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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

REMINISCÊNCIAS





'' Não se compreende música : ouve-se. Ouve-me entao com teu corpo inteiro. Quando vieres a me ler perguntarás por que não restrijo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras - e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão,"  C. Lispector, ÁGUA VIVA


domingo, 11 de janeiro de 2026

ESCREVER É DESNUDAR-SE

 



Estranho essa pessoa do outro lado do espelho. Ela diz conhecer cada milímetro do meu corpo, meu andar pesado e taciturno. Meus raros risos. Já informei que meu riso mora dentro. Que eu abro, só eu abro, a porta que dá pras salas dos risos. Do lado direito tem a sala de cantos. Eu passava lá todos os dias quando tinha vinte anos. No andar de baixo encontra-se  uma mesa longa de madeira nela eu escrevia histórias. Histórias de encantamentos, puro encantamentos. Na verdade eram modos peculiares de respirar os dias. Parei de escrever histórias quando começou a estação de chuvas. No  processo criativo eu ouço uma mulher que dita  textos. Uma voz sonoramente abafada, pausada e por vezes insistente. Eu escuto o ditado e escrevo.

Anos depois descobri a sala dos pincéis. Eu que sempre desenhei tudo que via, principalmente palavras. Como um falsificador eu desenhava os nomes das pessoas. Mas chegaram dias que eu comecei a ver quadros oitocentistas na parede. Nítidos, graves, perfeitos. No começo achei muito esquisito estar vendo pinturas tão perfeitas. Com o tempo essas esquisitices que em mim habitam passaram a não me incomodar. E eu pintava quadros lindos. Encantei-me com Gogh e seu jeito reverso de fazer imagens. Passei a amar a incapacidade de não caber em caixinhas. Ele vive em algum lugar, ainda sobre a corda. Resolvi fechar a sala dos pincéis e tintas pois no céu deslizava um filete azulado de cinza payne . Prenúncios. 

Poemas? Tenho dificuldades em escrevê-los, assim como pintar flores. Eu os vomito. Aviso que odeio rimas. As rimas perfeitas são invisíveis, porque sendo invisíveis elas  apenas anestesiam o texto.  Alguém me disse que eu escrevo só poesias, que tudo em mim é  poesia.  É que a poesia se esconde, porque eu não digo,  apenas sugiro. Ia dizer algo sobre isso , mas preciso parar.

Começa o ruído de chuva no telhado. 


          Luísa Ataide ( imagem feita com auxílio de IA)


domingo, 4 de janeiro de 2026

DISLALIA



 "E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver."

C. Lispector


terça-feira, 2 de dezembro de 2025

LIVROS, LIVROS, LIVROS

 




         Estava no Shopping, numa livraria, tentando comprar um livro para um amigo querido. Entre pilhas de folhas com histórias dentro havia um livro - O DOM DA AMIZADE. ( J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis) . O vendedor era um menino magro de óculos, com uma doçura de quem ama livros. Ele já lera todos os  que me indicava. Eu devo ter sido traça  em vidas remotas, dessas almas penadas que habitam bibliotecas. Ou simplemente vivi entre folhas, capas duras e prateleiras. Sinto-me em casa. Queria poder levar todos. É como quando encontro gatos na rua. Para mim são todos órfãos sob miras de mísseis de fogo e eu os quero. Mas enfim o Dom da Amizade, me aguçou a imaginação. Mas, aquele amigo do outro lado do wsapp que tinha a função de indicar livro a outro que ele não conhecia falou-me de títulos magníficos. Pessoas que gostam de ler sofrem do mesmo vício insanável : Sentir entre as linhas. Meus mehores amigos amam literatura. Casei-me com alguém que  falava de Guimarães Rosa com reverência ímpar.  Meu filho mais novo é bibliófilo. Ama livros em demasia. Um perigo, navega no abstrato e pensa como um verbo intransitivo. Não transita no chão comum dos outros humanos. Bem, acabei deixando o Dom da Amizade na prateleira e rendi-me a outro.  Contudo, antes de sair pela porta de vidro olhei UM DEFEITO DE COR da ANA MARIA GONÇALVES e pensei. Você vai ser meu, até o Natal. 

sábado, 20 de setembro de 2025

BRUXO OU ALQUIMISTA?


         


         Algumas pessoas chegam a esse mundo fora da caixinha e constroem espaços inimagináveis. Assim, em 1936, foi HERMETO PASCOAL . Tudo para aquele menino estrábico e albino era o ato de ouvir. Ouvir e observar. Desse  detalhe assimilava os sons do rio, dos pássaros, de tudo que se movia ou não. O que lhe chegasse as mãos, ele transformava em sonoridade. Ensinou isso ao mundo. A nós, os outros,  só cabia  admirar, nos admirar e usufruir. Para um menino, predestinado a ressonar o corpóreo e o que também não fosse, encontrar entre os pertences do pai um velho acordeon, foi o cumprimento do legado que  vida lhe reservara. Foi o começo. Foi o poço profundo da criatividade se abrindo -  foi o  FAÇA-SE A MÚSICA!
          Hermeto fazia música com todo e qualquer tipo de objeto: bules, brinquedos flauta, voz, um cano de mamona, um Jerimum. Instrumentos convencionais ou não. Para admirar a obra deste fabuloso Bruxo você há de se despir de tudo que é Convencional.  É Sentar na Calçada, fechar os olhos e olhar pra dentro. Pra dentro e adiante.  
         Mas há alguns dias Deus chamou seu menino de volta. Acho que o céu andava silencioso.
         Muita luz nessa passagem. 




    

domingo, 2 de março de 2025

OS ESCRAVOS MULTILADOS DO CONGO

 



Eu nunca soube, na história do Humanidade, quem fora  LEOPOLDO II da Bélgica e seu reinado de horror. Até que uma noite sonhei com um grande teatro. Eu adentrava ao teatro. Sentei-me em uma das poltronas vazias. No palco diversas pessoas em pé se preparavam para apresentar um coral. A canção começou. Era um canto lindo, arrepiante. Mas percebi ser um canto triste, um lamento. Admirei a beleza das vozes e a harmonia da canção. Eram todos negros, e vestiam-se de branco. As ventimentas pareciam lençois moldados aos corpos. Observei aos poucos que em alguns faltavam, dedos,  as mãos, o antebraço...  Todos tinham  a falta de algum membro. Entendi a dor e o lamento. Eles cantavam pra mim e o canto era lindo. Era uma emoção estar ali e receber aquele presente.

 Quando acordei fiquei impressionada com a imagem e fui pesquisar na internet se houve na história do mundo  algum epsódio de tantos Escravos multilados . Sim, LEOPOLDO II da Bélgica criou um reino particular no Congo para explorar marfim, borracha e minerais riquíssimos. O hábito de amputar membros dos Escravizados que não atingiam metas,  era visto com naturalidade e as maiores atrocidades contra crianças, jovens homens e mulheres foi cometido. A História Do Mundo  não pode apagar esse Capítulo. Eu nunca ouvira falar, apenas depois do sonho. Gratidão aos Escravizados Do Congo pela belíssima apresentação. Eu era a única convidada ali,  nunca esquecerei. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

REINVENTE-SE

 




Ás vezes é necessário Regar-se

Adubar-se

Sombrear-se

Podar-se

Solarizar-se.

Tudo para poder Florir.

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

PLURAL DE SAUDADE

Saudades do mar e da liberdade que ele faz germinar .

quarta-feira, 31 de maio de 2023

DOANDO LIVRO AO MUSEU CASIMIRO DE ABREU- RJ

O Museu Casa de Casimiro de Abreu recebeu, recentemente, a doação de um exemplar do livro ‘As Primaveras’, do poeta Casimiro de Abreu. Pertencente à quinta edição da obra, de 1925, o livro pertencia à biblioteca da escritora Luísa Ataíde, de Brasília. A entrega da obra rara ao Museu foi feita pelas mãos das amigas da escritora, Maria José e Emily Cristina, ao diretor do equipamento cultural, Cristiano Pereira. “A obra, agora, está ao lado de outras duas importantíssimas edições, uma de 1866 e outra de 1909”, afirmou.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

PAR OU ÍMPAR

          A primeira vez que vi Alice Hartmann eu tinha pouco mais que seis anos. Chovia muito e o vento açoitava as janelas do casarão da Geremário Dantas. Encolhida atrás da porta só percebi sua presença quando a mão me foi estendida. Nunca mais tive medo de casarões desabitados e noites de chuvas. Aprendi a contar histórias, sempre digo, devido a uma infância repleta de tardes vazias. Hoje sei que era ela quem as contava. Eu repassava todas: - prodigiosa imaginação, diziam. Alice Von Hartmann é uma senhorinha. Saia comprida e um coque que as mulheres já não usam. Sabedoria que só as avós possuem. Nem sempre aparentou este ar de nobreza alemã: mesmo em corpo franzino e tamanco nos pés , portava um feixe de lenha com elegância. Por trás de todas as camponesas que viveu , estava sempre presente uma dignidade conquistada. Alice filtrava em suas vidas as melhores qualidades do espírito.
           _ Tenho dúzias de coelhos assustados como você. 
           _ Como cuida de todos?
           _ Um dia você vai entender.

           Começo a entender aos poucos o mecanismo dos dias. Quantas vezes a esqueci no casarão da Geremário Dantas e diante de decisões importantes pensei em dar um passo atrás. Sua respiração sobre meus ombros, faz-me lembrar que sou forte.
 Às vezes, o sinal fecha e reporto-me a ela. 
           _ Preocupada? 
            _Muito. 
            _ Você já teve problemas muito mais sérios. 

            O sinal abre e a esqueço, mas a coragem me segue. A vida é um livro em branco, história escrita ao vivo e a cores. A caixa do correio pode ter surpresas. 

Luísa Ataíde

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Seduzir, o grande desafio dos que escrevem

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

LÍTERAS

 




Quando por fim pousares à minha imagem

E fores o tom elástico de suas palavras

Decifro por vez a inexata lucidez desse seu respirar

Será mudo , exato e sem cor , este teu pouso

É imprescindível que assim seja...


L. A

sábado, 25 de junho de 2022

PARA UMA AMIGA que vai morar no CANADÁ

  1. O Apóstolo escreveu que há um tempo para todas as coisas debaixo do céu. Tempo de plantar, tempo de colher, tempo de rir, tempo de chorar de tanto rir. 
  2. Eu e a Te, já choramos de rir de nós mesmas, lembrando o que escrevemos na linha da vida. Qual das duas esqueceu o carro com a porta escancarada no parque e saiu para caminhar tranquilamente? Qual das duas voltou para casa sem a cobertura do motor e não percebeu? 
  3. Quem de nós na entrada de um local chique, de meia fina e salto alto por algum instante achou que estava no parque e fez alongamento com a maior naturalidade? Qual das duas mandou mensagem comprometedora para o grupo errado do wsaap e em outra vez fez um live ao vivo no facebook sem perceber? 
  4. Os micos nos restaurantes são recíprocos e são tão king kong que é melhor não lembrar. E quando nos perdemos nas ruas de PARIS? Horas e horas dando a volta no mesmo quarteirão. - MONSIEUR, Òu est la Rue PARMENTIER? Costumamos achar que combinamos nos encontrar nessa vida, já na segunda metade dela, depois das tempestades da juventude e das turbulências da infância dos filhos. Esse encontro vem se repetindo desde a IDADE MÉDIA. E não se espantem, nossos vizinhos estavam conosco pois essa convivência intramuros vem desde os tempos feudais. Reginaldo, nosso porteiro, estava lá zelando por nós desde sempre. Conversas de Teresa e Luísa, quando tomam vinho.
  5.  Com quem vou conversar sobre Cura Arturiana e Invasão Alienígena? Quem vai concordar comigo que tanto a esquerda como a direita sofrem da mesma hipnose sem filtro? Com quem vamos dividir as desventuras domésticas? Com quem vou falar sobre os MESTRES ASCENSOS e sobre Filosofia Quântica? E Que todos os bichos merecem o céu e que somos todos feitos do mesmo tecido divino? Paulo estava certo quando disse que há um tempo para todas as coisas debaixo do céu. Felizmente as distâncias estão encurtadas pela internet, e num click podemos ver e ouvir uma amiga do outro lado do planeta. Que tudo dê certo. Paciência se seus netos nascerem em MONTREAL, que você só coma feijoada de ano em ano e que nos visite apenas no Natal. Há um tempo para todas as coisas e vamos aprendendo a aceitar. Saudade da Tchurma. Já estamos inundados de Saudades Coletivas.

sexta-feira, 20 de março de 2020

OUTONO




Estamos tão absortos com o inimigo invisível que não nos lembramos que o velho outono chega. Um ventinho anunciando chuva tomba as folhas da palmeira em frente à varanda. Súbito lembro-me de Camilo, ao ouvir o riso sem sentido do filho sentado olhando a tarde.
''- Meu triste filho passas vagabundo , por entre um grande mar calmo, profundo, sem bússolas, sem norte e sem farol. Nem gosto nem paixão te altera a vida, eu choro sem remédio a luz perdida, bem mais feliz és tu que vês o sol''.
Ele persiste num diálogo sem respostas. Como entender as estações, as tardes, o tempo...

domingo, 17 de março de 2019