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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Cheiro de Jasmim em Asas de Morcego ( CONTO)


" Fruto do mundo são os homens, pequenos girassóis os que mostram a cara, enormes as montanhas que não dizem nada.''- Raul Seixas -

Antes de tudo, escute: não faça julgamentos. Com certeza, para nenhum lado havia saída. Às vezes perde-se o último trem, por outras embarca -se nele por não se ter conseguido trocar, a tempo, o bilhete.
Naquela manhã as aves voavam rotineiramente em círculos largos sobre o mar, enfileiravam-se, depois, lado a lado sobre a areia. Esperavam a próxima rota, e esteja certo, se paravam, olhos atentos em direção às montanhas é porque ouviam. Não duvides. A estreita passagem entre a luz e a sombra abre-se na hora certa e todas sabem que o corredor entre os canyons exige precisão.
Eram muitas e a fila, em linha branca, riscava as paredes das rochas. À medida que entravam, escurecia, e à medida que escurecia, confundiam -se com as estrelas. Uma vez do lado escuro, abriam-se em leques. Quanto ao plano de voo, levavam sob as asas e em comum só tinham a hora e o ponto de reencontro, quem se atrasasse não voltava.
Eu sei, você vai dizer, nada justifica. Se já havia feito a viagem tantas vezes, se conhecia o juramento de uma águia : deveria ter ido, cumprido a missão e voltado. Mas no exato momento em que abriram -se em leques, ela entrou no vale. Recortado por rio vermelho, ali estava o escuro Vale dos Morcegos.
Um segundo em voo, imensidões em terras. Terras secas e suas árvores filhas, pouca luz e brisa em lamúria. Ainda ouviu o grito:
_Alísia, por aí não!
A atmosfera densa lhe dificultava o bater das asas, voo cego por instrumento.
Tento ser imparcial, mas antecipadamente me traio, é porque após relembrar tantas vezes, é como caminhar sobre a mesma trilha íngreme, evita-se o perigo.
Escolhido o ponto de pouso, jogou-se. Muito mais pelo peso do que por perícia de piloto.
Ele, pendurado sob o galho da árvore, estava ferido e o sangue escorria sobre a capa escura. Seus olhos de dor e medo olharam a Águia como vendo o inimaginável. Como descrever luz a quem só conhece sombras? A Águia tocou com o bico a ponta da asa ferida. Soprou-lhe o rosto e amparou-lhe a cabeça.
Muito distante do vale, na praia, as ondas molhavam a areia. Todo o sal da água ela sentia na garganta. A sede incomodava, o sangue incomodava, a dor que ele trazia nos olhos lhe incomodava. Esperou algumas horas, esperou alguns dias. Não poderia ir. Fez todo o reconhecimento do vale, mas já não voava. À medida que o tempo passava desaprendia.
A partir daqui não tenho certezas. Não sei se venceu a própria gravidade, de longe só imaginamos. No ponto de reencontro, Alísia não estava. Ninguém podia esperar, isso nunca havia acontecido. As Águias entraram no corredor das rochas em ruidosa corrida, olharam para trás muitas vezes. A missão fora curta, por que se atrasara?
Aos ausentes não é dado o benefício da defesa, há suposições. Posso imaginá-la voltando ao mar e no bico traz o mamífero. Não, não é certo. Nada traz sob o bico, chegam lado a lado, transparentes como as bolhas d'água que estouram na areia. As aves esperam. Veja! É possível reconhecê-la. Os dois abrem as asas em grande compasso sobre a água. Não levante-se ainda. Observe. As aves inquietam-se. Para sentir é preciso ir lá fora.
Inspire, sinta o cheiro de jasmim.
L.A

Um comentário:

Valdirene disse...

Belo texto,Lu!!!!