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domingo, 20 de junho de 2010

O ROUXINOL E A COTOVIA-Prêmio Delicatta IV - GRUPO EDITORIAL SCORTECCI , categoria conto- 1º lugar




O ROUXINOL E A COTOVIA


Toda esta noite o rouxinol chorou
Gemeu, rezou, gritou perdidamente !
Alma de rouxinol, Alma da gente
Tu és,talvez , alguém que se finou !

Alma Perdida- Florbela Espanca




Noturno


Todas as noites, despido da farda do sono, nosso espírito sobe a escada que leva ao sótão em busca da caixa. Todas as noite procuramos incessantemente na caixa o velho álbum de fotografias. Uma vez aberto o livro, procuramos a chave que abre as outras portas. Na roleta de centenas de fechaduras e pilhas de chaves entrelaçadas, tentamos mais uma vez abrir a porta certa para um campo verde, um céu ensolarado: uma casa grande, povoada de risadas e cortinas brancas.

Salinas, sul do Espírito Santo, 1928.


Chamam-me Magnólia. Meu pai deu-me esse nome de flor porque amava o perfume delas. Pegava-me no colo e lá do alto eu ouvia seus lábios movendo-se:

- Minha florzinha cheirosa!

Se pudesse, eu escreveria tudo que vivo num diário e depois de findo o dia, voltaria ao passado , estendida sobre uma cama com lençóis branquinhos. Interromper o escovar dos cabelos e deixar as palavras se acomodarem sobre os travesseiros. Uma a uma, escolheria as letras e elas iriam florescer como um jardim. Isto se eu pudesse . Não fui à escola e no quarto não há camas. Estendem-se pelo chão esteiras secas e gastas. Algumas têm as pontas desfiadas e fazem cócegas no nariz. Enquanto todos dormem espero o sono que ronda o quintal lá fora. È noite escura e a coruja pia. Os sapos fazem coro e acendo a lamparina. Milhares de patas cruzam minha cabeça como um turbilhão de cavalos correndo em direção ao rio. Posso sentir o riscar das patas na terra em todos os sentidos. Curvo-me em direção à lamparina e com a parte fina do pente risco a cabeça dolorida. As feridas voltam a doer e dezenas de pontos negros descem em direção ao fogo. Estalam quando queimam e o cheiro inunda o quarto. Sonho com um cabelo limpo , cheio de ondas que descem até os ombros. As ondas brilham e cheiram à alfazema. Sonho com um quarto e uma cama macia, e nele só eu durmo. Sonho com minha mãe de volta e broa de milho novamente no café da manhã. Lembro-me do dia que ela desceu os três degraus da entrada da casa , arrastando uma mala grande, sem olhar pra trás. Espalhou os filhos na vizinhança e bateu a porta . Nunca deciframos Adelina e seus segredos.

Todas as moças dormem. Coçam incessantemente a cabeça durante o sono , mas nada as acorda. O trabalho na roça é árduo : doem-me os braços e os dedos dos pés. Por que estou lembrando, agora, do homem fardado que parou o cavalo na porta da casa? Rapaz alto , pele queimada pelo sol , um dente dourado do lado esquerdo. Todos os homens deveriam ter dentes de ouro e relógio no braço... Ele procurava alguém , tenho certeza. Olhou pra dentro da casa e pro bordado que eu tinha sobre as pernas. Faltam poucos meses para o casamento e muitos sacos a serem bordados. À noite, as costas doem e o trabalho não rende ; é melhor costurar antes do escurecer. Em Setembro , Abílio retorna , estou certa, e direi adeus a todo o sofrimento. Digo em pensamento adeus a casa e a essa família que não pertenço. Oito moças negras dormem espalhadas pelo chão. Foram minhas irmãs quando a ausência materna levava-me para trás da casa, para chorar escondido. Dividimos a água da moringa e a tapioca esturricada sobre a mesa, o  banco da carroça e as orações da missa. Aprendi a cantar e cerzir, a raspar mandioca e espremer a puba. Tudo o que aprendi, aprendi com elas. Cada uma traz um tesouro guardado. É o tesouro da virtude lhes diz a mãe. Os olhos das moças brilham como espelhados num poço fundo. À noite ? Elas desencantam e como estátuas tombam , dormem pesado sobre as esteiras nuas.

Salinas foi tragada pelo mar, 2008.

Numa das noites em que a única moça branca da casa não conseguia dormir porque os pés doíam, houve repentinamente um ruído forte entre a cerca e a porta. A janela foi arremessada para o fundo da parede e o homem entrou . A moça reconheceu o homem fardado e faltou-lhe voz para gritar. As irmãs dormiam e não se mexeram com o arremesso da janela. O homem com botas longas entra no quarto e sem pedir licença a arrasta para o escuro da noite. É o rapaz fardado, é ele. Tem os olhos graves e por breve instante seus olhares cruzam. Sente o corpo jogado para o alto e as mãos do homem a segura pela cintura.

A luminosidade é pouca e a moça tenta se soltar do nó que os braços lhe fazem em volta do corpo. O cavalo corre pela trilha ladeada de galhos e ela lembra-se dos sacos por bordar dentro do caixote sob a mesa. Sente a proximidade do homem e o abraço não é macio como o do noivo. O estremecimento do peito é medo. Na curva da ponte vê a casa afastando-se como um fantasma fincado no escuro. Os dias, a casa e a vida sonhada correm rápidos sobre o rio ao lado do cavalo. O animal pula as pedras e curva pro lado oposto ao rio. Sente a respiração forte do homem sobre os ombros. Sente uma saudade antecipada de tudo que a mão já não alcança.

Quando o noivo voltou a moça há meses não vivia na casa, e os padrinhos lamentaram a fuga e a falta de notícias. Souberam  que foram para a serra e passaram por lá duas semanas. Algum tempo depois houve o casamento na igrejinha antiga, aquela que fica depois da ponte e o rio.Deixou todos os sacos bordados no caixote do quarto e nunca veio buscá-los.

- Então ela não conhecia o soldado?

- Viu pela primeira vez, naquela manhã.

- Por que ele fez isso?

- Vingança. O tal Abílio dormiu com a mulher dele enquanto ele estava no exército.

- Mas ele casou com a moça!

- A intenção era levá-la pra longe e desmoralizar o noivo. Ele não se aproximou dela enquanto estavam na casa da serra. A moça disse ao soldado que não poderia voltar à cidade, duas semanas depois, como se nada tivesse acontecido.Disse ainda que o noivo não ia aceitá-la de volta, só restava-lhe casar com ele ou morreria de vergonha.

- O noivo sabia a razão de tudo?

- Sabia. Tanto que nem a procurou. No mesmo dia partiu pra cidade e não mais voltou. Teve medo do soldado.

- E como foi a vida dela? Preciso escrever o final da história.

Escreva que viveram de cidade em cidade, como se ele, o soldado,  procurasse alguém. Tiveram muitos filhos e dormiam em quartos separados. A moça tornou-se , de vez, uma mulher da terra . Uma mulher de braços e coração forte: dessas com as unhas dos pés encravadas e tamanco de madeira sob o calcanhar rachado . Não mais sonhava com quartos claros e cama macia. Nunca aprendeu a ler, mas tinha uma sabedoria que não se aprende nos livros, floresce na alma como um jardim. A mãe voltou numa manhã de sol e ela abriu-lhe a porta e os braços. O noivo transformou -se em uma mancha que foi apagando-se antes do sono, como uma foto desbotada. Se a moça, ao dormir, subia ao sótão das lembranças e procurava a chave, nunca vamos saber. Se a moça corria pelos campos verdes e encontrava a casa iluminada e o seu amor lá dentro, também não saberemos. Morreu numa cama de hospital, cercada de tubos e lençóis brancos. Finalmente os lençóis.
L.A

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Nota da autora: Obrigada, Luíza Moreira , coordenadora do projeto e a Editora Scortecci, por acreditarem no meu trabalho e ajudarem a imortalizar um pouco da história de Magnólia Constância, minha avó, que ensinou-me a ver o mundo com compreensão e respeito.
Obs: a festa foi linda. Conheci pessoas interessantes , alegres e cheias de vida. Parabéns a todos os participantes!






PALAVRA FINAL DE LUÍZA MOREIRA:

SEGUE A LISTA DOS AUTORES QUE SE DESTACARAM NO PROJETO DELICATTA IV

1º LUGAR CONTO
LUISA ATAÍDE
"O ROUXINOL E A COTOVIA"

2º LUGAR CONTO
STEFANNI MARION
" ESQUINA"

3º LUGAR CONTO
LEIDE BORGES
" A VINGANÇA"

1º LUGAR CRÔNICA
ADALBERTO ANTÔNIO LIMA
"PERCALINA VERDE-DRUMMOND"

2º LUGAR CRÔNICA
REBECA XAVIER
"O SORRISO DA MOÇA"

3º LUGAR CRÔNICA
ANTONIO PEREIRA DE SANTANA
"GERAIS DE MINAS"

1º LUGAR SONETO
TULIO RODRIGUES
"MAIS FELIZES"

2º LUGAR SONETO
HILTON CORDEIRO
" LÚGUBRE SACRIFÍCIO"

3º LUGAR SONETO
FABIO DAFLON
"SONETO DA INFIDELIDADE"

1º LUGAR TROVA
FRANCISCO BORGES
" VEREDAS"

2º LUGAR TROVA
JANE ROSSI
" CLARA E GEMA"

3º TROVA
MATHEUS FANTELLI STELINI
" TROVAS TRISTES E ENGRAÇADAS"

1º LUGAR POEMA LIVRE
JF LISBOA
" A PAIXÃO EM DEZ PÉS"

2º LUGAR POEMA LIVRE
SOAROIR DE CAMPOS
" VERSOS VERDES FRITOS"

3º LUGAR POEMA LIVRE
HELENITA SCHERMA
" DESTINO"


DESTAQUE - PERSONALIDADE 2009
MARILENE TEUBNER

CONJUNTO DA OBRA
MARCELO ROQUE.

FOI UM FINAL DE SEMANA INESQUECÍVEL PRA MIM!

ESPERO TER A SUA PARTICIPAÇÃO NO PROJETO DELICATTA V, CUJAS INSCRIÇÕES JÁ ESTÃO ABERTAS COM LANÇAMENTO EM AGOSTO DE 2010 NA 21º BIENAL DO LIVRO DE SÃO PAULO!

BEIJO

LUIZA MOREIRA.

terça-feira, 8 de junho de 2010

ANJOS

 LUIZ MARTINS DA SILVA

Quem se eu gritasse, me ouviria [...]  entre as ordens
Dos anjos?
Rilke, Elegia I

Pois não é que são ao todo 1.655.722?
Ou, segundo o Talmude, 11.000 para cada filho de Jeová.
Então, algum deles me ouviria?

Tantos são os estafetas do Correio Celestial!
E eu, aqui, titubeando, mando ou não
Este bilhete escrito em pétalas de lágrimas.

Se nenhum deles veio em socorro de Duínio,
Acaso voariam rasante, raspando ao pé de mim?
Acaso, algum deles me velaria?

Outrora, incontáveis, agora, estaria por perto um só,
O da Guarda? Ou até ele, ocupado, como os outros,
A trombetear, de elevados nimbos, a vitória do Bem?

Queria enviar um pedido, qualquer um dos mensageiros,
Dentre as Ordens, Legiões, Potestades,
Mas, acanha-me pedir. Mereceria ainda mais?

Queria rogar-lhes, mas não ouso.
Temo que na descida percam as suas asas,
Ou se desencantem, em estátuas de louça.

sábado, 5 de junho de 2010

OS HOMENS AZUIS DO DESERTO

Entrevista realizada pelo jornalista catalão Victor M. Amela com o Tuareg Moussa Ag Assarid.


Não sei minha idade. Nasci no deserto do Saara sem documentos.Nasci num acampamento nômade tuareg entre Timbuctú e Gao, ao norte do Mali. Fui pastor dos camelos, cabras, cordeiros e vacas que pertenciam a meu pai. Hoje, estudo Administração na Universidade de Montpellier, no sul da França. Estou solteiro. Defendo os pastores tuaregs. Sou muçulmano, mas sem fanatismo.
Que turbante bonito! 
É apenas um tecido fino de algodão: permite cobrir o rosto no deserto quando a areia se levanta e, ao mesmo tempo, você pode continuar vendo e respirando através dele.
Sua cor azul é belíssima… Ela é a razão pela qual chamam a nós, tuaregs, de homens-azuis: o tecido aos poucos desbota e tinge nossa pele com tons azulados.
Como vocês produzem esse intenso azul anil? 
Com uma planta chamada índigo, misturada a outros pigmentos naturais. O azul, para os tuaregs, é a cor do mundo.
Por que? 
É a cor dominante: a do céu, a do teto da nossa casa.
O tuareg Moussa Ag Assarid, acaba de publicar, na França: "Não existe engarrafamento no deserto!"

Quem são os tuaregs? 
Tuareg significa “abandonado”, porque somos um velho povo nômade do deserto, um povo orgulhoso: “Senhores do Deserto”, nos chamam. Nossa etnia é a amazigh (berbere), e nosso alfabeto, o tifinagh.
Quantos vocês são? 
Cerca de três milhões, a maioria ainda nômades. Mas a população diminui… “É preciso que um povo desapareça para que percebamos que ele existia!” denunciou certa vez um sábio: eu luto para preservar o meu povo.
A que ele se dedica? 
Ao pastoreio de rebanhos de camelos, cabras, cordeiros, vacas e asnos, num reino feito de infinito e de silêncio.
O deserto é mesmo tão silencioso? 
Quando se está sozinho naquele silêncio, ouve-se as batidas do próprio coração. Não existe melhor lugar para quem deseja encontrar a si mesmo.
Que recordações da sua infância no deserto você conserva com maior nitidez? 
Acordo com o sol. Perto de mim estão as cabras de meu pai. Elas nos dão leite e carne, nós as conduzimos onde existe água e grama… Assim fez meu bisavô, meu avô e meu pai… E eu. No mundo não havia nada além disso, e eu era muito feliz assim!
Bem, isso não parece muito estimulante… Mas é, e muito. Aos sete anos de idade, já permitem que você se afaste do acampamento e descubra o mundo sozinho, e para isso lhe ensinam coisas importantes: a cheirar o ar, a escutar e ouvir, a aguçar a visão, a se orientar pelo sol e as estrelas… E a se deixar conduzir pelo camelo; se você se perde, ele lhe conduzirá onde existe água.
Esse é um conhecimento muito valioso, não há dúvida… Lá tudo é simples e profundo. Existem poucas coisas no deserto, e cada uma delas possui grande valor.
Assim sendo, este mundo e aquele são bem diferentes, não é mesmo?
Lá, cada pequena coisa proporciona felicidade. Cada roçar é valioso. Sentimos uma enorme alegria pelo simples fato de nos tocarmos, de estarmos juntos! Lá ninguém sonha com chegar a ser, porque cada um já é.
O que mais o chocou ao chegar pela primeira vez na Europa? 
Ver a gente correr nos aeroportos. No deserto, só corremos quando uma tempestade de areia se aproxima. Fiquei assustado, é claro…
Corriam para buscar suas bagagens… 
Sim, devia ser isso. Também vi cartazes mostrando moças nuas: por que essa falta de respeito para com a mulher?,
Perguntei-me… Depois, no Hotel Íbis, vi uma torneira pela primeira vez em minha vida: vi a água correr… e tive vontade de chorar.
Que abundancia, que desperdício, não é mesmo?
Até então, todos os dias da minha vida tinham sido dedicados à procura d’água. Até hoje, quando vejo as fontes e chafarizes decorativos que existem aqui, sinto uma dor imensa dentro de mim.
E por que? 
No começo dos anos 90 houve uma grande seca, os animais morreram, nós adoecemos… Eu tinha uns doze anos, e minha mãe morreu… Ela era tudo para mim. Contava-me histórias e ensinou-me a contá-las bem. Ensinou-me a ser eu mesmo.
Que aconteceu com sua família? 
Convenci meu pai a deixar-me frequentar a escola. Todos os dias eu caminhava quinze quilômetros para chegar até ela. Até que um professor arrumou uma cama para eu dormir, e uma senhora me dava comida quando eu passava em frente à sua casa. Entendi: era minha mãe que me ajudava…
De onde veio essa paixão pelos estudos?
Dois anos antes, o rally Paris-Dakar passou pelo nosso acampamento, e caiu um livro da mochila de uma jornalista. Eu o apanhei e devolvi a ela. Mas ela me deu o livro de presente e disse que ele se chamava “O Pequeno Príncipe”. Naquele instante prometi a mim mesmo que um dia seria capaz de lê-lo…
E você conseguiu…
Sim. Foi assim que consegui uma bolsa para estudar na França…
Um tuareg na universidade! Do que mais tenho saudade é do leite de camela. E do fogo de madeira. E de caminhar descalço sobre a areia tépida. E das estrelas: lá, nós as admiramos todas as noites, e cada estrela é diversa da outra, como cada cabra é diversa da outra. Aqui, à noite, vocês ficam vendo televisão.
Sim. Na sua opinião, qual é a pior coisa que existe aqui? 
A insatisfação. Vocês têm tudo, mas nada lhes é suficiente. Vivem se queixando. Na França, passam a vida queixando-se. Vocês se acorrentam por toda a vida a um banco por causa de um empréstimo, e existe essa ânsia de possuir, essa correria, essa pressa. No deserto não existem engarrafamentos, sabe por que? 
Porque lá ninguém quer passar à frente de ninguém!
Relate um momento de felicidade intensa que você viveu no seu distante deserto. Esse momento ali se repete a cada dia, duas horas antes do pôr-do-sol: o calor diminui, o frio da noite ainda não chegou, homens e animais retornam lentamente ao acampamento e seus perfis aparecem como recortes contra o céu que se tinge de rosa, azul, vermelho, amarelo, verde…
É fascinante. E então… Esse é um momento mágico… Entramos todos na tenda e fervemos a água para o chá. Sentados, em silêncio, escutamos o barulho da água que ferve… A calma toma conta de nós… As batidas do coração entram no mesmo compasso dos gluglus da fervura…
- Que paz… Aqui vocês têm o relógio; lá, temos o tempo.

terça-feira, 1 de junho de 2010

A ESPIRAL DIVINA


“Deus nos concede, a cada dia, uma página de vida nova no livro do tempo. Aquilo que colocarmos nela , corre por nossa conta” - Chico Xavier

Imagine, pense, imagine sempre -

O melhor veículo do equilíbrio é o silêncio. O silêncio dos movimentos corporais e o gradativo desacelerar do pensamento. É sómente o silêncio que nos coloca diante do espelho de nós mesmos. O salto profundo no lago da Consciência. Se para nós ocidentais é difícil este não movimento corporal e mental , existem inúmeros mecanismos , inúmeros veículos de transportes. O mais simples é o salto no espaço inaudível, absolutamente sem som. Manter-se simplesmente à deriva. O movimento antirotatório da mente em volta do corpo em pontos luminosos já é o início da vivência de outros planos dimensionais. O Começo de um necessário contato. Na maioria das pessoas essa experiência cessa gradativamente, se não há exercício, se não há continuidade. Se pudéssemos visualizar o movimento num ser multidimensional , teríamos a visão dos pontos luminosos da consciência crescendo gradativamente até uma velocidade absoluta. Quem seria esse ser com dimensão além das nossas dimensões ordinariamente simples? Antes de tudo foram e são pessoas que olharam ao redor e viram mais que o eixo do seu mundo individual. Conseguiram olhar o mundo com uma visão aérea, e tudo se tornou pequeno e sem importância: nossos desejos incessantes de conquistas , nossas dificuldades cotidianas feitas de buscas inúteis. A visão aérea é o domínio pleno do amor ao semelhante em todas as dimensões. Por isso não há para essas pessoas nenhum tipo de apego material, maso simples apego ao outro. A aceitação do outro tornando-se o único objetivo de vida: compreender e aceitá-lo. É o grande segredo de ser feliz, nos ensinou Chico Xavier, também Zilda Arns , Mahatma Gandhi e outros que colocaram o próprio eu em segundo plano. A próximidade cósmica com o Criador só é possível passando pela ponte do amor incondicional. Ponte que nos parece absurda e impossível: temos nossos apegos preferenciais. Não há como chegar à aceitação do semelhante se não for por um processo lento de aprendizado. De busca, de conscientização, de exercício de amor diário. Iniciando no lar, no elevador , no trânsito, no trabalho, na escola, no vento, na volta ao lar. É possível sermos a grande Família Humana. É necessário ser.

L.A