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sábado, 11 de maio de 2013

terça-feira, 7 de maio de 2013

AS DUAS CASAS



LUIZ MARTINS DA SILVA

A casa,
Já não é a mesma,
Da planta original,
Tantos acréscimos e adaptações.

Por fim, parei, desisti, ao descobrir:
Casas são projeções de um espaço mental.
Com seus labirintos de uma vida para dentro
E de tudo que nos habita em aposentos folhados.

Não tarde descubro, meu coração é só o âmago
De um universo de memórias e pulsações,
De uma história afetiva que emenda retalhos de tempos
Num cerzir constante de apreender amores.

Agora, estou mais leve,
Por saber das casas,
A de fora, concreta, finita.
A de dentro, autoconstrução interminável.

Agora, posso dormir,
E até acordar, tanto faz.
Já não me circunscreve aquele espaço
Aonde, indevidamente, escrevem: “Jaz”.

domingo, 14 de abril de 2013

ENTRE ASPAS



Porque somos imperfeitos, ou supomos sê-lo, a luz nos 

ofusca. 

E porque a luz nos ofusca

fechamos os olhos.

E tudo continua escuro.



KEILA ABREU


terça-feira, 19 de março de 2013

A PIPA E O TEMPO



LUIZ MARTINS DA SILVA


A pipa, empinada é mais que  o pássaro,
Pois não avoa a ave acima do Sol:
Contra o olho, a pino,
O primor, prumo, rabiola e cerol.

O menino e a pipa aos céus,
São mais que arcanjos,
Pois mesmo não lhes sendo as asas,
Igualam-se em sonhos , alados querubins.

O menino avia, envia a pipa,
Como quem dá espinha ao peixe,
Para que tenha estrutura, navegue, flutue,
Sobrevoe o vago, alto mar, altivo.

Em breve o menino; a tarde; o orvalho...
O inquieto sopro da vida, a liberdade...
Enquanto a infância, não a leve o vento,
Não lhe cesse a brisa, tão logo ao trabalho.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

MY NAKED LUNCH



FERNANDO HENRIQUE DE  PASSOS

A David Cronenberg e William S. Bouroughs

Há um mundo de sombras por detrás da estante.
Quero desvendá-lo.
Vibram as paredes animadas- som penetrante
Em que me embalo.

Um macaco azul de pênis vermelho
Cospe-me na testa.
Oiço um escaravelho:
"Hoje há uma festa".

Penumbra sem horas nem minutos:
A minha sombra esguia no soalho
Contorce-se em espasmos absolutos;
Eu estou imóvel; a lamparina arrefece-me o trabalho.

Símbolos caídos no cesto dos papéis:
Devo escrever mais.
Vejo autoestradas onde correm corcéis
Que me forram o peito de jornais.

Um copo de água sobre a mesa:
Cintilação de estrelas mortas:
Uma lua acesa
no estreito quarto de sete portas.

Os sete monstros passam a fronteira: 
Estão deste lado.
Falam comigo da manteigueira;
Sou avisado.

Só quando toca a campainha
É que desperto do pesadelo:
a luz é minha.
(Mas o outro mundo, como esquecê-lo?)

sábado, 9 de fevereiro de 2013

EPÍTETOS PARA UM ASCETA


LUIZ MARTINS DA SILVA

À memória de Clésio Ferreira
(Dos irmãos, Clodo, Clésio e Climério).


Pessoas há que não passam,
Mesmo quando já trespassadas.

Olhar de amigo, lívido lírio.
Olhá-lo óvulo, voo, enlevo calmo.

Ia-se, nado, a braçadas para este Nada.
Que é o Tudo, ou é só um Vale.

Pedir-lhes-emos, agora, licença,
Por imagens, outras percepções.

Pessoas há que nem o são.
Se seres fossem, não doeriam.

Preferem crer, à moda dos cães.
Melhor não ser, a ser vil.

Ocultara-se, já quase casulo
Despregando vida como velcro.

Viver é só um curto invento.
Para enigmas de revelações.


sábado, 2 de fevereiro de 2013

MUSEU DE IMAGENS







LUIZ MARTINS DA SILVA

Não irei apelar sentença
Menor que a de Prometeu,
Ainda que um corvo me escarne
Mais ave que um último adeus.

Se bem lhe apraz, a cabeça,
Se é pouco, quem sabe o pescoço                    
E se já me lavaram os ossos,
Que importa a caverna no tórax?

Atendam-me num último sonho:
De não me arrancarem raízes
(Psiu! Lá, escondo uma Fênix).


Memória não se emascula
Nem no profundo das cinzas,
Simples figuras que sejam.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

MEDITAÇÃO





Urgente é entendermos que antes de tudo CRISTO significa respeito ao outro, que a mensagem do EU SOU é tecida no liame da amorosidade. Amar o outro é considerar que ele também tem algo a ensinar-nos. Se temos por urgência a Boa Nova do Evangelho é possível entregá-la pelo exercício do amor e antes de tudo, como fez o Cristo - pelo exemplo. Nada é mais urgente do que a paz dentro de nós. A partir desta paz é possível olhar em volta e ver a grandeza da criação, amar o arrastado caminhar da pequena lagarta, amar brisas leves e tempestades. É possível, assim, começar a amar o outro. Povos houve que nunca conheceram a oração do Pai Nosso, que até hoje, não entendem o simbolismo da cruz. Atravessaram desertos e campos verdes, nascer e pores de sol com o coração voltado aos rituais pagãos. Não podemos,contudo, afirmar que eles não tiveram uma conexão com Deus. É o caminho de cada povo ao crescimento pleno da espiritualidade. Alio-me ao exército de sonhadores que acreditam que dia haverá que não seremos cristãos, budistas, hinduístas, ou seja lá que nome inventemos, mas sim a grande raça humana-irmã, unida, filha de um único Deus. Deus-Pai que ensinou-nos que a amar ao próximo como amamos a nós mesmos é o grande segredo de dias melhores. Feliz Natal mesmo aos que, ainda, não acenderam a luz do Cristo em suas vidas.

Luísa Ataíde.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O SÁBIO E A LENDA


FERNANDO HENRIQUE DE PASSOS- Lisboa, PT


 De dentro da noite, o sábio olhou a estrela, Uma estrela igual a cada estrela, Das muitas a brilhar dentro da noite. Se um dia fosse dia em vez de noite, Se um dia as leis fossem mais claras, Tão claras como é clara a luz do dia…
 Por certo, sabia muito o sábio, Mas, quanto mais sabia, Mais escura a noite se tornava. Se um dia uma estrela se soltasse, Se do céu caísse sobre a Terra, Contra as leis que o sábio conhecia…
 E o sábio tentou esquecer as leis Que com tanto trabalho descobrira, Mas as leis eram já parte do seu corpo. Contudo, uma estrela igual às outras, Que o sábio avistara nessa noite, Sendo igual, parecia ser diferente…
Dentro da noite, o sábio recordou a lenda muito antiga que um dia ouvira a sua mãe: Uma estrela, uma gruta, um Salvador- Um Deus Menino! Se ao menos aquela estrela se movesse...
E a estrela começa a deslocar-se e o sábio segue-a, segue-a durante muitas noites. E a estrela detêm-se sobre a gruta, a mesma gruta de há cem séculos, a mesma lenda muito antiga...
 E a luz daquela estrela instaura o dia, o dia que o sábio nunca vira, nem mesmo sabia imaginar. E no centro do dia havia um Deus, um Deus Menino, o Deus de que falava a velha lenda...
 E a mãe do Menino olhava o sábio, e ao sábio parecia a sua mãe, a mesma a quem ouvira a louca lenda,  e o sábio chorou e, de joelhos sob um dilúvio de luz abrasadora, pôde enfim esquecer todas as leis...

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

MENSAGEM- MIRIAM CARVALHAL



Façamos de nossa vida uma extensão da noite de Natal,
renascendo continuamente em amor e fraternidade.
Natal, noite de alegria, Canções, festejos, bonança.
Que o seu coração e de sua família floresça em amor e esperança!



Um FELIZ NATAL E UM PRÓSPERO ANO NOVO!!!







sábado, 24 de novembro de 2012

AS SETE IDADES DA RAZÃO





Luiz Martins da Silva


I


Da primeira vez que se apresentou,

O mundo era simples, bom ou ruim,

Mas era ainda inteiro feito para mim,

Bem lambuzado, ora de prazer, ora de odor.


II


Quando libertado fui,

Das primeiras garras do egoísmo,

Alcei voo, mas ainda não voei,

Pregava-me à matéria espesso visgo.


III



Em seguida, veio com fervor propriamente a juventude,

E também aquela virulência de mudar o mundo,

Era ainda mistura, de alma pura e dilaceramento,

Entre a carne e a leveza; os vícios e as virtudes.


IV


Fez-se o homem, maduro, ainda que um touro,

Centauro imponente de fortaleza e gáudio,

Mas já uma refinada oitiva para a lira

Chamava-me para o que mais nos enleva de humano.


V


Veio essa era em que as heras se encravam pelos ombros,

Temerosas dos estranhamentos, quando a alma no espelho

Apresenta-nos o tempo feito vida estilhaçada na rasura

E a vaidade, no camarim, a nos pedir retoques em lápis-lazúli.


VI


Então, o medo do fim, uivo que de longe nos assombra,

Aproxima-se com as suas estações de climatério

A nos rachar os ossos, torcer as juntas, o pescoço, as nervuras...

Até nos transformar em alvas montanhas de doçura.


VII


Hora de exumar o que daqui ficou, na horizontal lavra,

Alquimia pretérita, síntese de fezes e de flores.

Bem que se ainda mais pudera, audazes ousaríamos

Ressurgir das cinzas, desafogar-nos da areia dos rios.


Fotografia- Ben Goosens

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

REFLEXÃO










A vida é, precisamente, a grande aventura de vivermos
mergulhados em tempos difíceis.
                                                              
                                                                                                              TERESA FERRER  PASSOS
 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

BULA PARA DOR DE ALMA

 



Luiz Martins da Silva

I

Para saberes se a tens,
Na sua própria agudez,
É não haver sobre o tátil
Sentido algum de nudez.
II

E se ninguém souber da rua,
De fato, não vale o chão.
Melhor sonhar com alguém,
Do outro lado da Lua.
III

Hão de lhe servir água pura,
Alvíssimo orvalho de irmã,
Ao se admirar um cálice,
Ornado de flores, talismã.
IV

Ah! Quanto de vida a saber
Das revelações de um mapa,
Linhas das mãos, pentagramas,
De um filme que está por vir.
V

Acordar, bambo e zonzo,
A três mil milhas depois,
Sino que ainda ressoa
Do toque solene de um anjo.

sábado, 3 de novembro de 2012

MATRIZ ESPIRITUAL





"O Espírito é herdeiro de si mesmo, de seus atos anteriores que lhes plasmam o destino futuro do qual não consegue evadir-se. Cada espírito é um arquivo vivo de suas vidas."


Do livro; Loucura e Obsessão, Divaldo  Pereira Franco

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

MEL PARA FORMIGAS

Se você quando jovem teve a sorte de viver em Paris,
então a lembrança o acompanhará pelo resto da vida,
onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante.
Ernesto Hemingway , do livro Paris é uma festa



Os Plátanos outonais que forram as praças que cercam a Champs Élysées nas manhãs de setembro são um tapete de folhas siennas que estalam sob os pés. Em que cidade as praças são douradas e as cúpulas e portões das catedrais nos gritam uma realeza que conhecemos apenas dos contos de Grimm. Estamos em Paris, a babel turística do mundo. Como distinguir um cidadão parisiense que vai para o trabalho, nos milhares de casacos escuros e botas de salto fino. Para nós, brasileiros em férias, eles representam a elegância de ser. Para eles, talvez leiamos a sorte por algumas moedas, talvez esbanjemos ouro. Na verdade somos a essência da mistura. Nem brancos nem negros, nem ricos nem pobres, e dizem que estamos na contramão econômica do mundo. Não que tenhamos tesouros, na verdade nosso grande segredo é o riso. O ruidoso riso de grupos de pessoas misturados à discrição e polidez de uma cidade. Senti isto, no trem que nos levava a Versalhes. Um grupo de músicos, não sei a nacionalidade, tocava instrumentos de sopro e corda, o que alegrava a viagem. Há quanto tempo eu não ouvia:

Ai, ai, ai.. ai.... está chegando a hora... o dia já vem raiando meu bem eu tenho que ir embora...

Cantamos como um grupo  colegial em férias. Provavelmente, pensei, enquanto o trem avançava: no Brasil, conhecemos a versão em português do folclore do mundo. Na verdade, descobri depois que  esta alegria melodiosa que dava a viagem um ritmo de infância festiva vem do México. Concluí na minha lógica latina que além das moedas ao chapéu estendido, poderíamos em agradecimento sorrir. De muitos passageiros do trem, os músicos não receberam uma moeda, um sorriso, um olhar.

Volto minhas recordações a esses dias em Paris. Nós nunca esqueceremos os jardins perfeitos em delicadeza e cores. O Grand e o Petit Palais, os corredores majestosos do Louvre. Nós nunca esqueceremos a elegância dos franceses e nossa estupefação à moça que pega o dinheiro e com a mesma mão escolhe o pão que nos entrega, sem lavá-las, sem a proteção de um guardanapo. Nós nunca esqueceremos as lojas cheias e os perfumes esplendorosos. O torcer do nariz quando eles percebem que você fala  francês com sotaque e a delícia que é jantar queijo e vinho na terra de Luis XV.

Estima-se que quinhentos mil brasileiros visitem Paris todos os anos. Por semanas deixamos nossas vidas  e atravessamos o oceano. Oxalá, a nossa simpatia e alegria contaminem as ruas históricas da capital turística do mundo. Que possamos compartilhar o que aprendemos nesses quinhentos anos de existência: superar as adversidades, e como dizemos  aqui: não desistir nunca. Ensinar e aprender fundem-se em compartilhar. Eis o verbo que resume a sabedoria da modernidade.

Luísa Ataíde