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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

FELIZ ANO NOVO





“Se o Belo é o Bem”, corramos a traçá-lo no caminho da inquieta humanidade."



Com renovação de projectos e o Amor a guiar-nos, sem perder tempo, sem olhar para trás, sem cairmos nos obstáculos, ou se tivermos mesmo de cair, que não nos falte o gosto de sermos levantados!
Boa passagem de Ano!


FERNANDO PASSOS E TERESA PASSOS (LISBOA- PT)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Uma casa para um Menino- Conto

Esta é a história do nascimento do menino-Deus.
                      Contada por :



Amorosa Violeta Margarida dos Jardins - A Vaca.









Bumba Alegria- O Boi,









Chico Cansado - o Burro

 
 
 
 



e  Breeenda, a Ovelha






Dizem que tudo aconteceu em Belém. Outros juram que foi lá para as bandas de Nazaré. O certo é que um tal de Anjo Gabriel recebeu por missão encontrar uma casa para a chegada do Menino.  O anjo viajou dias e noites sob tempestades e ventos, sob o calor do sol e o brilho das estrelas. A casa que ele procurava, não poderia ser uma casa qualquer. A casa deveria ter quatro marcos: O Amor, A Alegria, O Trabalho e A Esperança.
Depois de muito viajar, ali estava , sob o maior de todos os clarões da lua: com poucas paredes de madeira, um rasgo grande no telhado - A casa. Na verdade, o anjo olhando assim do alto, nem achou que era realmente uma casa, mas Gabriel pousou ali suas asas.


Na casa moravam: Amorosa Violeta Margarida dos Jardins, a Vaca. Farta, tanto de leite como de amor no coração.
Bumba – Alegria, o boi. Boi caprichoso, bonito e namorador.
Vivia na casa  Chico Cansado, o Burro. Burro sim, mas trabalhador como nenhum outro.
E morava ainda: Breennda , a Ovelha. Bem, na verdade, ela não era assim uma ovelha como costumam ser as ovelhas: enquanto tricotava, lia runas, consultava Tarot e fazia Mapa Astral.

Naquela noite, Alegria, o Boi chegava de mais um baile, cantando e rodopiando pela sala, elegante e perfumado como sempre. Parou contudo perturbado com o brilho imenso, do que parecia ser uma estrela entrando pelo buraco do telhado. E foi assim, pescoço torto e rabo espetado,  que Amorosa Violeta Margarida dos Jardins - a Vaca , o encontrou.

– Alegria, o que foi?

– Essa estrela, minha flor, olhe!. Não estava aí quando eu saí. Que brilho intenso, chego a ficar arrepiado.

A vaca olhou para o céu e ficou também admirada.

– Na última noite, disse o boi. Eu tive um sonho estranho. Sonhei que ali na entrada da porta havia uma cestinha e dentro dela uma criança. O menino era nosso, nós devíamos cuidar dele.

Foi quando naquele momento chegou o Burro.

– O que vocês admiram tanto aí no céu? É uma estrela? E sacou do bolso uma luneta.

– Que estrela admirável! continuou o Burro. Nunca vi uma estrela assim. Sabe eu também tive um sonho. Sonhei que eu estava lá no campo arando a terra. Era de tarde, eu estava já  cansado... cansado... quando puxei o arado , ali estava entre o feno espalhado: um menino.

– Hum não sei não, esses sonhos com criança, só pode significar que teremos mesmo um menino. Mas que cheiro esquisito é esse?, falou a Vaca.

– Eu sempre falei para vocês no alinhamento dos planetas que nos traria uma estrela anunciando a Era de Peixes. ... Disse Breennda a Ovelha enquanto espalhava incenso pela casa.

– Todos esses sinais, continuou a ovelha, significam que um novo tempo está chegando. Um tempo que nos ensinará o amor entre os homens.

– Bem, disse o burro. Eu sempre achei essa ovelha esquisita mas devo dizer que alguma coisa está para acontecer. Essa luz intensa, todos nós sonhando com um menino... acho que teremos visita.

– Visita? disse a Vaca. Estejam certos que esta casa não está muito em condição de receber a visita de um menino. Então, VAMOS À FAXINA!!!

E a Vaca distribui vassoura, rodos, sabão e todos iniciaram a limpeza da casa. Trabalharam toda a noite e tão cansados ficaram que adormeceram e não notaram a chegada do visitante. Quando acordaram no dia seguinte, ali estava entre eles: O Menino.

O Menino passou naquela casa, que nem era realmente uma casa, apenas uma semana. Alimentado pelo leite da vaca, adormeceu no lombo do burro. Riu com as piruetas do boi, aqueceu-se com a lã da ovelha. Faz parte da estória dele as lições de Amor, Alegria, Trabalho e Esperança.


Que em todos os meses do ano, você receba o menino. Alimente-o, cuide dele, brinque com ele, conte-lhe muitas estórias  e o presenteie a alguém.

Feliz Natal!


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

PARA NÃO SERMOS UMA ILHA

Bonecos De Neve


Que o Natal nos seja um presente, todos os dias.


Em Dezembro, ao Sul da América a neve nunca cai sobre os telhados das casas

Não há lareira nos lares e os pinheiros tropicais são árvores multicores.

Os bonecos de neve moram nos shopings

Gorduchinhos estáticos sob a fina chuva de isopor.

Os meninos apontam os dedos e o riso às cidades de quase neve

Os pais resgatam os pacotes de dentro das lojas

Guardam neles o natal que nunca tiveram.



Em Dezembro, ao Sul da América só a chuva cai sobre os telhados das casas

As estrelas descem à Terra e iluminam as varandas

E enchem de luz os corações dos homens.

Natalino, o Espírito retorna às ruas

Preenche de sons de sinos quintais e avenidas

Recolhe das portas as doações de paladar e cor

E salva o Natal dos que sonham com fartura e riso.



Em Dezembro, ao sul do Sul da América, cai um pouquinho de neve

Há lareiras e pinheiros coloridos

Há canções com estrelas dentro.

Há risos e meninos encantados

Espelhado na íris o último expresso da Infância.

Perdoamos a intenção comercial do caminhão iluminado

E recolhemos apenas o que ele sopra de magia e luz em nossas vidas.



Aqui, ao Sul da América há cantatas e luzes nas praças

Enchemo-nos com o vento da fé para os outros meses do ano

Agradecemos cada dia dado.

Que a esperança, hóspede contumaz de nossas casas

Corra os mares e terras distantes

E nos faça apenas filhos do mesmo planeta

Que pede respeito e paz.


L.A



terça-feira, 23 de novembro de 2010

O DESTINO DE ANN WARD ( conto)



O maior de todos os tesouros da infância é a fotografia que guardamos dela. Quando o crepúsculo silencioso dedilhar seus últimos acordes, talvez compreendamos porque ganhamos aquela casa, aquela família, aqueles dias. Relembrar as notas distantes de um canto esquecido de infância e o momento que recebemos a caixa, repleta de fundos secretos,  chamada: Destino.


Londres. Segunda-feira, 6 de julho de 1772.


Quando o coche deslizou sobre o primeiro arco da ponte do Rio Tamisa naquela manhã de verão, a menina olhou as embarcações espalhadas e julgou que provavelmente estava vendo a paisagem pela última vez. Desde que recebera a notícia da mudança para a casa dos tios na cidade de Bath, seu coração sombreara-se como gotas de cinzas turvam um jarro de água cristalina.
Naquela manhã, Átila, a Águia Real, como sentinela entre as torres da Abadia de Westminster era uma presença imperceptível. A ave de rapina buscava no burburinho de idas e vindas: o alvo. Na altura do quarto arco, as rodas de ferro pararam bruscamente e George, o condutor, comunicou -lhe com poucas palavras, que seria necessário afastar-se por alguns instantes.

– Não saia daí Ann,  eu voltarei rápido.
Como deixar uma menina de sete anos sozinha sobre uma ponte? O que o meu pai vai pensar disso, Emily? Indagou à boneca recostada ao banco.

Sinto muito... Foi o que pensou enquanto seus pés desciam em direção ao movimento lá fora. Deu alguns passos sobre a calçada e foi empurrada por um movimento brusco que por pouco não lhe arrancou o chapéu da cabeça. A menina fez um giro rápido para trás, a tempo de observar o pássaro grande coberto de penas verde metálico em contraste com os olhos amarelo claro. Por breve instante teve a impressão que a ave a olhou no fundo dos olhos. Segurou o grito de espanto e instintivamente levou as mãos à cabeça. A Águia seguiu em voo ascendente em direção às torres da Abadia, contudo, concluiu a curva e continuou o movimento, agora, de volta à ponte. O Pássaro descia em grande velocidade e foi possível perceber o volume que trazia nas garras. A inglesinha encolheu-se à procura de abrigo -  foi quando ouviu o baque sonoro da caixa arremessada sobre o teto do coche. A ave soltou o pacote e seguiu em voo para leste. Antes de seguir em linha reta, abriu as asas em compasso sobre as embarcações, e tomou finalmente a linha do horizonte. As pessoas em volta não pareciam se importar com a cena, a não ser a mulher parada na mureta da ponte.

– É seu o presente, disse a mulher, empurrando a caixa com a bengala em direção ao chão. Ann estendeu os braços e aparou a caixa de madeira.

– A senhora acha que a caixa foi deixada para mim?

– Possivelmente. É seu aniversário?

– Daqui a alguns dias eu e a Emily faremos aniversário.

A mulher parecia não ouvir a menina, absorta em localizar, em algum ponto da claridade do céu, um sinal do pássaro. Um alvoroço de imagens atropelava-se em algum lugar de suas lembranças. A cena pertencia a uma manhã perdida no começo do século sobre a antiga ponte de Londres: um pacote arremessado sobre seus pés. A velha senhora olhou as nuvens, as pessoas em seus muros secretos, a brisa empurrando a vida como as águas do rio.

Ann Oates Ward, a menina que em alguns dias completaria oito anos, abriu a trava da tampa e viu o que aparentava ser uma caixa vazia. Puxou com as pontas do dedo a cobertura e deparou-se com um envelope e algumas folhas de papel arrumadas ao lado de hastes finas de metal, terminadas em grafite. No envelope estava seu nome escrito, o que tirava todas as dúvidas do direito de propriedade sobre o objeto. De volta ao coche, Ann olhou a mulher sobre a ponte, os barcos em seu vai e vem infindo e segurou com força o presente contra o peito.

Ao fim do dia , quando a tarde estendia sobre a estrada seus últimos raios de luz, a condução atingiu as imediações da cidade de Bath e a sonoridade do Rio Avon. A menina ouviu o ruído  da água e apoiou o queixo entre os braços diante da janela, observando a espuma que escorregava entre as pedras de um rio que tinha pressa. À entrada da cidade havia uma ponte em construção e a carroça atreveu-se por caminhos estreitos e sinuosos. Filas de trabalhadores de volta aos lares seguiam ao lado das rodas de ferro e curvavam um aceno à passagem do carro. Enquanto a tarde recolhia a luminosidade, ainda foi possível ver um grande semicírculo de casas, em construção, que  lembrava a pintura do Coliseu romano. A cidade pareceu-lhe um formigueiro revirado.

Os portões da casa de Tomas Bentley abriram-se à passagem do coche com todas as lanternas do jardim acesas. A pequena hóspede, sua boneca e a caixa de madeira saltaram em direção aos degraus da entrada da casa. O ruído noturno se reduzia a pequenos pontos sonoros, minúsculos piados agudos que rodeavam as árvores e escorriam com a brisa úmida.

Não foi possível dormir na primeira noite e poderia dizer quantos riscos havia no telhado do quarto que descia em declive sobre a pequena cama que, agora, lhe pertencia. Escondeu a caixa atrás do armário de roupas e corria a ela nas tardes silenciosas. Um fato curioso descobrira: a caixinha, às vezes, lhe parecia funda, ou, por outras, totalmente estreita. Às vezes sua mão encontrava um compartimento desconhecido, como quando descobrira os pequenos pincéis na parte lateral. Correu os dedos em todo contorno e deparou-se com pequenos potes de pigmentos para pintura. É uma caixa de ilusionismo, concluiu. Passava os dias na biblioteca  procurando nos livros respostas sobre encantamentos e magias. Olhava o jardim da janela do quarto e a chuva que molhava as folhas largas dos canteiros bem cuidados. Olhava a lua abrindo seu lume sobre o telhado  e imaginava o riso dos meninos que moravam em alguma casa vizinha. Tinha sempre a impressão de ouvi-los e abria a janela às estrelas e aos pássaros noturnos. Ouvia o ruído dos arreios e frenagem de carruagem, e descia aos tropeços a escada em direção à porta. A visita paterna era como a caixa de tintas.

Era uma casa de paredes altas e moradores que dormiam cedo. Entre os corredores , Ann Ward construía um mundo de pensamentos sombrios e personagens invisíveis. Quando tudo parecia-lhe um imenso calabouço abandonado lembrava-se das cores da caixa, das folhas em branco e das hastes em grafite. O que a Águia quis lhe dar, naquela manhã sobre a Ponte de Westminster? Indagava-se a menina olhando as prateleiras da biblioteca que cresciam em direção ao teto. Extensas prateleiras repletas de livros antigos sobre as lendas celtas da Bretanha: uma terra destinada a ter inúmeros filhos enfeitiçados pela escrita.

Todas as respostas que teve que decifrar não estavam nos livros da casa, nas histórias que sua imaginação tecia olhando as estrelas da janela do quarto. A menina Ward, que, mais tarde, se transformaria na escritora Ann Radcliffe, construiu os primeiros enredos de suas histórias nos corredores sombrios da casa dos tios. Nos textos de suspense que anos depois seriam vendidos pelos livreiros além das terras bretãs,  havia as passagens secretas que só os olhos atentos podiam perceber. À menina, de imaginação prodigiosa, sobre a ponte de Westminster, ou no enredo de um sonho ao dormir, foi dada a capacidade de pintar com as palavras, de jogar um facho de luz sobre calabouços e sótãos. De falar de poesia e cores escondidas nas passagens secretas de uma caixa de tinta.

Luisa Ataíde




À memória de Ann Ward Radcliffe ( 1764-1823)


NOTA: Ann Radcliffe, escritora inglesa, nasceu em Londres.
 Primeiro Livro da escritora: em 1789 -. The Castles of Athlin and Dunbayne. O notável sucesso do livro definiu seu gosto por castelos medievais, heroínas acorrentadas, noites sombrias. Publicou dois anos depois - The Sicilian Romance e The Romance of the Forest. Suas obras mais marcantes seriam publicadas em 1794 e 1797, respectivamente: The Mysteries of Udolpho e The Italian.  Ainda no século XVIII a escritora traçou seu estilo audacioso para a época. Ann traçava enredos paralelos, iniciava a narrativa pelo final , depois contava origem da trama, - tudo como é feito no cinema moderno. Daí ser considerada a percussora do realismo fantástico. Ann Radcliffe desaparece em 1823 do cenário literário entre brumas e mistérios tornando-se uma lenda eterna da literatura que retrata o que há de mais profundo na alma humana: o medo.
 Fonte de pesquisa e Dados biográficos: - Obra póstuma da autora: Gaston de Blondeville na Corte de Henrique III v. 1  e o Livro : A vida de John Jebb. e Senhora  de Udolpho

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

ASHRAM


LUIZ MARTINS DA SILVA
Aos que me têm ungido na amizade

Haverá para nós um lugar, com beleza,
Onde há a luz com que dos dias nos tingimos.
Ora, são ondas, de inquietas marés de lençóis,
Ora é o próprio linho manso, estendido sobre a mesa.


Haverá de ser, para nós, recato, límpida fonte;
Propriamente, diria, não afeita ao tempo e ao chão,
Mas, sobretudo, incensário de vapores e címbalos,
Quando nos elevamos desde sinceras devoções.


Um lugar, limiar, divisa entre o pé e o horizonte;
Entre o que somos e o que ainda nem em semente;
Ânsia de vir a ser, pois não há futuro sem uma ponte;
Pois que a sejamos no deleite do que unimos para sempre


domingo, 14 de novembro de 2010

O ENTREGADOR DE LIVROS



“Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocamos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.”


Cora Coralina


Diz o filme “Peixe Grande” que um homem conta suas histórias tantas vezes que ele se mistura a elas , e las sobrevivem a ele, e é deste jeito que ele se torna imortal. Manuel de Jesus Lima é um Contador de Histórias. Discípulo de Cora Coralina redigiu o primeiro livro da escritora. As tardes da Casa da Ponte, feitas de café passado no coador e doces cristalizados, ficaram para sempre nas águas do Rio Vermelho; nas calçadas de pedras de Goiás Velho. No caminhão de mudança para Brasília, apenas boas lembranças da cumplicidade literária entre o rapaz Manoel e Dona Cora. A reportagem de capa do Correio Braziliense, de 14 de março, nos fala como um homem pode salvar o seu sonho. Autor do livro A Guerra de Juquinha e outras Guerras, cuja edição foi custeada com as economias ao longo dos anos, não conseguindo vendê-los tomou uma decisão extremada: colocou um anúncio nos classificados doando-os a quem os quisesse, bastando telefonar. Desde então seu telefone não parou mais de tocar. Regularmente, Seu Manoel pega sua camionete branca e faz as entregas dos livros. Bibliotecas, residências, escolas. Quem pede, lá vai ele dirigindo ao encontro de um provável leitor de sua obra desconhecida. Provavelmente seus dois mil exemplares ganharão definitivamente leitores donos, pois neste país diz o dito popular: de graça, até injeção na testa. Numa linguagem de Guimarães Rosa, onde os personagens se misturam como numa novela de Garcia Marques, estão as aventuras do menino herói do Sertão. O ato de generosidade do escritor é, antes de tudo, um protesto às editoras nacionais que se apropriam do maior percentual dos exemplares vendidos. Manoel, servidor aposentado do Tribunal de Justiça, nunca deixou o exercício da escrita e isso o diferencia dos outros senhores de cabeça branca que cruzam por ele nas trilhas da caminhada matinal. Cercado por uma legião de personagens imaginários troca com eles inesgotáveis diálogos. Para o mundo, caminha pelo parque um homem solitário, um homem de poucas palavras. Na verdade, um escritor nunca está só. Na verdade, um escritor tem a divindade nos dedos ao criar pessoas, escrever estórias e decidir destinos. Seu Manoel, o Jovem Senhor Contador de Histórias, já não é tão desconhecido assim. Por certo, salvou o sonho ao aproximar livros e leitores. Ele pede a todos que ganharem um exemplar que o leia, divulgue, empreste, doe para que outros leitores conheçam as aventuras inusitadas de um menino que nunca jogou vídeo-game. O livro está em sua segunda edição. Eu telefonei e ganhei um, e digo que tem tudo para ser um best-seller. Contato com o escritor? 8404-9,,,. Só para quem gosta de ler.
Luisa Ataíde
Da Antologia- Prêmio Literário Rachel de Queiróz 2008
Fotografia: Casa da Cora Coralina, Goiás Velho.

sábado, 6 de novembro de 2010

LETRA PARA FADO


Luiz Martins da Silva

Ah! A conquista, final de caramelo!
É até de melhor grado aquela inquieta ânsia,
De quem há muito espera na incerteza e na inocência:
Quando a verdade sabe a Lua, mas bem se faz de tonta,
Se de fato alguém nos amará ou não.

Ah! A prontidão dos que logo dizem sim,
Entre pompas de sinfonia, metais e querubins...
Desconfia. Até do caimento do vestido,
Do exagero de um decote, bem partido:
Presságios de antevésperas, leituras de sinais.

Ah! Minha fortuna, minha musa, meu louvor!
Será que essa tua languidez envolta de perfume
Não é o que resume a próxima carta do tarô?
A torre, o diabo, o louco, o enforcado...
Depois da anestesia, quem vem não é a dor?

Todavia, que te apresses, a demora é uma esfinge.
Melhor o não sabido, se saber é desventura.
Destino de quem ama é só um lance a ser jogado.
Quem há de querer abrir cortina do futuro,
Se o fado se canta bem é de olhos bem fechados?

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Dia dos Vivos




De longe observo as palavras. Elas estão a poucos sentidos da mão, e ainda não me pertencem. Eu sei que a história toda está pronta e quase a alcanço. A marca d’água , para  os que escrevem, é uma realidade sombreada de cotidiano . Lá, nossas mãos são feitas de vidro e a voz é distorcida em notas que sobem e descem infinitamente como uma melodia desafinada. O corpo se alonga como a imagem  num jogo de espelhos, se retrai e se achata no instante seguinte. Lá não temos lembranças e marchamos obedientes  às manhãs úmidas e brancas. Lembro-me  de minha mãe e seu imenso amor pelos miseráveis do mundo. Lembro-me de todas as histórias de bruxas e princesas que contei nas distantes noites de infância , quando eu era o centro do círculo e minha voz soprava aos ouvidos atentos. Eu ainda não dominava o lápis mas tinha a propriedade da narrativa. A história, sinto muito, era minha. Sempre deixei mais tempo sob os refletores:  a Bruxa. Se vivi no tempo da  inquisição, fui arremessada a um precipício fundo e minha  saia escura se inflou ao vento antes do baque surdo  - tudo por que eu imaginava. Daquele tempo até chegar aqui assombrei  Bibliotecas Publicas,  nas madrugadas, quando os leitores e os guardas deixavam as salas vazias.  Um dia ,  um Anjo-Traça disse: Vá lá fora, o temporal passou . Há um dia dedicado aos mortos e às bruxas.   Ele contudo, esqueceu de falar sobre os dias em caixa fechada: os  presentes- surpresa .Um brinde aos vivos e a  todas as meninas que inventam histórias coloridas.
Viva o dia da Vida e  das bruxas com alma de princesa
L.A

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

NA FLORESTA DO ALHEAMENTO



FERNANDO PESSOA

Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê...
Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. (...)

domingo, 24 de outubro de 2010

OS ESTADOS DE CONSCIÊNCIA


PIERRE WEIL

São principalmente quatro os  estados de consciência estudados e comparados entre si, a saber: o estado de consciência de vigília, o estado de consciência de sonho, o estado de sono profundo sem sonho e o estado de superconsciência ou estado transpessoal propriamente dito.

O estado de vigília é o estado de consciência corriqueiro no qual nós estamos na vida cotidiana. As pessoas que estão neste estado dificilmente são sujeitas a fenômenos paranormais, pois nele predominam o raciocínio lógico, a imaginação, os sentimentos, as emoções e as sensações. Nele a respiração, o pulso e as ondas eletroencefalográficas estão dentro da normalidade.

O estado de sonho é um estado em que a consciência está cortada do mundo físico, pois está cortada das senções do corpo físico. Nele só funcionam a imaginação e as emoções. Neste estado, a respiração e o ritimo cardíaco variam confome o estado emocional, mas a tendência é uma diminuição do ritimo inclusive do eletroencefalograma que emite ondas alfa e teta. È neste estado que surgem a maioria dos fenômenos paranormais, chamados de PSI.

Estes fenômenos começam a se manifestar em estado de relaxamento profundo, quando aparecem as ondas alfa, com o ritmo respiratório e card[iaco bastante lentos. O estado de relaxamento é um estado intermediário entre o estado de vigília e o estado de sonho.

No estado de sono profundo, todos os ritmos fisiológicos acima citados são extremamentes lentos, sendo que o eletroencefalógrafp assomça pmdas teta e delta. Neste estado não há mais fenônemos paranormais aparentes, mas tudo indica que nele a consciência está em relação com o que os tibetanos chamam de Clara Luz,  ou Luz do Espírito.

No estado de superconsciência ou estado transpessoal, há uma plena consciência que se manifesta como universal e não mais pessoal, em que se dissolve a ilusão da dualidade sujeito-objeto. Segundo o mandukaya Upanishad, um dos textos básicos da yoga hinduísta, este estado seria caracterizado como sendo um somatório dos três estados precedentes. As medidas eletroencelográficas confirmam este texto, já que se registrou em yogues em estado de superconsciência, chamado de samadhi na tradição hinduísta, ondas eletroencefalográficas delta, características do sono profundo sem sonho, enquanto os yogues estavam completamente despertos e de olhos abertos.

Neste estado todos os fenômenos paranormais costumam aparecer, embora os verdadeiros mestres plenamente realizados não costumem fazer alarde dessas manifestações. Eles têm um completo controle das suas emoções destrutivas, inclusive o orgulho. Muito mais eles manifestam, o tempo todo, amor verdadeiro e sabedoria infinita.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

JANELA DE ÔNIBUS


LUIZ MARTINS DA SILVA

Nem chegava a ser aldeia,

Mas tão somente um enclave

De casinholas plantadas

Em meio a torrões de areia.



Linha limite de olhar rente,

Olhos de câmera a insistir

Em registrar em retinas

Aquela teima de gente.



E não é que havia festa,

Sons de imaginários caniços,

Música para ouvidos secos

Acordes de surda planície!



Que instinto lhes tangia?

Caprichos da natureza?

Colher encanto e beleza

Em canteiros de anestesia?



Que graça a vida em confins

Terá para tais serventia?

Devotos da solidão

Sequidão e castidade?



Pior a não mais se ver

Paisagem para cidade

E não é que fluía no ar

Mormaços de saciedade?



De toda aquela modorra

Ficou-me paz solidária

Dos escondidos afetos

De quem vive sem calendário.



Talvez a lhes ungir no deserto

Um fraternal sentimento

De que há sempre um feriado,

Matiz de aldeia sonolenta.



Lembranças em desconcerto

Persistem pretéritas afora

Enchendo-me de convencimento

De que posso ser feliz, mesmo agora.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

OS CORPOS SUTIS


Escreve Amit Goswami em A FÍSICA DA ALMA :

(...) Nos Upanshads ( Livros sagrados da Escola Hinduísta) há uma descrição dos cinco corpos do ser humano. O mais grosseiro é o físico, renovado constantemente por moléculas de alimentos e, por isso, chamado em  sânscrito de annamaya( feito de anna, comida). O próximo corpo sutil é chamado de pranamaya ( feito de energia vital, prana) ; refere-se ao corpo vital associado aos movimentos da vida, expressados como reprodução, manutenção etc. O próximo corpo, ainda mais sutil , é monomaya ( feito de mana, substância mental), ou seja, o corpo do movimento da mente. O seguinte, chamado de vijnanamaya feito de vijnana, inteligência), é o intelecto supramental ou corpo de temas, o repositório dos contextos de todo os três corpos "inferiores". Finalmente, o corpo anandamaya( feito de ananda, não substancial, a alegria espiritual ou sublime) corresponde a Brahman- a base de tda a existência, a consciência em sua qualidade última.

sábado, 25 de setembro de 2010

UM CAMINHO SECRETO PARA MACHU PICCHU





São Tomé das Letras- MG é uma cidade cercada de lugares e histórias místicas. A Gruta do Carimbado é um desses lugares que dizem os antigos tratar-se de uma passagem subterrânea para se chegar a Machu Picchu ( PERU) usada pelo Incas numa era pré-colonização. Nunca foi possível, ou não há registro desta informação ser verdadeira pois as excursões arqueológicas feitas nunca retornaram. Até aonde há registro trata-se de um caminho escuro e de alta temperatura.


Nota do Blog: Arqueólogos e pesquisadores afirmam a existência de uma conexão real e visível entre São Paulo e o Império Inca. A saber, a trilha conhecido como Peabiru ("caminho forrado" em guarani, por ser coberta de grama), construído não pelos incas, mas pelos nossos guaranis e carijós, para possibilitar a comunicação e a troca entre aldeias dos atuais Sul e Sudeste do Brasil à província incaica do Collasuyu (atualmente Bolívia e norte da Argentina), passando por Assunção do Paraguai.

leia mais em:   http://spintravel.blogtv.uol.com.br/2007/12/20/gruta-do-carimbado-sao-thome-das-letrasmg-portal-para-machu-picchu

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

FOTOGRAFIA


Ao riso , que já não ouvimos.


Ao lado da casa do riso, mora a lucidez
Uma velhinha torta, quase cega e surda.
Costura meias puídas, cirze saias desbotadas.

Ao lado da casa do sonho, mora uma moça triste
Lê histórias entrelaçadas de tempos que já se foram.
recostada na parede , sonha com terras distantes.
Ouve o ruído do rio
 Imagina os peixes cinzas que deslizam
entre as pedras .

Na porta da casa da vida tem uma aranha grande
Tece fios sobre fios e
prende os pés da moça que olha a noite lá fora.

Da  janela aberta ,  vê-se uma estrela
que , pleonasticamente, brilha como um brilhante.

Diz o livro sobre o colo que a Estrela não existe
é eco de outras vidas
e faz da moça triste
Uma moça que lê livros, encostada na parede
ao lado de um rio cinza
e de uma velhinha sem dente.

L.A

sábado, 18 de setembro de 2010

A Fábula do Porco-Espinho


Autor desconhecido

Durante a Era Glacial, muitos animais morriam por causa do frio.Os porcos-espinhos, percebendo a situação, resolveram se juntar em grupos. Assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente, mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente os que ofereciam mais calor. Por isso, decidiram se afastar uns dos outros e voltaram a morrer congelados.
Então precisavam fazer uma escolha: ou desapareceriam da Terra ou aceitavam os espinhos dos companheiros. Com sabedoria, decidiram voltar a ficar juntos. Aprenderam, assim, a conviver com as pequenas feridas que a relação com uma pessoa muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor do outro.
Dessa forma, puderam sobreviver…

Viver não consiste em respirar, mas em agir, e nada de grandioso se consegue sem uma forte vontade e uma grande parcela de amor, para podermos superar as nossas dificuldades e as nossas limitações.As vezes os espinhos que outras pessoas possuem nos incomodam, mas temos que tentar conviver com os nossos espinhos e os de outras pessoas que nos são caras.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

OS SINOS DA IGREJA ( CONTO)



" Eu tinha exaltado a minha imaginação de forma a realmente acreditar que em torno de toda a casa e do terreno flutuava uma atmosfera peculiar a ambos e à sua vizinhança imediata – uma atmosfera que não tinha afinidade com o ar do céu, mas que se havia evolado das árvores senis, das paredes cinzentas, do pântano silente – um vapor pestilento e místico, pesado, inerte, mal perceptível, cor de chumbo. .."    A Queda da Casa de Usher, Edgard Allan Poe



As janelas vizinhas fecham-se bruscamente às noites de quarta-feira . O baque  das portas e janelas de madeira é o único som no caminho da noite. Apenas cães passam em frente aos degraus da pequena escada que levam à porta da casa de arquitetura antiga. As luzes apagam-se pontualmente às nove horas e os moradores dos prédios vizinhos dão às costas e ampliam os sons de fritura nas cozinhas . É como um canto alto quando as luzes se apagam . O sobrevivente do escuro canta para espantar o medo - o mais alto que sua voz alcança. Assim fazem os moradores: ligam o noticiário da noite e fritam carnes e ovos. Falam do trivial do dia, do atraso do ônibus, do preço das frutas. Todas as atenções mais profundas estão nas luzes que se apagam as nove horas, mas todos os ruídos tentam ignorá-las.

O Pêndulo e o Calabouço

No interior da sala, apenas o dedilhar distante de um piano inunda o ambiente azulado. Homens e mulheres ouvem a música imersos no turbilhão de caminhos que abrem-se ao redor da mesa: o rio, o barco, uma estrada de terra. Cada um escolhe uma direção. A mulher , por sua vez, para diante de uma porta entreaberta . Olha a parte de cima para onde se ergue o portal extremamente alto e largo. Ouve os sinos mesclando-se ao som do piano . As notas pulam uma a uma como se partissem para dar lugar ao badalar dos sinos. Empurra a porta apoiando toda a força no pulso da mão direita. Adentra ao salão da Igreja. É um espaço amplo, quase oval com dezenas de bancos espalhados. O teto sobe arredondado afunilando-se ao que pode ser a entrada das torres. A catedral ! É a imagem que seu coração aos saltos reconhece. Está em Diamantina, na catedral de Santo Antônio. Conhece cada canto da igreja de sua infância. Não há santos no altar mor e vazios estão os altares menores que  espalham-se nas paredes. Os muros que sustentam a igreja perdem -se na claridade que desce do centro da sala e inclina-se como uma espada de poeira e luz. Caminha em direção ao último banco e ao homem de terno escuro curvado sobre as pernas. Observa o traçado do terno, o laço que deveria ser a gravata, observa as botas.

_Senhor, posso ajudar?

O homem levanta o rosto e crava-lhe o olhar. Pensa por um instante conhecer a fisionomia: o formato das sobrancelhas, a testa acentuada, o cabelo. O Homem parece ouvir os sons finais dos pêndulos. Levanta os olhos ao teto e segura o queixo.

_ A Senhora  sabe há quanto tempo vivo nestes bancos e ouço o barulho das asas, o som ensurdecedor dos sinos? Quanto? Por acaso  tem idéia?

_ Provavelmente muito. Fala, observando a roupa do homem.

_ A Senhora sabe que se eles me encontrarem terei que correr para os muros de outra igreja? Eles odeiam igrejas, geralmente não entram.

_ Por que o Senhor não tenta conversar com eles?

_  Inútil, eles não querem conversa. Reclamam de mim, a Paz! !É possível compreender isso? Eles dizem que eu lhes tirei a paz. Alimentei o tormento de suas almas com o peso dos meus versos, de minhas palavras.

- O Senhor faz versos?

_ Eu achava que sim. Hoje não resta muito, o grande escritor se foi. Com o tempo passei a compreender os poços profundos que construí com minhas narrativas. Suicídios, adorações nocivas, leitores que se identificavam com meus enredos tecidos no linhame da morte. Nunca leram uma palavra de alento, uma história que desse vida a um pensamento bom. Nada. Todas as madrugadas soprei o clarim ,  aliciando-os  ao exército das trevas. Pisavam nos pés um dos outros, cortavam as próprias mãos , feriam a pele do próprio rosto. Os cânticos foram sempre  gritos incessantes dilacerados pela febre. Marcharam voluntariamente para o desalento ao som funesto de meus versos. Em minhas aldeias escuras, edifiquei casas sobre o pântano do medo. A droga  não é tragada,  não é líquida ou gasosa , mas a perfeita invasão dos sentidos. Corre na pele e cava sulcos em direção às veias. Engana primeiro a visão, entorpece o olfato. A  língua cresce dentro da boca e impede o grito. Os dentes sangram sempre, e um som ensurdecedor é criado de acordo com a agonia individual . Os olhos não encontram as saídas e  resta-lhes o calabouço , as correntes, a prisão. Ouça ! É o grosnar das aves sobre as torres da igreja. Vestem-se com as asas dos pássaros, mas são eles, eu sei que são...

_ Há uma escada do seu lado direito, diz a mulher. Podemos chegar ao pátio da torre sem sermos visto, o ar puro vai te fazer bem.

O Homem aceita a mão estendida e caminha ao lado da mulher. Percorre o espaço que antecede a saída ao pequeno pátio . As aves estão enfileiradas do outro lado - petrificado exército de ébano. O homem olha a noite, os pêndulos do sino já não cantam, as paredes altas das torres são muros inertes. Olha o céu. A noite é clara e o tapete de pontos iluminados cobre-lhe a cabeça.  A mulher segura-lhe a mão e ele ergue devagar os olhos à paisagem noturna.  Por breve instante observa.Sente a brisa leve tecendo delicados riscos entre os fios dos cabelos. Sente o silêncio respeitoso das horas e a umidade que se estende sobre os telhados das casas beija-lhe timidamente os lábios. A cidade, seus sobrados e ladeiras dormem.

_ Veja, não há mais ninguém , todos se foram.

O homem olha o canteiro de casas espalhadas , o contorno das portas que na pouca claridade  seus olhos  esforçam  receber.

_Não há nenhum motivo para o Senhor se esconder nos porões, nas igrejas... mais ninguém o procura.

_ Para onde foram?

_ Para suas vidas!

- Se voltarem?

- Se voltarem, dê-lhes toda a poesia que não conhecem. Fale da alegria e das canções. Que depois das noites escuras e tormentosas há muita lama para limpar e muito trabalho a fazer, Que suas asas podem lhes dar voos imprevisíveis, que é preciso viver e também sonhar. Que a boa sintonia mental é como  música : é preciso ouvi-la e seguir. Diga-lhes que  o perdão é necessário em nossas vidas como flores são necessárias aos jardins. Casas sem jardins são tristes e precisamos cuidar deles  todos os dias. Somos todos , jardineiros do mundo. Dê-lhes boas palavras, bons livros, boas histórias.

_ Só isso será suficiente?

- Vai ajudar muito.

- Quando poderei fazer ?

_ Não sei exatamente quando, mas quando for possível, esteja pronto e não fuja do necessário. O que já  foi feito é irremediável, mas todos eles cruzarão sua vida de novo e a maneira mais fácil de influenciá-los será através do que mais gosta : de sua imaginação. Ela  estará  presentes em livros , teatros, em músicas, e em outros caminhos que o Senhor ainda não conhece . No fundo serão histórias, suas histórias.

O Homem olhou em volta e não havia mais a mulher, o burburinho das aves. Apenas ele e a vastidão de pontos luminosos que circulavam o piso da torre da igreja e cintilavam ao seu redor como cristais iluminados. Estendeu as mãos e pegou um dos pontos e o colocou no bolso da camisa. A pequena luz escorregava como bolinhas de mercúrio. Continuou a brincadeira de persegui-las e não percebeu que elas trançavam riscos contínuos por sua silhueta até se confundirem em um formato único. Lá embaixo a cidade amanhecia com suas ladeiras e sua gente.
Luísa Ataíde


NOTA do Blog:  - A estranha morte de Edgar Allan Poe

A Biografia De Edgard Allan Poe é repleta de mistérios, em especial a parte que refere-se ao seu desencarne. Encontrado inconsciente numa vala de rua, ficou   hospitalizado por uma semana. Em seu delírio narrava a visita de um enigmático Sr. Reynolds, que teria vindo buscá-lo e cobrar-lhe todos os desatinos da vida desajustada. Segundo pesquisadores, Edgar Allan Poe passou as últimas horas de sua vida numa taberna e entrou em coma alcoólico , o referido visitante só  foi  visto por ele. Alguém  o encontrou desacordado, e  em suas roupas um endereço e foi assim possível comunicar à família o paradeiro daquele que era um dos maiores sucessos literários da época.  A causa real de sua morte não foi esclarecida e teorias conspiradoras diversas foram escritas, filmadas e divulgadas pelo mundo.
Entre 2000 e 2001 foi resgatado em um centro espírita  no Brasil o espírito de Edgar Allan Poe. Segundo a experiência narrada, o escritor após o desencarne no meados do século XIX permaneceu fugindo daqueles que ele passou a considerar os seus algozes - os seus próprios leitores. A legião de espíritos atormentados consideravam-se influenciados negativamente  por seus contos de terror: levados ao vício, ao suicídio, à loucura. O espírito disse que um dos poucos lugares que ele conseguia paz era no interior das Catedrais.  e por mais de um século vagou  por diversas delas, por todo o mundo , até ser atendido por uma médium brasileira . Segundo o relato da médium que o socorreu,  ele ,  como todos os outros escritores góticos, firmou compromisso de na próxima experiência carnal usar a criatividade para melhorar a sintonia espiritual do planeta.  O texto acima foi baseado em tal relato.
Luísa Ataíde.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

NÓS



GEORGE CARLIN

Nós bebemos demais, fumamos demais, gastamos sem critérios, dirigimos rápido demais, ficamos acordados até muito mais tarde, acordamos muito cansados, lemos muito pouco, assistimos TV demais e rezamos raramente.
Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores.
Nós falamos demais, amamos raramente, odiamos freqüentemente.
Aprendemos a sobreviver, mas não a viver; adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos. Fomos e voltamos à Lua, mas temos dificuldade em cruzar a rua e encontrar um novo vizinho.
Conquistamos o espaço, mas não o nosso próprio.
Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores. Limpamos o ar,mas poluímos a alma; dominamos o átomo, mas não nosso preconceito; escrevemos mais, mas aprendemos menos; planejamos mais, mas realizamos menos.
Aprendemos a nos apressar e não, a esperar. Construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos menos. Estamos na era do 'fast-food' e da digestão lenta; do homem grande de caráter pequeno; lucros
acentuados e relações vazias.
Essa é a era de dois empregos, vários divórcios, casas chiques e lares despedaçados.Essa é a era das viagens rápidas, fraldas e moral descartáveis, das rapidinhas, dos cérebros ocos e das pílulas "mágicas". Um momento de muita coisa na vitrine e muito pouco na despensa. Uma era que leva essa carta a você, e uma era que te permite dividir essa reflexão ou simplesmente clicar 'delete'.
Lembre-se de passar tempo com as pessoas que ama, pois elas não estarão por aqui para sempre. Lembre-se dar um abraço carinhoso num amigo, pois não lhe custa um centavo sequer. Lembre-se de dizer "eu te amo" à sua companheira(o) e às pessoas que ama, mas, em primeiro lugar, ame... Ame muito.
Um beijo e um abraço curam a dor, quando vêm de lá de dentro. O segredo da vida não é ter tudo que você quer, mas AMAR tudo que você tem!
Por isso, valorize o que você tem e as pessoas que estão ao seu lado.

Gentilmente enviado por Edvirgens Gomes.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

DE TUDO O QUE É DE TODOS


LUIS MARTINS DA SILVA

Para os meus (mais mestres que alunos)



Por algum puro desígnio já vim nu ao mundo,
E cada uma das posses me foi dizendo não.
Mas fiz ao longo de uma vida vasto latifúndio,
Que foi expandir cada vez mais meu coração.


Não que não me desse conta bem do quanto
De ilusões em quimeras no caminho aparecendo,
Mas todas, com o tempo, foram se despindo,
Pois nada do que se é dono veste o ser humano.


Hoje, por não ter nada, de tudo tenho com fartura:
Posso ser dono, cidadão e servo ao mesmo tempo.
Livre contemplar como pássaro a linha do horizonte.


Voar foi meu destino. E, no delírio das alturas,
Ir aos confins, até onde chegam o Céu e o Oceano,
Registrar em meu nome toda a Terra em escritura.

domingo, 8 de agosto de 2010

A LENDA EGÍPCIA DO PEIXINHO VERMELHO





Chico Xavier

No centro de formoso jardim, havia grande lago, adornado de ladrilhos azul-turquesa. Alimentado por diminuto canal de pedra, escoava suas águas, do outro lado, através de grade muita estreita.
Nesse reduto acolhedor, vivia toda uma comunidade de peixes, a se refestelarem, nédios e satisfeitos, em complicadas locas, frescas e sombrias. Elegeram um dos concidadãos de barbatanas para os encargos de rei, e ali viviam,plenamente despreocupados, entre a gula e a preguiça. Junto deles, porém, havia um peixinho vermelho, menosprezado de todos. Não conseguia pescar a mais leve larva, nem refugiar-se nos nichos barrentos.
Os outros, vorazes e gordalhudos, arrebatavam para si todas as formas larvárias e ocupavam, displicentes, todos os lugares consagrados ao descanso. O peixinho vermelho que nadasse e sofresse.  Por isso mesmo era visto, em correria constante, perseguido pela canícula ou atormentado de fome.
Não encontrando pouso no vastíssimo domicilio, o pobrezinho não dispunha de tempo para muito lazer e começou a estudar com bastante interesse.
Fez o inventário de todos os ladrilhos que enfeitavam as bordas do poço, arrolou todos os buracos nele existentes e sabia, com precisão, onde se reuniria maior massa de lama por ocasião de aguaceiros.
Depois de muito tempo, à custa de longas perquirições, encontrou a grade de escoadouro. À frente da imprevista oportunidade de aventura benéfica,refletiu consigo:
“Não será melhor pesquisar a vida e conhecer outros rumos?”
Optou pela mudança.
Apesar de macérrimo pela abstenção completa de qualquer conforto, perdeu várias escamas, com grande sofrimento, a fim de atravessar a passagem estreitíssima.
Pronunciando votos renovadores, avançou, otimista, pelo rego d’água, encantado com as novas paisagens, ricas de flores e sol que o defrontavam, e seguiu, embriagado de esperança... Em breve, alcançou grande rio e fez inúmeros conhecimentos.
Encontrou peixes de muitas famílias diferentes, que com ele simpatizaram, instruindo-o quanto aos percalços da marcha e descortinando-lhe mais fácil roteiro.
Embevecido, contemplou nas margens homens e animais, embarcações e pontes, palácios e veículos, cabanas e arvoredo.
Habituado com o pouco vivia com extrema simplicidade, jamaisperdendo a leveza e agilidade naturais.
Conseguiu, desse modo, atingir o oceano, ébrio de novidade e sedento de estudo.
De início, porém, fascinado pela paixão de observar, aproximou-se de uma baleia para quem toda a água do lago em que vivera não seria mais que diminuta ração; impressionado com o espetáculo, abeirou-se dela mais que devia e foi tragado com os elementos que lhe constituíam a primeira refeição diária.
Em apuros, o peixinho aflito orou ao Deus dos Peixes, rogando proteção no bojo do monstro e, não obstante as trevas em que pedia salvamento, sua prece foi ouvida, porque o valente cetáceo começou a soluçar e vomitou, restituindo-o às correntes marinhas.
O pequeno viajante, agradecido e feliz, procurou companhias simpáticas e aprendeu a evitar os perigos e tentações.
Plenamente transformado em suas concepções do mundo, passou a reparar as infinitas riquezas da vida.  Encontrou plantas luminosas, animais estranhos, estrelas móveis e flores diferentes no seio das águas.  Sobretudo, descobriu a existência de muitos peixinhos, estudiosos e delgados tanto quanto ele, junto dos quais se sentia maravilhosamente feliz.
Vivia, agora, sorridente e calmo, no Palácio de Coral que elegera, com centenas de amigos, para residência ditosa, quando,ao se referir ao seu começo laborioso, veio a saber que somente no mar as criaturas aquáticas dispunham der mais sólida garantia, de vez que, quando o estio se fizesse mais arrasador, as águas de outra altitude continuariam a correr para o oceano.
O peixinho pensou, pensou... e sentindo imensa compaixão daqueles com quem convivera na infância, deliberou consagrar-se à obra do progresso e salvação deles. Não seria justo regressar e anunciar-lhes a verdade? Não seria nobre ampará-los, prestando-lhes a tempo valiosas informações?
Não hesitou.
Fortalecido pela generosidade de irmãos benfeitores que com ele viviam no Palácio de Coral, empreendeu comprida viagem de volta. Tornou ao rio, do rio dirigiu-se aos regatos e dos regatos se encaminhou para os canaizinhos que o conduziram ao primitivo lar.
Esbelto e satisfeito como sempre, pela vida de estudo e serviço a que se devotava, varou a grade e procurou, ansiosamente, os velhos companheiros.
Estimulado pela proeza de amor que efetuava, supôs que o seu regresso causasse surpresa e entusiasmo gerais.  Certo, a coletividade inteira lhe celebraria o feito, mas depressa verificou que ninguém se mexia.Todos os peixes continuavam pesados e ociosos, repimpados nos mesmos ninhos lodacentos, protegidos por flores de lótus, de onde saíam apenas para disputar larvas, moscas ou minhocas desprezíveis.
Gritou que voltara a casa, mas não houve quem lhe prestasse atenção, porquanto ninguém, ali, havia dado pela ausência dele . Ridicularizado, procurou, então, o rei de guelras enormes e comunicou-lhe a reveladora aventura. O soberano, algo entorpecido pela mania de grandeza, reuniu o povo e permitiu que o mensageiro se explicasse. O benfeitor desprezado, valendo-se do ensejo, esclareceu, com ênfase, que havia outro mundo liquido, glorioso e sem fim.  Aquele poço era uma insignificância que podia desaparecer, de momento para outro.  Além do escoadouro próximo desdobravam-se outra vida e outra experiência.  Lá fora, corriam regatos ornados de flores, rios caudalosos repletos de seres diferentes e, por fim, o mar, onde a vida aparece cada vez mais rica e mais surpreendente.  Descreveu o serviço de tainhas e salmões, de trutas e esqualos.  Deu notícias do peixe-lua, do peixe-coelho e do galo-do-mar. Contou que vira o céu repleto de astros sublimes e que descobrira árvores gigantescas, barcos imensos, cidades praieiras, monstros temíveis, jardins submersos, estrelas do oceano e ofereceu-se para conduzi-los ao Palácio de Coral, onde viveriam todos, prósperos e tranqüilos.  Finalmente os informou de que semelhante felicidade, porém, tinha igualmente seu preço.  Deveriam todos emagrecer, convenientemente, abstendo-se de devorar tanta larva e tanto verme, nas locas escuras e aprendendo a trabalhar e estudar tanto quanto era necessário à venturosa jornada. Assim que terminou, gargalhadas estridentes coroaram-lhe a preleção.Ninguém acreditou nele. Alguns oradores tomaram a palavra e afirmaram, solenes, que o peixinho vermelho delirava, que outra vida além do poço era francamente impossível, que aquela história de riachos, rios e ceanos era mera fantasia de cérebro demente e alguns chegaram a declarar que falavam em nome do Deus dos Peixes, que trazia os olhos voltados para eles unicamente. O soberano da comunidade, para melhor ironizar o peixinho, dirigiu-se em companhia dele até à grade de escoamento e, tentando, de longe, a travessia, exclamou, borbulhante:
 
- “Não vês que não cabe aqui nem uma só de minhas barbatanas? Grande Tolo! Vai-te daqui! Não nos perturbes o bem-estar... Nosso lago é o centro do Universo... Ninguém possui vida igual à nossa!...” Expulso a golpe de   sarcasmo, o peixinho realizou a viagem de retorno e instalou-se, em definitivo, no Palácio de Coral, aguardando o tempo. Depois de alguns anos, apareceu pavorosa e devastadora seca. As águas desceram de nível.  E o poço onde viviam os peixes pachorrentos e vaidosos esvaziou  compelindo a comunidade inteira a perecer, atolada na lama...
Do livro: Libertação- EMMANUEL