sábado, 12 de dezembro de 2009

ABISMO DE PLUMAS- DAVID MASCARENHAS, Brasília

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A CAIXA

“A coisa mais incompreensível do Universo é que ele é compreensível”

A. Einstein

Bartolomeu Darw era apenas uma fagulha transparente tremulando a alguns metros do chão. Às vezes, eram necessários dias de reabastecimento e a fagulha tornava-se apenas um ponto fixo com leve pulsar de luz, como qualquer estrela. . O rapaz nunca estava satisfeito com isto e gostava de ter pernas, braços e rir alto; o que não constituía nenhuma norma absoluta e assim o jovem Bartolomeu era visualmente: apenas o jovem Bartolomeu.
Subiu a escadaria do prédio e em pé ao lado do círculo, formado pelas colunas, olhou o salão que estendia-se alguns metros abaixo. O piso era transparente e com alguns desenhos geométricos em riscos. Olhou demoradamente o piso de vidro e não pôde distinguir nenhuma forma. A partir dali, o rapaz sabia que seria necessário retornar ao seu formato de luz e calmamente tirou os sapatos. Desceu os degraus em direção ao salão e seus pés escoaram, como água, pelo risco do desenho. Em alguns minutos havia apenas o salão vazio. Em volta das colunas pequenos canteiros de flores . As flores não emitiam nenhum perfume, zuniam baixinho o que parecia uma melodia. As flores indagavam-se por que aquele ponto luminoso não gostava de ser um ponto luminoso e era aquela figura comprida e estranha. O único barulho era a canção das flores.

No corredor, sob o piso de vidro, o rapaz recebeu a claridade do ambiente e misturou-se a ela. Outros pontos, como ele, deslocavam-se em todas as direções. Tentou observar formas e reconhecer rostos. Eram os velhos companheiros de sempre, de volta ao Hangar de pouso, entre um voo e outro. Alguns acenavam do outro lado, numa via de retorno. Bartolomeu via o ambiente como seu olho estava acostumado a ver. Observou que voltara a morfologia corporal e sentiu-se bem assim. Para alguns era um ponto de luz, para outros era o jovem magricela de cabelos desalinhados.
- Bartolomeu, temos notado o quanto tem sido difícil para você este trabalho em Hospitais e Clínicas.

_ Bem, na verdade isto de ficar atravessando paredes de quartos e não poder falar com as pessoas me deixa um pouco inquieto, Senhor. Mas por favor, não se preocupe, eu como todos os outros quero um dia ser Querubim, e o que for necessário fazer, estarei às ordens.

- É necessário que você experimente todo o tipo de serviço, é uma maneira de descobrir sua verdadeira natureza. Ultimamente, percebemos que você tem usado a mesma aparência por muito tempo e então saiba que ela é sua definitivamente, e que não vai se livrar dela tão cedo. Se visto por alguém, será assim com este corpo e rosto.

- Nenhum problema Senhor, mas o que tenho mesmo que fazer?

- Preparar as caixas, Bartolomeu. Preparar as caixas e enviá-las a esta lista de endereços, antes do fim do ano.

_ O Senhor está me dizendo que eu fui promovido? De arrebanhador de moribundos a programador de destino? Não, por favor, não se aborreça com minhas palavras, eu sempre quis fazer este trabalho.

- Hum... é compreensível.

_ Não..., bem desculpe, eu quero dizer que é melhor a esperança que a fatalidade.

_ Nenhum problema Bartolomeu, aqui estão as instruções neste envelope. Você prefere ler, não é mesmo? Provavelmente, se vivesse com sua forma luminosa, as instruções seriam absorvidas mais rapidamente.

_ Não quero ser rebelde, mas ainda não acostumei com isto de ouvir sem ter ouvidos, falar por todos os poros, de deslocar na velocidade da luz. Ah, eu ultimamente gosto de usar minhas habilidades primárias. Andar passo a passo, ver e sentir as pedras e plantas, ter um pensamento de cada vez.

_ Você sabe o que isto significa não é Bartolomeu?

_ Sei sim Senhor.

_ E que isto pode acontecer de uma hora para outra?

_ Eu sei, e quero apenas estar pronto, apenas isso.


O rapaz recebeu o envelope e o colocou no bolso da camisa. Abraçou o companheiro e saiu apressado. De volta, ao caminho estreito, observou os outros que chegavam, e acenou-lhes. Se pudesse, ia até eles e contava as novidades. Essa necessidade impetuosa precisava ser contida.
Sabia que os desejos que voltavam a aflorar em seu interior era prenúncio de viagem próxima e tinha a impressão que a coragem caminhava ao seu lado ,como uma irmã mais velha. Podia sentir as mãos sobre os ombros.


Quando retornou ao quarto, abriu o envelope e leu as instruções com toda a atenção possível. Sobre a mesa, havia centenas de caixas e deveria organizá-las. Algumas tinham mais de trezentos compartimentos, outras um pouco menos. Enquanto preparava as caixas, lia as instruções como uma bula de remédio, e indagava-se em que parte do universo elas chegariam. Os compartimentos tinham paredes flexíveis e quem recebesse a caixa poderia fazer dela o que quisesse: alongar ou diminuir a quantidade das divisões. Havia tinta para colorir e porções curativase. Um saco com pequena quantidade de substância, que conforme a mistura feita poderia promover danos irreparáveis, deveria ser colocado no centro da caixa. Redigiu um aviso de alerta em vermelho e colou sobre o pequeno pacote. Todas as caixas tinham um álbum de fotografia vazio , um rolo de corda e tesoura. Entendera que possivelmente era para construir ou desfazer laços conforme a vontade do receptor. Fechou a primeira caixa e abriu o envelope com o adesivo de numeração. Todos os números dentro do envelope eram iguais e não conseguia entender isso. Por que todos os números eram sempre o mesmo número? Dois mil e dez deve ser um número significativo para esta remessa, pensou. Colou o adesivo sobre a caixa e observou sua primeira tarefa cumprida. Olhou o papel colado na parede. O papel informava que seu prazo escoaria em sete dias. Às vezes, sentia-se fatigado e cada vez menos conseguia um relaxamento profundo e transmutar-se em fagulha luminosa. Era necessário um desligamento por horas: era o sono, lembrava-se disso de repente, como se fosse acostumado a dormir todos os dias.

O jovem aspirante a Querubim trabalhou até o limite das forças. O cansaço o desconectava de sua natureza espiritual e o levava em direção a um caminho novo. Restava-lhe ainda a última caixa e, pelo papel colado à parede, mais vinte e quatro horas. Suspirou aliviado, pelo menos poderia trabalhar a última caixa com calma e até ler o nome do destinatário. Prendeu a bula entre os dedos e leu . Era um nome de mulher: Analice era um nome que ouvira em algum lugar.

- Analice... murmurou andando pelo quarto.

Tentou lembrar-se por um instante o que o nome significava para ele. Revirou os pensamentos inutilmente. O endereço também não era conhecido. Colocou devagar os pequenos pacotes nas divisões da caixa. Havia um par de sapatinhos de lã a ser colocado ao lado da substância perigosa. Nunca vira um sapato tão pequeno e macio. Depositou o pacotinho com cuidado. Uma ponta do laço do sapato prendeu-se no botão da camisa e não conseguia soltar. Sentiu que o sapatinho começava a desfazer-se e isto exigia um cuidado maior. Já era madrugada e olhou para a janela de vidro do quarto ao lado da cama. Não poderia danificar nada que destinava-se a caixa. Não poderia cortar o pedacinho de lã preso à camisa. Pediu ajuda. Não sabia ao certo a quem dirigia o apelo. O céu curvava-se para dentro do quarto e espalhava as estrelas sobre sua cabeça. Havia a disposição da Nebulosa. Distinguiu os pequenos globos que formavam um anel no céu escuro e o planetinha pulsando a sua frente É o destino da caixa, pensou. È para lá que a caixa vai. Tentou olhar o planeta mais de perto e olhou o endereço entre os dedos. Distinguiu um bairro tranquilo: a rua ladeada de árvores. No fim da rua, uma casa de edificação antiga. No jardim uma árvore enfeitada com pequenos globos coloridos. No quintal ao lado havia uma casa semelhante. Sobre os degraus uma mulher olhava as crianças que corriam ruidosas por todo lado. A mulher apenas observava. Bartolomeu buscou a figura feminina por alguns instantes. Não reconheceu o rosto. Não reconhecia nada em volta. A mulher trazia nas mãos um pequeno lenço . Tentou olhar mais de perto o lenço que ela segurava com força. O tecido tinha uns pontos de linhas soltos na superfície. Não é um tecido próprio para lenços, pensou. Tentou ver mais de perto, em um exercício extremado de deslocar-se de onde estava. Era um lenço igual ao pequeno sapato que ele tinha preso ao botão da camisa. Recuou devagar e segurou o pano , com cuidado o desvencilhou do botão.
Lembrou-se do pequeno par de sapatos: estava lá, em algum lugar de sua memória. Sonhara com ele, brincara com ele e subitamente a mulher o tirara. Lembrou-se de tudo como se observasse uma fotografia em movimento. As imagens corriam pelo quarto, como um rio descendo sobre caminho de pedras. A mulher negara-lhe o par de sapatos. Precisou voltar pra casa e não sabia o caminho de volta. Vagou alguns dias por lugares desconhecidos. Sentiu dor e cansaço. Via seu corpo deitado no chão. Olhava, agora de longe; a mulher e o pequeno tecido azul. Não sentia amor ou ódio. Detinha-se apenas no olhar da mulher em direção às crianças da casa ao lado. Tentava segurar, de algum modo, as lágrimas que nasciam nos olhos dela. Queria gritar que a caixa com o sapatinho estaria de volta em alguns dias e que bastava querer abri-la novamente. Bastava querer. Fechou a caixa com delicadeza e colou o adesivo sobre ela: 2010 era o seu número de sorte. O sapatinho estava lá, protegido em algum compartimento e a mulher o encontraria. Deixou a caixa sobre a mesa e adormeceu. O cansaço tomou conta do corpo e antes de sumir na escuridão do sono, sentiu estar diminuindo , diminuindo e voltava a ser um ponto luminoso a alguns metros do chão. Sentiu-se conduzido para fora e misturou-se ao tabuleiro de estrelas. Era a viagem de volta. Não queria respostas se a viagem seria curta ou longa. Ia ser parte da mulher e um dia voltariam juntos. Por muitos ou poucos anos seria visto como Bartolomeu, o menino magricela de cabelos desalinhados. Sua natureza de Querubim fundia-se na natureza de menino. Poderia caminhar e observar as pedras e plantas. Cantar como as flores e a água do rio e... rir alto, o mais alto que seu riso quisesse.
Luísa Ataíde

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

ESCUTA INCONDICIONADA


JEAN KLEIN

Sempre que a escuta é intencional, a tensão surge, porque um resultado é antecipado, e este resultado é um produto, uma projeção da memória. A escuta incondicionada não tem fim na mente e, nesta abertura, todos os sentidos são receptivos. A audição não está mais confinada aos ouvidos; ao contrário, todo o corpo escuta com uma sensitividade sempre-expansiva até que você se ache na própria escuta. Um outro modo de dizer isto é que você não escuta mais, pois você é audição.
A consciência da quietude, do silêncio, pode surgir primeiro na ausência de objetos, como freqüentemente acontece na meditação. Mas, mais tarde, ela é mantida tanto na presença quanto na ausência. Esta consciência, que é escuta, é o fundamento de toda aparência, de modo que, mesmo quando em atividade, você é consciente da atividade e do ser.
A consciência de ser não é uma percepção, pois o ser nunca pode ser objetivado. Nós não podemos ter consciência de dois objetos ao mesmo tempo; não podemos ter dois pensamentos simultaneamente. Mas podemos ter consciência simultânea de nossa existência fenomênica e nossa presença, de nosso ser. Este não-estado aparece espontaneamente no instante em que cessa o produzir e o projetar.
Qualquer tentativa para produzir este não-estado na verdade nos submerge profundamente na relação sujeito-objeto. Há momentos em que alcançar o silêncio pode ser um benefício transitório, visto que uma ausência temporária de pensamento produz um estado calmo. Mas, permancer nesta relação sujeito-objeto, a qual é tudo que a ausência de pensamento é, exclui você de um silêncio mais profundo. A presença de um estado vazio pode inclusive ser um obstáculo; sendo energia em movimento, não pode ser continuamente sustentado. O verdadeiro silêncio não é nem movimento nem energia, mas quietude.

Editora Advaita

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A VIDA É MÁGICA

sábado, 28 de novembro de 2009

UMA PÁGINA PARA DOIS




Fotografia- Eduardo Poisl

"E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares

Do Belíssimo Blog: http://edupoisl.blogspot.com/


(repassando selo recebido do blog @na rede)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Prêmio Delicatta IV - GRUPO EDITORIAL SCORTECCI , categoria conto- 1º lugar



O ROUXINOL E A COTOVIA
Toda esta noite o rouxinol chorou
Gemeu, rezou, gritou perdidamente !
Alma de rouxinol, Alma da gente
Tu és,talvez , alguém que se finou !


Alma Perdida- Florbela Espanca




Noturno

Todas as noites, despido da farda do sono, nosso espírito sobe a escada que leva ao sótão em busca da caixa. Todas as noite procuramos incessantemente na caixa o velho álbum de fotografias. Uma vez aberto o livro, procuramos a chave que abre as outras portas. Na roleta de centenas de fechaduras e pilhas de chaves entrelaçadas, tentamos mais uma vez abrir a porta certa para um campo verde, um céu ensolarado: uma casa grande, povoada de risadas e cortinas brancas.

Salinas, sul do Espírito Santo, 1928.

Chamam-me Magnólia. Meu pai deu-me esse nome de flor porque amava o perfume delas. Pegava-me no colo e lá do alto eu ouvia seus lábios movendo-se:

- Minha florzinha cheirosa!

Se pudesse, eu escreveria tudo que vivo num diário e depois de findo o dia, voltaria ao passado , estendida sobre uma cama com lençóis branquinhos. Interromper o escovar dos cabelos e deixar as palavras se acomodarem sobre os travesseiros. Uma a uma, escolheria as letras e elas iriam florescer como um jardim. Isto se eu pudesse . Não fui à escola e no quarto não há camas. Estendem-se pelo chão esteiras secas e gastas. Algumas têm as pontas desfiadas e fazem cócegas no nariz. Enquanto todos dormem espero o sono que ronda o quintal lá fora. È noite escura e a coruja pia. Os sapos fazem coro e acendo a lamparina. Milhares de patas cruzam minha cabeça como um turbilhão de cavalos correndo em direção ao rio. Posso sentir o riscar das patas na terra em todos os sentidos. Curvo-me em direção à lamparina e com a parte fina do pente risco a cabeça dolorida. As feridas voltam a doer e dezenas de pontos negros descem em direção ao fogo. Estalam quando queimam e o cheiro inunda o quarto. Sonho com um cabelo limpo , cheio de ondas que descem até os ombros. As ondas brilham e cheiram à alfazema. Sonho com um quarto e uma cama macia, e nele só eu durmo. Sonho com minha mãe de volta e broa de milho novamente no café da manhã. Lembro-me do dia que ela desceu os três degraus da entrada da casa , arrastando uma mala grande, sem olhar pra trás. Espalhou os filhos na vizinhança e bateu a porta . Nunca deciframos Adelina e seus segredos.

Todas as moças dormem. Coçam incessantemente a cabeça durante o sono , mas nada as acorda. O trabalho na roça é árduo : doem-me os braços e os dedos dos pés. Por que estou lembrando, agora, do homem fardado que parou o cavalo na porta da casa? Rapaz alto , pele queimada pelo sol , um dente dourado do lado esquerdo. Todos os homens deveriam ter dentes de ouro e relógio no braço... Ele procurava alguém , tenho certeza. Olhou pra dentro da casa e pro bordado que eu tinha sobre as pernas. Faltam poucos meses para o casamento e muitos sacos a serem bordados. À noite, as costas doem e o trabalho não rende ; é melhor costurar antes do escurecer. Em Setembro , Abílio retorna , estou certa, e direi adeus a todo o sofrimento. Digo em pensamento adeus a casa e a essa família que não pertenço. Oito moças negras dormem espalhadas pelo chão. Foram minhas irmãs quando a ausência materna levava-me para trás da casa, para chorar escondido. Dividimos a água da moringa e a tapioca esturricada sobre a mesa. O banco da carroça e as orações da missa. Aprendi a cantar e cerzir, a raspar mandioca e espremer a puba. Tudo o que aprendi, aprendi com elas. Cada uma traz um tesouro guardado. É o tesouro da virtude lhes diz a mãe. Os olhos das moças brilham como espelhados num poço fundo. À noite ? Elas desencantam e como estátuas tombam , dormem pesado sobre as esteiras nuas.

Salinas foi tragada pelo mar, 2008.

Numa das noites em que a única moça branca da casa não conseguia dormir porque os pés doíam, houve repentinamente um ruído forte entre a cerca e a porta. A janela foi arremessada para o fundo da parede e o homem entrou . A moça reconheceu o homem fardado e faltou-lhe voz para gritar. As irmãs dormiam e não se mexeram com o arremesso da janela. O homem com botas longas entra no quarto e sem pedir licença a arrasta para o escuro da noite. É o rapaz fardado, é ele. Tem os olhos graves e por breve instante seus olhares cruzam. Sente o corpo jogado para o alto e as mãos do homem a segura pela cintura.

A luminosidade é pouca e a moça tenta se soltar do nó que os braços lhe fazem em volta do corpo. O cavalo corre pela trilha ladeada de galhos e ela lembra-se dos sacos por bordar dentro do caixote sob a mesa. Sente a proximidade do homem e o abraço não é macio como o do noivo. O estremecimento do peito é medo. Na curva da ponte vê a casa afastando-se como um fantasma fincado no escuro. Os dias, a casa e a vida sonhada correm rápidos sobre o rio ao lado do cavalo. O animal pula as pedras e curva pro lado oposto ao rio. Sente a respiração forte do homem sobre os ombros. Sente uma saudade antecipada de tudo que a mão já não alcança.

Quando o noivo volta a moça há meses não vive na casa, e os padrinhos lamentam a fuga e a falta de notícias. Sabem que foram para a serra e passaram por lá duas semanas. Algum tempo depois houve o casamento na igrejinha antiga, aquela que fica depois da ponte e o rio.Deixou todos os sacos bordados no caixote do quarto e nunca veio buscá-los.

- Então ela não conhecia o soldado?

- Viu pela primeira vez, naquela manhã.

- Por que ele fez isso?

- Vingança. O tal Abílio dormiu com a mulher dele enquanto ele estava no exército.

- Mas ele casou com a moça!

- A intenção era levá-la pra longe e desmoralizar o noivo. Ele não se aproximou dela enquanto estavam na casa da serra. A moça disse ao soldado que não poderia voltar à cidade, duas semanas depois, como se nada tivesse acontecido.Disse ainda que o noivo não ia aceitá-la de volta, só restava-lhe casar com ele ou morreria de vergonha.

- O noivo sabia a razão de tudo?

- Sabia. Tanto que nem a procurou. No mesmo dia partiu pra cidade e não mais voltou. Teve medo do soldado.

- E como foi a vida dela? Preciso escrever o final da história.

Escreva que viveram de cidade em cidade, como se ele procurasse alguém. Tiveram muitos filhos e dormiam em quartos separados. A moça tornou-se , de vez, uma mulher da terra . Uma mulher de braços e coração forte ; dessas com as unhas dos pés encravadas e tamanco de madeira sob o calcanhar rachado . Não mais sonhava com quartos claros e cama macia. Nunca aprendeu a ler , mas tinha uma sabedoria que não se aprende nos livros, floresce na alma como um jardim. A mãe voltou numa manhã de sol e ela abriu-lhe a porta e os braços. O noivo transformou -se em uma mancha que foi se apagando antes do sono, como uma foto desbotada. Se a moça, ao dormir, subia ao sótão das lembranças e procurava a chave, nunca vamos saber. Se a moça corria pelos campos verdes e encontrava a casa iluminada e o seu amor lá dentro, também não saberemos. Morreu numa cama de hospital, cercada de tubos e lençóis brancos. Finalmente os lençóis.
L.A

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Nota da autora: Obrigada, Luíza Moreira , coordenadora do projeto e a Editora Scortecci, por acreditarem no meu trabalho e ajudarem a imortalizar um pouco da história de Magnólia Constância, minha avó, que ensinou-me a ver o mundo com compreensão e respeito.
Obs: a festa foi linda. Conheci pessoas interessantes , alegres e cheias de vida. Parabéns a todos os participantes!






PALAVRA FINAL DE LUÍZA MOREIRA:

SEGUE A LISTA DOS AUTORES QUE SE DESTACARAM NO PROJETO DELICATTA IV

1º LUGAR CONTO
LUISA ATAÍDE
"O ROUXINOL E A COTOVIA"

2º LUGAR CONTO
STEFANNI MARION
" ESQUINA"

3º LUGAR CONTO
LEIDE BORGES
" A VINGANÇA"

1º LUGAR CRÔNICA
ADALBERTO ANTÔNIO LIMA
"PERCALINA VERDE-DRUMMOND"

2º LUGAR CRÔNICA
REBECA XAVIER
"O SORRISO DA MOÇA"

3º LUGAR CRÔNICA
ANTONIO PEREIRA DE SANTANA
"GERAIS DE MINAS"

1º LUGAR SONETO
TULIO RODRIGUES
"MAIS FELIZES"

2º LUGAR SONETO
HILTON CORDEIRO
" LÚGUBRE SACRIFÍCIO"

3º LUGAR SONETO
FABIO DAFLON
"SONETO DA INFIDELIDADE"

1º LUGAR TROVA
FRANCISCO BORGES
" VEREDAS"

2º LUGAR TROVA
JANE ROSSI
" CLARA E GEMA"

3º TROVA
MATHEUS FANTELLI STELINI
" TROVAS TRISTES E ENGRAÇADAS"

1º LUGAR POEMA LIVRE
JF LISBOA
" A PAIXÃO EM DEZ PÉS"

2º LUGAR POEMA LIVRE
SOAROIR DE CAMPOS
" VERSOS VERDES FRITOS"

3º LUGAR POEMA LIVRE
HELENITA SCHERMA
" DESTINO"


DESTAQUE - PERSONALIDADE 2009
MARILENE TEUBNER

CONJUNTO DA OBRA
MARCELO ROQUE.

FOI UM FINAL DE SEMANA INESQUECÍVEL PRA MIM!

ESPERO TER A SUA PARTICIPAÇÃO NO PROJETO DELICATTA V, CUJAS INSCRIÇÕES JÁ ESTÃO ABERTAS COM LANÇAMENTO EM AGOSTO DE 2010 NA 21º BIENAL DO LIVRO DE SÃO PAULO!

BEIJO

LUIZA MOREIRA.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

PROJETO LITERÁRIO DELICATTA 2009