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domingo, 11 de janeiro de 2026

ESCREVER É DESNUDAR-SE

 



Estranho essa pessoa do outro lado do espelho. Ela diz conhecer cada milímetro do meu corpo, meu andar pesado e taciturno. Meus raros risos. Já informei que meu riso mora dentro. Que eu abro, só eu abro, a porta que dá pras salas dos risos. Do lado direito tem a sala de cantos. Eu passava lá todos os dias quando tinha vinte anos. No andar de baixo encontra-se  uma mesa longa de madeira nela eu escrevia histórias. Histórias de encantamentos, puro encantamentos. Na verdade eram modos peculiares de respirar os dias. Parei de escrever histórias quando começou a estação de chuvas. No  processo criativo eu ouço uma mulher que dita  textos. Uma voz sonoramente abafada, pausada e por vezes insistente. Eu escuto o ditado e escrevo.

Anos depois descobri a sala dos pincéis. Eu que sempre desenhei tudo que via, principalmente palavras. Como um falsificador eu desenhava os nomes das pessoas. Mas chegaram dias que eu comecei a ver quadros oitocentistas na parede. Nítidos, graves, perfeitos. No começo achei muito esquisito estar vendo pinturas tão perfeitas. Com o tempo essas esquisitices que em mim habitam passaram a não me incomodar. E eu pintava quadros lindos. Encantei-me com Gogh e seu jeito reverso de fazer imagens. Passei a amar a incapacidade de não caber em caixinhas. Ele vive em algum lugar, ainda sobre a corda. Resolvi fechar a sala dos pincéis e tintas pois no céu deslizava um filete azulado de cinza payne . Prenúncios. 

Poemas? Tenho dificuldades em escrevêlos, assim como pintar flores. Eu os vomito. Aviso que odeio rimas. As rimas perfeitas são invisíveis, porque sendo invisíveis elas  apenas anestesiam o texto.  Alguém me disse que eu escrevo só poesias, que tudo em mim é  poesia.  É que a poesia se esconde, porque eu não digo,  apenas sugiro. Ia dizer algo sobre isso , mas preciso parar.

Começa o ruído de chuva no telhado. 


          Luísa Ataide ( imagem feita com auxílio de IA)


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