A vida é um ritual de despedidas. Dos brinquedos, dos desenhos a giz no chão da infância, dos cadernos coloridos por montanhas tortas. Despedi-me do quintal dos meus avós e segui para uma Abadia cheia de espaços vazios e silêncios. Preenchi os dias com o que imaginava. Costumo acreditar que ali começou o ritual de observar histórias.
Era um prédio azul e rosa construído em 1938. Sempre vou lembrar-me disso porque estava escrito na parte superior da entrada. O ano era 1963 e eu tinha cinco anos. No jardim aonde se aportava havia uma gruta e nela morava Nossa Senhora. Ela olhou-me lá do fundo da cobertura de pedra e sei que daquele dia em diante ela comprometeu-se a cuidar de mim. De lá fui para uma adoção imprópria, que ninguém merece passar. Lembro sempre da paz daquela gruta. Ela viu, e tirou-me numa manhã de Natal dos mais tormentosos destinos que se desenhava.
Salve Rainha!

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