Não procure entender, viver ultrapassa quaquer entendimento"
Clarice Lispector
TOC,TOC- Eis que subitamente alguem bate à porta.
As pessoas , ao tempo de nossos avós, passavam pelo mundo com carimbo de ''sistemáticas'' quando tinham manias peculiares Os comportamentos repetitivos como apoiar-se no pé direito antes de sentar-se, lavar infinitamente as mãos depois de tocar em certos objetos, provocavam um começo de risos, e se não causavam grandes transtornos eram apenas adjetivos que ornamentavam a personalidade de quem os possuia. O problema é quando o copo transborda. Não há como lembrar em que dia o rio atingiu a ponte. No momento seguinte estamos diante de um estranho que insiste em perseguir formigas imaginárias, e em bater constantemente faca na pia da cozinha.
Dizem os tratados de psiquiatria qque os sinais silenciosos da compulsão convivem com a família durante muito tempo, até que todos os olhares voltam-se ao memo tempo para um único ponto: e os dias... os dias seguintes não serão jamais os mesmos.
AS VIAGENS DE GULLIVER
Maria Alma mora na casa de telhado vermelho no final da rua que terminna sob a sombra das árvores. Enquanto o bairro arde sob um sol abrasador, as tardes amenas contornam o jardim e a pequena fonte desce sulcos sobre o estreito caminho de pedras. A mulher dobra as toahas da cômoda e observa o menino, deitado sobre as folhas de papel, que risca montes, rios, cidades. Vai à cozinha e tráz um copo de água e o coloca no chão, ao lado da mão esquerda, sempre fechada. Tem saudades do outro menino, que sumiu sem despedida. Imergiu pra sempre no labirinto profundo do sono. Ela viu os braços deles crescerem como galhos de árvores e os ombros curvarm-se quando a cabeçça ameaçou atingir o teto. A mobília foi pisoteada pelos pés grandes, ávidos pela saída da porta. Antes de partir, o estranho apoiou as mãos na entrada e olhou como quem olha a profundeza de um poço seco e turvo. Maria Alma sentiu sobrar rente ao rosto o bafo morno de um futuro implacável, injusto como o muro negro da morte. Foi lá fora, procurou em todas as direções. As esquinas desabitadas murmurvam apenas o ruído de seus próprios sapatos. Um dia ele volta, pensou.
TETO DE LÍTIO
Às vezes, e quase sempre, olhamos o quintal da casa ao lado e ouvimos o som harmonioso e irritante de um coro de anjos. A fotografia de uma família vestida de branco, ganha movimento em direção a uma mesa florida, meticulosamente arrumada . Olhamos o lado de cá; O quarto revirado, a bandeja de café com os comprimidos ao lado da xícara de leite. Se todos os frascos vazios , tomados ao longo dos anos fossem colocados numa caixa, ora isso daria para...
- Pode levar, não vou tomar mais remédio.
- Você precisa. Você toma isso desde os onze anos, não pode parar de repente.
- Não vou tomar mais, já disse.
- Você vai ficr nervoso,, e ter novos sintomaas de TOC.
- Sai daqui com isso!
- Você está gritando!
Ouve o arremesso da porta estremecer as paredes. Depois de tanto tempo, trine, de volta, o silibar da serpente que baba veneno na pia da cozinha. Ouve o barullho do recolher das asas das corujas que voltama dormir no teto. Com o passar dos anos aprendeu que o outro menino nao vai voltar . Que o estranho que revirava as gavetas e batia com frenesi a cabeça na parede, engoliu o menino de uma única vez. Aprendeu que quando amanhece, ele volta à estatura normal, abre os braços e pede perdão ao mundo.
Aqui dentro , um rapaz amenta o som ensurdecedor de uma música áspera que ela não decifra. Canta um rosnado rouco e longo e grita versos e rodopia pela casa. Arremessou os medicamentos pela janela e diz ouvir a voz dos anjos e visitar o demônio em dias ímpares.
Lá fora é possível, pela fresta, ver apenas a ponta do sapato masculino, as malas e muitas caixa, o que denuncia que veio para ficar. Maria Alma suspira fundo, Agora, depois de tanto tempo, tudo que conseguiu entender ameaça perder forma e cor. O silêncio confunde-se com o som estridente das cigarras. Sente o assoalho deslizando devagar e não tenta se agarrar em nada. Não sabe dizer as horas e o dia da semana. Não sabe dizer de que cor Deus tingiu o céu.
Luísa Ataíde
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