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sexta-feira, 3 de abril de 2026

NO CORAÇÃO DE BODHISATTVA GUAN-YIN- CONTO

 

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'Se   buscas a saaúde física e psíquica de forma integral, aprendes a amar. ''( Irmã Sheila)
        


          Possivelmente, a mehor fotografia e nossa fragilidade estampa-se nas imagens dos telhados sob luz noturna: folhas secas e pequenos corpos de aves mortas. Nos prédios altos, os outdoors e parabólicas assemelham-se a Samurais petrificados cujas lanças avançam em direção à escuridão do céu. Assustadoramente inerte não protegem as almas que deixa sob os lençóis os corpos adormecidos e voltam às terras outrora habitadas. Contudo, paira sobre o planeta a vigilia dos espíritos abnegados que deixam cair sofre os aflitos as pétalas da miericórdia. 
          Lembro-me da aparente normalidade daquelas manhãs de Fevereiro ante do grande dilúvio. Quando as primeiras ondas invadiram a sala, discutíamos na mesa da cozinha, se  aulas começariam naquela segunda-feira pós carnaval.
         
             -Acho que não tem aula não mãe, deve começar segunda-feira.

          Cruzamos a porta em direção ao elevador e não sentimos os pés já cobertos pela água. Lá fora o trânsito apresentva-se calmo para um dia de semana. Não havia nenhum engarrafamento no trajeto ao colégio e agradeci mentalmente aos céus por não começar o dia com buzinas e freadas bruscas. Quando cruzamos o grande portão da entrada da escola e a moça nos estendeu o ticket do estacionamento, considerei que estavamos adiantados para a primeira aula. Talvez um equívoco do relógio nos utimos dias de horário de verão. A estranheza da moça ao adolescente uniformizado no banco ao meu lado foi completada pela comunicação que as aulas só começariam na semana seguinte. Fiz o retorno com o carro e observei o olhar cristalizado de Yuzo. Não houve a partir daí nenhum comentário o meu monólogo sobre a nova escola e a responsabilidade que isto significava. O menino estava a anos-luz de distância das linhas que corriam o asfalto embora observasse, em silêncio, o traço alongando-se no chão.
         A grande tempestade que subitmente arrastou o telhado e destruiu parte da casa, só foi percebida algumas semanas depois. O menino já não se dedicava aos livros e as explicações vinham mono ssilábicas e ásperas.  Yuzo não se via parte da realidade cotidiana de estudar, alimentar-se rir por motivos simples. Preso na grande sala escura , nutria-se da teia de melancoia que tecia ao seu redor. 
         
          Do lado de fora estavam a Família, a Escola, o Vento no cabelo. Eu via nitidamente a água avançar em direção aos ombros. Em alguns momentos os olhos pediam socorro, o que demonstrava que bucava uma saída. De onde estávamos seguíamos os procedimentos básicos de salvamento: Remédios, terapia e Fé.
          
         As extensas horas de sono compunham a realidade vegetativa dos seus dezesseiss anos. Havia vozes dentro dele, elas gritavam ordens de desilusão e morte. Não havia domínio sobre os pensamentos. A mente inqueta e febril ordenava-lhe que pulasse em direção ao abismo. As vozes ecoavam em sua cabeça e ele acreditava no que ouvia. É real, dizia.
         - Não é real, sao apenas pensamentos que você não consegue dominar. é sua voz interior que adoeceu. Só
          
         Os meses seguintes nos deram de presente uma ausência que parecia definitiva. Não conseguia imaginá-lo voltando ruidoso e alegre, depositando o skate na entrada da porta. Não conseguiaa ver, da varanda, o cabelo escuro balançando ao vento e a queda seguida de risada sonora. Esses movimentos pertenciam aos outros meninos da vizinhança. Os veículos escolares paravam, pela manhça, na entrada do prédio. Somavam-se mais mochilas amontoadas no assoalho do carro. Eram os outros, sempre os outros.
          
         O primeiro diagnóstico que recebemos era uma palavra feminina e grane- interminavelmente grande. Eu não ousava repeti-la. Na aridez que o destino sinalizaava, percebi um pequeno galho verde que nascia entre as pedras. Os questionamentos incessantes sobre a vid, a alma, a razão porque sofremos, que só deveriam apresentar-se lentamente nos anos seguinte, estavam diante dele, e exigiam resposta. Eu não sabia em que parte do deserto etva o copo de água necessário, então propuz uma busca juntos. Lemos tudo que nos foi possível chegar às mãos. Yoga, Filosofia, Literatura. Líamos e meditávamos o Evangelho do Cristo. Um dia ele me comunicou que decobrira a razão de todos os martírios.
          -Eu fiz mal a muita gente. Muitas pessoas sofreram por minha causa.
          Dei-lhe por reposta o silêncio. Não podia confudi-lo com minhas convicções sobre as multiplicidades das existências e que nossas almas trazem a marca indelével de nossos atos. Ali, havia apens um adolecente em lágrimas. Aquele era o seu momento de constatação e mudança. 
          
          Quase dois anos depois daquela manhã de fevereiro que seus olhos cristalizaram-se nas linhas do asfalto e ele se desconectou de sua juventude, Yuzo sorri com serenidade. Não existe mais o adolescente de riso alto e pressa, Pais, irmãos e amigos sinceros uniram-se em respeto e colaboração, ele subiu do subterrâneo que afundara. Com suas própri mãos voltou à luz do sol.
         
         Hoje, Yuzo cultiva a harmonia do bem, o respeito ao corpo e a natureza. Adotou um alimentação saudável, corre todas as tardes no parque e não precisa de antidepressivos. Voltou aos estudos e quer ser Veterinário. Considera-se adepto aos ensinamentos do Mestre Jesus sem nenhuma denominação religiosa. Ainda faz muitas indagações e não dispensou a Terapiaa. O caminho pleno, sabe, ainda não foi conquistado. Canta e ri como qulalquer rapaz de sua idade. Não, canta todos o dias. Matriculou-se numa escola de canto. 

L.A



Nota- Texto escrito em 2010 em torno do susto do diagnóstico da Esquizofrenia dois anos antes. Certezas?  Que aprendemos todos os dias. 

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