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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

ÁGUA VIVA

 




O que te escrevo é um ''isto. Não vai parar: continua.
Olha para mim e me ama. Nao, tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.
O que te escrevo continua e estou enfeitiçada.


C.  LISPECTOR  

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

RISS



 

Eu entrava no shopping quando a menina me segurou fortemente pela blusa, desnudando-me parte do corpo.  Ela era um náufrago no Oceano e eu um tronco de arvore, grande e firme. Aflição, desproteção e doçura. A mãe entregou-me uma frase curta.

- Desculpa moça!

- Eu compreendo, tenho um assim.

A mão pequena ainda me arrastava a roupa. Depositei um beijo entre os dedos dela.

Não olhei pra trás, segui os passos ordinários em direção à porta. Sempre considerei que mães atípicas se voluntariam antes de receberem na maternidade o pequeno pacote embrulhado.  Há alguns anos ganhei um pacotinho com laço diferenciado, sou parte deste recrutamento feminino. Não houve tempo para troca de confidências nem para conhecer o diagnóstico. Foi só um esbarrão. 

Nós caminhamos nos corredores dos shoppings sem esbarrar no cotidiano dos que andam ao nosso lado. Sem ouvir o que aquela mulher a dois degraus na escada rolante está pensando, sem saber das alegrias e conquista dos que levemente riem. Nós somos leigos mortais atravessando avenidas, mas temos nossas próprias defesas. Minha dor sempre será maior que a sua. Porque eu a sinto.  Mas em algum lugar nesse Universo ilimitado essa menina caminha feliz em frente ao Shopping, não se assusta com a mulher baixinha que entra apressada em busca do caixa eletrônico. Em algum desses sítios   um rapaz falante entra ao lado dessa mulher -  é seu filho. Ele fala da apresentação da Tese de Mestrado feita naquela manhã. A menina não esbarra na mulher, reclama do sorvete que a mãe não comprou.

- Estamos atrasadas, diz a mulher.

Essa é a frase que ouço ao  entrar no shopping.

Mas foi aqui neste mesmo lugar, numa manhã de outono que uma moça atropelando as palavras, tocou-me o braço e disse:

- Eu tenho um recado pra você, Jesus mandou o recado.

Olhei para a jovem a minha frente. Clara, cabelos cor de mel, uns trinta anos, vestido comum, limpo e simples. No primeiro minuto pensei tratar-se de fanatismo religioso.  Indaguei-me porquê a Suprema Divindade largaria suas tarefas para mandar-me um recado. Mas pacientemente ouvi. Eu usava um vestido com uma estampa manchada. A moça aprontou para a roupa e disse:

_ Nunca mais use essa roupa! você entendeu? Nunca mais. Acredite em mim, ou alguma coisa muito grave vai ocorrer. Entenda mais uma vez. Livre-se desse vestido.

Agradeci o recado e fiz menção de seguir em frente. Ela  alertou-me  mais uma vez.

- Promete que vai se desfazer desse vestido?

Dei um sorriso afirmativo, desviei os olhos por micros segundos e a olhei de novo. Ela havia evaporado na minha frente. Procurei em todas as direções. A moça desaparecera. Pensei em como aqueles pensamentos a atormentaram. E em algum momento, ela reconheceu na multidão, a mulher e o vestido borrado da mensagem que precisava entregar. Por precaução cheguei em casa e destruí o vestido. Nunca saberemos se ela era real.

Estamos cercados de anjos que podem nos esbarrar. Que podem nos segurar pela blusa com força, que podem nos entregar mensagens que nos parecem tolas. Anjos podem nos ser entregues no berçário da Maternidade, não importa que laço difícil aperta o pequeno pacote. Sempre haverá frascos de controladores de neurotransmissores.  Sempre haverá selos a serem colocados: TEA, TDAH, Esquizofrenia, TOCs...

A Neurodivergência nossa de cada dia. Que o Universo zele por nós

 

 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

DIÁRIO DE BORDO-

 





Lembrei-me no banho de um conto de Clarice. Não sei se vinha de LEGIÃO ESTRANGEIRA ou um outro catálogo mas lembro-me da menção aos Macacos. Não sei se ela apontava o andar deselegante e oscilante dos símios por se tratar de estranhezas, ou se eu, no papel de leitor decidi que  a estranheza interna,  tanto do rapaz como da moça de não compreenderem o momento de estarem diante um do outro, os fazia cambalear. Mas era que nada tinha um referencial anterior, então eles não sabiam lidar com isso. Não eram pré adolescentes como no conto ''O primeiro beijo'', eram adultos e caminhavam numa tarde juntos.  Não vou lembrar o nome do conto, mas vou considerar a cumplicidade e defesa feminina dela. Em qualquer circunstância, qualquer dos dois poderia embriagar o passo e parecer ridículo aos olhos do mundo. Mas  no caso, só a moça andava visivelmente bêbada. Contudo vamos considerar que Sentimentos visto de longe, ou são encantadores ou, como diz o poeta - são Ridículos. Com certeza não para os que estão no palco: Você provavelmente pode esquecer o texto. Não deveria. Como explicar que  todas as cadeiras estão ocupadas e o Teatro está cheio? Como explicar a sensação que o chão está fugindo e que provavelmente você está entrando no que chamam modernamente de estado de pânico? Como a lagarta explica a si a metamorfose? 
Não gosto de textos que tentam explicar Clarice , é como se alguém dotado de uma verdade cirúrgica a tentasse diagnosticar. O que possa parecer patologia pode ser a súbita precariedade de como a pele recebe os dias. A estupidez é tentar explicar. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

CLARA EVIDÊNCIA


 Antes, cumpre esclarecer, havia os dias brancos. Mas o sopro divino sobre dunas de sal , deixava sobre a soleira da porta, como dúzias de rosas cor de berinjela - os intermináveis dias negros. Cumpre ainda esclarecer que os dias não eram seus, mas do filho mais novo. Tal qual equilibrista sob guarda- sol, separava as cordas da bipolaridade. Ora lhe chovia sobre os ombros, ora os raios lhe queimavam as costas. Quando o sol  queimava-lhe as costas, o maior de todos os equilibristas, neste respeitável circo... dançava entre lençóis coloridos. 

-Venham todos ver o maior espetáculo da terra! Flores para a dama ao lado, sorvete e pipoca para todos!

Ah!... O grande mistério do Criador: não havia uma lógica aritmética, sendo assim para dois dias brancos poderia haver dezenas de dias escuros, que poderiam chegar por pacote expresso na entrega das dez , em qualquer dia da semana. Como saber?
Segunda -feira , oito horas. Passa pela cozinha:

_ Bom dia, você já chegou? nem notei...
Não espera a  resposta. Passa de volta quarenta minutos depois.

_ Bom dia, ué você já está aí ? Que bom.!

A empregada ameaça um sorriso.
Meia hora, depois passa de novo pela cozinha.

_ Agora que você chegou, isso são horas,? Eu já te falei que segunda-feira você tem que chegar cedo.

A empregada inspira fundo , observa. A roupa: a saia é verde, a blusa vermelha, o casaco é roxo... e as sandálias... ora não formam um par... estão ...

Soa o alarme. A mulher está parada na porta da cozinha e sorri. Sorri de que mesmo? Agora é só a ponte em frente. A ponte é estreita e há muito limo na parte externa, está sobre rio escuro . Uma mulher com uma saia velha e sandálias trocadas, tem no bolso do casaco um relógio parado, está no meio da ponte e porque chove abre a sombrinha.
_Qual o seu nome?

_Ela não lembra Doutor, intervém o marido , amanheceu sem memória.

_ Algum problema em casa?
- O menino mais novo é bipolar. Ela se aborreceu com ele.
- Ah...

Do lado de cá, a estação de rádio funciona em dialeto primitivo. Não há tempo para ensinar a linguagens não há tempo para traduções. Três estranhos numa sala branca. Uma mesa, uma maca , dois homens e uma mulher. Uma mulher sem nome - páginas e páginas de livro em branco.

_ O nome dela é Clara, ela tem quarenta e cinco anos.

A idade, veneno forte. Mata em dose única. Contra- indicação feminina, elas não se acostumam.

_ As vezes elas não voltam, tive um caso destes,  mês passado... ela quis ir, se tentou voltar, não sei, sei que não voltou.

_ Ah...

Atenção, a escolha é sua. È só caminhar de volta , bem devagar e a ponte não mais existe. Se o problema é o escuro , aguarde as primeiras horas. Não há noite que dure pra sempre. Não desista. Daqui a pouco  chegará o padeiro:

_ Dona Clara!!!

Você tem um nome, e a casa é esta, antes da ponte. O pão está na mesa e o café quente. A empregada , acredite , chegou antes das oito e fez o café.
Bom dia, sua consulta no dentista é as três.

Luísa Ataíde

MEMÓRIAS BRANCAS

 



(Image by Ben Goosens)

“... é a minha alma que se desprende dos laços terrestres e anda pairando no espaço com sua irmã fugitiva...” (Anna Plácido, 1832- 1895)



Sempre é o lugar de ontem.
Todos montados sobre cavalos estendem cabelos ao carrossel do Vento.
A lua filtra a claridade da rua
A casa e a rua sobrevivem ao tempo.
Aonde andam os meninos, os risos, as lágrimas, os gritos?
Os que aqui viviam habitam outros sonhos, outras vidas, outros dias.
Pintaram a casa, mudaram as janelas, apararam o jardim.
Trocaram o telhado, há pouca mobília.
Os personagens dos livros sentam-se à mesa, dobram lençóis, regalam-se nas sombras
Atravessam as paredes, desbotados, antigos
Não sabem o rumo de suas estórias.
O homem se foi; a mulher e seus filhos para terras distantes.
A cidade adormece, as luzes se acendem, é a mulher que volta.
Remexe o fogão, sobe as escadas e limpa a poeira.
Recolhe das cinzas pequenas memórias.
Esfrega nos dedos
Memórias sem vidas, branquinhas... branquinhas...
Observa os homens que saem dos livros
Apaga as luzes e volta pro parque.
Todos montados sobre os cavalos, estendem cabelos ao carrossel do vento.
O Ontem agora é um lugar de sempre.

Luísa Ataíde

(PRÊMIO LITERARIO RAQUEL DE QUEIROZ- 2007)