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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A CASA DE SEIDE



Chegamos pela primeira vez em Famalicão em 27 de Setembro de 2008. A acácia estava esplendorosa.  Um número pequeno de pessoas aguardava à entrada da escada. O motorista do táxi que nos conduziu , nunca ouvira falar da tragédia da casa de Seide. Acho que ficamos quase uma hora na visita, e colhi pedrinhas do quintal.
Deparei-me com a fotografia na parede, a mesma fotografia que vira inexplicavelmente revelar-se gradualmente à minha frente um ano antes. Poucos na sala sabiam o que significava para mim adentrar àquela casa. A família que ali vivera no século XIX, dera-me por incumbência devolver  a Portugal o pequeno livro , primeira edição de 1871 da escritora Ana Augusta Plácido - Herança de Lágrimas. Preferi entregá-lo em Lisboa, pois o Museu Casa de Camilo posuía um exemplar de primeira ediçaõ, embora em não bom estado, segundo o Museu. Percorrendo os corredores da casa, tive a mesma sensação de quem acorda depois de um grande temporal. Tudo estava calmo novamente. Seu Manoel Machado o motorista, ouvia intrigado a explicação da locutora itinerante sobre os acontecimentos de 150 anos antes. Ele nada conhecia, acho que nunca se importara com literatura portuguesa, ele mesmo chegou a esta conclusão. As minhas companheiras de viagem, às vezes me olhavam com interesse, enquanto observavam: mesas, cadeiras, objetos pessoais. Filmamos e fotografamos o que foi possível. Nunca saberemos exatamente minha relação com a História dos Plácidos/Castello Branco, mas com certeza eu os conheci, eu estive lá. Muito possivelmente fui um daqueles livreiros que indiferente aos tormento financeiros da familia , regateei o valor  de um Romance do Escritor. Necessário redimir. Descansa na minha estante um exemplar do primeiro livro da escritora - Luz Coado por ferros, 1863 com a foto de Anna Augusta Plácido, esposa de Camilo. Foto colada pela própria, que chegou-me às mãos.  A Casa de Seide possui um biblioteca climatizada e provavelmente entregarei, sob tutela,  este exemplar com a fotografia. E tudo volta ao seu lugar. 

Luisa Ataide

(O primeiro livro foi adquirio de um camelô na rua da Lapa no Rio de Janeiro, misturado a tantos outros, em frente a um casarão histórico em demolição. Havia mobiliários antigos, muita poeira e o livrinho no meio . O segundo, um livreiro colocou à venda e segundos depois passei e vi . Ele admirou-se pela venda automática. Era pra ser meu, disse a ele. )
Um dia num grupo de estudos de literatura espírita vi a fotografia de um homem idoso de óculos picenê. Ninguém via na sala a nítida fotografia. Depois descobri ser o Escritor, encontrei o livro de Ana Augusta, conheci os tormentos da família,  ganhei um prêmio literário em dinheiro que me facilitou devolver o livro à BNP. Escrevi um conto ficcional de como a casa restou em cinzas e um poema sobre Ana.. Os dois textos form premiados , mas o valor monetário foi dado à poesia em homenagem à escritora, tinha que ser.  

nota do blog- Nesta casa viveu a escritora Anna  Augusta Plácido.Os primeiros anos de casada com o comerciante Manoel P.Alves  e anos mais tarde com o escritor Camillo C. Branco, local onde este tirou a própria vida.  .A casa findou-se em cinzas em 1915, foi reconstruída anos depois. Há no rez-de- chaussée   uma sala com livros e objetos pessoais. Ana publicou apenas dois livros, embora tenha escrito poemas, teatro e periódicos em Revistas. O primeiro livro a familia recebeu da Editora poucos exemplares ( a história é grande) e provavelmente um foi doado a amigos no Brasil .Nesta casa a família viveu quase toda a vida, covivência difícil pela  doença mental do filho do meio. A ela todo o meu carinho, um dia nos reencontraremos. Não se admirem, essas coisas só acontecem comigo, mas aproveitei e fui conhecer Paris. 

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