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segunda-feira, 21 de março de 2011

ENCARAR DE FRENTE



Teresa Ferrer  Passos

Mesmo que seja o infortúnio, o silêncio
mesmo que nada encontre, ou só a dor,
eu tenho de encarar de frente!
Mesmo que a solidão seja rainha,
mesmo que fique sozinha,
eu tenho de encarar de frente!
Mesmo que a dor se imponha ao ser,
mesmo que a cruel verdade possa ser,
eu tenho de encarar de frente
a terrível ilusão de nada ter!

Do livro- Asas no Poente

segunda-feira, 14 de março de 2011

ODE AOS BAÚS



               Luiz Martins da Silva

Temo abri-los,
E deles se esvaia,
Com o tempo embalsamado,
O encanto de acreditar que neles ainda haja
Algum encanto, aguardado.

Talvez, não os tema, propriamente,
Mas que se percam da mística
As pessoas que ocultamos no tempo,
Intangíveis... Antiquárias... Algumas
Ainda em roupas de crianças.
Outras, colegiais. Outras... E mais outras...
Perdidas da espiral de Aquarius...

Recuso-me aceitar que se tenham mudado:
De idade, de cidade,
De país e até da Humanidade.

Baús, essencialmente, baús.
Ou seja, herméticos. De preferência,
Com a fechadura enguiçada.
Quem sabe, assim, conservem-nos,
Como se ainda tivéssemos acesso:
À Ilha do Tesouro,
Às Viagens de Gulliver,
À Cabana do Pai Tomás,
Às criaturas de Monteiro Lobato,
À toda a coleção de Julio Verne,
E até mesmo à nossa mais pura e verdadeira
História de Robinson Crusoé.

sábado, 12 de março de 2011

ZU

z z z z z z z z z z z z z z z z z z z z z z z z z z z u...

 


zzzzzzzzzzzzsaudadezzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

sábado, 5 de março de 2011

BRILHO EMPRESTADO

               
Luiz Martins da Silva



Por que veio ao mundo torvelinho bravo e turvo,

A cobrir de cisco todo o véu desta manhã?

Suponho um areal de tristezas devolutas,

Suspensos rejeitos de ignotas estrelas-anãs.



Nenhum fato digno de manchete nos jornais;

Ninguém matou ninguém, um raro dia sem raiva;

Nenhuma criança foi pelos pais abandonada;

Nenhum ébrio de desprezo afogando-se em lágrimas.



Qual, então, a razão de insondável e sideral vertigem

A avoar-me da alma a ossatura descarnada?

Alinhamento repentino ao batente mais reles do astral.



Cismo rasteira inesperada de uma onda no repuxo,

Decaindo desde as mais remotas regiões do cosmos,

Na missão de recolher aqui humilde gota de cristal.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

OS GIRASSÓIS AZUIS- conto


É preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela”

                                                                                                                    Nietzsche
 


Da varanda do quarto vê-se uma pequena árvore sem galhos que nas madrugadas produz frutos. A claridade noturna sobre o fruto umedecido, que lentamente tomba em direção à proteção de cimento, age sonoramente. É inevitável acordar. Os primeiros anos eu achava tratar-se de um pé de damasco, esturricado e sobrevivendo cada dia um pouco. Todas as casas da vila são brancas e possuem jardins. Uns plantam rosas, outros margaridas, alguns deixam a grama estender-se como uma extensa cama verde. Recebi a casa com os girassóis ao fundo. Lembro-me da primeira vez que vi a luz do sol  alargando-se sobre as pétalas abertas ao vento. O perfume inundava toda a casa. Imaginei que ali cresceriam os doze filhos que eu pretendia ter. Paulo, Pedro, João, Marcos... todos os apóstolos que o Criador quisesse me confiar correriam entre os canteiros dourados.
           O jardineiro estava parado junto ao portão e esperava a resposta se eu ia querer seus serviços. Respondi a sua indagação com uma pergunta :


                                                - Eles sempre brilham assim?

O homem olhou para o campo amarelo como se  visse tudo pela primeira vez.
                                                - Os donos da casa foram embora por causa dos girassóis azuis.
                                                - Ahn...

Não quis alongar a conversa e disse não ter interesse nos serviços do jardineiro. Ter um estranho mexendo nos canteiros era totalmente desconfortante. Instruída com manuais de jardinagem, avental e ferramentas que eu nem sabia o nome resolvi cuidar do pequeno quintal. Só percebi a árvore seca na varanda muitos meses depois.
 
          Às tardes, sento-me no pequeno banco diante do jardim da casa e inevitavelmente lembro-me desta primeira manhã diante do oceano de pétalas. Havia um cavalo grande no fundo do quintal, que se espantou com a minha chegada e correu em direção à mata que contornava as casas da vila. Foi tempo suficiente para ver o rabo de e ouvir o trotar das patas sobre as pedras que completam a trilha à saída do terreno.

                                              - Que belo cavalo, a quem pertence?

O homem olhou para todas as direções e informou não ver animal algum. Foi quando  perguntei sobre o brilho das folhas amarelas. A partir daí chamei secretamente de Encantado o animal de crina e rabo farto. Histórias sobre a casa número um da vila ouvi muitas, durante toda a vida. Que o antigo dono corria as madrugadas entre os canteiros tentando evitar que as pétalas mudassem de cor. Fadado a missão de não deixar que o cavalo comesse as folhas amarelas, pois uma vez sem pétalas as novas folhas, segundo ele, nasceriam azuladas   - corria de um lado ao outro. Sempre que as noites de lua visitavam as casas da vila, o pobre homem sentava no meio do campo florido e chorava copiosamente. Restou, alguns anos depois, levado pela ambulância da cidade, amarrado e aos gritos. A família, em alguns meses, resolveu vender a casa.


No terceiro ano vivendo ali, recebi a notícia da chegada do menino. A espera foi curta pois a notícia, da semana seguinte, foi que ele não mais chegaria. Passei alguns meses sem cuidar do jardim, e entreguei-me a desilusão da orfandade de filhos. Estavam suspensos todos os projetos de pegadas pequenas entre os canteiros amarelos. A parede da sala de jantar é de vidro e pode-se ver o vento balançando as pétalas grandes. Eu segurava ainda a xícara de leite quente entre os dedos quando ouvi o barulho. Era o ruído abafado de um trotar forte vindo de fora, sim era um ruído. Atravessei a porta aos saltos e senti apenas o vento sereno sobre as flores. Tombavam lentamente: caule, folha e pétalas amarelas. Nenhum sinal do bicho.

Sentei-me nos degraus da varanda e percebi que era o chamado de volta à vida. Contudo algo mais me chamara e não  apenas o ruído do que não vira. Do degrau  olhei o que era uma grande bandeira dourada dançando em direção à mata. Senti alguém puxar a ponta do vestido. Era um menino pequeno, minúsculo como um menino polegar. Apontava as aves voando depois da mata. Sorria. Tinha o cabelo  liso e a pele morena. Passei a conviver com o menino algumas horas do dia. Tiago, chamei-o  assim - pertencia ao mundo do que poderia ser. Algo dentro de mim avisava todo o tempo que só eu o via. O menino não falava nunca, embora aparentasse quase quatro anos de idade, comunicava-se por gestos. Um dia,  dei-lhe uma caixa de lápis coloridos para que desenhasse -  apontei-lhe o jardim. Ele ignorou todas as cores: era um jardim, azul, branco e alguns tons de violeta. Tomei-lhe das mãos o desenho e senti uma pequena pressão do lado direito do ouvido.
          Anos depois os outros três meninos chegaram a casa. Continuei conversando com o pequeno Tiago diante do jardim quase todas as manhãs. Oito apóstolos deixaram de bater à porta nos anos seguintes. Tive sempre a impressão de vê-los enfileirados, acenando-me em direção à mata. Essa visão franciscana me acompanha sempre antes do sono. Mas, foi dado mais do que o previsto. Contrariando todas as previsões médicas três crianças estavam do lado de dentro da casa. O polegarzinho, ainda, dormia em algum ponto do jardim. Quando os meninos partiam, pela manhã, com mochilas transbordando livros, em direção à escola, ele corria entre os corredores dos quartos. Com o tempo passei a não comunicar aos membros da casa que o menino ainda habitava entre nós. Sossegaram medicamentos, terapias, sobrancelhas arqueadas e risos. Eu estava de volta a pia de louça suja como todas as mulheres da vila. Não há nada mais real e saudável do que uma casa por limpar. Ninguém nunca, contudo, tentou explicar o pé de damasco sem folhas, na varanda do quarto, que produz frutos todos os meses do ano: um único. Um após outro, carnudo e doce.

 Luísa Ataíde
óleo sobre tela- O Encantado (L.A )

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O SEMEADOR DE ESTRELAS

Existem momentos em nossa vida que por mais que queiramos não conseguimos enxergar o óbvio.

O Semeador de Estrelas é uma estátua localizada em Kaunas, Lituânia.

Durante o dia passa despercebida.


Mas quando a noite chega, a estátua justifica seu nome...



Gentilmente enviado por Jaciara Bezerra

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

HELENA SEM VÉU


"Vida limpa, mente aberta, coração puro, intelecto ardente, clara percepção espiritual, afeto fraternal para com todos os seres, presteza para dar e receber conselho e instrução, leal senso de dever para com o instrutor, pronta obediência aos preceitos da Verdade, corajoso suportar das injustiças pessoais, destemida declaração de princípios, valente defesa daqueles que são injustamente atacados e mira constante no ideal de progresso e perfeição humanos que a ciência secreta revela - eis a escada de ouro por cujos degraus pode o aspirante galgar até o Templo da Sabedoria Divina."

Sgundo os Mestres ,A Verdade sobre tudo que compõe o Universo é encontrada por discípulos certos, na hora apropriada - nem antes e nem depois. Falar de Helena Blavatsky é falar de rebeldia e audácia de tudo que refere-se aos ensinamentos ocultos, à Sabedoria inalcansável aos mortais comuns. Helena P. Blavatsky revolucionou o aprendizado do ocultismo e não satisfeita revelou os segredos ao mundo ,em seus livros,  numa época que os Iniciados consideravam ainda não estar a humanidade preparada  para tanto. Foi perseguida,  o que vez  sua biografia digna de enredo de  filme de ação: com direito a explosões, passagens secretas, enigmas e livros proibidos.
 Helena Petrovna Blavatsky  nasceu à meia-noite de 30 para 31 de julho de 1831, na Rússia. Sua história é repleta de fatos inusitados, pois a busca de conhecimento foi sem dúvida o lema primeiro de sua vida.  A sua família pertencia à classe dominante da Rússia,  sendo conhecida em toda a Europa. Helena contudo sempre rebelou-se aos princípios convencionais e criou os seus próprios princípios que viriam a revolucionar o mundo que a cercava. Helena tinha uma inata capacidade psíquica, demonstrava uma faculdade de comunicar-se com os habitantes de outras esferas ou mundos invisíveis e sutis.

Em 1851,  sob a orientação dos Mestres, aprendeu a controlar e dirigir as suas forças, participando, segundo ela mesma, de várias e extraordinárias experiências nos domínios da magia e do ocultismo. Foi para o Himalaia, estudou em mosteiros e com essa experiência escreveu o livro The Voice of Sitence (A Voz do Silêncio). Em 1873, viajou para os Estados Unidos. Publicou Isis Unveiled (Isis sem Véu), em 1877; e The Secret Doctrine (A Doutrina Secreta), em 1888, a sua mais importante obra. Ajudou a fundar a Sociedade Teosófica.  A instituição expandiu-se rapidamente por todo o mundo. A fase mais brilhante e produtiva de Helena Blavatsky foi a que se passou na Inglaterra entre os anos de 1887 e 1891. Suas idéias ganharam mais espaço a partir do século XX, onde ela apresenta uma nova visão da história, da origem do homem e do universo, da pluraridade dos mundos e dos estados da consciência. Ela passou aos planos superiores em 8 de maio de 1891.

"Há só uma passagem até ao Caminho; só chegando bem ao fim se pode ouvir a Voz do Silêncio. A escada pela qual o candidato sobe é formada por degraus de sofrimento e de dor; estes só podem ser calados pela voz da virtude. Ai de ti, pois, discípulo, se um único vício que não abandonaste ainda sobrevive; porque então a escada se abaterá e far-te-á cair; a sua base assenta no lodo fundo dos teus pecados e defeitos, e antes que possas tentar atravessar esse largo abismo de matéria, tens de lavar os teus pés nas águas da renúncia. Acautela-te, não vás pousar um pé ainda sujo no primeiro degrau da escada. Ai daquele que ousa poluir um degrau com seus pés lamacentos. A lama vil e viscosa secará, tornar-se-á pegajosa, e acabará por colar-lhe o pé ao degrau; e, como uma ave presa no visco do ardiloso caçador, ele será afastado de todo o progresso ulterior. Os seus vícios tomarão forma concreta e puxá-lo-ão para baixo. Os seus pecados erguerão a voz, como o riso e o soluço do chacal ecoam depois do sol se pôr; os seus pensamentos tornar-se-ão um exército e levá-lo-ão consigo, como um escravo cativo."

" Lembra-te, tu que lutas pela libertação humana, que cada fracasso é um triunfo, e cada tentativa sincera a seu tempo recebe o seu prêmio. As santas sementes que brotam e crescem invisíveis na Alma do discípulo, dobram como juncos mas não quebram, nem podem elas perder-se. Mas quando a hora soa, desabrocham."- A VOZ DO SILÊNCIO.

Nota: Mais  sobre a escritora em:  Helena Blavatsky 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

OS DIAS DO SENHOR



O veneno dos animais que se arrastam pela terra não os afastam de ser criaturas do Pai. A lama que forma-se pelas águas que deslizam sobre as casas , assim como as estações de extrema seca não tiram destes dias - serem Dias do Senhor. Os movimentos extremos da natureza, o veneno e a mordida dos animais são particulas do equilíbrio que necessitamos. Aceitemos o voo do pássaro e o arrastar da víbora, as tempestades e os dias de sol. São todos dádivas do Pai.

(sopro ao ouvido)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

VIOLETAS NA JANELA


Romance de PATRÍCIA

A janela estava aberta dando a visão bonita da parte direita do jardim. A janela tem um delicado beiral de madeira clara e nela estavam vários vasos de violetas. Vasos floridos, com violetas coloridas e lindas.Lembranças vieram-me à mente. Recordei dos vasos de violetas de minha mãe, que enfeitavam os vitrôs de nossa cozinha. Pareciam as mesmas.
—E são! — disse vovó — Anézia plasma com muito amor as violetas para voce. São réplicas das que enfeitam a cozinha do seu lar terreno.
—Vovó, como isto é possível? — indaguei admirada.
—Sua mãe muito lhe ama e tem muita saudade. Saudade esta que é um amor nãsatisfeito pela ausência do ser amado. Ela emana continuamente este amor e saudade porvocê. Ela não desejava ou esperava sua vinda. Está se esforçando para não prejudicá-la,assim ela canaliza seu carinho e oferta as flores a você. É uma maneira que ela encontrou para demonstrar seu amor. É uma oferta contínua. Com nossa pequena ajuda, de seus amigos aqui, estes fluidos foram e são condensados e aí estão: maravilhosas violetas.
—Vovó, por que a senhora diz meu lar terreno?
Você é amada. Cada coração que nos ama é como um lar a nos confortar. Poderia dizer ex-lar. Mas, par todos, ele será sempre seu. Não é a casa terrena na sua moradia física, mas um lar cheio de amor, onde é lembrada com alegria, é filha, irmã, tia e amiga e não a que foi.
Aproximei-me das violetas, sua emanação fortaleceu-me. Vieram com um recado:
“Patrícia, quero-a feliz! Amamo-la, amo-a! Não desanime, viva com alegria. Que estas violetas enfeitem onde você está, onde irá passar a maior parte do tempo”.
Aquelas florezinhas delicadas, coloridas saudavam-me.
Vovó me deixou sozinha.
Mamãe gosta muito de flores, cuida delas com carinho. Não poderia ter recebido melhor presente. Por alguns minutos fiquei a recordar acontecimentos, histórias dos vasos, dela plantando e regando as flores. De sua risada alegre, de seu carinho especial.
Senti-me fortalecer. Sorri contente. O amor forte e sincero de minha mãe acompanhava-me protegendo como sempre, dando-me coragem e alegria. Amor de mãe é como um farol a iluminar seus entes queridos e a perfumar suas existências. As violetas encantavam-me, não só enfeitariam a janela do meu quarto, mas a janela do mundo novo que defrontava a minha frente.
Violetas na janela...

Do livro- Viioletas Na Janela- Psicografia de Vera Lúcia  Marinzeck de Carvalho

sábado, 22 de janeiro de 2011

CANÇÃO

Cecília Meireles

No desequilíbrio dos mares,

as proas giram sozinhas...

Numa das naves que afundaram

é que certamente tu vinhas.



Eu te esperei todos os séculos

sem desespero e sem desgosto,

e morri de infinitas mortes

guardando sempre o mesmo rosto



Quando as ondas te carregaram

meu olhos, entre águas e areias,

cegaram como os das estátuas,

a tudo quanto existe alheias.



Minhas mãos pararam sobre o ar

e endureceram junto ao vento,

e perderam a cor que tinham

e a lembrança do movimento.


E o sorriso que eu te levava

desprendeu-se e caiu de mim:


e só talvez ele ainda viva

dentro destas águas sem fim

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

SONETO DE FEL







            Luiz Martins da Silva


Lá se foi a ex-donzela, que era hora,

Rendeu-se às garras gumes de algum ogro,

Híbrida de mau agouro e peixe já sem guelra,

Questão de único aceno e raras lágrimas.



Lá se foi como na gravura de um Goya,

Transmigração de agrura e rima tosca,

Sono da razão que engendra monstros,

Morcegos e corujas... escondo o rosto.



Lá se foi da juventude a cor da íris,

Pois vê-la contra o breu não foge a fera,

Chorar em cinza é verter náusea em amarelo.



Há dias de não ser mais que um macho mocho,

Grisalhos elos que se acorrentam ao pescoço

E a paisagem que era jardim agora é ocre.

domingo, 9 de janeiro de 2011

INSPIRAR


"Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la."

C.  LISPECTOR

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

FELIZ ANO NOVO





“Se o Belo é o Bem”, corramos a traçá-lo no caminho da inquieta humanidade."



Com renovação de projectos e o Amor a guiar-nos, sem perder tempo, sem olhar para trás, sem cairmos nos obstáculos, ou se tivermos mesmo de cair, que não nos falte o gosto de sermos levantados!
Boa passagem de Ano!


FERNANDO PASSOS E TERESA PASSOS (LISBOA- PT)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

PARA NÃO SERMOS UMA ILHA

Bonecos De Neve


Que o Natal nos seja um presente, todos os dias.


Em Dezembro, ao Sul da América a neve nunca cai sobre os telhados das casas

Não há lareira nos lares e os pinheiros tropicais são árvores multicores.

Os bonecos de neve moram nos shopings

Gorduchinhos estáticos sob a fina chuva de isopor.

Os meninos apontam os dedos e o riso às cidades de quase neve

Os pais resgatam os pacotes de dentro das lojas

Guardam neles o natal que nunca tiveram.



Em Dezembro, ao Sul da América só a chuva cai sobre os telhados das casas

As estrelas descem à Terra e iluminam as varandas

E enchem de luz os corações dos homens.

Natalino, o Espírito retorna às ruas

Preenche de sons de sinos quintais e avenidas

Recolhe das portas as doações de paladar e cor

E salva o Natal dos que sonham com fartura e riso.



Em Dezembro, ao sul do Sul da América, cai um pouquinho de neve

Há lareiras e pinheiros coloridos

Há canções com estrelas dentro.

Há risos e meninos encantados

Espelhado na íris o último expresso da Infância.

Perdoamos a intenção comercial do caminhão iluminado

E recolhemos apenas o que ele sopra de magia e luz em nossas vidas.



Aqui, ao Sul da América há cantatas e luzes nas praças

Enchemo-nos com o vento da fé para os outros meses do ano

Agradecemos cada dia dado.

Que a esperança, hóspede contumaz de nossas casas

Corra os mares e terras distantes

E nos faça apenas filhos do mesmo planeta

Que pede respeito e paz.


L.A



terça-feira, 23 de novembro de 2010

O DESTINO DE ANN WARD ( conto)



O maior de todos os tesouros da infância é a fotografia que guardamos dela. Quando o crepúsculo silencioso dedilhar seus últimos acordes, talvez compreendamos porque ganhamos aquela casa, aquela família, aqueles dias. Relembrar as notas distantes de um canto esquecido de infância e o momento que recebemos a caixa, repleta de fundos secretos,  chamada: Destino.


Londres. Segunda-feira, 6 de julho de 1772.


Quando o coche deslizou sobre o primeiro arco da ponte do Rio Tamisa naquela manhã de verão, a menina olhou as embarcações espalhadas e julgou que provavelmente estava vendo a paisagem pela última vez. Desde que recebera a notícia da mudança para a casa dos tios na cidade de Bath, seu coração sombreara-se como gotas de cinzas turvam um jarro de água cristalina.
Naquela manhã, Átila, a Águia Real, como sentinela entre as torres da Abadia de Westminster era uma presença imperceptível. A ave de rapina buscava no burburinho de idas e vindas: o alvo. Na altura do quarto arco, as rodas de ferro pararam bruscamente e George, o condutor, comunicou -lhe com poucas palavras, que seria necessário afastar-se por alguns instantes.

– Não saia daí Ann,  eu voltarei rápido.
Como deixar uma menina de sete anos sozinha sobre uma ponte? O que o meu pai vai pensar disso, Emily? Indagou à boneca recostada ao banco.

Sinto muito... Foi o que pensou enquanto seus pés desciam em direção ao movimento lá fora. Deu alguns passos sobre a calçada e foi empurrada por um movimento brusco que por pouco não lhe arrancou o chapéu da cabeça. A menina fez um giro rápido para trás, a tempo de observar o pássaro grande coberto de penas verde metálico em contraste com os olhos amarelo claro. Por breve instante teve a impressão que a ave a olhou no fundo dos olhos. Segurou o grito de espanto e instintivamente levou as mãos à cabeça. A Águia seguiu em voo ascendente em direção às torres da Abadia, contudo, concluiu a curva e continuou o movimento, agora, de volta à ponte. O Pássaro descia em grande velocidade e foi possível perceber o volume que trazia nas garras. A inglesinha encolheu-se à procura de abrigo -  foi quando ouviu o baque sonoro da caixa arremessada sobre o teto do coche. A ave soltou o pacote e seguiu em voo para leste. Antes de seguir em linha reta, abriu as asas em compasso sobre as embarcações, e tomou finalmente a linha do horizonte. As pessoas em volta não pareciam se importar com a cena, a não ser a mulher parada na mureta da ponte.

– É seu o presente, disse a mulher, empurrando a caixa com a bengala em direção ao chão. Ann estendeu os braços e aparou a caixa de madeira.

– A senhora acha que a caixa foi deixada para mim?

– Possivelmente. É seu aniversário?

– Daqui a alguns dias eu e a Emily faremos aniversário.

A mulher parecia não ouvir a menina, absorta em localizar, em algum ponto da claridade do céu, um sinal do pássaro. Um alvoroço de imagens atropelava-se em algum lugar de suas lembranças. A cena pertencia a uma manhã perdida no começo do século sobre a antiga ponte de Londres: um pacote arremessado sobre seus pés. A velha senhora olhou as nuvens, as pessoas em seus muros secretos, a brisa empurrando a vida como as águas do rio.

Ann Oates Ward, a menina que em alguns dias completaria oito anos, abriu a trava da tampa e viu o que aparentava ser uma caixa vazia. Puxou com as pontas do dedo a cobertura e deparou-se com um envelope e algumas folhas de papel arrumadas ao lado de hastes finas de metal, terminadas em grafite. No envelope estava seu nome escrito, o que tirava todas as dúvidas do direito de propriedade sobre o objeto. De volta ao coche, Ann olhou a mulher sobre a ponte, os barcos em seu vai e vem infindo e segurou com força o presente contra o peito.

Ao fim do dia , quando a tarde estendia sobre a estrada seus últimos raios de luz, a condução atingiu as imediações da cidade de Bath e a sonoridade do Rio Avon. A menina ouviu o ruído  da água e apoiou o queixo entre os braços diante da janela, observando a espuma que escorregava entre as pedras de um rio que tinha pressa. À entrada da cidade havia uma ponte em construção e a carroça atreveu-se por caminhos estreitos e sinuosos. Filas de trabalhadores de volta aos lares seguiam ao lado das rodas de ferro e curvavam um aceno à passagem do carro. Enquanto a tarde recolhia a luminosidade, ainda foi possível ver um grande semicírculo de casas, em construção, que  lembrava a pintura do Coliseu romano. A cidade pareceu-lhe um formigueiro revirado.

Os portões da casa de Tomas Bentley abriram-se à passagem do coche com todas as lanternas do jardim acesas. A pequena hóspede, sua boneca e a caixa de madeira saltaram em direção aos degraus da entrada da casa. O ruído noturno se reduzia a pequenos pontos sonoros, minúsculos piados agudos que rodeavam as árvores e escorriam com a brisa úmida.

Não foi possível dormir na primeira noite e poderia dizer quantos riscos havia no telhado do quarto que descia em declive sobre a pequena cama que, agora, lhe pertencia. Escondeu a caixa atrás do armário de roupas e corria a ela nas tardes silenciosas. Um fato curioso descobrira: a caixinha, às vezes, lhe parecia funda, ou, por outras, totalmente estreita. Às vezes sua mão encontrava um compartimento desconhecido, como quando descobrira os pequenos pincéis na parte lateral. Correu os dedos em todo contorno e deparou-se com pequenos potes de pigmentos para pintura. É uma caixa de ilusionismo, concluiu. Passava os dias na biblioteca  procurando nos livros respostas sobre encantamentos e magias. Olhava o jardim da janela do quarto e a chuva que molhava as folhas largas dos canteiros bem cuidados. Olhava a lua abrindo seu lume sobre o telhado  e imaginava o riso dos meninos que moravam em alguma casa vizinha. Tinha sempre a impressão de ouvi-los e abria a janela às estrelas e aos pássaros noturnos. Ouvia o ruído dos arreios e frenagem de carruagem, e descia aos tropeços a escada em direção à porta. A visita paterna era como a caixa de tintas.

Era uma casa de paredes altas e moradores que dormiam cedo. Entre os corredores , Ann Ward construía um mundo de pensamentos sombrios e personagens invisíveis. Quando tudo parecia-lhe um imenso calabouço abandonado lembrava-se das cores da caixa, das folhas em branco e das hastes em grafite. O que a Águia quis lhe dar, naquela manhã sobre a Ponte de Westminster? Indagava-se a menina olhando as prateleiras da biblioteca que cresciam em direção ao teto. Extensas prateleiras repletas de livros antigos sobre as lendas celtas da Bretanha: uma terra destinada a ter inúmeros filhos enfeitiçados pela escrita.

Todas as respostas que teve que decifrar não estavam nos livros da casa, nas histórias que sua imaginação tecia olhando as estrelas da janela do quarto. A menina Ward, que, mais tarde, se transformaria na escritora Ann Radcliffe, construiu os primeiros enredos de suas histórias nos corredores sombrios da casa dos tios. Nos textos de suspense que anos depois seriam vendidos pelos livreiros além das terras bretãs,  havia as passagens secretas que só os olhos atentos podiam perceber. À menina, de imaginação prodigiosa, sobre a ponte de Westminster, ou no enredo de um sonho ao dormir, foi dada a capacidade de pintar com as palavras, de jogar um facho de luz sobre calabouços e sótãos. De falar de poesia e cores escondidas nas passagens secretas de uma caixa de tinta.

Luisa Ataíde




À memória de Ann Ward Radcliffe ( 1764-1823)


NOTA: Ann Radcliffe, escritora inglesa, nasceu em Londres.
 Primeiro Livro da escritora: em 1789 -. The Castles of Athlin and Dunbayne. O notável sucesso do livro definiu seu gosto por castelos medievais, heroínas acorrentadas, noites sombrias. Publicou dois anos depois - The Sicilian Romance e The Romance of the Forest. Suas obras mais marcantes seriam publicadas em 1794 e 1797, respectivamente: The Mysteries of Udolpho e The Italian.  Ainda no século XVIII a escritora traçou seu estilo audacioso para a época. Ann traçava enredos paralelos, iniciava a narrativa pelo final , depois contava origem da trama, - tudo como é feito no cinema moderno. Daí ser considerada a percussora do realismo fantástico. Ann Radcliffe desaparece em 1823 do cenário literário entre brumas e mistérios tornando-se uma lenda eterna da literatura que retrata o que há de mais profundo na alma humana: o medo.
 Fonte de pesquisa e Dados biográficos: - Obra póstuma da autora: Gaston de Blondeville na Corte de Henrique III v. 1  e o Livro : A vida de John Jebb. e Senhora  de Udolpho