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quinta-feira, 19 de março de 2026

LIBERDADE CONDICIONAL

Tente acompanhar agora o ruído do relógio. Não há como evitar que os ponteiros caminhem. Mas vem o dia que a gente se descobre nu.Mas há os antes. E foram estes:


Era o primeiro dia de aula. Além da festa que era calçar sapatos e meias, estava de laços nos cabelos e vestido novo. Não fosse a enorme pasta que carregva, ninguém perceberia que ia à escola- o uniforme não fora ainda comprado.

 

Devia ser um dia predestinado a surpresas. Numa intimadade fraterna apresentaram-lhe objetos novos. Prestes a uma nova convivência, não lhe preparam para isto: Tinha um nome estranho. Sempre atendera a menor junção das sílabas Li e La. Mas, súbito, como se tivesse sido pega em falta grave se foi apresentada. O nome seguia-se de outros, mas o primeiro a inomodava como se quisessem lhe convencer que um cão miava. Cães e gatos são diferentes, pensou. Marília devia ser um nome para ser usado fora de casa, assim como sapatos e meias.

 

O que completava a desordem do dia, era caminhar sem ninguém da família por perto, e assim aproveitava passo a passo o caminho de volta. Colocando na calçada a pasta para abrir o portão, percebeu duas amigas brincando de Amarelinha.

 

A maior parou com um dos pés no céu, admirada de ver a menina tão grande e linda, empinada como se não existisse o peso da pasta. A menina esqueceu do seu tamanho e beleza e sentou-se no chão. Falava sem pausas: dos livros, dos quadros, das salas,até... não do nome não. Era por enquanto um segredo seu.

 

As duas ouviam, sem interromper, até porque não havia espaço. Aí veio. A mãe chegou-se a janela e gritou:

 

- Lila! Vem já tirar esse vestido e lavar os copos!

 

Escureceu. Foi como se todos os príncipes perfilasem em sapos. Levantou-se rápido e entrou.

 

Numa obediência de sentenciados, tirou o vestido e os sapato, até os laços dos cabelos desmanchou em silêncio. Colocando o avental, não importou-se que estivessem sujos todos os copos da casa. Uma coisa era inevitável: No dia seguinte haveria aula.

 

Luisa Ataide


(Dedicado à Marília Campos) 

sábado, 7 de março de 2026

A ARCA DE NOÉ

 


''Lá vai São Francisco pelo caminho

De pés descalços tão pobrezinho

Dormindo a noite junto ao Moinho

Bebendo a água do Ribeirinho...''

                                   Vinicius de Morais



Às cinco horas da tarde, quando o vento tomba os lençois do varal e varre as folhas da rua, qualquer pedido feito com uma caixa estendida, nos faz olhar o pequeno grupo de meninos como um santo olha os fiés do altar- com respeito e comiseração. 

- Só hoje mãe, amanhã a gente arranja um outro lugar pra ele. Tá chovendo e ele esta morando embaixo da árvore.

- O que é isso? um rato?

- Não mãe, é um gatinho.

Lá estava eu concordando com vinte quatro horas de hospedagem. É claro que o gato cresceu e fez parte da família, assim como o pinto de cor lilás comprado na feira.

- Achei tão bonito e o menino se encantou com ele. Tinha de todas as cores, você precisava ver!

Pelos dias dos Pais e pelo encantamento do menino, o pinto que dias depois era um pequeno ser cor de rosa andando pela casa, por algum tempo fez parte da família. Temi pela segurança dele. Seguia qualquer um piando sem parar, como se perguntasse se sabíamos aonde era o planeta de seres de penugens coloridas como ele. Nunca obteve a resposta. Uma semana depois ao chegar do trabalho, vi o cortejo fúnebre em direção ao fim da rua. Uma caixa com flores e meia dúzia de meninos cabisbaixos dizia adeus a uma pequena ave, esmagada pelos pés do filho do meio. 

-Esse moleque é desastrado mãe, amassou o pinto! o acusado deu-me um olhar de socorro, não tive culpa.

Alguns dias depois caiu na área de serviço, o pássaro azul e branco. Cauda longa, asa quebrada.

- Mãe, a gente pode ficar com ele?

-Não, passarinho tem que viver livre.

-Ah... mãe mas só até ele sarar.

-Está bem, mas tem de ficar solto. As paredes do fundo são altas, ele não dá conta de ir embora mesmo.

O lindo pássaro azul, que por mais que eles buscassem nos livros não descobriram a família viveu por três semanas na área de serviço. O canto matinal entrava pelos quartos e como se vivêssemos no Campo recebíamos os dias. La fora uma floresta imensa está me esperando, era o que eu pensava enquanto calçava os chinelos para ir à cozinha.

Numa manhã estranhei o silêncio do hóspede alado. A área de serviço estava vazia, ele de novo era uma ave forte. Voara pro mundo, sem adeus, sem bilhete de despedida.

Quando a vida corria em seu leito de normalidade, chegou Roger- o coelho branco. Aquela coisinha macia dormia no meu braço, como um anjinho que caiu do céu. Havia suspiros pela casa, tão encantados estávamos com o ser angelical. Passou o tempo e o coelho cresceu, assim como alguma coisa libidinosa dentro dele. Ele conhecia cheiro de mulher, com um olfato de lobo caçando lebre. Alvoroçava-se e dava pinotes. Se fosse um daqueles dias de ciclo feminino, o coelho enloquecia. Eu só podia cuidar dele de calças compridas. Tudo bem, mas o que fazer com as visitas? Alguns minutos depois que uma amiga chegava, lá estava o coelho exibindo o sexo rosado. Engraçado para as mais chegadas, constrangedor para as visitas formais. Era ainda, péssimo exemplo para os meninos que viviam tentando explicar ao coelho que aquele era um comportamento impróprio diante das damas. Inútil. Um dia doamos o coelho ao vizinho.

 Antes do cachorro, para ajudar na cura de uma depressão extremada do menino mais novo que acabara de chegar aos doze anos, morou lá em casa um papagaio. Achei muito esquisito o pedido, mas o que não fazemos para ajudar os filhos?  Uma doença emocional tira-nos do eixo, fragiliza a vontade.

- Está bem, mas vocês lembram que não gosto de aves presas?

E acredite, tivemos um papagaio voando pela cozinha. As janelas viviam fechadas e os rasantes sobre a panela de água quente eram frequentes. Um dia pensei: isto é surreal é melhor que tenhamos um cachorro.

O gato? Quando adulto fugia para o telhado para namorar e de lá para a boemia noturna. Voltava sempre machucado. Morreu na UTI de uma virose antifelina. Foi um chororô sem fim, jurei nunca mais ter bichos.

Finalmente entre nós um cão. Uma cocker que roeu doze pares de sapatos, quatro controles remotos, o sofá novo e mais uma lista interminável de objetos. Alguém mencionou ser saudável que ela tiesse filhotes e lá estavam cinco filhotes correndo pela casa arrastando as meias do cesto. 

Aos poucos, as histórias dos bichos se tornam risos e logo serão lendas de um tempo que nunca mais viveremos. Sim, todos os bichos merecem o céu. Tem algo mais angustiante que miado de gato no meio da noite? Ele tem fome- penso.  Ele se perdeu da mãe Chego à janela e tento ouvir o lamento. Um dia, quando eu me for, encontrarei São Francisco andando pela noite com um pires de leite atrás de um gato faminto. Francisco irá sorrir e dizer que todas as aves, coelhos, cães  e felinos, são simples instrumentos de nossa paz.

L. A.

obs- Hoje não temos mais a cock spaniel, nem coelhos e nenhuma ave. Moram na casa uma nihada grande de gatas. Quantas? melhor não dizer.

quinta-feira, 5 de março de 2026

ENTRE ASPAS



''... O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão.

 O Verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. 

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. 

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

 Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera...''


Marta Medeiros