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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

RECEITA DE ANO NOVO



Carlos Drummond de Andrade

"Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre".

Gentilmente enviado por Keila Abreu

sábado, 12 de dezembro de 2009

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A CAIXA ( CONTO)


A coisa mais incompreensível do Universo é que ele é compreensível”

A. EinsteinBartolomeu era apenas uma fagulha transparente tremulando a alguns metros do chão. Às vezes, eram necessários dias de reabastecimento e a fagulha tornava-se apenas um ponto fixo com leve pulsar de luz, como qualquer estrela. . O rapaz nunca estava satisfeito com isto e gostava de ter pernas, braços e rir alto; o que não constituía nenhuma norma absoluta e assim o jovem Bartolomeu era visualmente: apenas o jovem Bartolomeu.

Subiu a escadaria do prédio e em pé ao lado do círculo, formado pelas colunas , olhou o salão que estendia-se alguns metros abaixo. O piso era transparente e com alguns desenhos geométricos em riscos. Olhou demoradamente o  vidro e não pôde distinguir nenhuma forma. A partir dali, o rapaz sabia que seria necessário retornar ao seu formato de luz e calmamente tirou os sapatos. Desceu os degraus em direção ao salão e seus pés escoaram, como água, pelo risco do desenho. Em alguns minutos havia apenas o salão vazio. Em volta das colunas pequenos canteiros de flores . As flores não emitiam nenhum perfume, zuniam baixinho o que parecia uma melodia. As flores indagavam-se por que aquele ponto luminoso não gostava de ser um ponto luminoso e era aquela figura comprida e estranha. O único barulho era a canção das flores.

No corredor, sob o piso de vidro, o rapaz recebeu a claridade do ambiente e misturou-se a ela. Outros pontos, como ele, deslocavam-se em todas as direções. Tentou observar formas e reconhecer rostos. Eram os velhos companheiros de sempre, de volta ao Hangar de pouso, entre um voo e outro. Alguns acenavam do outro lado, numa via de retorno. Bartolomeu via o ambiente como seu olho estava acostumado a ver. Observou que voltara a morfologia corporal e sentiu-se bem assim. Para alguns era um ponto de luz, para outros era o jovem magricela de cabelos desalinhados.
- Bartolomeu, temos notado o quanto tem sido difícil para você este trabalho em Hospitais e Clínicas.

_ Bem, na verdade isto de ficar atravessando paredes de quartos e não poder falar com as pessoas me deixa um pouco inquieto; mas , não se preocupe, eu como todos os outros quero um dia ser Querubim, e o que for necessário fazer, estarei às ordens.

- É necessário que você experimente todo o tipo de serviço, é uma maneira de descobrir sua verdadeira natureza. Ultimamente, percebemos que você tem usado a mesma aparência por muito tempo e então saiba que ela é sua definitivamente.. Se visto por alguém, será assim com este corpo e rosto.

- Nenhum problema Senhor, mas o que tenho mesmo que fazer?

- Preparar as caixas, Bartolomeu. Preparar as caixas e enviá-las a esta lista de endereços, antes do fim do ano.

_ O Senhor está  dizendo que eu fui promovido? De arrebanhador de moribundos a programador de destino? Não,  não se aborreça com minhas palavras, eu, na verdade,  sempre quis fazer este trabalho.

- Hum... é compreensível.

_ Não... bem,  desculpe, eu quero dizer que é melhor a esperança que a fatalidade.

_ Nenhum problema Bartolomeu, aqui estão as instruções neste envelope. Você prefere ler, não é mesmo? Provavelmente, se vivesse com sua forma luminosa, as instruções seriam absorvidas mais rapidamente.

_ Não quero ser rebelde, mas ainda não  me acostumei com isto de ouvir sem ter ouvidos, falar por todos os poros, de deslocar na velocidade da luz. Ah, eu ultimamente gosto de usar minhas habilidades primárias. Andar passo a passo, ver e sentir as pedras e plantas, ter um pensamento de cada vez.

_ Você sabe o que isto significa não é Bartolomeu?

_ Sei sim .

_ E que isto pode acontecer de uma hora para outra?

_ Eu sei, e quero apenas estar pronto,

O rapaz recebeu o envelope e o colocou no bolso da camisa. Abraçou o companheiro e saiu apressado. De volta, ao caminho estreito, observou os outros que chegavam, e acenou-lhes. Se pudesse, ia até eles e contava as novidades. Essa necessidade impetuosa precisava ser contida.
Sabia que os desejos que voltavam a aflorar em seu interior era prenúncio de viagem próxima e tinha a impressão que a coragem caminhava ao seu lado ,como uma irmã mais velha. Podia sentir as mãos sobre os ombros.

Quando retornou ao quarto, abriu o envelope e leu as instruções com toda a atenção possível. Sobre a mesa, havia centenas de caixas e deveria organizá-las. Algumas tinham mais de trezentos compartimentos, outras um pouco menos. Enquanto preparava as caixas, lia as instruções como uma bula de remédio, e indagava-se em que parte do universo elas chegariam. Os compartimentos tinham paredesflexíveis e quem recebesse a caixa poderia fazer dela o que quisesse: alongar ou diminuir a quantidade das divisões. Havia tinta para colorir e porções curativas. Um saco com pequena quantidade de substância, que conforme a mistura feita poderia promover danos irreparáveis, deveria ser colocado no centro da caixa. Redigiu um aviso de alerta em vermelho e colou sobre o pequeno pacote. Todas as caixas tinham um álbum de fotografia vazio , um rolo de corda e tesoura. Entendera que possivelmente era para construir ou desfazer laços conforme a vontade do receptor. Fechou a primeira caixa e abriu o envelope com o adesivo de numeração. Todos os números dentro do envelope eram iguais e não conseguia entender isso. Por que todos os números eram sempre o mesmo número? Dois mil e dez deve ser um número significativo para esta remessa, pensou. Colou o adesivo sobre a caixa e observou sua primeira tarefa cumprida. Olhou o papel colado na parede. O papel informava que seu prazo escoaria em sete dias. Às vezes, sentia-se fatigado e cada vez menos conseguia um relaxamento profundo e transmutar-se em fagulha luminosa. Era necessário um desligamento por horas: era o sono, lembrava-se disso de repente, como se fosse acostumado a dormir todos os dias.

O jovem aspirante a Querubim trabalhou até o limite das forças. O cansaço o desconectava de sua natureza espiritual e o levava em direção a um caminho novo. Restava-lhe ainda a última caixa e, pelo papel colado à parede, mais vinte e quatro horas. Suspirou aliviado, pelo menos poderia trabalhar a última caixa com calma e até ler o nome do destinatário. Prendeu a bula entre os dedos e leu . Era um nome de mulher: Analice era um nome que ouvira em algum lugar.

- Analice... murmurou andando pelo quarto.

Tentou lembrar-se por um instante o que o nome significava para ele. Revirou os pensamentos inutilmente. O endereço também não era conhecido. Colocou devagar os pequenos pacotes nas divisões da caixa. Havia um par de sapatinhos de lã a ser colocado ao lado da substância perigosa. Nunca vira um sapato tão pequeno e macio. Depositou o pacotinho com cuidado. Uma ponta do laço do sapato prendeu-se no botão da camisa e não conseguia soltar. Sentiu que o sapatinho começava a desfazer-se e isto exigia um cuidado maior. Já era madrugada e olhou para a janela de vidro do quarto ao lado da cama. Não poderia danificar nada que destinava-se a caixa. Não poderia cortar o pedacinho de lã preso à camisa. Pediu ajuda. Não sabia ao certo a quem dirigia o apelo. O céu curvava-se para dentro do quarto e espalhava as estrelas sobre sua cabeça. Havia a disposição da Nebulosa. Distinguiu os pequenos globos que formavam um anel no céu escuro e o planetinha pulsando a sua frente É o destino da caixa, pensou. È para lá que a caixa vai. Tentou olhar o planeta mais de perto e olhou o endereço entre os dedos. Distinguiu um bairro tranquilo: a rua ladeada de árvores. No fim da rua, uma casa de edificação antiga. No jardim uma árvore enfeitada com pequenos globos coloridos. No quintal ao lado havia uma casa semelhante. Sobre os degraus uma mulher olhava as crianças que corriam ruidosas por todo lado. A mulher apenas observava. Bartolomeu buscou a figura feminina por alguns instantes. Não reconheceu o rosto. Não reconhecia nada em volta. A mulher trazia nas mãos um pequeno lenço . Tentou olhar mais de perto o lenço que ela segurava com força. O tecido tinha uns pontos de linhas soltos na superfície. Não é um tecido próprio para lenços, pensou. Tentou ver mais de perto, em um exercício extremado de deslocar-se de onde estava. Era um lenço igual ao pequeno sapato que ele tinha preso ao botão da camisa. Recuou devagar e segurou o pano , com cuidado o desvencilhou do botão.
Lembrou-se do pequeno par de sapatos: estava lá, em algum lugar de sua memória. Sonhara com ele, brincara com ele e subitamente a mulher o tirara. Lembrou-se de tudo como se observasse uma fotografia em movimento. As imagens corriam pelo quarto, como um rio descendo sobre caminho de pedras. A mulher negara-lhe o par de sapatos. Precisou voltar pra casa e não sabia o caminho de volta. Vagou alguns dias por lugares desconhecidos. Sentiu dor e cansaço. Via seu corpo deitado no chão. Olhava, agora de longe; a mulher e o pequeno tecido azul. Não sentia amor ou ódio. Detinha-se apenas no olhar da mulher em direção às crianças da casa ao lado. Tentava segurar, de algum modo, as lágrimas que nasciam nos olhos dela. Queria gritar que a caixa com o sapatinho estaria de volta em alguns dias e que bastava querer abri-la novamente. Bastava querer. Fechou a caixa com delicadeza e colou o adesivo sobre ela: 2010 era o seu número de sorte. O sapatinho estava lá, protegido em algum compartimento e a mulher o encontraria. Deixou a caixa sobre a mesa e adormeceu. O cansaço tomou conta do corpo e antes de sumir na escuridão do sono, sentiu estar diminuindo , diminuindo e voltava a ser um ponto luminoso a alguns metros do chão. Sentiu-se conduzido para fora e misturou-se ao tabuleiro de estrelas. Era a viagem de volta. Não queria respostas se a viagem seria curta ou longa. Ia ser parte da mulher e um dia voltariam juntos. Por muitos ou poucos anos seria visto como Bartolomeu, o menino magricela de cabelos desalinhados. Sua natureza de Querubim fundia-se na natureza de menino. Poderia caminhar e observar as pedras e plantas. Cantar como as flores e a água do rio e... rir alto, o mais alto que seu riso quisesse.
Luísa Ataíde
Luísa Ataíde

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

ESCUTA INCONDICIONADA



JEAN KLEIN


Sempre que a escuta é intencional, a tensão surge, porque um resultado é antecipado, e este resultado é um produto, uma projeção da memória. A escuta incondicionada não tem fim na mente e, nesta abertura, todos os sentidos são receptivos. A audição não está mais confinada aos ouvidos; ao contrário, todo o corpo escuta com uma sensitividade sempre-expansiva até que você se ache na própria escuta. Um outro modo de dizer isto é que você não escuta mais, pois você é audição.
A consciência da quietude, do silêncio, pode surgir primeiro na ausência de objetos, como freqüentemente acontece na meditação. Mas, mais tarde, ela é mantida tanto na presença quanto na ausência. Esta consciência, que é escuta, é o fundamento de toda aparência, de modo que, mesmo quando em atividade, você é consciente da atividade e do ser.
A consciência de ser não é uma percepção, pois o ser nunca pode ser objetivado. Nós não podemos ter consciência de dois objetos ao mesmo tempo; não podemos ter dois pensamentos simultaneamente. Mas podemos ter consciência simultânea de nossa existência fenomênica e nossa presença, de nosso ser. Este não-estado aparece espontaneamente no instante em que cessa o produzir e o projetar.
Qualquer tentativa para produzir este não-estado na verdade nos submerge profundamente na relação sujeito-objeto. Há momentos em que alcançar o silêncio pode ser um benefício transitório, visto que uma ausência temporária de pensamento produz um estado calmo. Mas, permancer nesta relação sujeito-objeto, a qual é tudo que a ausência de pensamento é, exclui você de um silêncio mais profundo. A presença de um estado vazio pode inclusive ser um obstáculo; sendo energia em movimento, não pode ser continuamente sustentado. O verdadeiro silêncio não é nem movimento nem energia, mas quietude.

Editora Advaita

sábado, 28 de novembro de 2009

UMA PÁGINA PARA DOIS




Fotografia- Eduardo Poisl

"E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares

Do Belíssimo Blog: http://edupoisl.blogspot.com/



(repassando selo recebido do blog @na rede)

domingo, 15 de novembro de 2009

Poesia Linda

EMMANOEL - Psicografado por  CHICO XAVIER


 

Alma gêmea de minha'lma...

flor de luz de minha vida....

Sublime estrela caída...

das belezas da amplidão

Quando eu errava no mundo...

triste e só, no meu caminho,

Chegaste, devagarinho,

E encheste-me o coração....

Vinhas na bênção das flores

Da divina claridade,

Tecer-me a felicidade

Em sorrisos de esplendor!!!

És meu tesouro infinito,

Juro-te eterna aliança,

Porque sou tua esperança,

Como és todo meu amor!

Alma gêmea de minha'lma,

Se eu te perder algum dia...

Serei tua escura agonia,

Da saudade nos seus véus...

Se um dia me abandonares,

Luz terna dos meus amores,

Hei de esperar-te, entre as flores

Da claridade dos céus."
 

(Gentilmente enviado por  SUIA MACIEL)

sábado, 14 de novembro de 2009


“ (…) Apesar de todas as amizades, sempre na vida estamos sozinhos; o que é mais grave, mais doloroso, exactamente como o que é mais belo, passa-se apenas connosco. Entre um homem e outro homem há barreiras que nunca se transpõem. Só sabemos, seguramente, de uma amizade ou de um amor: o que temos pelos outros. De que os outros nos amem nunca poderemos estar certos”.


(Agostinho da Silva, “Sete Cartas a um Jovem Filósofo )

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

SONATA PARA UMA INSÔNIA




Luis Martins da Silva

Sete notas musicais,
Sustenidos e bemóis,
Deram-se em partituras,
Inclusive as atonais.


Mas melodia de chuva
Na madrugada inventada...
Quem a compôs monocórdia,
Mas de tão doce lavada?


Solfejo de uma nota só,
Tão somente si e si,
Ou se algum perdido dó
De brisa toca no vidro...


Percussão de xilofone,
Assovio de cupido,
Silêncio de grilos conspícuos,
Vez de pingos o alarido.


Alaúde, bojo mudo,
Toque de caixa somente,
Fofas notas sobre folhas,
Já salivação de húmus.


Por baixo se esgueiram gueixas,
Lascivas lesmas salientes,
A sair lambendo o mundo,
Agora, que o tempo deixa.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Bons livros, Bons Companheiros

"Sei que existe uma razão para todas as coisas. É possível que no momento em que ocorre um determinado acontecimento não tenhamos nem o discernimento nem a visão antecipada para compreendermos a razão, mas com o tempo e paciência tudo  virá a se esclarecer."






Brian Weiss-    Muitas Vidas, Muitos Mestres, Editora Pergaminho

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A POTENCIALIDADE PURA


DEEPACK CHOPRA


A primeira lei espiritual do sucesso, a lei da a potência pura, afirma que este é nosso estado essencial. Essa é a consciência pura, campo de todas as possibilidades e da criatividade infinita. Nosso corpo físico, o universo físico- tudo que existe no mundo material -, provém do mesmo lugar: de um campo de percepção silenciosa e imóvel, a partir do qual tudo é possível. Não há separação entre esse campo energètico e nossa essência espiritual, nosso Eu. Esse campo constitui nosso próprio Eu. E quando sabemos que nossa natureza essencial consta de pura pontencialidade, nós nos alinhamos com o poder que manifesta tudo no universo.
O conhecimento de quem realmente somos nos dá a capacidade de realizar qualquer sonho que tenhamos, porque o mesmo campo que a natureza utiliza para criar uma floresta, uma galáxia ou um corpo humano também pode efetuar a realização de nossos sonhos. Tudo é possível no campo da potencialidade pura, pois ele é a fonte de todo poder e inteligência, e da infinita capacidade de organização.
Portanto, o sucesso na vida depencde de sabermos quem realmente somos. Quando nosso ponto de referêmcoa interno é nosso espírito , nosso verdadeiro ser, experimentamos todo o poder dele. Quando nosso ponto de referência interna é o ego ou a autoimagem nos sentimos separados de nossa fonte, e a incerteza dos acontecimentos cria medo e dúvida. O ego é influenciado por objetivos externos ao Eu - circunstâncias , pessoas e coisas. É fortalecido pela aprovação alheia. Quer controlar, porque vive com medo. Mas o ego não é o que nós realmente somos: ele é nossa máscara social, o papel que interpretamos.

As necessidades de receber aprovação, de controlar as coisas e de exercer poder externo se baseiam no medo. Esse tipo de poder não é o poder da potencialidade pura, o poder do Eu, ou poder verdadeiro. O poder do Eu é poder autêntico porque se apoia nas leis da natureza , e vem do autoconhecimento. O poder do Eu atrai coisas que desejamos para nós: ele magnetiza as pessoas, as situações e as coisas para apoiarem nossos desejos. Esse apoio das leis da natureza é o estado de graça . Quando estamos em harmonia com a natureza, criamos uma ligação entre nossos desejos e o poder de levá-las à materialização .
Como você pode vivenciar a lei da potencialidade pura ? Uma forma de fazê-lo é através da prática do silêncio e da meditação. Significa desligar o mundo e reservar tempo para simplesmente ser. Na Bíblia há a expressão "Fique em silêncio e saiba que eu sou Deus". O silêncio é o primeiro requisito para a manifestação de nossos desejos, porque no silêncio você se connecta com o campo de percepção pura e de infinito poder organizador.

Imagine-se jogando uma pedrinha em um lago tranquilo e observando a formação de ondulações . È issso o que você faz quando entra em silêncio e introduz sua intenção.Mesmo a mais tênue provoca ondulações através do campo da consciência universal que conecta seu desjo com todas as outras coisas. Esse campo pode orquestrar para você uma infinidade de detelhaes. Mas se sua mente for como um oceano turbulento, você pode explodir uma bomba e não notar nenhuma alteração.

Praticar o não julgamento é outra forma de experimentar a lei da pontencialidade pura. E qundo você está constantemente julgando as coisas como certas ou erradas, boas ou más, acaba criando turbulência em seu diálogo interno. Essa turbulência restringe o fluxo de energia entre você e o campo de potencialidade pura. No espaço silencioso entre os pensamentos existe um estado de consciência pura, um silêncio interior que liga você ao verdadeiro poder. Por intermèdio da prática do não julgamento você silencia e a mente tem acesso a sua inquietude interior.
Outra forma de ter a experiência da potencialidade pura é passar momentos em contato com a natureza. Pela observação você começa a sentir a harmonia entre todos os elementos e força de vida. A pródiga manifestação de abundância no universo é uma expressão da mente criativa da natureza. Se você ligar na mente da natureza, terá acesso ao campo da potencialidade pura e criatividade infinita, e espontaneamente receberá pensamentos criativos.

Seja num curso de água, numa floresta, numa montanha ou no mar, a ligação com a inteligência da natureza lhe traz uma sensação de união com todas as form as de vida, dando -lhe suporte para entrar em contato com a essência mais íntima de seu ser. Essa essência está repleta de magia e mistério. (...)


Do Livro- As Setes Leis Espirituais do Sucesso- DEEPACK CHOPRA, Editora Best Seller.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A MORTE NÃO É NADA


HENRY SCOTT HOLAND

"A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do Caminho.
Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês, eu continuarei sendo.
Me dêem o nome que vocês sempre me deram, falem comigo como vocês sempre fizeram.
Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo do Criador.

Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos.
Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.
Que meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra ou tristeza.

A vida significa tudo o que ela sempre significou, o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora de seus pensamentos, agora que estou apenas fora de suas vistas?
Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do Caminho...
Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela como sempre foi."

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

OUVIU-SE A LUA CHORAR




Este pequeno conto,

OUVIU-SE A LUA CHORAR,

para o André, no dia do seu aniversário, 12 de Outubro
com um abraço de parabéns,
Teresa

A noite encerra as estrelas. Ninguém delas se aproxima. Os homens têm medo das estrelas. Recusam aproximar-se delas. Gostam de as olhar quando estão distantes, no céu.
Ontem, uma mulher procurava a Lua, pela janela do quarto. Aí, onde o ar era coado pela dor, costumava haver luar. A luz do luar, uma estranha e acolhedora luz. Era essa luz branda que ela costumava ter por companhia todas as noites. Precisamente, ontem, a Lua onde estava? Porque deixara de ser visível? Quem a fizera desaparecer? Alguém, na noite, a roubara? Quem destruíra a única luz suave que lhe restava?
A mulher, com a solidão dentro do coração, olhava o céu e via as estrelas, mas era a Lua que ela amava. Que acontecera naquela noite? A Lua ficara ausente. Por quanto tempo se retirara, por quanto tempo a suave luminosidade fora afastada sem dar um ai, sem dizer um adeus ou dar um último sinal?
Lá estavam, no céu de breu, os débeis cintilares das pequeninas estrelas longínquas demais. Só o encantamento do luar não pousava no coração da mulher que nada mais tinha de seu, nada mais a conseguia ainda seduzir.
Inconformada, aquela mulher a viver só do gesto doce do luar, correu para as outras janelas da casa, em desatino, num desvario de interrogações. Olhava. A Lua ali, no céu, nem sequer dava de si uma amostra simples, uma sombra breve. O astro a transparecer ternura não lhe aparecia.
Então, decidiu correr a abrir a telefonia; talvez umas notícias a informassem do que se passava. Mudou de posto até começar a ouvir a música de Eric Satie. Sentiu-se embalada, mas o seu coração não queria ouvir Satie, não era essa melodia funda e cheia de paz que, naquele momento, desejava.
Um desespero sentiu no corpo todo. Apertou-lhe a garganta a emoção. Lembrou-se das miríades de poemas em que a Lua passava como um barco a guiar cada palavra. Lembrou-se dos contos da sua infância em que a Lua era a defensora dos bons. Escutou, na amargura do seu coração, Francisco de Assis a louvar a irmã Lua. Um silêncio emudecido no céu, ouviu assustada.
Depois voltou a sentir em si aquela doce melodia de Satie, insistiu, mas nem mesmo os sublimes sons lhe faziam esquecer a maravilha da imagem a recortar o escuro. Nada lhe trazia tanto essa concórdia que a serenava, depois de um dia de trabalho duro e talvez sem paga.
Ligou a televisão. Era a hora de mais um telejornal. Tantas desgraças neste planeta envolvido no azul do céu, tão belo visto do espaço como disseram os astronautas. Tornados que levaram casas, pessoas sob milhares de quilos de cimento armado, armadilhas de terroristas que matam as pessoas que passeiam pelas praias e pelos bosques sem nada suspeitar, trombas de água que derrubam edifícios matando as famílias e os amigos que festejam um casamento que venceu todos os obstáculos e sobe ao altar do amor.
Ela, uma dessas mulheres de coração partido pelo desprezo do homem que não a amara, só na Lua conseguira encontrar uma água fresca que a não deixava tornar cadáver. Começou de novo a ouvir o telejornal. Perdera já algumas notícias. Teriam falado de alguma desgraça na Lua? Mas a Lua, quem dela iria falar entre tantas tragédias aqui, na Terra?
A mulher amesquinhada pelo cruel destino, sentia o coração palpitante, inseguro, em expectativa. Ia escutar mais uma notícia, quem sabe se não lhe daria alguma palavra a indiciar uma qualquer tragédia, acontecida precisamente à Lua?
Sabia da pouca probabilidade de uma tragédia lunar. Aí tudo era sereno. Não havia ar, nem água, nem atmosfera, nem qualquer ruído. Nem tão pouco homens para agredir a sua paz. A Lua era um pequeno planeta que o homem visitara, sem ter tido a honra de alguém o receber. Ali tudo era vazio, só crateras, declives, poeira imensa. Mas à distância da Terra que perturbação de amor ela alcançava! Sem homens para nela fazer qualquer transformação, à Lua nada a podia perturbar. Vivia eterna, em saudosos reflexos de luz. Disso tinha a certeza. Não podia ter dúvidas.
O sonho desvanecia-se na mulher abandonada, de coração cheio de emoção. Estava já para desistir de ouvir mais uma só notícia sobre a Lua desaparecida, quando ouviu o locutor dizer: «Um foguetão da NASA foi direccionado à Lua; este objecto provocou um impacto com a força de um furação e provocou uma funda cratera no solo lunar».
Tudo estava explicado. A mulher soube assim que a Lua fora abalroada por uma avançada tecnologia de cientistas empenhados em descobrir água no subsolo pacato dessa Lua onde não havia mortes, porque não havia também tempestades nem violência humana.
De súbito, a mulher começou a ouvir um choro. Fechou a televisão. Abriu a janela do quarto. Viu, com espanto, a Lua. Mas a Lua estava a chorar. E ao vê-la chorar, a mulher chorou também. O luar derramava lágrimas, mas estava ali, voltara para ser um companheiro dos seus olhos. Uma Lua amolgada, com uma luz menos intensa, ferida no coração como aquela mulher, mas mesmo assim, com esperança. Como aquela mulher via na Lua a ternura que lhe faltava, a Lua via nela uma certa humanidade. E essa não era representada pelos cientistas inventores do foguetão disparado pela NASA.

10 de Outubro de 2009
Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Cheiro de Jasmim em Asas de Morcego ( CONTO)


" Fruto do mundo são os homens, pequenos girassóis os que mostram a cara, enormes as montanhas que não dizem nada.''- Raul Seixas -

Antes de tudo, escute: não faça julgamentos. Com certeza, para nenhum lado havia saída. Às vezes perde-se o último trem, por outras embarca -se nele por não se ter conseguido trocar, a tempo, o bilhete.
Naquela manhã as aves voavam rotineiramente em círculos largos sobre o mar, enfileiravam-se, depois, lado a lado sobre a areia. Esperavam a próxima rota, e esteja certo, se paravam, olhos atentos em direção às montanhas é porque ouviam. Não duvides. A estreita passagem entre a luz e a sombra abre-se na hora certa e todas sabem que o corredor entre os canyons exige precisão.
Eram muitas e a fila, em linha branca, riscava as paredes das rochas. À medida que entravam, escurecia, e à medida que escurecia, confundiam -se com as estrelas. Uma vez do lado escuro, abriam-se em leques. Quanto ao plano de voo, levavam sob as asas e em comum só tinham a hora e o ponto de reencontro, quem se atrasasse não voltava.
Eu sei, você vai dizer, nada justifica. Se já havia feito a viagem tantas vezes, se conhecia o juramento de uma águia : deveria ter ido, cumprido a missão e voltado. Mas no exato momento em que abriram -se em leques, ela entrou no vale. Recortado por rio vermelho, ali estava o escuro Vale dos Morcegos.
Um segundo em voo, imensidões em terras. Terras secas e suas árvores filhas, pouca luz e brisa em lamúria. Ainda ouviu o grito:
_Alísia, por aí não!
A atmosfera densa lhe dificultava o bater das asas, voo cego por instrumento.
Tento ser imparcial, mas antecipadamente me traio, é porque após relembrar tantas vezes, é como caminhar sobre a mesma trilha íngreme, evita-se o perigo.
Escolhido o ponto de pouso, jogou-se. Muito mais pelo peso do que por perícia de piloto.
Ele, pendurado sob o galho da árvore, estava ferido e o sangue escorria sobre a capa escura. Seus olhos de dor e medo olharam a Águia como vendo o inimaginável. Como descrever luz a quem só conhece sombras? A Águia tocou com o bico a ponta da asa ferida. Soprou-lhe o rosto e amparou-lhe a cabeça.
Muito distante do vale, na praia, as ondas molhavam a areia. Todo o sal da água ela sentia na garganta. A sede incomodava, o sangue incomodava, a dor que ele trazia nos olhos lhe incomodava. Esperou algumas horas, esperou alguns dias. Não poderia ir. Fez todo o reconhecimento do vale, mas já não voava. À medida que o tempo passava desaprendia.
A partir daqui não tenho certezas. Não sei se venceu a própria gravidade, de longe só imaginamos. No ponto de reencontro, Alísia não estava. Ninguém podia esperar, isso nunca havia acontecido. As Águias entraram no corredor das rochas em ruidosa corrida, olharam para trás muitas vezes. A missão fora curta, por que se atrasara?
Aos ausentes não é dado o benefício da defesa, há suposições. Posso imaginá-la voltando ao mar e no bico traz o mamífero. Não, não é certo. Nada traz sob o bico, chegam lado a lado, transparentes como as bolhas d'água que estouram na areia. As aves esperam. Veja! É possível reconhecê-la. Os dois abrem as asas em grande compasso sobre a água. Não levante-se ainda. Observe. As aves inquietam-se. Para sentir é preciso ir lá fora.
Inspire, sinta o cheiro de jasmim.
L.A

domingo, 4 de outubro de 2009

GRACIAS A LA VIDA


Violeta PArra

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me dió dos luceros que cuando los abro

Perfecto distingo lo negro del blanco

Y en alto cielo su fondo estrellado

Y en las multitudes el hombre que yo amo

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me ha dado el oído, que en todo su ancho

Traba noche y dia grillos y canarios

Martirios, turbinas, ladridos, chubascos

Y la voz tan tierna de mi bien amado

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me ha dado el sonido y el abecedario

Con él las palabras que pienso y declaro

Madre, amigo, hermano y luz alumbrando

La ruta del alma del que estoy amando

Gracias a la vida,que me ha dado tanto

Me ha dado la marcha de mis pies cansados

Con ellos anduve ciudades y charcos

Playas y desiertos, montañas y llanos

Y la casa tuya, tu calle y tu patio

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me dió el corazón que agita su marco

Cuando miro el fruto del cerebro humano

Cuando miro el bueno tan lejos del malo

Cuando miro el fondo de tus ojos claros

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me ha dado la risa y me ha dado el llanto

Así yo distingo dicha de quebranto

Los dos materiales que forman mi canto

Y el canto de ustedes que es el mismo canto

Y el canto de todos que es mi propio canto

Gracias a la vida

sábado, 3 de outubro de 2009

A bicorporeidade de Santo Antônio de Pádua

Santo Antônio de Pádua, o nosso santo "casamenteiro"
( 1195 -1231)
Das extraordinariedades medíúnicas, a bicorporeidade é uma das mais fascinantes. Traduz-se na possibilidade de uma pessoa estar em dois lugares ao mesmo tempo. Relata-nos a biografia de Santo Antônio de Pádua que o santo franciscano português em determinada época ministrando missa em Pádua , na Itália , em certo momento , interrompe o sermão e torna-se completamente imóvel. O frei neste momento, entra em estado de êxtase , bicorpora-se e aparece no Tribunal em Lisboa, Portugal, aonde seu pai estava sendo julgado por crime de homicídio. Homem dotado de excelente capacidade oratória conseguiu provar a inocência do pai e sua absolvição.

A segunda matéria corporal embora visível e tangível é na verdade parte da alma e também do perispírito da pessoa que se bicorpora. Não há divisão da alma, mas tão somente como se esta de forma elástica se expandisse para todas as direções. Parte deste segmento expandido forma o segundo corpo, visto em outro local. Apenas o primeiro corpo é real , o segundo é apenas aparente.
Entre o corpo e o espírito, encontramos o períspirito que é um envoltório da alma. A alma por sua vez , traduz-se em ser o espírito de uma pessoa em vida. Cessada a vida a alma denomina-se então espírito. A capacidade de bicorporação é uma faculdade mediúnica de uma pessoa, considerada das mais raras e geralmente o fenômeno acontece em situações de extrema necessidade e a pessoa que a possui, dotada de elevada moral, não a utiliza de forma leviana.
L. A

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

NÃO É TODO DIA




Luiz Martins da Silva


Que alguma coisa desce do firmamento
Para se clicar feito faíscas de flertes.

Que um epifenômeno em redemoinho
Vem dissolver madeixas em vento.

Que o tão simples bom-dia no elevador
Materializa tão somente o pretexto do por favor...

Que alguma atenção extra converte o instante
Naquele da criança esquecer febre e quebranto.

De lamentarmos não ter câmera,
justo o momento,
De registrarmos o tão prosaico incidente.

Que percebemos que em todo dia
Há algo até mais real do que na fotografia

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

VITRAIS - em reconstrução

BARX

Levei André para conhecer o mar. Batia as mãos na água e molhou-me o rosto. As aves iniciavam lentamente o voo. Luci, sabíamos, retornaria em pouco tempo. O menino encostou o rosto no líquido salgado e não gostou do sabor.
Da praia, podia ver Arpy na varanda da casa entre pincéis e madeiras. As mulheres separavam as fibras sobre os teares , os meninos corriam. Uma ave deslizou raso sobre a água e passou entre nós.
Luísa Ataíde
( Memórias de Sara M. - Do conto: Barx, escrito em 1976, prêmio revista Tema, outubro 1980. Recebi , de volta, o manuscrito do conto este final de semana. Agradecimentos à Rosalina Jacintho)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009


Os olhos dos outros são prisões, seus pensamentos nossas celas.
Virgínia Woolf

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O ESTRANGEIRO




Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo o entendimento.
Clarice Lispector


Sempre que anoitecia o homem sentava-se à mureta e observava. Olhava as pessoas  e a pressa que elas tinham. Morava sozinho na última casa da rua e achava a noite grande e o silêncio que ela emitia parecia jogar-se em direção a ele. Por isso e tão somente saía à noite. As paredes , em demasia , arrastavam pequenos sons . O homem olhava em volta: o banco, o espelho , o fogão. Todos queriam falar ao mesmo tempo e antes que tivesse que responder alguma coisa , vestia o casaco e ia. Lá fora as pessoas aceleravam em direção às portas e entravam nos prédios como galinhas de volta ao ninho, estupidamente sonâmbulas:-comandadas apenas pelo arrastar das horas. Da mureta o homem observava. Olhava os próprios pés e mãos e certificava-se que eram  ainda prolongamentos do corpo. Melhor são as flores, pensava. Ele trabalhava no jardim de um grande prédio no centro da cidade , cuidava do lago e erguia os canteiros. Conversava com as plantas , horas a fio , e elas respondiam num trocar de idéias sem fim. As pessoas olhavam o homem murmurando e quase todas riam. Nunca entendia o riso e ,às vezes, arriscava-se perguntar o que estava acontecendo Recebia o silêncio. Sendo assim não lhe restava nada mais que a companhia das plantas. Era um jardineiro plenamente feliz com seu ofício. Na hora do almoço, entrava na biblioteca do prédio e folheava os livros de Botânica Olhava as fotografias e perdia-se no labirinto de flores multicores e nomes indecifráveis. Em casa, à noite, as paredes tentavam conversar porque sabiam que ele dominava idiomas raros.

Sempre que amanhecia ele pulava da cama e em poucos minutos estava na rua. Antes de fechar a porta olhava as paredes da sala e não negava-lhes resposta ao aceno de: -Tenha um bom dia!
Quando chegava ao trabalho , cumprimentava o porteiro que nunca respondia. O homem olhava mais uma vez as mãos e os pés para ter certeza que ainda eram seus. Sua invisibilidade o angustiava e esforçava- se por um "Bom dia" mais sonoro: inútil . Retornava, então, às flores.

Sempre que anoitecia sentava-se na mureta da rua e observava. Observava os outros homens que não conhecia e os que caminhavam , lá do começo da rua. Não sabia seus nomes nem suas histórias. Todos eram estranhos entre si. Temiam-se quando distraidamente tocavam-se e guardavam as mãos dentro dos bolsos. Com o passar do tempo como as pessoas não lhe dirigiam a palavra , restava-lhe apenas decifrar a a linguagem das folhas e flores . Respondia às indagações das paredes e com o tempo de todos os objetos da casa. O orgulho dos homens, pensava, é como a imobilidade das pedras: inútil e grande.

Havia as cores das flores: o burburinho que elas faziam quando ele chegava pela manhã e a cantoria de despedida no fim da tarde. Dizia adeus às pedras, devolvia-lhes o aceno.
_Vem trabalhar amanhã? Soou o grito perto do muro. Era uma borboleta pousada sobre o portão de saída.
_ Não entendi  o que você falou, mas amanhã prometo que conversaremos ! Despediu sorrindo.
Desceu os degraus e caminhou em direção ao ônibus no final da rua. Misturou-se a multidão feita de desconfiança e silêncio. O homem era só um ponto no rio de pernas descendo a avenida.
L.A

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Anassilábico




Construo os dias sobre placas de silêncio

sábado, 12 de setembro de 2009

O BEM DO BEM


LUIZ MARTINS DA SILVA


Do jeito que a vida gosta,

Nem sempre gostamos nós,

Mas nós gostamos da vida,

Mesmo desatando nós.


Do jeito que quer a vida

É sina por se cumprir,

Mas a própria vida ensina

Só vai quem sabe aonde ir.


De nada a rosa dos ventos

Vale se não se tem o Norte;

Muda o rumo fica a sorte,

Talismã de marinheiro.


A vida parece o tempo

E o tempo perece a vida,

Mas aparências enganam

Sobre o tamanho da lida.


Uns, chegam e já vão embora,

Mal a infância acordou.

Outros, a rosa murcham

De tanto que demorou.


Mas a semente é a mesma

E a colheita também.

E como a safra é sortida

Quando se quer muito e bem.


Querer bem são só três letras,

Mas duplo sentido a palavra:

Escrever o bem com minúscula

É só o lado chão da parábola.


Querer o Bem com maiúscula

É amar no incondicional;

É o que importa mesmo quando

Chuva pouca e frio igual.


Um dia na vida a mais,

Ou mais um ano na vida,

O lado que diminui

Perdura para onde vai.


O lado que o vento sopra

No catavento é o outro.

É só uma questão de medida,

Medir-se a vida nas horas.


Vida e sorte, dois ponteiros,

Visível é só o que gira;

O visível ao olho atento

Mostra o relógio por dentro.


Bem sabe o Senhor do tempo,

Quando nos sonha e acalanta,

Que o que parece partícula

É o bem que o Bem empresta.


Há que se prestar atenção,

Quando o tempo vira Signo,

Quando menos, Sim é Não;

Quando mais, pão é o trigo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

EUTIMIA


"O objeto de tuas aspirações é, aliás, uma grande e enorme coisa, e bem próximo de ser divina, pois que é a ausência da inquietação". Sêneca

São seis horas, a tarde entrega o bastão à noite

e o homem sobre a corda segura a barra de ferro.

A corda balança entre os dois prédios e o rush soletra sua agonia.

Massa de homens e carros sob seus pés.

O prato direito da barra pende levemente

e o equilibrista oscila ao vento.

O verbo é serenar.

Conjugue-o ou todos os ímpetos selvagens
que estão entre o acordar e o sono se reerguerão.

As garras do tigre arranharão as costas ,os dentes do cão abocanharão as pernas,

a asa da ave fará cócegas na orelha.

A pulga do gato?

Está ali do lado direito do umbigo
e gritará sua presença escandalosamente.
Serenai.
L.A

domingo, 23 de agosto de 2009

PEQUENOS DEUSES



Às vezes, acordo no meio da noite e vou à varanda.

Posso ver o vulto do porteiro tentando equilibrar o sono sobre a 

cadeira

Enquanto olha a rua e os bancos vazios da praça.

Pergunto , então, porque a vida lhe fez sentinela 

enquanto dormimos.

Do outro lado da cidade, uma mulher acorda com o choro de 

criança

e olha o travesseiro vazio ao lado.

Posso ouvir o choro e ver os cabelos revoltos da mulher.

Um carro chega e ele abre o portão de ferro.

Volta ao silêncio da madrugada depois das rodas do carro.

A mudez da noite senta-se ao lado do homem.

Da varanda observo o balanço que retoma em frente a mesa.

Nós não merecemos o sono que ele empurra quando estica os olhos

e lembra-se que não há dinheiro para a conta de luz que tem no 

bolso da camisa.

Nós não merecemos esta ausência de amante e pai do outro lado da 

cidade.

O que fez para merecer um destino desbotado e triste

de ser porteiro noturno de um prédio em Águas Claras?

O que fiz para perder o sono ?

O que fez o cão que passa sujo e faminto no meio da rua diante da 

varanda?

O que faço da minha incapacidade de presenteá-lo com esta 

repentina insônia.

Acho que vou lá embaixo dar um banho no cão.

Luisa Ataide

RETINA

Imagem- Devianart

A realidade é apenas uma fotografia em movimento.
É a mobilidade do que pensamos
Pensar é pura liberdade.
Não vivo apenas o filme que ganha movimento toda manhã
Correto, linear e curto.
Trago um bilhete dobrado sob a blusa.
Destino: Atrás, muito atrás do Pensamento .
L.A

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

CREIO VER

Luiz Martins Silva

Creio ter chegado àquele ponto,
Em que Narciso ainda se confronta com o poço
Mas a imagem já não o hipnotiza
Na proporção em que se distanciam
Em diferença o que são espírito e rosto.

Creio que algo de mim já se transfere
Para o tal reverso das fases e esferas
E que por mais que uma a outra não vejam,
Em parte invejo o desconhecido que me espera
E que de mim já é o avesso que se avança.

Creio que é tão somente do ego a contraface
Da luz que não afago, mas já se pronuncia
E ainda bem que a estrada até se fez bem longa,
Pois, a qualquer minuto, a qualquer dia,
Passo de vez para a outra face do espelho.

Creio, meu Narciso, tens boas memórias,
Mas para o tempo adiante pouco viste,
Tão absorto estiveste no limite da moldura,
A te contemplar apenas pelo que estava verso
Mas pouco evidente do universo, firmamento afora.

Ah! Que futuro, tão brilhante!
Sonho na esperança o imenso Sol que me irradia!
Mas na incerteza dos que na fé, mas em cegueira,
Temem, mas enfrentam, novos oceanos,
À medida que se vai longe o cais da proa.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

FERREIRA POETA GULLAR



Aqui me tenho


Como não me
conheço


nem me quis


sem começo

nem fim


aqui me tenho
sem mim


nada lembro,
nem sei

à luz presente sou

apenas um bicho transparente.
UM INSTANTE

sábado, 15 de agosto de 2009

SER CRIATIVO



Cotidiano, Óleo sobre tela,- Luísa Ataide

A criatividade é um ato mental e antes de tudo um simples ato de prestar atenção. É olhar e ver radiograficamente o que nos cerca. É ouvir o que o subconsciente nos murmura ao ouvido, é captar a imagem da tela mental. A percepção visual, tátil e auditiva vão além do que nos mostram os sentidos. Todos nós nascemos munidos desta capacidade de ser criativos, apenas nos acumulamos de tarefas estafantes e concluímos não haver tempo para exercícios sensoriais como estes de “prestar atenção”. Presta atenção o pintor ao iniciar a tela, o escritor ao construir a narrativa, e assim também faz o compositor quando faz nascer do instrumento a melodia. Somos criativos quando encontramos soluções para pequenos problemas ou para grandes desafios. É criativo o aluno quando encontra fora da sequência padronizada a solução para um problema de Matemática. Cada ser humano tem uma oficina de criatividade escondida em algum lugar do cérebro, basta achar a chave e colocá-la em funcionamento. Grandes artistas são homens comuns que encontraram a chave do ato mental de observar. Antes de tudo é necessário desarmar a alma para alcançar o objeto a ser criado. È levar este objeto para passear, é dar-lhe movimento, torná-lo elástico em cor e tamanho. É buscar a sonoridade deste objeto. É o exercício de imaginar. Imagine então, que te seja determinado visualizar uma sala. Observe e sinta a sala. Retire mentalmente da sala uma cadeira. Traga-a para a parede externa, movimente-a, coloque-a no teto da casa. Duplique-a, estique-a. Pinte. Desenhe mentalmente a casa, a sala e as cadeiras sobre o telhado. Mostre a imagem por ângulos ousados. A dança do imaginário cria formas e caminhos infindos. A criatividade mantém o cérebro ativo.
Criativo, indagarão alguns, não são também as pessoas que criam estratégias de guerra, instrumentos bélicos de destruição e coisas semelhantes? A criatividade , como o tudo que existe, tem seu lado escuro, porque também é um ato de escolha. Que nós possamos usá-la, para conquistas em nossas vidas, para melhorar o mundo a nossa volta e acima de tudo para acelerar o crescimento espiritual do planeta.

L. A.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

30 DICAS PARA ESCREVER BEM



1. Deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

2. É desnecessário fazer-se empregar de um estilo de escrita demasiadamente rebuscado. Tal prática advém de esmero excessivo que raia o exibicionismo narcisístico.

3. Anule aliterações altamente abusivas.

4. não esqueça as maiúsculas no inicio das frases.

5. Evite lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

6. O uso de parêntesis (mesmo quando for relevante) é desnecessário.

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem portuguesa estão in.

8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou??...então valeu!

9. Palavras de baixo calão, p#rr*, podem transformar o seu texto numa m&*d#.

10. Nunca generalize: generalizar é um erro em todas as situações.

11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai ficar uma palavra repetitiva.A repetição da palavra vai fazer com que a palavra repetida desqualifique o texto onde a palavra se encontra repetida.

12. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: "Quem cita os outros não tem ideias próprias".

13. Frases incompletas podem causar

14. Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes; isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez, ou por outras palavras, não repita a mesma idéia várias vezes.

15. Seja mais ou menos específico.

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

17. A voz passiva deve ser evitada.

18. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

20. Conforme recomenda a A.G.O.P, nunca use siglas desconhecidas.

21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que a moderação.

22. Evite mesóclises. Repita comigo: "mesóclises: evitá-las-ei!"

23. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.


24. Não abuse das exclamações! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!!!!

25. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia nelas contida e, por conterem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçam, desta forma, o pobre leitor a separá-la nos seus diversos componentes de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

26. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língúa portuguêza.

27. Seja incisivo e coerente, ou não.

28. Não fique escrevendo (nem falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e estar causando ambigüidade, com certeza você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda estão acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em não estar falando desta maneira irritante.

29. Outra barbaridade que tu deves evitar chê, é usar muitas expressões que acabem por denunciar a região onde tu moras, carajo! ...nada de mandar esse trem...vixi..entendeu bichinho?

30. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém irá aguentar já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.


Gentilmente enviado por Osmar Aguiar

terça-feira, 11 de agosto de 2009

CONVITE: SCORTECCI EDITORA

*** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** ***

PROJETO LITERÁRIO DELICATTA IV

POESIA CONTOS E CRÔNICAS
Coordenação : LUÍZA MOREIRA
Coquetel de Lançamento:

Data: 20/11/2009- Itaú Cultural- Av. Paulista, São Paulo
21/11/2009- Livraria Cultura: 16h ás 19 hs :
Por Brasília: Keila Abreu, Luísa Ataíde, Fernando Natal , Izabella Angoti, Klaus Marcus Paranayba e
Valdir Sodré.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

ESCREVA A SUA HISTÓRIA

Texto de Pedro Bial

Escreva a sua história na areia da praia
Para que as ondas a levem através dos 7 mares
Ate tornar-se lenda na boca de estrelas cadentes.

Conte a sua história ao vento
Cante aos mares para os muitos marujos
Cujos olhos são faróis sujos e sem brilho.

Escreva no asfalto com sangue
Grite bem alto a sua história antes que ela seja varrida na
Manha seguinte pelos garis.

Abra o peito em direção dos canhões
Suba nos tanques de Pequim
Derrube os muros de Berlim
Destrua as cátedras de Paris.

Defenda a sua palavra
A vida nao vale nada se você nao tem uma boa história pra contar.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O AR e O SONHO



Ao amigo Milovan


Nós, Homens comuns feitos de sonhos e segredos

Moldados em água e barro , perguntamos:

Por quem sopram os ventos e trilham os rios?

Por quem clareia a aurora e cintilam as estrelas?

Pelos que as apontam em noite escura

Por todos que com coragem entregam a cara à brisa.

Foi o sopro no momento da criação que nos abriu os sentidos
e nos entregou o sonho

Que nos faz ver jardins em pacotes de sementes

Que nos move os dias.

Nós, Homens comuns, temos asas

Mas asas não fazem pássaros

Morcegos as possuem.

É a coragem dos voos sobre mares e rotas imprecisas.

É certo que os dias nos retornam aos pés, tão iguais e enfileirados

Um após o outro...

Ao tédio dos dias iguais

Abra os braços e
Vai.

Luísa Ataíde

sexta-feira, 24 de julho de 2009

ÂNSIAS E CIOS


LUIZ MARTINS DA SILVA


I

Na poeira de junho,

Drámatico Recado

Escrito a dedo:

“Lave-me!”

II

Ao fim de julho,

Frias madrugadas,

Varrendo calçadas

Enxurradas de folhas.

III

Final de agosto,

Cerrado em brasa.

A névoa seca

Embroma o lago.


IV

Setembro encerra

Engorda de nuvens.

Recomeçam as vendas

De guarda-chuvas.

V

Outubro ensaia,

Goteira abaixo,

Futuro oceano

Do meu riacho.


VI

Novembro confunde

(Caprichos do tempo)

Garoas de açúcar

Com tardes douradas.

VII

Dezembro ostenta

A neve importada.

As vitrinas refletem

As pistas molhadas.