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sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

HERANÇA DE LÁGRIMAS, a História de um livro.


Um dia perguntaram-me: Se você tivesse que salvar um livro, que livro salvaria para toda a eternidade? Ao que respondi: Estou salvando o livro HERANÇA DE LÁGRIMAS. Escrito em 1871 pela escritora portuguesa Ana Augusta Plácido, que por ter contrariado a moral da época, abandonou o marido e atirou-se nos braços do romancista Camilo Castelo Branco, terminou em Cárcere. O escritor também fora preso na Cadeia da Relação do Porto, ao norte de Portugal. 

 ANA AUGUSTA PLÁCIDO escreveu textos para teatro, traduções de romances, colaborou em jornais e almanaques, mas publicou apenas dois livros. O primeiro, escrito ainda na prisão, publicado em 1863-LUZ COADA POR FERROS.

 Eis a história do segundo livro: Passados alguns anos, já em Seide, encomenda o escritor ao amigo, o Conde de Margaride, a edição limitada e não comercial do livro que viria a chamar-se Herança de Lágrimas.O amigo contrata a editora Vimaranense, que terminou por fechar as portas, e cerca de cinqüenta livros restam encaixotados no sótão da casa aonde habitara o Conde. Entretanto, o prédio mais tarde, acabou por tornar-se mercearia e alguém achou uma mina de cartuchos para enrolar açúcar e café. Quando a caixa de livros chega às mãos da Família, restavam poucos exemplares completos e em boas condições. Essas informaçoes  nos é contada em MEMÓRIAS DO TEMPO DE CAMILO, por Alberto Pimentel. Alguns biógrafos acreditam ter chegado à Família meia dúzia de livros. O certo é que passado um século e meio, possui a CASA DE CAMILO um exemplar e, segundo o Museu, em estado de conservação que requer cuidados. 

 Em Setembro de 2005, em um grupo de estudos, tive a nítida impressão de ver a foto de um homem de idade e óculos pincenê. A imagem fotográfica estava impressa numa parede branca. Como se alguém tivesse desenhado. Similar a como eram as fotografias no Sec. XIX. Detive-me por alguns instantes diante dela. Eu não conhecia o rosto e nenhuma das pessoas presentes conseguia ver a imagem: grande e preciso, estava um rosto impresso na parede. O fato das pessoas presentes na sala não verem a fotografia me incomodou. Procurei não pensar mais sobre o assunto. 

Era um grupo de estudo e fiquei de ler o Livro MEMÓRIAS DE UM SUICIDA para ser comentado posteriormente. Embora alguém presente na sala tenha aconselhado-me a ler outro livro, pois este era considerado muito denso, insisti nessa escolha e iniciei a leitura durante a semana. A lembrança do rosto acompanhava-me vez por outra. Comparando fatos narrados no livro com detalhes biográficos do escritor, na internet, fiquei conhecendo a vida pessoal do protagonista. O livro foi escrito por Ivone Pereira, ditado pelo espírito do escritor, e narra a trajetória da alma deste após o desencarne, por tiro que tirou-lhe a vida. Eu  indaguei-me que estava na pesquisa há mais de uma semana e não o conhecia. Ao buscar por uma imagem na internet deparei-me com a mesma fotografia. Sim, era o mesmo rosto que eu vira, abrir-se a minha frente. E este rosto era Camilo Castelo Branco, o romancista. 

Continuei, agora com maior empenho, a remontar a estória biográfica de um dos maiores escritores da língua portuguesa do Século XIX. Na minha busca em sebos e livrarias, chegou-me às mãos em 2006, um exemplar da primeira edição do segundo livro de Ana Plácido - HERANÇA DE LÁGRIMAS. Continuei a busca bibliográfica e mergulhei no cotidiano da famíia, da histórias de fugas do casal e tantos outros enredos reais e romanescos. Os livros que li: O Segredo de Ana Plácido de Teresa Bernardino, o Romance do Romancista de A. Pimentel e muitos outros acabaram por revelar-me que o pequeno livro escrito por Ana, que eu possuía,  era uma raridade. Eu deveria levar o livro a Portugal, foi a única explicação que encontrei para ter visto a fotografia do escritor. E assim fiz.

Não sei se efetivamente salvei um livro. A obra foi doada em 24 de Setembro de 2007 à Biblioteca Nacional, em Lisboa posto que o MUSEU CASA DE CAMILO já possuía um exemplar, aquele requerendo cuidados. Retornei a Portugal o que lhe pertencia. Salvei possivelmente o último exemplar perfeito, da primeira edição do livro Herança de Lágrimas. 

Os vestígios de Ana e Camilo em mim serão sempre como digitais do espírito. Provavelmente temos laços dos confins da eternidade. Que personagem real minha alma foi na vida de dores e lágrimas destes escritores oitocentistas? Um filho, um bom amigo, um desafeto? Aquele livreiro que negou-se a negociar uma edição, mesmo diante dos percalços financeiros da família? Nunca vamos saber. Provavelmente nada disso é importante. O que sei, é que quando alguém disse que eu fora escolhida para a entrega do livro, pensei que isso incluiria gastos e que de algum modo eu deveria me preparar para as despesas. Então, inscrevi-me no Concurso Literário Rachel de Queiroz. Escrevi uma narrativa ficcional sobre a Camilo - CEMITÉRIO DE ESTRELAS e um poema inspirado em Ana Plácido. O conto falava das consequências para os personagens que viram-se órfãos, após a morte do romancista e sobre o incêndio que ocorrera na casa alguns anos depois. Coloquei toda minha alma no conto. Foi necessário filtrar a mensagem, escrevi e o reescrevi muitas vezes, pois era difícil passar ao leitor todos os sentimentos prévios que envolvia a narrativa. Uma amiga querida me ajudou. O conto foi premiado, mas premiação em dinheiro foi dada à Poesia MEMÓRIAS BRANCAS em homenagem à escritora. O prêmio monetário facilitou-me a viagem ao Velho Mundo para cumprir a tarefa de entregar à BNP o exemplar do pequeno livro. Paguei as despesas da viagem e, claro, aproveitei para conhecer a Torre Eiffel. Paris? È linda!  Ulah, lah!!!

 Nota;  FOTOGRAFIAS
O livro foi adquirido de um camelô na rua da Lapa no Rio de Janeiro, empilhado no chão misturado a tantos outros livros antigos.  Contudo, não era o último capítulo desta narrativa, entregar o exemplar do livro. Em 2013, chega-me ás mãos um exemplar do primeiro livro da escritora LUZ COADA POR FERROS.  Neste exemplar há uma fotografia da autora colada na primeira folha. Lembro-me que a primeira vez que contactei o museu em SEIDE, para falar de um  livro oitocentista, a primeira pergunta feita foi se havia uma fotografia na primeira página.  Esse livrinho com mais de 160 anos resistiu ao tempo e deve ir para o Museu do Escritor.
Após todos os acontecimentos da viagem, continuei a pesquisa sobre a escritora e sempre causou-me curiosidade porque ela usava tantos pseudônimos. Entre eles descobri ANDRÉ VIDAL DE NEGREIROS . Ela alegava que, na infância,  em uma aula de História , conheceu o personagem e se encantou pela figura no livro, pela biografia, pela pessoa de André Vidal. Paixão ás primeiras linhas.  Fiz uma pesquisa sobre ele e cheguei a um personagem da História do Brasil/Portugal fascinante.  Mergulhei nesse atalho como se encontra uma passagem  na parede e se chega a um novo reino. Havia uma Ana na vida de André Vidal. A brasileira ANA PAES, a Ana de Holanda. Isto deu um romance em gestação que juro terminar. 
Por fim quando estive em visita ao Museu Casa de Camilo em 20 de setembro de 2007, deparei-me com a fotografia. A mesma que eu vira abrir-se gradualmente à minha frente. Desceu-me um arrepio na alma. O problema é que as vezes minha alma dá saltos.