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quinta-feira, 14 de maio de 2026

TODO AMOR É DE SALVAÇÃO

 




Ninguém pode escrever um livro. Para que seja verdadeiramente um livro, são necessários a aurora e o poente, séculos, armas e o mar que une e separa”

                                                                            Jorge Luís Borges



      Venço, em pequenos passos sobre dunas de areias um romance que tento construir. Eu não escrevo, eu o construo sob  imagens nítidas que vi. Ninguém as viu, só eu. 

     Vi o mar e as casas destruidas, vi os coqueiros devorados pela maresia e crianças que corriam. Vi o clarão sobre a cumieira dos fornos grandes das cozinhas e a menina que entrou num casa que não era sua. Dedilhou a mesa como num recital de piano e adornou a alma com a vida tosca de um passado que lhe era ausente.  Não me foi dado escolhas, mesmo que eu passe meses sem me debruçar no texto a história chega de volta em qualquer horário do dia. Eu ouço o ranger das rodas das carroças, o cheiro matinal de pão, o riso, o grito. Eles estão lá em algum lugar do pensamento. Vi sobre a cama do quarto o véu da noiva esticado ao lado do vestido. Ela queria estar longe de tudo aquilo.Mas todos a esperavam na sala. Vi a casa e a moça em pé no primeiro degrau da escada, com muito medo da vida que se abria sem ela ter  nada pedido. 

      Vi a outra moça receber  do mensageiro a caixa com toda a sua história dentro. Ela abriu a caixa -  a louça embrulhada com cuidado e embaixo de tudo os papéis de sua própria genealogia. A vi procurar nas ruas de Haia reminescências já apagadas do passado. A vi decifrar mapas antigos de terras Brasis. Em que lado de mundo, a inglesinha pensou ficar o nordeste brasileiro? 

     Elas contam tudo ao mesmo tempo e é dificil entender.

                  - Uma de cada vez por favor!

     Às vezes, elas revelam que lutam por um Amor que acreditam. Aviso que  moro no século XXI e hoje ninguém luta por nada, por isso cartas de amor e encontros românticos me são difíceis de descrever. Aviso que vivo um cotidiano ordinário , e há muito as pessoas que o habitam nada mais tem a se dizer. O Eco divide o mesmo espaço. Um dia perguntei as moças porque me escolheram e elas disseram que pisamos as mesmas pedras do caminho. Nem tudo falei. 

                   -Se não agora um dia. 

     Achei sem propósito a comparação, pois nunca tomei decisões impulsivas, nunca fui presa, nunca delirei com meus personagens, nunca vivi um Amor clandestino,  nunca me casei tantas vezes como uma delas e nunca abandonei minhas crenças e fui morar em outro país para todo o sempre. Elas, acreditem riem do que falo. 

             -Eu levei meu filho, disse uma.

             - Eu também disse a outra.

              -Eu, disse a última, nunca os encontrei. 

     Todas se chamam Ana e viveram um ''Dia do Desespero". Alertadas de todas as limitações literárias que tenho, elas insistem. 

       Então: Velas ao mar!






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