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domingo, 31 de maio de 2009

OPUS 69 nº2



Frederic Chopin um homem além da música. Um pintor, um poeta, um espaço entre as teclas do piano. Frederic fala-nos com suavidade como a brisa que balança a cortina da janela aberta à imensa claridade, ao vento. Por certo que as folhas receberão seu rítimo, e com elas dançarão a valsa da hipsnose que liberta. Sua melancolia se aliará às cores das flores e frutos. Poesia, sonoridade e cor. As notas transbordam a taça de vidro sobre o velho piano e ilumina-se a sala. As cores transbordam a janela de vidro e iluminam a sala. A poesia atravessa os dedos sobre as teclas , salta a escada iluminando a sala.
Os homens e seus chapéus chegam à porta. As damas portam lenços entre os dedos e suaves flores no cabelo. As rendas varrem o tapete da grande sala. A mulher atravessa e sorri. Para ele o salão está vazio, não vê o homem ao lado da mulher, apenas o olhar em voluntário abismo. A mulher é presa à rede lançada ao mar. Nâo percebe a teia a sua volta, nem que o cardume assume nova direção. A mulher ouve a música e procura. Já não ouve apenas a música, entre os acordes está o apito inaudível. Só os cães farejam sons em noites silenciosas. Homens e seus sapatos escuros povoam o chão da grande sala.
Sente o perfume das hortências ao vento.

L.A



quinta-feira, 28 de maio de 2009


É o sonho que nos faz ver jardins em pacotes de sementes.
L.A

Mário Quintana



Só um lembrete do Quintana...


"A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.


Quando se vê, já são seis horas!


Quando se vê, já é sexta-feira...


Quando se vê, já terminou o ano...


Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.


Quando se vê, já se passaram 50 anos!


Agora é tarde demais para ser reprovado.


Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.


Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.


Desta forma, eu digo:


Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo,


a única falta que terá será desse tempo que infelizmente não voltará mais. '

Gentilmente enviado por Keila Abreu

quarta-feira, 27 de maio de 2009

RAMIFICAÇÕES



Luiz Martins da Silva

Para Sandra Fayad

Creio seguir mutações
De inspirações vegetais.
São alquimias transgênicas
De gerações digitais.


Pois estou ramificando
Brotos, cachos, flores, galhos;
E até humores fluindo
Das raízes até o orvalho.


Pois nem sei ainda a forma,
Se rasteira ou copadora.
Também não é certa a a idéia
De espinho a causar dores.


Mas tento entender a origem,
Tamanha a metamorfose,
De humanizar-me em ramagens
Que me pulsam em novos gozos


E para viver nesse mundo,
De pássaros por testemunha,
Desdobro em ramos meus dedos;
Enrolo em gavinhas as unhas


Já ensaio as conivências,
(Segredos da Terra e do Céu)
Detalhes da nova imanência
Que aprende das abelhas o mel.


Mas porém se me antevejo
Com semblante de outro reino
,Saibam: o coração é o mesmo,
O sangue é que virou seiva.

Imagem, Óleo sobre tela- Josephine Wall

sábado, 23 de maio de 2009

VELHAS LIÇÕES

“O teu corpo é luz, sedução
Poema divino, cheio de esplendor
Teu sorriso prende , inebria , entontece...”

Coisas há que me iluminam: Uma tela em branco, um teatro vazio, um texto por escrever. É necessário que eles se antecipem. Com o pincel vou tirando a película que cobre a tela branca e a imagem aparece. Ana dos anjos senta-se ao meu lado. Se chegar o desejo, diz ela, largue as roupas na tina, as frutas na sementeira, deixe o caldeirão secar ao fogo e escreva . Se te coçarem os dedos, misture tinta nas pontas deles e deslize. Há um movimento espiritual. Não há como defini-lo, só fazendo. O ritmo da ponta do pincel ou dos dedos é curto, o coração acelera. Esses momentos , só eu os reconheço. Por que o fascínio pela água quando pinto ou escrevo? No meio do oceano há um porto. No meio do nada, só água... água... e água a milhas e milhas delas. Sento no pequeno porto e observo o mar. Sento na única pedra no meio do rio e vejo a paisagem ribeirinha. Água doce a caminho do mar, no encontro das águas o soro salobro.
Por que o fascínio das asas em céu aberto ? O barulho de um monomotor no meio da tarde me traz recordações brancas.O céu, as asas e a imensidão das águas .
Às vezes quase desacelero. Não deixe nunca o barco à deriva. Basta ouvir ao longe o ruído das ondas chegando ao mar, ou do rio - água doce entre as pedras que a calmaria finda.
O barulho dos meninos chegando devolve- me a terra. Ruído de skate sobre o piso da sala.
Irritante ter que repassar todas as normas de vida doméstica.
Sobre o que mesmo é este texto?
Lições. Viver é tecer a grande rede do aprendizado e lançá-la ao mar. Os que vivem aprendem sempre um pouco todos os dias.
Hoje sei que os poetas são outros, trazem o líquido das esferográficas nas veias e equações insolúveis nos bolsos.
L.A

segunda-feira, 18 de maio de 2009


Às vezes, é necessário a leveza das borboletas ou dos pássaros.
L.A

NIGTH ENCOUNTER



Red faces, red eye

Butcher’s shop light

or just lovely smile?



You, pretty face

the solitude of a corner

Heart throbbing

ready for flirting



Me, solitary heart

looking for adventure

Would it be you

the embracing haven?



Night shadows engulf us

in seamless spells of caresses

The end a loud explosion

and a fly to outer space.


Sinval Aragão- Brisbane, Austrália

sábado, 16 de maio de 2009

O GUARDIÃO DOS PEIXES



"O que será da luz difusa do abajur lilás
que nunca mais vier a iluminar outras noites iguais ?"



A palavra para James Joice era um grande novelo sem ponta,
necessário: fôlego
Como os dias que jogamos cabelos ao vento
Para onde foram?
Os que nos olhavam de fora pareciam pálidos, estáticos
Nós estávamos no palco, eles no silêncio.
Nós estávamos no comando, eles guiados.
Eu olhava os peixes nadando no fundo
Olhava teus olhos de oceano
e não via porto.

Luísa Ataíde


segunda-feira, 11 de maio de 2009

O ENGENHO DA CASA FORTE




Neste local, denominado outrora engenho de Anna Paes, a 17 de agosto de 1645, o exército pernambucano dirigido por VIEIRA, VIDAL, DIAS E CAMARÃO combateu uma coluna holandesa que havia aprisionado matronas pernambucanas e se fortalecido na casa de morada à direita da Igreja, resultando victoria para os libertadores com o aprisionamento completo dos inimigos. Memória do Inst. Arch. e Geogr. Pernambucano em 1918.
Perfil- Ana Paes em :

sábado, 9 de maio de 2009

CEMITÉRIO DE ESTRELAS ( CONTO)



Eu inclinava o peito crivado de dores sobre uma banca para ganhar, escrevendo e tressudando sangue, o pão de uma família. A luz dos olhos bruxuleava já nas vascas da cegueira. E eu escrevia,  escrevia sempre."
 Camilo Castelo Branco


PRÓLOGO - O ROMANCISTA

Seduzir, o grande desafio dos que escrevem. Manter a atenção do leitor para que este visualize a estória entre as linhas do texto. A alquimia das letras é feita por magos e loucos. Deliram esses homens e mulheres que nasceram sob a insígnia do ilusionismo. Fundam cidades em desertos, desenham batalhas em folhas brancas, preenchem de sons corredores vazios. As terras secretas da imaginação desses viajantes vivem povoadas de seres sem formas definidas, ainda sem nomes ou destinos. O escritor desdobra o espírito a esses lugares distantes e traz no bico da pena o protagonista. Às vezes, ele, o escritor, cessa repentinamente as viagens a essas terras e personagens sem estórias vagueiam como estrelas mortas empurrados pelo eco, ainda reluzente, do que poderiam ter sido.

Camilo nasceu em Lisboa em 1825. Exímio estudioso da Língua Portuguesa deixou como patrimônio literário mais de duzentos volumes entre romances, novelas e livros didáticos. Viveu exclusivamente da profissão de escritor e gravou para sempre seu nome na literatura do Século XIX. Sua vida foi recheada com os mesmos enredos de suas novelas, tento vivido os últimos vinte e cinco anos em Ceide, norte de Portugal. Irremediavelmente cego suicida-se com um tiro no ouvido em Junho de 1890. A casa em que viveu sofreu, anos mais tarde, um inexplicável incêndio. Os fatos a seguir narrados antecedem e retratam o dia em que a casa ardeu em chamas.


UM LIVRO

Contei hoje pela manhã setecentos e vinte e cinco vultos. Digo que são vultos porque a maioria deles dorme envolta em sacos de algodão e não sei dizer se são homens, mulheres ou meninos. Os cães disparam entre os canteiros, farejam e uivam como lobos. Os gatos, enrolados no próprio rabo, dormem a maior parte do tempo. Nós, que já não dormimos em sacos, e ainda habitamos este lado da fronteira sabemos, e isso é tudo, que além da bruma esparsa há uma terra ensolarada de onde se ouve vozes e risos. Ouvimos o ruído das patas dos cavalos e gritos de raparigas tolas. Sentimos cheiro de bolo assando, ouvimos o sino do mosteiro clamando os cristãos à missa. Às vezes, um de nós sobe na cerca e procura lá no céu o brilho da lua. Todos os dias nos visitam o cavaleiro e sua espada. A espada é pena umedecida em tinta a escolher a ermo, um ou dúzias de nós para conhecer a luz dos dias. Aquele que subira a cerca recebe cavalo e capa, galopa apressado à busca de seu destino. Noivas fogem, em madrugadas orvalhadas, de casamentos indesejados. Estendem as mãos, ao sonho de amor, por sobre o muro da janela.

Há meses o escritor não aparece e ficamos assim, malas prontas, a espera da estória que nunca começa. Estamos sentados sobre as malas enquanto os sacos dormem. Estamos aqui no limiar da espera e estendemos vaidosos as linhas desenhadas na palma da mão. Vimos a chama do candeeiro nos iluminar como holofote que varre a praia escura. O cavalheiro não desceu ainda sobre nós sua espada umedecida em tinta para nos empurrar de vez ao outro lado da linha. É bem verdade que os que vão nunca voltam. Só podemos ouvi-los e ver suas vidas ao longe, assim como vemos os sonhos. A estória se abre como pintura em movimento entre as frestas da neblina. Um dia os homens farão máquinas que projetarão vidas, mas isto é segredo que pertence aos sacos de algodão que serão acordados daqui a muitos anos. Estamos em sobressalto: há meses o romancista paralisou sua pena. As novelas com duelos, raptos, frades e celas, congelaram-se entre o tinteiro e a folha. Hoje ele apenas murmura pensamentos em versos. Ouvimos da última vez o grito na pouca luminosidade da lua:

- Eu choro sem remédio a luz perdida
Bem mais feliz és tu, que vês o sol!

Senti soprar no ombro esquerdo o arrepio. Os que estavam sentados sobre as malas, olharam o mar como náufrago que vislumbra ao longe o barco. Estávamos enfileirados e atentos quando o bico da pena passou sobre nossas cabeças e levou apenas dois de nós. Ouvimos em seguida o estampido do tiro.


NOITES DE INSÔNIA

Já não sabemos quando é noite ou dia. Não sei como foi possível, mas a carta chegou. Diz a carta que o escritor já não mora na casa e os livros estão todos empilhados em caixotes na sala de leitura. Depois do barulho do tiro, desceu sobre nós um mar de ébano e nunca mais o brilho da lua. Sinto as mãos, não mais as vejo. Nós que já tínhamos sido delineados pelo clarão do candeeiro ficamos assim entre a fronteira e o limbo. Por estarmos vivos apontamos a palma da mão aos céus a espera da gota de tinta que nos libertará. Decidimos permanecer juntos.


O BEM E O MAL

Os sacos de algodão empilhamos todos no canto do muro. Para eles não há esperança, mas nós exigimos nossas próprias estórias. Do outro lado, os personagens que habitam os livros estão reunidos à frente da casa e nos planejam a fuga. São personagens biográficos, feitos de realidade e fantasia. Só eles conseguem a comunicação por carta, os outros vivem a ociosidade de suas estórias. Na casa não há mais mobília, risos, cheiro de frituras. Há anos só o vento tece o ranger das portas, e não ritmiza o relógio na parede da sala. O assoalho solto confronta a luz da lua. Eles tecem no escuro a ponte de cordas que nos conduzirá a casa. O rapaz está parado do outro lado da ponte nos acena e grita:

- Todo amor, acreditem, é de salvação!


Reconheço a roupa, o cabelo, o riso. É Simão Botelho de Amor de Perdição. Sim é Simão, o degredado de Lisboa que nos aponta a casa. A casa? É clarão em tocha a iluminar caminho. O brilho fulvo do fogo cobre rápido o chão e toma as janelas. Ouço o barulho trôpego dos pés que invadem a ponte e buscam ultrapassar a linha. Por breve instante penso na urgência necessária do fogo para clarear a trilha. As paredes se estreitam quando passamos e a fumaça nos sufoca. O barulho agora se mescla ao ruído do tombo da madeira e o desabar do teto. Quantos passos ainda precisamos para alcançar a escada que conduz à rua?
Finalmente estamos amontoados nos treze degraus da entrada, sujos e ofegantes sob a claridade do dia. O sol se estende sobre nossas cabeças e a brisa beija cabelo e fuligem. Os personagens das estórias voltaram aos livros, mas nós, oceano de estátuas sobre a escada não sabemos em que direção sopra o vento de nossas vidas. O redemoinha avança sobre o primeiro degrau e nos alcança. Sinto as ondas derrubando as dunas, o vento forte nos espalhando sobre o que restou da casa. Somos ferro, pedra, poeira e pó. Sopro divino a remover cinzas.

Luisa Ataíde (da Antologia- Prêmio literário RAchel de Queiroz 2008)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

EMENDAS



Luís Martins



Vivo a vida de fim em fim,
Dia a dia vou emendando elos
E assim vou estendendo de mim
A longa fiação de um novelo.

Tecelão, nasci, não o sabia
Tão tênue fio esse da existência
e quem em vivendo sabe e pensa
Que amanhã pode lhe faltar poesia.

Mas se o fim, esse fantasma indiferente
Se a todo momento raspa, passa rente
Tangencia, ainda bem, a toda hora.
Senão já em espiral nos engolido
Já haveria para a morada do olvido
Há tempo nos levado em brumas asas do outrora.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

VIESTE

Ivan Lins


Vieste na hora exata
Com ares de festa e luas de prata
Vieste com encantos, vieste
Com beijos silvestres colhidos pra mim
Vieste com a natureza
Com as mãos camponesas plantadas em mim
Vieste com a cara e a coragem
Com malas, viagens, pra dentro de mim
Meu amor .
Vieste a hora e a tempo
Soltando meus barcos e velas ao vento
Vieste me dando alento
Me olhando por dentro, velando por mim
Vieste de olhos fechados num dia marcado
Sagrado pra mim
Vieste com a cara e a coragem
Com malas, viagens, pra dentro de mim.