ser usado fora de casa, assim como sapatos e meias.

 

O que completava a desordem do dia, era caminhar sem ninguém da família por perto, e assim aproveitava passo a passo o caminho de volta. Colocando na calçada a pasta para abrir o portão, percebeu duas amigas brincando de Amarelinha.

 

A maior parou com um dos pés no céu, admirada de ver a menina tão grande e linda, empinada como se não existisse o peso da pasta. A menina esqueceu do seu tamanho e beleza e sentou-se no chão. Falava sem pausas: dos livros, dos quadros, das salas,até... não do nome não. Era por enquanto um segredo seu.

 

As duas ouviam, sem interromper, até porque não havia espaço. Aí veio. A mãe chegou-se a janela e gritou:

 

- Lila! Vem já tirar esse vestido e lavar os copos!

 

Escureceu. Foi como se todos os príncipes perfilasem em sapos. Levantou-se rápido e entrou.

 

Numa obediência de sentenciados, tirou o vestido e os sapato, até os laços dos cabelos desmanchou em silêncio. Colocando o avental, não importou-se que estivessem sujos todos os copos da casa. Uma coisa era inevitável: No dia seguinte haveria aula.

 

Luisa Ataide


(Dedicado à Marília Campos) 

sábado, 7 de março de 2026

A ARCA DE NOÉ

 


''Lá vai São Francisco pelo caminho

De pés descalços tão pobrezinho

Dormindo a noite junto ao Moinho

Bebendo a água do Ribeirinho...''

                                   Vinicius de Morais



Às cinco horas da tarde, quando o vento tomba os lençois do varal e varre as folhas da rua, qualquer pedido feito com uma caixa estendida, nos faz olhar o pequeno grupo de meninos como um santo olha os fiés do altar- com respeito e comiseração. 

- Só hoje mãe, amanhã a gente arranja um outro lugar pra ele. Tá chovendo e ele esta morando embaixo da árvore.

- O que é isso? um rato?

- Não mãe, é um gatinho.

Lá estava eu concordando com vinte quatro horas de hospedagem. É claro que o gato cresceu e fez parte da família, assim como o pinto de cor lilás comprado na feira.

- Achei tão bonito e o menino se encantou com ele. Tinha de todas as cores, você precisava ver!

Pelos dias dos Pais e pelo encantamento do menino, o pinto que dias depois era um pequeno ser cor de rosa andando pela casa, por algum tempo fez parte da família. Temi pela segurança dele. Seguia qualquer um piando sem parar, como se perguntasse se sabíamos aonde era o planeta de seres de penugens coloridas como ele. Nunca obteve a resposta. Uma semana depois ao chegar do trabalho, vi o cortejo fúnebre em direção ao fim da rua. Uma caixa com flores e meia dúzia de meninos cabisbaixos dizia adeus a uma pequena ave, esmagada pelos pés do filho do meio. 

-Esse moleque é desastrado mãe, amassou o pinto! o acusado deu-me um olhar de socorro, não tive culpa.

Alguns dias depois caiu na área de serviço, o pássaro azul e branco. Cauda longa, asa quebrada.

- Mãe, a gente pode ficar com ele?

-Não, passarinho tem que viver livre.

-Ah... mãe mas só até ele sarar.

-Está bem, mas tem de ficar solto. As paredes do fundo são altas, ele não dá conta de ir embora mesmo.

O lindo pássaro azul, que por mais que eles buscassem nos livros não descobriram a família viveu por três semanas na área de serviço. O canto matinal entrava pelos quartos e como se vivêssemos no Campo recebíamos os dias. La fora uma floresta imensa está me esperando, era o que eu pensava enquanto calçava os chinelos para ir à cozinha.

Numa manhã estranhei o silêncio do hóspede alado. A área de serviço estava vazia, ele de novo era uma ave forte. Voara pro mundo, sem adeus, sem bilhete de despedida.

Quando a vida corria em seu leito de normalidade, chegou Roger- o coelho branco. Aquela coisinha macia dormia no meu braço, como um anjinho que caiu do céu. Havia suspiros pela casa, tão encantados estávamos com o ser angelical. Passou o tempo e o coelho cresceu, assim como alguma coisa libidinosa dentro dele. Ele conhecia cheiro de mulher, com um olfato de lobo caçando lebre. Alvoroçava-se e dava pinotes. Se fosse um daqueles dias de ciclo feminino, o coelho enloquecia. Eu só podia cuidar dele de calças compridas. Tudo bem, mas o que fazer com as visitas? Alguns minutos depois que uma amiga chegava, lá estava o coelho exibindo o sexo rosado. Engraçado para as mais chegadas, constrangedor para as visitas formais. Era ainda, péssimo exemplo para os meninos que viviam tentando explicar ao coelho que aquele era um comportamento impróprio diante das damas. Inútil. Um dia doamos o coelho ao vizinho.

 Antes do cachorro, para ajudar na cura de uma depressão extremada do menino mais novo que acabara de chegar aos doze anos, morou lá em casa um papagaio. Achei muito esquisito o pedido, mas o que não fazemos para ajudar os filhos?  Uma doença emocional tira-nos do eixo, fragiliza a vontade.

- Está bem, mas vocês lembram que não gosto de aves presas?

E acredite, tivemos um papagaio voando pela cozinha. As janelas viviam fechadas e os rasantes sobre a panela de água quente eram frequentes. Um dia pensei: isto é surreal é melhor que tenhamos um cachorro.

O gato? Quando adulto fugia para o telhado para namorar e de lá para a boemia noturna. Voltava sempre machucado. Morreu na UTI de uma virose antifelina. Foi um chororô sem fim, jurei nunca mais ter bichos.

Finalmente entre nós um cão. Uma cocker que roeu doze pares de sapatos, quatro controles remotos, o sofá novo e mais uma lista interminável de objetos. Alguém mencionou ser saudável que ela tiesse filhotes e lá estavam cinco filhotes correndo pela casa arrastando as meias do cesto. 

Aos poucos, as histórias dos bichos se tornam risos e logo serão lendas de um tempo que nunca mais viveremos. Sim, todos os bichos merecem o céu. Tem algo mais angustiante que miado de gato no meio da noite? Ele tem fome- penso.  Ele se perdeu da mãe Chego à janela e tento ouvir o lamento. Um dia, quando eu me for, encontrarei São Francisco andando pela noite com um pires de leite atrás de um gato faminto. Francisco irá sorrir e dizer que todas as aves, coelhos, cães  e felinos, são simples instrumentos de nossa paz.

L. A.

obs- Hoje não temos mais a cock spaniel, nem coelhos e nenhuma ave. Moram na casa uma ninhada grande de gatas. Quantas? melhor não dizer.

quinta-feira, 5 de março de 2026

ENTRE ASPAS



''... O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão.

 O Verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. 

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. 

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

 Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera...''


Marta Medeiros