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segunda-feira, 13 de abril de 2026

PONTE SOBRE ALMODOVAR- CONTO

 





                                          Às vezes, vejo as fotografias impressas na parede da sala, foto em preto e branco, sem foco, feito neblina de inverno


Apertou com força o botão do elevador.  Segundo  andar? Optou mais que depressa pela escada. Quinze minutos apenas a separavam do retorno ao carro. Localizar o CD, baixar Download, um chuveiro rápido, pegar as anotações, desligar o computador. Chegou ofegante ao último degrau. Passos rápidos à porta, rodou a maçaneta e esticou os dedos ao interruptor. Não fez-se luz.

 No centro da Rosa dos Ventos, em ásana sobre a montanha , equilibrava-se em uma das pernas a ave Arqueopterix. As asas estendidas ensaiavam lentamente o movimento. Do bico escorria um líquido escuro e os olhos cor de guaraná tentavam trazê-la ao imã da partida. A mulher fechou vagarosamente a porta atrás de si. O coração reiniciou o cansaço da subida. Olhou as vidraças abertas, as folhas como casca de árvores espalhando-se pela casa.

Sob a asa esquerda estava o menino. Cabelos cacheados quase ruivos, o sono dos justos. Sob a outra asa, outros dois brincavam no ninho de penas coloridas. Sobre o dorso dinossáurico a mãe curvava-se sobre um livro. Imersa na tarefa, nada via. Tentou buscar os olhos dela num contato quase telepático. Um simples olhar poderia salvá-los. Por breve instante ela levantou do colo o livro. Absorveu-se mais ainda no texto e não olhou ao redor.

A ave sustentava o olhar enigmático. Limpou o bico no chão da sala duas vezes. Retomou a altivez da partida. Pensou em gritar à mulher que agora lia :

_ Você, por favor, pegue os meninos e desça!

A mulher sorriu calmamente:

_ O vento? Não se preocupe, é pouco.

Deu alguns passos até as portas de vidro que conduziam à varanda, na tentativa de fechá-las.

A imensa ave lançou o grasno rouco na direção do teto e balançou, agora com força, as asas. Curvou o corpo para esquerda e arremessou-se em direção à tarde que sangrava luz. O barulho dos vidros estilhaçando-se no chão da sala estremeceu-lhe os tímpanos. A mulher sobre o dorso do animal, dobrou a página do livro.

Sobre a rosa dos ventos apenas o vermelho óxido das folhas e vidros como diamantes finos. Da parede nasciam lentamente as vibrações da música. As notas ásperas, o avesso da harmonia.
Iniciou-se A Grande Fuga - Ludwig Van Beethoven.
L.A

sexta-feira, 3 de abril de 2026

NO CORAÇÃO DE BODHISATTVA GUAN-YIN- CONTO

 

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'Se   buscas a saúde física e psíquica de forma integral, aprendes a amar. ''( Irmã Sheila)
        


          Possivelmente, a mehor fotografia de nossa fragilidade estampa-se nas imagens dos telhados sob luz noturna: folhas secas e pequenos corpos de aves mortas. Nos prédios altos, os outdoors e parabólicas assemelham-se a Samurais petrificados cujas lanças avançam em direção à escuridão do céu. Assustadoramente inerte não protegem as almas que deixam sob os lençóis os corpos adormecidos e voltam às terras outrora habitadas. Contudo, paira sobre o planeta a vigilia dos espíritos abnegados que deixam cair sofre os aflitos as pétalas da misericórdia. 
          Lembro-me da aparente normalidade daquela manhã de Fevereiro antes do grande dilúvio. Quando as primeiras ondas invadiram a sala, discutíamos na mesa da cozinha, se as aulas começariam naquela segunda-feira pós carnaval.
         
             -Acho que não tem aula não mãe, deve começar segunda-feira.

          Cruzamos a porta em direção ao elevador e não sentimos os pés já cobertos pela água. Lá fora o trânsito apresentva-se calmo para um dia de semana. Não havia nenhum engarrafamento no trajeto ao colégio e agradeci mentalmente aos céus por não começar o dia com buzinas e freadas bruscas. Quando cruzamos o grande portão da entrada da escola e a moça nos estendeu o ticket do estacionamento, considerei que estávamos adiantados para a primeira aula. Talvez um equívoco do relógio nos utimos dias de horário de verão. A estranheza da moça ao adolescente uniformizado no banco ao meu lado foi completada pela comunicação que as aulas só começariam na semana seguinte. Fiz o retorno com o carro e observei o olhar cristalizado de Yuzo. Não houve a partir daí nenhum comentário o meu monólogo sobre a nova escola e a responsabilidade que isto significava. O menino estava a anos-luz de distância das linhas que corriam o asfalto embora observasse, em silêncio, o traço alongando-se no chão.
         A grande tempestade que subitamente arrastou o telhado e destruiu parte da casa, só foi percebida algumas semanas depois. O menino já não se dedicava aos livros e as explicações vinham monossilábicas e ásperas.  Yuzo não se via parte da realidade cotidiana de estudar, alimentar-se rir por motivos simples. Preso na grande sala escura, nutria-se da teia de melancoia que tecia ao seu redor. 
         
          Do lado de fora estavam a Família, a Escola, o Vento no cabelo. Eu via nitidamente a água avançar em direção aos ombros. Em alguns momentos os olhos pediam socorro, o que demonstrava que bucava uma saída. De onde estávamos seguíamos os procedimentos básicos de salvamento: Remédios, terapia e Fé.
          
         As extensas horas de sono compunham a realidade vegetativa dos seus dezesseiss anos. Havia vozes dentro dele, elas gritavam ordens de desilusão e morte. Não havia domínio sobre os pensamentos. A mente inqueta e febril ordenava-lhe que pulasse em direção ao abismo. As vozes ecoavam em sua cabeça e ele acreditava no que ouvia. É real, dizia.
         - Não é real, sao apenas pensamentos que você não consegue dominar, é sua voz interior que adoeceu. Só
          
         Os meses seguintes nos deram de presente uma ausência que parecia definitiva. Não conseguia imaginá-lo voltando ruidoso e alegre, depositando o skate na entrada da porta. Não conseguiaa ver, da varanda, o cabelo escuro balançando ao vento e a queda seguida de risada sonora. Esses movimentos pertenciam aos outros meninos da vizinhança. Os veículos escolares paravam, pela manhã, na entrada do prédio. Somavam-se mais mochilas amontoadas no assoalho do carro. Eram os outros, sempre os outros.
          
         O primeiro diagnóstico que recebemos era uma palavra feminina e grande- interminavelmente grande. Eu não ousava repeti-la. Na aridez que o destino sinalizava, percebi um pequeno galho verde que nascia entre as pedras. Os questionamentos incessantes sobre a vida, a alma, a razão porque sofremos, que só deveriam apresentar-se lentamente nos anos seguinte, estavam diante dele, e exigiam resposta. Eu não sabia em que parte do deserto estava o copo de água necessário, então propuz uma busca juntos. Lemos tudo que nos foi possível chegar às mãos. Yoga, Filosofia, Literatura. Líamos e meditávamos o Evangelho do Cristo. Um dia ele me comunicou que decobrira a razão de todos os martírios.
         
          -Eu fiz mal a muita gente. Muitas pessoas sofreram por minha causa.
          Dei-lhe por reposta o silêncio. Não podia confudi-lo com minhas convicções sobre as multiplicidades das existências e que nossas almas trazem a marca indelével de nossos atos. Ali, havia apens um adolescente em lágrimas. Aquele era o seu momento de constatação e mudança. 
          
          Quase dois anos depois daquela manhã de fevereiro que seus olhos cristalizaram-se nas linhas do asfalto e ele se desconectou de sua juventude, Yuzo sorri com serenidade. Não existia mais o adolescente de riso alto e pressa, Pais, irmãos e amigos sinceros uniram-se em respeito e colaboração, ele subiu do subterrâneo que afundara. Com suas próprias mãos voltou à luz do sol.
         
         Hoje, Yuzo cultiva a harmonia do bem, o respeito ao corpo e a natureza. Adotou um alimentação saudável, corre todas as tardes no parque e não precisa de antidepressivos. Voltou aos estudos e quer ser Veterinário. Considera-se adepto aos ensinamentos do Mestre Jesus sem nenhuma denominação religiosa. Ainda faz muitas indagações e não dispensou a Terapia. O caminho pleno, sabe, ainda não foi conquistado. Canta e ri como qulalquer rapaz de sua idade. Não, canta todos o dias. Matriculou-se numa escola de canto. 

L.A





Nota- Texto escrito em 2010 em torno do susto do diagnóstico da Esquizofrenia dois anos antes. Certezas?  Que aprendemos todos os dias. ( hoje em dia quase nunca canta)

PAISAGEM DE RIO










Constância lavou a casa e todas as roupas que nela existia. As aves retornavam às árvores em respeitoso  silêncio  à fala do rio. Esticou   sobre a mesa a tela feita de resina e fibra. 

A moça olhou da janela:   sobre as águas descia um chinelo de criança. Desceu os dedos no pouco   trigo que restava na lata e o espalhou sobre a tela branca. Recolheu da   gaveta os pincéis  e tocou com os dedos  a tinta  sobre o pires . Constância acreditou no que dizia o ruído de fora.  


O rio aos poucos   não dava mais medo. O tigre, agora mergulhado em  gato manso, se   preparava para dormir em cinzas. O tigre mergulhou de vez em águas.

L.A

quinta-feira, 2 de abril de 2026

RECEITA DE BOLO- CONTO

 





O     que nos   resta agora, atravessadas todas as manhãs de nossa infância, com certeza   é o orgulho de termos pertencido àquela família. Afinal, ele era o único   médico a quilômetros dali e éramos seus. Nas manhãs de domingo   enfileirávamos em direção à igreja, a pé, em jejum, obedientes e limpos.   Sempre.

Nós o   seguíamos a curta distância, minha mãe em solidariedade aos meus passos   curtos dava-me a mão. À frente ia um homem que buscava o sentido da   vida, não era de grande estatura, os olhos claros escondiam-se sob as   lentes grossas. Anos mais tarde, na escola, descobri muitos meninos com   o seu nome. Ele explicava, às refeições, que as mães admiravam a   sonoridade do nome. O Dr. Bernardo Benson era um ideal de futuro.   Acreditava na verdade acima de tudo e no respeito aos homens. Os   habitantes do Vale do Rio Verde confiavam-lhe o corpo e às vezes a alma.   Algumas consultas eram dadas nos degraus da escadaria da Igreja, sob   chapéus e sombrinhas. Era comum sermos acordados de madrugadas, sob as   estrelas ou chuva. O sobrado amarelo entre a Rua do Mercado e a Casa de   Pães era de quase uso público. A casa do Dr. Benson passou com o tempo a   ser chamada a Casa do Bem.

Foi quando   naquela manhã ele nos trouxe o Jipe. Parou ali na entrada da casa e a   desordem do dia estava formada. Dali em diante, disputávamos quem de nós   acompanharia o médico nas visitas domiciliares. O vento no nariz, no   subir e descer das ruas de ladeira, era nossa secreta alegria.

Até que choveu   na linda claridade do Vale. Passou a ser rotina o Jipe, tal qual menina   birrenta, cruzar os braços na subida da matriz.

− Não vou! não   vou! não vou! - engasgava. Bem ali? Nós que adorávamos ser apontados   chegando juntos à missa. As birras continuaram: Na porta da escola, nas   fazendas distantes, nas claras manhãs de sol e ainda: era inútil   acordá-lo em madrugadas de chuva.

Voltamos a   fazer a pé o trajeto à Igreja. Eu olhava para trás, na garagem, achava   grande e injusto seu orgulho pagão, mas não conseguia odiar quem me dera   tanto prazer. Até que meu pai nos comunicou solenemente que iria   vendê-lo.

Vieram os   interessados.

Eu cruzava a   sala em direção à cozinha. Lá perto da janela estava o padeiro. Ele   falava e sorria ao mesmo tempo, dizia não ter medo de nada. Foi quando   ouvi:

− Não se   preocupe, esse Jipe é espetacular! Nunca apresentou problema de motor,   nunca me deixou na mão, máquina como esta o senhor não encontra por aí.    

Criou-se ali   uma linha turva entre o padeiro, o médico e eu. Eu que ainda tinha   fresco sob a língua o gosto das doses diárias de respeito, solidariedade   e honestidade.

−     Pai, como   você pode dizer isso?

Não sei se era   ainda o meu grito ou de minha mãe:

− Paula   Benson, vá já prá cozinha!

Vieram os   cascudos, muitos. Muito mais dolorido foi entender a razão deles. Meu   nome nunca soara tão grave e feio, tão árido. É bem verdade que eu   deveria me chamar Magna Suene, por sugestão de uma tia, mas graças ao   atraso do correio o nome só pôde ser dado à boneca que acompanhara a   carta. Acho que até ele soaria mais brando naquele momento.

Minha mãe era   uma mulher simpática, destas que não se esforçam em ser, pois o sorriso   se abre sincero sobre o rosto limpo. Fazia doces e ensinava o ofício de   construí-los na varanda da casa. No arrastar das tardes eu assistia as   aulas só para ouvir suas explicações pausadas e observar como prendia os   dedos na ponta do avental sobre a saia cumprida. Dizia sempre:

− Aqui estão   todos os ingredientes. O segredo é misturá-los bem e na ordem certa.

Aos poucos fui   assimilando a sabedoria materna. Os ingredientes enfileirados sobre a   mesa, tal qual receita de bolo, misturar na ordem e na quantidade certa,   sem ir além do sal e do mel. Às vezes rápido, por outras sem pressa.    

Do livro Os Anjos de Prata (Antologia   de contos e crónicas) - ALL PRINT Editora, 2007, São Paulo, Brasil,   pp. 63-64.
    
Luisa  Ataíde
    


AS INCERTEZAS DA COR- CONTO


 

                         Não procure entender, viver ultrapassa quaquer entendimento"

                                                                                          Clarice Lispector

TOC TOC- Eis que subitamente alguem bate à porta. 


          As pessoas, ao tempo de nossos avós, passavam pelo mundo com carimbo de ''sistemáticas'' quando tinham manias peculiares Os comportamentos repetitivos como apoiar-se no pé direito antes de sentar-se, lavar infinitamente as mãos depois de tocar em certos objetos, provocavam um começo de risos,  e se não causavam grandes transtornos eram apenas adjetivos que ornamentavam a personalidade de quem os possuia. O problema é quando o copo transborda. Não há como lembrar em que dia o rio atingiu  a ponte. No momento seguinte estamos diante de um estranho que insiste em perseguir formigas imaginárias, e em bater constantemente a   faca na pia da cozinha. 

          Dizem os tratados de Psiquiatria que os sinais silenciosos da compulsão convivem com a família durante muito tempo, até que todos os olhares voltam-se ao memo tempo para um único ponto: e os dias... os dias seguintes não serão jamais os mesmos.


AS VIAGENS DE GULLIVER
                                    
Maria Alma mora na casa de telhado vermelho no final da rua que terminna sob a sombra das árvores. Enquanto o bairro arde sob um sol abrasador, as tardes amenas contornam o jardim e a pequena fonte desce sulcos sobre o estreito caminho de pedras. A mulher dobra as toalhas da cômoda e observa o menino, deitado sobre as folhas de papel, e risca montes, rios, cidades. Vai à cozinha e tráz um copo de água e  o coloca no chão, ao lado da mão esquerda, sempre fechada. Tem saudades do outro menino, que sumiu sem despedida.  Imergiu pra sempre no labirinto profundo do sono. Ela viu os braços deles crescerem como galhos de árvores e os ombros curvarem-se quando a cabeça ameaçou atingir o teto. A mobília foi pisoteada pelos pés grandes, ávidos pela saída da porta. Antes de partir, o estranho apoiou as mãos na entrada e olhou como quem olha a profundeza de um poço seco e turvo. Maria Alma sentiu sobrar rente ao rosto o bafo morno de um futuro implacável, injusto como o muro negro da morte. Foi lá fora, procurou em todas as direções. As esquinas desabitadas murmurvam apenas o ruído de seus próprios sapatos. Um dia ele volta, pensou.

    
 TETO DE LÍTIO
                              Às vezes, e quase sempre, olhamos o quintal da casa ao lado e ouvimos o som harmonioso e irritante de um coro de anjos. A fotografia de uma família vestida de branco, ganha movimento em direção a uma mesa florida, meticulosamente arrumada . Olhamos o lado de cá: O quarto revirado, a bandeja de café com os comprimidos ao lado da xícara de leite. Se todos os frascos vazios , tomados ao longo dos anos fossem colocados numa caixa, ora isso daria para...
                  - Pode levar, não vou tomar mais remédio.
               - Você precisa. Você toma isso desde os onze anos, não pode parar de repente.
                   - Não vou tomar mais, já disse.
                   - Você vai ficr nervoso e ter novos sintomaas de TOC.
                    - Sai daqui com isso!
                     - Você está gritando!  
                     - Você que está gritando!
          Ouve o arremesso da porta estremecer as paredes. Depois de tanto tempo, trine de volta o sibilar da serpente que baba veneno na pia da cozinha. Ouve o barullho do recolher das asas das corujas que voltam a dormir no teto. Com o passar dos anos aprendeu que o outro menino não vai voltar.  Que o estranho que revirava as gavetas e batia com frenesi a cabeça na parede, engoliu o menino de uma única vez. Aprendeu que quando amanhece, ele volta à estatura normal, abre os braços e pede perdão ao mundo.
          Aqui dentro , um rapaz amenta o som ensurdecedor de uma música áspera que ela não decifra. Canta um rosnado rouco e longo e grita versos e rodopia pela casa. Arremessou os medicamentos pela janela e diz ouvir a voz dos anjos e visitar o demônio em dias ímpares. 
          Lá fora é possível, pela fresta, ver apenas a ponta do sapato masculino, as malas e muitas caixa, o que denuncia que veio para ficar. Maria Alma suspira fundo, Agora, depois de tanto tempo, tudo que conseguiu entender ameaça perder forma e cor. O silêncio confunde-se com o som estridente das cigarras. Sente o assoalho deslizando devagar e não tenta se agarrar em nada. Não sabe dizer as horas e o dia da semana. Não sabe dizer de que cor Deus tingiu o céu.

Luísa Ataíde


quarta-feira, 1 de abril de 2026

CARVÃO EM FUNDO BRANCO- CONTO



Estou procurando a cor, aonde ela não vai.


Nós, cumpre esclarecer, éramos algumas dezenas de meninos e meninas, filhos de carvoeiros, aos quais letras e números não haviam sido apresentados. Dividíamos os meses entre os secos e os que exageradamente nos mantinham em casa. O mundo entre o quintal e o outro lado do rio. Quando percebemos os movimentos de tijolos e madeiras, pressentimos que o que fosse ali erguido nos seria destinado. Mantivemo-nos em sentinela diária, num revezamento quase militar.
Quando por fim retiram os limites de proteção e vieram todas aquelas pessoas estranhas que ,escolhendo os verbos, nos disseram que a casa amarela, como um grande fruto entre as árvores, nos pertencia; sentimos desconfiança. Entramos pela primeira vez na escola em fila, as mesas estavam alinhadas e limpas. Ana passou a palma da mão sobre a que estava a sua frente, muitas vezes. Puxei-lhe a ponta do vestido com força. Caminhávamos pela sala em grupos, o chinelo não reconhecia o assoalho de madeira. Nos dias que antecederam o início letivo, nos dirigíamos à escola todas as manhãs. Sentados nos degraus do portão, como gatos que arqueando a coluna e deslizando o pêlo roçam as pernas, pedíamos a intimidade da posse. As portas mantinham-se fechadas.
No primeiro dia de aula, acordados saímos aos tropeços. Até então o desconhecido estava na outra margem do rio, agora o tínhamos ali a alguns passos de casa.Estávamos aquele emaranhado de curiosos no corredor, quando nos separaram. Do fundo da outra sala, onde foi colocada, podia buscá-la a todo o momento. Ela esticou os braços sobre a mesa e pousou o queixo entre eles. Acompanhava com os olhos as listras irregulares da madeira e o cheiro era-lhe pura correnteza. Não se abrira ao quadro negro, ao arranjo de flores sobre a mesa ou ao bordado do vestido. Seus olhos buscavam os riscos da madeira. Soou-me o alarme. Levantei-me rápido e caminhei à sala. Ana mantinha-se na mesma posição, toquei-lhe os ombros. Nada lhe disse e voltei ao meu lugar. Uma vez de volta tentei acompanhar o meu próprio desenho na madeira. Compreendi por que ela poderia ficar lá, dentro dele. A quantos de nós o risco chamara a atenção? Ana não tinha o caminho de volta.
Estamos separados do instante seguinte pelo desconhecido, e dele necessitamos. Nenhum de nós estava preparado para a caixa de lápis de cor. Nós que tínhamos as unhas sombreadas de carvão, uma folha em branco, e a pequena caixa era da criação o desafio. Dedicamo-nos ao que era até então impossível: flores, árvores, nuvens, e rios. Eles nasciam fartos e nítidos como se Deus nos compartilhasse o dom.
Lembrei-me de Ana. Em pé no meio da sala, procurei-a. Ela juntara todos os lápis na mão e num movimento único riscava a folha. Riscava com força, indo e vindo.
_ Alice, volta!
Não poderia. Lancei-me ao mar para ir buscá-la. Atravessei as duas portas e parei em pé diante dela. O conjunto de cores formava um ninho de serpentes coloridas e por breve instante quase me aliei a seu imenso abismo. Segurei-lhe o pulso.
Para nós, meninos ribeirinhos, os dias que se seguiram foram de descoberta, para Ana foram dias de cego em terra estranha. Não aceitávamos deixar os lápis na escola, ela os devolvia como sobrevivente que perde o alimento. De volta a casa punha a cartilha sobre o fogão e dirigia-se ao fundo do quintal. Parava frente à parede caiada como se encontrasse uma porta na parede branca. Com um pedaço de carvão riscava sem força um risco fino. As figuras flutuavam no branco em formas irregulares. Às vezes eu as identificava ou as via perderem-se em outras. Diariamente, após as aulas dirigia-se à parede no fundo da casa. Passamos a viver as tardes ali. Sentava-me à curta distância, sem interrompê-la. Penteava-lhe os cabelos, trocava-lhe o vestido com cuidado. Em suas pausas curtas dava-lhe alimento e água. Quando o sol incomodava abria sobre nossos ombros a sombrinha.Guardo daqueles dias esta fotografia aérea: uma menina segurando um guarda-sol, um banco de madeira, outra menina sob o guarda-sol riscando a carvão uma parede cada vez mais escura. Nunca permiti que esta parte da casa fosse pintada, com o tempo, para nós, era um grande pano escuro. Para Ana as figuras estavam lado a lado, com começo e fim. Só ela ainda via sob o carvão o fundo branco. Nos fins de tarde, ensaboava-lhe as mãos com força até sumir dos dedos o sombreado.

Nasci incumbida de guiar a manada na grande travessia do rio. Éramos nós duas na casa, da mãe restara apenas a fotografia desbotada na cristaleira da sala. Aprendemos cedo a usar o fogão e o forno. Meu pai não falava em casar-se de novo e nossa era aquela casa. Saía para o trabalho na carvoaria sob um céu cheio de estrelas, voltava, a passos tortos, com o barulho dos baldes rolando pelo chão de cimento. Caiava a casa após a estação de chuvas, mas a meu pedido, nunca a parede no fundo da cozinha. Em Outubro Ana desinteressou-se dos livros, passei a trazer-lhe escondidos alguns lápis de cor. Já não se interessava por eles também, usava ainda os pedaços de carvão na parede escura. Passei a acordá-la no meio da noite, para que tivesse sono pela manhã e eu pudesse ir à escola.
Um dia deparei-me com todas as nossas coisas amontoadas no catre no canto da sala. Ana calçava sapatos e meias e tinha o cabelo penteado muito diferente do jeito que eu cuidava-lhe. Não temi por mim, mas como tirar-lhe a casa, o fogão, a parede riscada? Pela primeira vez eu a vi muito maior que eu. Ela dava-me aquela obediência de presente para que eu não tivesse medo. Cruzei o portão, e fui perdendo a escola, o rio, a mata que corria atrás dele. Olhei para trás o tanto que me foi possível. Ela batia compassadamente o pé no assoalho do carro.



L.A