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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

BARCO DA ILUSÃO




Rosângela Ataíde

alma
que desta ilusão
(escrava)
                       
segue
ruas, labirintos
mares, cardeais
saudades

e nem sei se parto
ou se aborto
certas palavras

pois de todas as letras que sinto
este mastro
não é de sofrimento
não é de dor
é o oco que na tormenta me assusta
pois quase se parte
quando surge
em minha rota
(felicidade)

é ainda neste barco
de especta[dor
que
                                     noturna
                       
esta alma
mira luzes no firmamento piscando...

estrelas?

ou é você de prontidão
que me aguarda?

...contínuo é este espaço.

e eu sigo.

                                                                                   Dedicado a Brenno Lessa

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

ENTRE ASPAS



Tenho fases como a lua
                                 Fases de ser só minha, fases de ser só sua.

Cecília Meirelles

sábado, 7 de setembro de 2013

A PÁTRIA





LUIZ MARTINS DA SILVA


Ela é a Gea, a mãe gentil,
Que a todos sustém,
Desde que há um pai, o Céu,
Que a cada chama de Eu.

Todos somos os seus filhos,
Em vida, artes, ofícios
E na invenção do que nos irmana
Em fervor, bandeira e língua.

Mas a Pátria é também o outro,
O qualquer ser falto de lastro
Com que cobrir do orvalho o rosto.

Tudo que Ela quer de nós é amor,
Não propriamente a si,

Mas, sobretudo, entre nós.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

IDENTIDADES BOTÂNICAS



Luís Martins da Silva

Aos ipês pouco restou de árvores.
São, agora, conosco, mais gente.
Querem, insinuam-se, insígnias,
A se gravarem em nossos emblemas.

Roxos, amarelos, brancos...
Arcaicos, ou já de cativeiros,
Eles se implantam, desde as planchetas,
Para as nossas avenidas e esplanadas.

Fazem parte, agora, das imagens,.
Páginas dos álbuns de família,
íntimas e urbanas paisagens.

Eu os recolho,  com olhares meigos
Às tantas estações de minha vida,
Postais de afetos, mulheres e filhos.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

PÉS DESCALÇOS


            
          Beatriz, aos vinte anos comunicou-nos que ia deixar o mundo e ser Carmelita descalça. Lembrei-me subitamente dela aos quatro anos, depois aos dez, usando óculos, depois desabrochando de menina à moça.  Todas as fotografias desfilam diante de mim. Lembro-me da menina linda, olhando o mundo com o queixo e os olhos de quem olha as nuvens - O cabelo numa desobediência balança os pequenos cachos, milhares deles, soprados ao vento. Não sei dos sentimentos dos outros, mas pensei imediatamente na saudade da mãe, do pai, do irmão.  Pensei em todos os que em silêncio, tentavam entender. Vi as mãos estendida ao abraço e o toque nos ferros enfileirados da cela. Bia não foge de uma desilusão, não tem medo de enfrentar o mundo. Um mundo que derrete pelas bordas, que geme dor. É por este menino, que chora no escuro,  que as carmelitas oram. Oram antes do sol nascer, oram no meio da tarde, oram ao por do sol. Bia, como todas as jovens Carmelitas, quer ser criadora de fios: fios de amor e luz.

L.A

terça-feira, 23 de julho de 2013

NAS ASAS DA BORBOLETA





No mistério do sem-fim equilibra-se um planeta. 
E, no planeta um jardim
e, no jardim um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela o dia inteiro.
Entre o planeta e o sem-fim,
 a asa de uma borboleta.
Cecília Meireles

quinta-feira, 4 de julho de 2013

ENTRE ASPAS







"Eu me lembro que um dia acordei de manhã e havia uma sensação de possibilidade. Sabe esse sentimento? E eu me lembro de ter pensado: Este é o início da felicidade. É aqui que ela começa. E é claro haverá muito mais. Nunca me ocorreu que não era o começo. Era a felicidade. Era o momento. Aquele exato momento."
                                                                                                                    
                                                                                                                          Virgìnia Woolf
                                                                                       

sexta-feira, 31 de maio de 2013

DEVOÇÕES




LUIZ MARTINS DA SILVA

Aos domingos, lá na feira,
Como parte de um culto,
Tantas provas em oferta,
Tenças de frutos em dádiva,

II

Chegando a estação da seca,
No ofício, o jardineiro,
Tange entulhos qual no hino
Que de fato louva ao vento.

III

São, assim, à sua maneira,
No linho as almas do povo:
Cinco da manhã, de vinda
E noutras tantas de volta.

IV

Pessoas de poucos números,
Mas de tanto molde em conta,
Como podem ser felizes,
Comendo marmita a um canto?

V
Eu os consagro na memória
Do confrade que já fui,
Na lavra e no eito, jornada,
De sol a sol, castos grãos.

VI

Carreiros, formigas humanas,
Na oração do trabalho,
Apostolado de doces,
Evangelistas de folhas.

VII
No sétimo dia, guardara;
No ócio das horas ocas,
O quinhão da santidade,
Dízimo da sexagésima.


sábado, 11 de maio de 2013

terça-feira, 7 de maio de 2013

AS DUAS CASAS



LUIZ MARTINS DA SILVA

A casa,
Já não é a mesma,
Da planta original,
Tantos acréscimos e adaptações.

Por fim, parei, desisti, ao descobrir:
Casas são projeções de um espaço mental.
Com seus labirintos de uma vida para dentro
E de tudo que nos habita em aposentos folhados.

Não tarde descubro, meu coração é só o âmago
De um universo de memórias e pulsações,
De uma história afetiva que emenda retalhos de tempos
Num cerzir constante de apreender amores.

Agora, estou mais leve,
Por saber das casas,
A de fora, concreta, finita.
A de dentro, autoconstrução interminável.

Agora, posso dormir,
E até acordar, tanto faz.
Já não me circunscreve aquele espaço
Aonde, indevidamente, escrevem: “Jaz”.

domingo, 14 de abril de 2013

ENTRE ASPAS



Porque somos imperfeitos, ou supomos sê-lo, a luz nos 

ofusca. 

E porque a luz nos ofusca

fechamos os olhos.

E tudo continua escuro.



KEILA ABREU


terça-feira, 19 de março de 2013

A PIPA E O TEMPO



LUIZ MARTINS DA SILVA


A pipa, empinada é mais que  o pássaro,
Pois não avoa a ave acima do Sol:
Contra o olho, a pino,
O primor, prumo, rabiola e cerol.

O menino e a pipa aos céus,
São mais que arcanjos,
Pois mesmo não lhes sendo as asas,
Igualam-se em sonhos , alados querubins.

O menino avia, envia a pipa,
Como quem dá espinha ao peixe,
Para que tenha estrutura, navegue, flutue,
Sobrevoe o vago, alto mar, altivo.

Em breve o menino; a tarde; o orvalho...
O inquieto sopro da vida, a liberdade...
Enquanto a infância, não a leve o vento,
Não lhe cesse a brisa, tão logo ao trabalho.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

MY NAKED LUNCH



FERNANDO HENRIQUE DE  PASSOS

A David Cronenberg e William S. Bouroughs

Há um mundo de sombras por detrás da estante.
Quero desvendá-lo.
Vibram as paredes animadas- som penetrante
Em que me embalo.

Um macaco azul de pênis vermelho
Cospe-me na testa.
Oiço um escaravelho:
"Hoje há uma festa".

Penumbra sem horas nem minutos:
A minha sombra esguia no soalho
Contorce-se em espasmos absolutos;
Eu estou imóvel; a lamparina arrefece-me o trabalho.

Símbolos caídos no cesto dos papéis:
Devo escrever mais.
Vejo autoestradas onde correm corcéis
Que me forram o peito de jornais.

Um copo de água sobre a mesa:
Cintilação de estrelas mortas:
Uma lua acesa
no estreito quarto de sete portas.

Os sete monstros passam a fronteira: 
Estão deste lado.
Falam comigo da manteigueira;
Sou avisado.

Só quando toca a campainha
É que desperto do pesadelo:
a luz é minha.
(Mas o outro mundo, como esquecê-lo?)

sábado, 9 de fevereiro de 2013

EPÍTETOS PARA UM ASCETA


LUIZ MARTINS DA SILVA

À memória de Clésio Ferreira
(Dos irmãos, Clodo, Clésio e Climério).


Pessoas há que não passam,
Mesmo quando já trespassadas.

Olhar de amigo, lívido lírio.
Olhá-lo óvulo, voo, enlevo calmo.

Ia-se, nado, a braçadas para este Nada.
Que é o Tudo, ou é só um Vale.

Pedir-lhes-emos, agora, licença,
Por imagens, outras percepções.

Pessoas há que nem o são.
Se seres fossem, não doeriam.

Preferem crer, à moda dos cães.
Melhor não ser, a ser vil.

Ocultara-se, já quase casulo
Despregando vida como velcro.

Viver é só um curto invento.
Para enigmas de revelações.


sábado, 2 de fevereiro de 2013

MUSEU DE IMAGENS







LUIZ MARTINS DA SILVA

Não irei apelar sentença
Menor que a de Prometeu,
Ainda que um corvo me escarne
Mais ave que um último adeus.

Se bem lhe apraz, a cabeça,
Se é pouco, quem sabe o pescoço                    
E se já me lavaram os ossos,
Que importa a caverna no tórax?

Atendam-me num último sonho:
De não me arrancarem raízes
(Psiu! Lá, escondo uma Fênix).


Memória não se emascula
Nem no profundo das cinzas,
Simples figuras que sejam.